A poção finalmente estava pronta. Não era muito complexa, na verdade. Um feitiço simples e eficaz que encontrou no primeiro livro que pegara. Ninguém poderia revertê-lo, apenas ela. Estava prestes a sair da loja quando se lembrou de uma última coisa: voltou ao balcão, tirou a aliança da mão esquerda e deixou-a sobre ele. Jamais voltaria a usá-la. Decidira que no dia seguinte daria um jeito de anular aquele casamento e tirar de uma vez o “Gold” de seu nome.

Saiu da loja, trancou a porta e com o brilhante líquido turquesa, fez um círculo em volta da casa. Quando o círculo estava terminado, a poção assumiu um brilho incandescente para depois desaparecer sem deixar rastro, indicando que o feitiço estava completo. Ela não queria mais administrar o local, mas tampouco poderia deixar aquele arsenal de artefatos mágicos à mercê de qualquer um, então, fez o que considerava ser certo: a Loja de Penhores do Sr. Gold estava lacrada e permaneceria assim para sempre.

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Estava sentado num banco com visão para a biblioteca da cidade. Não conseguia parar de se perguntar por que ela o salvara. Logo a ele, que já havia tentando matá-la duas vezes. Ela enfrentou o próprio marido para... Seus pensamentos foram interrompidos quando avistou uma figura pequena se dirigindo à porta da biblioteca. A lua iluminava suavemente seus cabelos castanho-avermelhados e seu corpo se curvava sob o peso das malas que levava. Era ela.

Levantou-se num pulo, pronto para se oferecer para carregar as malas, quando seu cérebro finalmente absorveu a imagem: o que eram todas aquelas malas? Ela estava se mudando para a biblioteca? Quão feia teria sido a briga do casal? Quando suas indagações terminaram, avistou-a já no interior da biblioteca, fechando a porta.

– Preciso falar com ela – murmurou para si mesmo. O ato altruísta dela o fizera pensar em sentimentos há muito esquecidos – Mas não agora.

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Adentrara o pequeno apartamento nos fundos da biblioteca. Mal chegara a utilizá-lo, pois passava a maior parte do tempo na loja de Gold. Largou as malas de qualquer jeito e atirou-se na cama, pronta para chorar copiosamente. Por que tinha um dedo tão podre para homens?

Decepcionara-se com Rumplestiltskin na Floresta Encantada, mas ao reencontrá-lo como Sr. Gold em Storybrooke, decidiu dar-lhe uma segunda chance. Pensou que seu amor seria suficiente para transformá-lo num homem melhor, mas tudo que recebera foi um casamento cheio de mentiras, ao qual acabara de pôr um fim, expulsando Rumple da cidade.

E havia também Killian, com quem passara apenas uma noite na Floresta Encantada, mas uma noite suficiente para lhe deixar um doloroso buraco no coração, pois justamente quando concluiu que poderia viver no Jolly Roger, e até se apaixonar por seu capitão, descobriu que fora apenas usada por ele. Quando se reencontraram em Storybrooke, logo no primeiro dia, ele invadiu a biblioteca para tentar matá-la, ela derrubou uma estante de livros sobre ele, invadiu seu navio – onde o nocauteara mais uma vez – e no grand finale, levou um tiro do pirata, que a fez cair do outro lado da fronteira da cidade e se esquecer de quem era por semanas.

Com o passar do tempo, passaram a conviver pacificamente, já que ele havia se juntado ao “time dos mocinhos”, mas evitavam ao máximo ficar a sós, Nos raros momentos em que acontecia de ficarem sem ninguém por perto, olhares fuzilantes de esguelha, indiretas em tom de desprezo e longos e constrangedores silêncios eram comuns. De qualquer forma, ultimamente era quase impossível encontrar Killian sozinho, já que estava sempre grudado em Emma. Por alguma razão que lhe era desconhecida, pensar naquilo fora a cereja no bolo do surto de Belle, que agarrou o abajur sobre a mesa de cabeceira e atirou-o contra a parede antes de cair num perturbado sono, repleto de pesadelos.

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– Ei, se precisa de um lugar para dormir, aluga um quarto na pensão.

– Ahn? Hein? Oi?

Killian chegara tão cedo à lanchonete da “Vovó” Lucas que acabou adormecendo enquanto esperava e acabou sendo bruscamente acordado por um cutucão de Ruby. Coçou os olhos e respondeu meio atordoado:

– Desculpe, eu estava esperando a...

– A Emma não acorda tão cedo.

– A Emma, não. A Belle.

Ruby piscou desorientada, como se tivesse acabado de levar uma bofetada no rosto.

– E que diabos você quer com a Belle?

“Agradecê-la, saber se ela está bem e dizer que mesmo ela tendo me usado, me trocado pelo Crocodilo e despertado novamente o pirata vingativo que há em mim, meu coração ainda salta no peito sempre que ela passa”, pensou, mas disse:

– É pessoal.

– Enfim, a questão é que ela não deu as caras hoje e eu estava justamente indo levar isto a ela – e ergueu uma sacola.

– Deixa que eu levo! – disse, dando um pulo da cadeira.

– Desculpe, mas vocês dois não têm um histórico muito bom...

– Ruby, por favor! Eu não vou machucá-la. Prometo que se ela fizer qualquer reclamação sobre a minha visita, deixo você arrancar minha outra mão.

Ele a olhou de forma suplicante e a garçonete lhe entregou a sacola, torcendo para não estar fazendo uma grande besteira.

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– Droga! – exclamou ao ser acordada com batidas na porta. Olhou no relógio e quase caiu da cama ao ver que estava quase uma hora atrasada.

Levantou-se e foi grunhindo até a porta com um ninho emaranhado onde antes estivera seu penteado e as mesmas roupas da noite anterior, só que extremamente amarrotadas. Atendeu a porta e quase enfartou ao ver quem era.

– Bom di... meu Deus, você foi atropelada por um caminhão? – quando Belle fez menção de fechar novamente a porta, Killian a segurou – Espera! Desculpa, me deixa entrar, por favor.

– Se eu não deixasse, você arrombaria como fez com a porta da frente da biblioteca, não é? – resmungou e ele deu um sorriso culpado enquanto passava pela porta que ela segurava aberta.

Pegou a sacola e esvaziou-a sobre o balcão de sua sala/cozinha: chá gelado, panquecas de presunto e queijo e um mini muffin de amora.

– Estão envenenados? – perguntou duramente.

– Vieram do Granny’s, então a não ser que você desconfie da Ruby ou da Vovó...

Tomou um gole do chá e em seguida, cortou um pedaço da panqueca e colocou-o na boca. Não tinha um pingo de apetite, mas sabia que levaria um puxão de orelha da Vovó se recusasse sua comida.

– E você virou entregador de lá, então? – perguntou de boca cheia, algo que jamais faria com os nervos em bom estado.

– Eu me ofereci para fazê-lo, já que precisava falar com você.

Belle enfiou um pedaço de panqueca tão grande na boca, que suas bochechas duplicaram de tamanho. Girou os olhos na direção dele, como quem diz “Fala, ué, estou tapando sua boca?”.

– Eu queria agradecê-la por salvar minha vida.

– De nada – grunhiu e indicou a porta com a cabeça. Após ver que ele não se mexera, acrescentou rapidamente – Não vai levando para o lado pessoal, não. Eu teria feito o mesmo por qualquer um que estivesse na sua posição.

– Mas se tem alguém que não merecia, esse alguém sou eu!

– Você me dá um tiro e eu salvo a sua vida. Pois é, parece que sou uma heroína, parabéns para mim, yaaay! Agora, tchau. – bradou, jogando a embalagem agora vazia de panquecas no lixo e voltando ao seu chá.

– Por que está aqui? Onde está o Croco... Rumplestiltskin?

Não disse nada até ter terminado o chá, apenas fuzilou-o com os olhos por ser tão inconveniente. Por fim, suspirou profundamente enquanto pegava o muffin – tinha a horrível sensação de que vomitaria tudo em cinco minutos – e disse:

– Eu usei a adaga para fazê-lo atravessar a fronteira. Ele nunca mais vai voltar.

Socou o muffin todo na boca para evitar eventuais soluços, mas, de qualquer modo, as lágrimas começaram a rolar por seu rosto. Killian rapidamente contornou o balcão e parou ao lado dela.

– Isso foi muito corajoso de sua parte.

O elogio não surtiu o efeito desejado. Os olhos de Belle faiscaram, ela o empurrou para longe e começou a esbravejar:

– Passei minha vida toda tentando ser corajosa, generosa, altruísta, nobre, compreensiva, e o que recebo em troca? Traição, mentiras e a dor de um coração tão despedaçado que nem sei como ainda bate! E você não tem o direito de estar aqui tentando me consolar, fingindo que se importa. Vá embora!

– Belle...

– VÁ EMBORA!

– Algum problema?

Os dois olharam para a porta e se depararam com Jefferson, em outras terras conhecido como Chapeleiro Maluco. Belle desenvolvera um bom relacionamento com ele, que a ajudara a fugir da ala psiquiátrica do hospital, pouco antes de a primeira maldição ser quebrada.

– Eu vim devolver alguns livros que minha filha pegou e te ouvi gritar... – disse olhando preocupadamente para Belle, que contornou o balcão e o abraçou.

– Bem, o “problema” já estava mesmo de saída – Killian cuspiu as palavras e passou pelos dois, olhando-os com desprezo antes de sair batendo a porta.

Com uma expressão extremamente confusa, Jefferson afagou os cabelos de Belle e perguntou:

– O que houve?

A morena contou sobre como Rumple a enganara sobre a adaga, forçando-a a expulsá-lo da cidade.

– E o que o Gancho fez para te deixar tão nervosa?

Belle respirou fundo. Nunca contara aquilo para ninguém. Por anos carregara aquele fardo sozinha, mas sentiu que chegara a hora de compartilhar com alguém e confiava o bastante em Jefferson.

– Eu e o K... Gancho. Nós passamos uma noite juntos. Foi há muito tempo, na Floresta Encantada ainda. Foi uma noite mágica. Inesquecível. Ele me despertou para sentimentos novos, assustadores... deliciosos. Mas me enganei redondamente ao pensar que ele sentia o mesmo. Prometeu me levar com ele a bordo do Jolly Roger e tudo que eu sei é que acordei completamente sozinha na manhã seguinte.

Jefferson passou mais de um minuto boquiaberto e petrificado. Quando o choque passou, falou em tom cauteloso, como se temesse irritá-la:

– Não que eu mesma acredite nisso, mas... E se algo tiver acontecido? Se alguém o tiver levado, sei lá...

– Se fosse o caso, ele não teria tentando me matar logo que chegou à cidade. Teria vindo se explicar, isso sim!

– Verdade, não pensei nisso.

Belle caminhou até o sofá, atirou-se nele e encolheu-se toda, com esperança de que fosse diminuir até desaparecer. Jefferson seguiu-a e voltou a abraçá-la.

– Nunca mais quero me apaixonar, Jeff.

– Vai fazer o quê? Virar freira? Bells, você precisa ter muitos filhos para povoar o mundo com inteligência, gentileza e beleza. E, sshh, não se atreva a me contrariar, ou vou ser o pai dessas crianças!

A expressão de quem ia protestar da morena deu lugar a uma crise de riso que ficou ainda mais forte quando o amigo aproveitou para lhe fazer cócegas. Depois de um minuto, os dois ficaram sérios e ele disse:

– Mas é sério, Belle. Você não pode desistir de tudo assim. As decepções vêm para nos fortalecer. Cadê aquela mulher esperançosa que eu conheço?

– Morreu.

– Nada disso. Você está tentando enterrá-la viva, mas eu não vou deixar. Você merece um final mais feliz que o de todos os contos de fadas já escritos e vou me assegurar pessoalmente de que você o encontre.

– Você tem razão! – disse, levantando-se – Preciso erguer a cabeça, parar de sentir pena de mim mesma e reconstruir minha vida.

– Assim que se fala! Agora vai tomar um banho que eu abro a biblioteca para você.

– Obrigada – sorriu, afagou-lhe a bochecha e rumou para o banheiro – E se nada der certo, a gente casa.

~*~*~

– Olha por onde anda! – rosnou Ruby, após ter levado um encontrão de Killian.

– Desculpe – disse num tom sem emoção, tentou continuar seu caminho, mas a garçonete o segurou.

– Que bicho te mordeu?

– A Belle.

– Quê? O que você fez com minha amiga?

– Nada. E não se preocupe que ela está sendo muito bem cuidada.

Sem se preocupar com o fato de ter uma entrega a fazer, ela puxou o homem pelo braço e arrastou-o até o banco mais próximo para que se sentassem.

– Explica isso direito.

– Querida, eu deveria estar na delegacia agora...

– E eu já deveria ter levado essa comida, mas veja como é a vida. Quem está cuidando da Belle?

– Aquele... louco...

– Filho, de loucos a cidade está cheia.

– O Chapeleiro.

– Aaahh, o Jeff! Normal, eles são amigos.

– Pois me pareceram bem mais que isso.

– E esse tom de ciúme aí? – perguntou Ruby arqueando a sobrancelha e Killian olhou-a como se tivesse levado um tapa na cara.

Os dois permaneceram num silêncio sepulcral. Killian estava louco para sair logo dali, mas Ruby o olhava como se não fosse deixá-lo ir embora enquanto não contasse tudo. Por um lado, ele queria dividir aquela história com alguém, mas e se ela contasse à...?

–Relaxa, eu não vou contar à Emma – disse como se tivesse lido os pensamentos dele – E você sabe muito bem que a fofoqueira da cidade não sou eu.

– Mas ela é sua amiga...

– Dane-se, já falei que guardo segredo. Agora fala!

Killian inspirou profundamente, pesando os prós e os contras e decidiu que pouco importava se a história chegasse ou não aos ouvidos de Emma. Tudo que queria era alguém para escutá-lo e, já que estava longe do consultório de Archie, esta pessoa seria Ruby.

– Antes da maldição, eu e a Belle... nós...

– Não! – interrompeu-o de olhos arregalados, pois nem precisara da frase completa para entender do que se tratava.

– Sim. E não me interrompa – retrucou rispidamente – Enfim, foi uma vez só, mas nos conectamos o bastante para eu convidá-la para fugir comigo. Fiquei genuinamente encantado por ela, esqueci meus planos de vingança contra o Crocodilo e até me dispus a pensar em algum tipo mais “honesto” de pirataria para praticar, se é que aquilo era possível – fez uma pausa, esperando algum comentário de Ruby, mas, aparentemente, ela perdera a capacidade de falar – Prosseguindo, a próxima coisa que aconteceu foi que eu acordei no Jolly Roger com a Regina dizendo que o Crocodilo apareceu no meio da noite, a Belle se fez de arrependida e voltou com ele.

Ruby precisou de um minuto para absorver tudo e disse por fim:

– Gancho... como você é burro!

– Oi???

– Você acha mesmo que saía alguma verdade da boca da Regina naquela época? A Belle não tinha mais visto o Rumple até a quebra da maldição em Storybrooke!

– O quê?

– Ela me contou sobre a tentativa de fuga do castelo da Regina, omitindo sabiamente a noitada de vocês, e disse que depois de um dia e meio na floresta, foi capturada de novo.

– Um dia e meio? Mas a Regina poderia tê-la capturado na hora...

– Querido, a Regina deixou a Belle vagando por horas pelo mesmo motivo que te contou aquela história sobre o Rumple: colocar um contra o outro. Você ficou achando que ela era uma traidora que o trocou na primeira oportunidade e a Belle, que você é um porco que se aproveitou da virtude dela e deu o fora.

Killian enterrou o rosto nas mãos, contendo a vontade de se esbofetear. Como pudera ser tão cego? O que Ruby disse fazia todo sentido. Levantou-se decidido a estrangular Regina com as próprias mãos, mas ela provavelmente viria com algum feitiço e, de qualquer forma, aquilo não o ajudaria em nada a parecer uma boa pessoa aos olhos de Belle.

– O que você vai fazer? – perguntou Ruby, enquanto ele se afastava.

– Pensar num jeito de reconstruir minha relação com a Belle.

Sua determinação esmaeceu um pouco quando ele se lembrou de um fato ocorrido alguns meses atrás. Somente ele e Belle estavam presentes, ela não se lembrava da ocasião e, caso lembrasse, o odiaria ainda mais.