O Começo de Tudo
1 Capítulo 1 - Prelúdio
Notas iniciais
Dandara carregava uma pilha de quatro grossos livros enquanto tentava se equilibrar nos saltos ao descer as escadas da Ribalta. Já era noite, era a última a sair e havia trancado todas as salas. Vestia um longo estampado azul que marcava bem as partes certas do seu corpo curvilíneo, e tinha duas fendas na frente que facilitavam a sua movimentação. Com uma mão segurava os livros e com a outra segurava a barra de apoio da escadaria. Seus vestidos, entretanto, dia sim dia não um modelo diferente e seus aliados em nome da beleza, às vezes lhe atrapalhavam: a faziam tropeçar, prendiam nas portas ou agarravam na ponta do sapato. Mas ela sempre dava um jeitinho e disfarçava quando havia alguém por perto.
Porém era novata na Ribalta e subir e descer todos os dias aquelas escadas com seus vestidos e saias longas estava sendo um desafio que enfrentava com garra. A cada dia havia um novo obstáculo: o salto prendia, a ponta agarrava em algum lugar, um aluno no caminho ou o próprio tecido que prendia debaixo do sapato, fazendo-a escorregar. O engraçado era que Gael estava sempre por perto. Ele sempre fazia um comentário brincalhão e gentil ou brincalhão e provocador. Ela fingia não notar que o lutador aproveitava para olhar bem para ela enquanto a professora lutava contra o vestido. Na quinta vez, Dandara já havia desistido de disfarçar para ele o que acontecia todo santo dia, enquanto brigava com a própria roupa. Graças a Deus isso foi diminuindo com o passar das semanas, apesar de gostar do olhar dele sobre si.
Essa havia sido uma semana de sucesso, nenhuma ponta presa, alunos desviados do caminho com sucesso, já conhecia todos os buracos da escada (aquelas frestas entre as grades) e nenhum escorregão. Hoje descia tranqüilamente os degraus, apesar da falta de equilíbrio. Por isso que, um pouco antes do último lance da escada, sentiu-se enganada pela própria roupa e pelo destino quando pisou na ponta da parte de trás do vestido que era o seu amigo de todos os dias e escorregou de bunda no chão os sete degraus abaixo, jogando os livros para o ar e soltando o grito típico de um susto somado com o medo de um machucado iminente.
Gael, como não podia deixar de ser, estava na parte de baixo da antiga fábrica de tecidos, executando uma série de golpes de Muay Thai no saco de areia pendurado no teto após dar suas aulas e antes de ir para casa tomar um banho e jantar. O lutador logo reconheceu o grito, mas se preocupou com o barulho conseguinte e o gemido de dor no final. Ele largou o saco de pancadas e correu para a escada, indo ver se ela estava bem.
– Dandara! O que aconteceu?! – perguntou. Era mais uma pergunta retórica, era óbvio que ela havia caído na escada. Nem esperou que a moça respondesse, se aproximou e pegou-a nos braços em estilo de noiva, passando um braço sob os seus joelhos e o outro sob as suas costas. – Você está bem? – perguntou todo preocupado enquanto a carregava para dentro do escritório da academia.
Dandara não agüentou e sorriu. Ele era fofo demais debaixo daquela casca dura. Apesar da queda, apenas sua bunda e suas costas doíam e o tornozelo provavelmente reclamaria quando colocasse no chão. Seu cotovelo ardia um pouco também, é verdade. Mas não tinha quebrado nada.
– Eu estou bem, Gael. – respondeu quando ele a sentou sobre a sua mesa do escritório.
Ele percebeu que ela sorria, mas ainda tinha aquele semblante preocupado.
– Tem certeza? Não quebrou nada?
– Tenho certeza. Não quebrei nada, Gael.
Ele tirou uma mecha de cabelo que caía sobre o seu rosto colocando-a atrás da orelha e os seus olhos se encontraram quando Dandara olhou para cima. Ela sentiu-se aquecida pelo olhar dele. Aqueles olhos cor de mel derretido brilhando de preocupação daquele jeito eram lindos e lhe tiraram o ar.
Ela sorriu para ele e tentou descer da mesa para ver se conseguia andar. Como já desconfiava, seu tornozelo reclamou.
– Ai! – Gael estava de pé na sua frente e segurou os seus braços quando desequilibrou.
– Cuidado, Dandara. – ele a empurrou para trás, fazendo-a sentar novamente sobre a mesa.
Ele se agachou na frente dela e afastou o vestido para que pudesse ver o seu pé quando a fenda sobre a sua coxa direita se abriu, exibindo a pele morena e torneada até o tornozelo. Dandara viu seus lábios se separarem quando os seus olhos deslizaram da sua coxa por sua perna abaixo e pediu a Deus por juízo. A mão dele segurou a panturrilha e desceu até o tornozelo, encontrando a fivela que mantinha o sapato preso ao seu pé. Ela sentiu o sapato sair e agradeceu por ter feito as unhas dos pés essa semana e sabia que não tinha chulé. Apesar de que se tivesse achou que ele não iria se importar muito.
Experientes, suas mãos examinaram desde a canela até o tornozelo, procurando por qualquer sinal de torção ou fratura que ela já havia falado que não tinha. Apenas quando apertou um ponto do tornozelo é que ela reclamou.
– Ai! Aí! É aí que está doendo.
– Aqui? – pressionou de novo.
– Ai! Aí, aí sim.
– Desculpe. – segurou a sola do seu pé e tentou movimentá-lo para os dois lados, mas Dandara chiou.
– Ai! Ai, Gael.
Ele parou o pé dela e começou a fazer uma massagem. Após alguns minutos daquela massagem gostosa, perguntou:
– E, aí, doutor Gael?
Ele olhou para cima e só aí ela percebeu que eles estavam bastante próximos.
– Foi só uma pequena torção, Dandara. Você vai sobreviver.
Ela sorriu.
– Eu te falei que não tinha quebrado nada, você quem fez esse alarde todo. – falou.
O lutador sorriu com o jeito dela de falar e se levantou, agora apenas um pouco mais alto do que Dandara.
– Eu vou pegar um creme que é ótimo para essas coisas. Não saia daqui.
Dandara sorriu.
– Pode deixar.
Gael deu-lhe um sorriso muito bonito e saiu, mas não sem antes ouvir o seu suspiro. Enquanto o lutador procurava o creme próprio para torções, Dandara lembrou-se das mãos em sua perna, do seu olhar e do cuidado com ela, sem falar do super clima no ar. Ele com aquela camisa regata exibindo seus músculos, meio suado e transpirando testosterona. Os dois sozinhos na academia, já de noite. Tenho que sair daqui, pensou ela, sentindo calor naquele escritório pequeno.
Dandara fitava o teto, pensativa quando Gael voltou com um tubo verde e branco já aberto e meio magrinho, cheio pela metade. Puxou um banquinho e sentou-se na frente dela, colocando o seu pé no colo com cuidado.
– Aqui, com isso aqui seu pé vai ficar bom rapidinho.
Ele aplicou o creme frio e transparente na sua pele e espalhou por todo o pé.
– Isso foi novo, você ainda não tinha caído, ainda mais desse jeito. – falou Gael.
– É verdade. Graças a Deus não foi no meio dos alunos.
Gael riu.
– Sorte a sua que só tinha eu aqui. – ele a olhou de baixo para cima.
– É. – Dandara riu meio sem fôlego ao encontrar os olhos dele. – Você de novo. Você sempre está por perto vendo os meus micos nessa escada.
– É verdade. Só para garantir que você não caia. – brincou, chamando a atenção de Dandara por um momento. Ele continuou como se não tivesse falado nada e a professora preferiu deixar passar. – Mas como vê, falhei. Como você caiu?
– Quero mudar algumas coisas na minha aula e uma pilha de livros que eu peguei na biblioteca não me deixava ver o chão direito. Tentei equilibrar os livros, me segurar, não pisar no vestido e ainda ver a escada – enumerou nos dedos – Não deu muito certo.
Gael riu.
– É muita coisa para se fazer de uma vez só.
– É sim... – suspirou. Que massagem gostosa que ele sabia fazer.
– Tá melhorando? – perguntou, observando ela jogar a cabeça e os cabelos para trás com os olhos fechados, exibindo o pescoço e empinando o peito.
– Tá... – suspirou e Gael sorriu, massageando mais para cima pela canela com os polegares em círculo e contornando a panturrilha, apertando ali com os dedos. Dandara sentiu arrepios por toda a sua perna com seus dedos ali. Suas mãos subiram para trás do joelho e desceram até o tornozelo. A morena suspirou novamente e abriu os olhos, encontrando seus olhos cor de mel a observando atentamente. Eles mantiveram aquela conexão visual enquanto Gael fazia a massagem quando Dandara decidiu que já era hora de ir. – A massagem tá muito boa, Gael, mas... – mas ele subiu a mão pela panturrilha novamente e suas pálpebras semicerraram levemente. Se havia uma coisa que Dandara gostava bastante era de uma boa massagem. – Mas...
– Mas? – ele pegou a sua outra perna e já ia soltando a sua sandália quando ela conseguiu falar.
– Mas eu tenho que ir embora, Gael.
– Você já vai. Eu só me esqueci de olhar essa perna.
– Essa perna não tem nada, Gael. – riu, ele estava tentando seduzi-la. Mas não conseguiu impedi-lo de soltar a outra sandália do seu pé. Seus dedos tatearam primeiro certificando-se de que realmente não havia nenhuma contusão, e depois deslizaram numa gostosa massagem, dessa vez concentrando-se mais no seu pé bom, desfazendo os nós do dia de trabalho. – Hmmm, nossa, que massagem boa, Gael. – ele apertou seus dedinhos e ela gemeu.
Gael achou engraçado como ela gostava de uma massagem e fez essa anotação mental. Ele continuou e Dandara teve que manter os braços firmes para não desabar molenga na mesa. Seus dedos começavam a apertar a panturrilha dela quando o celular de Dandara começou a tocar, interrompendo a massagem. Ela se consertou e pigarreou antes de atender, sentada na mesa com os pés no colo dele.
– Oi, meu filho. O quê? Sim. – ela fez uma pausa maior enquanto escutava. – João, olha lá. Peça alguma coisa enquanto não chego. Não vou demorar. João. Tá, tá bom. Tchau.
– Algum problema? – Gael perguntou quando ela encerrou a ligação.
– Não realmente, só João perguntado por que eu ainda não cheguei. Tenho que ir, Gael. Antes que ele resolva cozinhar alguma coisa.
Gael colocou a sandália no pé bom dela e levantou-se.
– Eu te levo.
– Não, Gael, não, o que é isso, não precisa. Você já me fez essa massagem maravilhosa, não precisa não. Não quero te dar trabalho. – ela olhou para cima em seus olhos.
– Te levar não me dá trabalho nenhum. Quanto mais te fazer massagem, Dandara. Vamos, eu te levo de carro até a sua casa.
A morena viu que ele estava sendo sincero e sorriu, concordando. Ele se agachou e pegou a sandália do pé machucado, entregando a ela junto com o creme para a torção.
– Você fica com isso, precisa mais que qualquer um daqui da academia. Vamos fazer assim: eu te levo até o carro e volto para pegar as suas coisas, ok?
– Ok, tudo bem. Obrigada, Gael. Mas acho que consigo ir andando até lá.
– Você quis dizer “mancando”.
Ela riu.
– Isso, foi isso que eu quis dizer. – colocou-se de pé e passou o braço esquerdo sobre o ombro de Gael, que envolveu a sua cintura com firmeza. Apesar de tentar andar, Gael praticamente a carregou até o carro, sentando-a no banco do carona e depois voltando para dentro para buscar as suas coisas. Entregou-lhe os quatro livros grossos e sua bolsa e sentou do lado do motorista.
– Me dê às coordenadas.
– Pode deixar.
Enquanto eles saíam da Praça José Wilker, Dandara movimentou o pé, percebendo que estava bem melhor do que na hora em que caiu. Tinha uma sensação de calor misturada com uma leve dormência no tornozelo. Gael percebeu e perguntou.
– E aí? Está melhor?
– Está bem melhor! Tá meio dormente e quase não sinto dor.
– Ótimo! Aí sempre depois do banho você aplica esse creme. Repouse bastante e assim segunda-feira seu pé já deve estar novinho em folha.
– Vou fazer isso. – fez-se uma pausa e aí Dandara puxou um assunto, Gael puxou outro até que quando viram, batiam um papo super descontraído sobre a confusão que as pessoas fazem entre astronomia e astrologia, quando chegaram ao apartamento. – Chegamos.
Gael suspirou baixo e parou bem em frente ao prédio dela. Desligou o carro e viu o porteiro bisbilhotando pela janela.
– Obrigada pela carona, Gael, pela massagem muito, muito boa, pelos cuidados e pelo creme. – sacudiu o bastão verde e branco em frente ao rosto dele, nervosa e Gael riu, descontraindo o clima quando Dandara riu junto.
– De nada, Dandara. – seus olhos se encontraram no escuro do carro. — Quando precisar. E tenha mais cuidado com aquela escada. Tenho certeza de que seus alunos não querem perder a professora favorita deles.
Dandara sorriu, tocada com o comentário gentil.
– Vou ter mais cuidado, mestre Gael. – inclinou-se para beijá-lo no rosto e ele colocou a mão em sua bochecha. Após o beijo Gael não deixou que se afastasse muito e manteve o seu rosto próximo. Seus olhos agora escurecidos eram gloriosamente intensos e brilhantes nos dela quando ele falou baixinho.
– Quando o seu pé ficar melhor, vamos comer alguma coisa no Perfeitão?
Dandara sorriu para ele e falou também baixinho.
– Claro, quando o meu pé ficar melhor, vamos sim, Gael.
– Ótimo. – sorriu. — Então a gente combina melhor na segunda-feira, ok? Se você estiver melhor.
– Ok, a gente se vê na segunda.
– A gente se vê, tomara que sim.
Ela esperou que ele soltasse seu rosto para que pudesse ir embora. Mas ele não soltou.
– Gael... – chamou quando ele se inclinou ainda mais. Ainda não se sentia preparada para o primeiro beijo deles, achava que era cedo demais. Porém, ela não precisava se preocupar, ele sentia isso vindo dela e num beijo preferia quando a iniciativa partia dos dois. Era mais gostoso. E quanto mais expectativa, melhor. Seria um primeiro beijo incrível, já que ele não via à hora e Dandara estava muito atraída por ele. Seus lábios pararam bem próximos aos dela antes de deslizarem a milímetros de sua bochecha até o comecinho do seu pescoço, abaixo da orelha. Sua mão segurou com jeito a nuca e inclinou a sua cabeça da maneira certa, pressionando os lábios na sua pele num beijo que deixava explícita toda a sua vontade de beijá-la, inspirando forte o seu perfume. Dandara sentiu um arrepio subir da lombar até a sua nuca.
– Quando precisar de outra massagem é só me falar. – a voz dele era rouca ao seu ouvido e a respiração quente lhe provocou arrepios no pescoço.
– Tá bom. – respondeu sem fôlego e subitamente com calor. – Eu te falo.
– Agora vamos antes que o seu porteiro caia pela janela.
Dandara foi pega de surpresa e imediatamente virou o rosto em direção ao porteiro, que não exatamente caía pela janela, mas estava muito perto disso. E por isso riu muito.
– É o Cadu. Sempre de olho na vida de todo mundo. – ela voltou a olhar para Gael. – Ele garante que é pela segurança do prédio.
Ele sorriu.
– Sei bem como é essa “segurança do prédio”. – Gael riu e Dandara o acompanhou. Eles riram por um tempo até cansar.
– Então eu já vou. Você me ajuda até o elevador?
– Claro, claro que eu te ajudo. – Gael deu a volta no carro e abriu a sua porta. Primeiro segurou seus livros num dos braços, pendurou a bolsa no ombro e depois se agachou para içá-la do carro, enlaçando a sua cintura.
O porteiro bisbilhoteiro veio correndo ajudar balançando um molho de chaves na cintura. De uniforme azul, a calça num tom mais escuro que a blusa de poliéster continha a barriga pronunciada. A careca brilhante era rodeada por tufos de cabelo escuro acinzentado. Mas apesar de tudo e da bisbilhotice, o zelador de Dandara parecia ser gente boa. Foi logo fechando a porta do carro e perguntando.
– O que foi que aconteceu, dona Dandara?
– Oi, Cadu, eu caí. E não precisa me chamar de “dona”, já te falei. – falou enquanto Gael praticamente lhe carregava pela portaria.
– Foi muito sério, dona Dandara? – perguntou ele, ignorando sua observação enquanto fechava a porta da portaria atrás de si.
– Não, Cadu, só um leve torção no tornozelo. Já, já eu fico boa. – Gael levantou-lhe um pouquinho por três degraus abaixo e eles foram andando em direção ao elevador.
– Precisa de alguma coisa, dona Dandara?
Mas antes que ela pudesse responder, Gael falou enquanto chamava o ascensor: — Eu já cuidei dela, Cadu, obrigado.
– Ah, tá bom, dona Dandara. Qualquer coisa é só interfonar, a senhora sabe.
– Tenho certeza de que são apenas pequenos cuidados, Cadu, ela não irá precisar. – ele estava começando a se irritar com toda aquela preocupação e intimidade do porteiro gente boa para com a sua futura namorada.
Dandara ignorou o que ela pegou como ciúmes da parte dele quando o ascensor chegou. – É, Cadu, está tudo certo, obrigada por sua ajuda. – Gael abriu a porta do elevador com uma mão só e Cadu o ajudou.
– De nada, dona Dandara, melhoras para a senhora. – falou enquanto segurava a porta aberta.
– Obrigada, Cadu. Boa noite.
– Até mais. – falou Gael.
– Boa noite, dona Dandara.
As portas do elevador se fecharam e Dandara decidiu convidá-lo para entrar, mas Gael recusou.
– Obrigado, Dandara, mas eu tenho que voltar para casa, as meninas estão me esperando para jantar.
– Claro, claro, a gente combina melhor na segunda, então. — havia convidado mais por educação, o que mais queria era tomar um banho, comer, passar aquele bendito creme e dormir.
– Sim. E deixe-me saber se você não conseguir ir.
– Qual o número do seu celular?
Eles trocaram os números e combinaram de se ver na segunda para ir jantar, se tudo ocorresse bem. No apartamento, Gael entrou apenas para ajudá-la a sentar no sofá. Deixou os livros e sua bolsa sobre a mesa de jantar, despediu-se com um beijo na bochecha e um carinhoso “boa noite” antes fechar a porta atrás de si e ir embora. Dandara suspirou, estirando as pernas sobre o sofá.
– João! -– chamou e ele não respondeu. Chamou de novo dessa vez mais alto, mas só na terceira vez foi que ele finalmente respondeu e saiu daquele quarto.
– Oi, mãe. -– apareceu na sala e logo franziu o cenho ao encontrar a mãe jogada no sofá. -– O que foi que aconteceu?
– Oi, meu filho. Eu caí, João. -– explicou ela.
– Caiu? Como assim, caiu?
– Caí caindo, meu filho. -– riu da cara dele. Não queria explicar o mico em detalhes, mas suspirou e falou. -– Eu caí na escada da Ribalta, João, mas um amigo me ajudou e me deu uma carona. -– ele não conhecia Gael, não precisava dizer exatamente quem era.
– Ah. -– ele franziu ainda mais o cenho. -– Também com um sapato desse tamanho. — Pois é. — suspirou e tirou a sandália do pé bom. -– Você me ajuda, meu filho? –- pediu.
E assim começou um final de semana baseado no Brasil colonial. João tinha virado a sua mão de obra escrava no sentido mais amplo da palavra. Mas era um escravo muito do mais ou menos, resmungava pelos cantos, fazia tudo com cara feia e muita má vontade. Entretanto, no final, acabava fazendo tudo o que a mãe pedia. Dandara tinha seguido as recomendações de Gael à risca e achara melhor tirar os dois dias para descansar as pernas e o tornozelo dolorido. Funcionara, no domingo à tarde já conseguia pôr o pé no chão e dar alguns passos sem precisar de ajuda e sem fazer uma cara muito feia. Mais um anti-inflamatório depois do almoço para acelerar o processo e à noite já andava normalmente, sentindo apenas uma fisgada. E não, claro que não era só por causa do compromisso com Gael, ela já não aguentava mais ficar praticamente o dia inteiro no sofá sem fazer nada, apenas lendo os livros autuados do crime.
No domingo à noite foi um alívio poder tomar banho quente feito uma pessoa normal. Após comer o jantar preparado por ela mesma e não uma pizza como na noite anterior, estava sentada no sofá assistindo a televisão quando decidira mandar uma mensagem para Gael, como haviam combinado. Escreveu e reescreveu a mensagem várias vezes até por fim se decidir por mandar um: "a gente se vê amanhã, mestre Gael". Esperou ansiosamente por uma resposta, que não veio. João estava em seu quarto, com certeza no computador.
Já era tarde e cochilava no sofá quando o celular vibrou e tocou brevemente. Era o seu toque para mensagem. "Deve ser ele", pensou ela.
"Rei do MMA: vai encarar?! Dispute o título do REI DO MMA da sua operadora e concorra a 40 mil reais EM DINHEIRO! Responda OK e comece agora esta disputa!”". Blá, blá, blá. Saco, não era ele. "Ele nem deve ter visto". Olhou o relógio e achou melhor ir para a cama, já estava tarde. Suspirou enquanto desligava a televisão pelo controle, se sentindo um pouco frustrada. "Ele não vai responder mais hoje", pensou enquanto decidia ir dormir. Mas seu celular toca.
"Você está melhor?", era ele! Calma Dandara, aguenta a ansiedade, mulher. "23h45min, respondo ou não respondo?".
Ah, antes de tudo somos amigos. "Estou bem melhor, Gael!", respondi e rapidamente enviei.
"Que bom, Dandara! Então nos veremos amanhã.", assim que a mensagem chegou outra chegara logo em seguida. "Fico feliz por você estar melhor, por poder ir amanhã" e Dandara sorri para o celular.
"Eu também fico feliz, Gael. Nos veremos amanhã".
"Nos vemos amanhã, Dandara. Durma bem."
"Durma bem também. Beijos e boa noite, Gael."
"Boa noite, Dandara. Beijos para você."
Eles encerraram a conversa e ela foi dormir. A professora de canto não era uma pessoa muito ansiosa, preferia viver o presente e deixar tudo fluir naturalmente. Dormiu tranquila um sono sem sonhos. Ao acordar, fizera tudo como de rotina: tomara banho, comera seu café da manhã de todos os dias e saíra de casa deixando João dormindo, pois ele só teria aula à tarde.
Já no trabalho, chegara cedo à Ribalta.
O trânsito havia colaborado hoje e encontrou Gael abrindo a academia.
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