O Começo de um Final Feliz
5 New York, New York
Killian fazia uma faxina no Jolly Roger. Era quase meia-noite, mas ele ainda estava cheio de disposição. Mal acreditava que dali a algumas horas estaria cruzando os mares com Belle. E Will também, claro, mas nada impedia que ele “misteriosamente caísse o mar” durante a noite. Passos no convés o despertaram de seus devaneios e o pirata correu para ver quem era.
— Emma! – exclamou assustado. Havia se esquecido completamente dela.
— Vai partir numa aventura sem previsão de volta e sequer passou pela sua cabeça me comunicar?
— E-e-eu... Eu ia... Eu vou... Eu só...
Parou de gaguejar ao ver que ela sorria serenamente. Os olhos da loura escorregaram até a mão esquerda do homem e se arregalaram.
— De onde veio isso?
— A Belle não ia querer sair por aí com um “pirata maneta”.
— Certa ela, eu também não ia querer – riu.
— Isso nunca pareceu te incomodar.
Um silêncio se seguiu entre os dois, mas não de constrangimento. Era uma espécie de compreensão mútua – e muda. Depois de alguns minutos, Emma externou o que ambos sentiam:
— Só para esclarecer: não somos mais um casal, certo?
— Certo. E algum dia já fomos?
— Ouch!
— Não, é sério, Emma. Você nunca correspondeu meus sentimentos.
A xerife deu de ombros; para que tentar negar o óbvio?
— Mas eu queria, eu tentei.
— Eu sei.
Mais um silêncio se seguiu, desta vez, não tão longo quanto o anterior e foi novamente quebrado por Emma:
— Posso fazer uma pergunta?
— Além dessa? – provocou-a com um sorrisinho fanfarrão.
— Besta! – deu-lhe um tapa no braço, depois ficou séria – Seja lá o que você sentia por mim... não sente mais, não é?
— Tenho um carinho muito grande por você...
— Killian... – interrompeu-o com o olhar se estreitando perigosamente.
— Não.
— Posso me atrever a dizer que tem outra na jogada? – a cor do rosto do pirata se esvaiu, para depois voltar com o dobro de intensidade – Ora, Killian, eu sei e Storybrooke inteira sabe que é a Belle. Você não está nem se esforçado para ser sutil.
Foi impossível não gargalhar da expressão estupefata no rosto – agora esverdeado – de Killian. Emma deu-lhe um tapinha nas costas, desejou boa viagem e saiu, deixando o Capitão do Jolly Roger imóvel por uns cinco minutos.
*~*~*
— Nossa, não sabia que você tem tanta coisa – grunhiu Killian, olhando para o baú enorme que Will arrastava pelo convés do Jolly Roger.
— Ele não tem – interveio Belle, apontando para uma mochila nas costas do namorado – As coisas dele estão ali. O baú são alguns livros que eu separei.
Claro, pensou o pirata olhando-a afetuosamente.
— Bem, como ainda estou organizando as cabines, só tenho duas disponíveis: a do capitão e uma com beliche.
— Tudo bem – disse Will – Bells, você prefere dormir em cima ou em baixo?
— Não, não, não, colega, você não me entendeu – atropelou o pirata – Nós vamos dividir o beliche. A Belle fica com minha cama.
— Quê? Olha, para sua informação, nós já dormimos jun...
— Não interessa! Minha cabine é bem mais confortável, sua namorada não merece o melhor?
— Claro que merece. Mas eu vou visitá-la!
— Claro, se quiser virar ração de tubarão, fique à vontade – disse abrindo os braços com um falso sorriso cortês. Will abriu a boca para contestar, mas não teve tempo – Entenda, NINGUÉM deita na minha cama sem ter sido convidado por mim.
— Calem a boca os dois! – bradou a morena num misto de cansaço e irritação e os dois viraram estátuas.
— Bells, você dormiu essa noite? – perguntou Will num tom cauteloso.
— Não – grunhiu.
— Venha – disse Killian -, eu a acompanho até a cabine. E você – rosnou para Will – faça-se útil e vá levantando a âncora.
Os dois trocaram um último olhar de desprezo, Killian tocou levemente as costas de Belle, direcionando-a para as escadas e pegou a mala da mão da morena, que estava demasiadamente cansada para recusar ajuda. Ela fez menção de entrar na cabine que invadira uma vez, mas o pirata logo pôs a mão em seu ombro e conduziu-a em direção à outra porta.
— Não, não, amor, a minha é esta aqui.
Intrigada, a morena puxou a maçaneta e deparou-se com uma cabine quase três vezes maior que a conhecida por ela, com direito a cama de casal e mesa de jantar para dois que, no momento, estava abarrotada de frutas.
— O tanto de mulher que já deve ter deitado nessa cama... – comentou.
— Não, eu redecorei recentemente.
— Sei – comentou com ironia, atirando uma uva na boca – Ainda assim, o cômodo cheira a séculos de sexo.
— Faz tanto, mas tanto tempo que essa cabine não é utilizada para tais fins...
— Hmmm, posso dar um jeito nisso...
O pirata piscou desorientado por alguns segundos e, após entender a provocação dela, retribuiu à altura:
— Só se for comigo.
— Sou comprometida, meu bem.
— Belle – começou, mas ela já sabia o que estava por vir, então logo o interrompeu:
— Não se precisa necessariamente de amor para dar início a um relacionamento monogâmico. Amor vem com o tempo.
— O de vocês não vai vir nunca!
Belle revirou os olhos e jogou mais uma uva na boca. Tirou os sapatos, atirou-se no colchão e disse em tom de desprezo:
— Tchau.
Ele começou a se afastar, mas, antes que pudesse sair, Belle chamou:
— Ei, Killian!
— Sim? – respondeu, virando-se para ela esperançoso.
— Quero ver os dois vivos quando eu acordar.
*~*~*
— Eeeei, dorminhoca!
Belle piscou desorientada até conseguir enxergar Will sentado a seu lado na cama. Após um longo bocejo, teve uma noção melhor do que se passava e franziu o cenho.
— Como conseguiu entrar aqui?
— O Gancho estava ocupado olhando as rotas e eu disse que só viria ver se você estava respirando – a morena arqueou uma sobrancelha e ele explicou – Já são quase três da tarde.
— Meu Deus!
— Pois é, lembrou-me de uma viagem que fiz com...
Seu rosto perdeu a cor e ele não terminou a frase. Ciente de que o namorado estava relembrando algo de seu passado, Belle se sentou, encostou-se ao espaldar da cama e olhou-o nos olhos.
— Will, você sabe quase tudo sobre meu passado. Por mais que doesse pensar e falar sobre, eu compartilhei tudo com você. Não acha que eu mereço o mesmo?
Ele respirou fundo, seus olhos giraram em todas as direções e, após alguns segundos de impassibilidade, finalmente se manifestou:
— Ah, que se dane!
Belle arregalou os olhos com aquela resposta, mas quando Will sentou-se com as pernas esticadas sobre a cama, ela compreendeu que suas palavras se referiam a Killian e suas regras. Ele passou o braço por trás das costas da morena, puxando-a para deitar em seu peito e começou a falar:
— Há muitos e muitos anos, conheci uma moça chamada Anastasia. Foi amor à primeira vista. Eu mataria e morreria por ela, e ela por mim. Bem, até chegarmos ao País das Maravilhas, pelo menos.
“Quando chegamos lá, ela se deixou seduzir por luxo, riqueza e poder, coisas que nunca tivera na vida. Trocou-me pelo Rei Vermelho, não tardou a ficar viúva e, como Rainha Vermelha, impôs um regime de terror e medo a todo o País das Maravilhas. Até minha cabeça a prêmio ela colocou. Se bem que todos colocavam...
— Acho que já ouvi falar dela.
— Depois de um longo tempo, ela finalmente deixou de ser a Rainha Vermelha e voltou a ser a minha Ana. Lutou ao lado dos heróis, se redimiu com todos... Enfim, nos casamos e nos tornamos Rei Branco e Rainha Branca.
— Meu Deus! – exclamou de olhos arregalados – Você era rei! – parou para refletir por um minuto; se com aquela história até então maravilhosa, Will fora parar em Storybrooke e estava namorando a bibliotecária... O final provavelmente era trágico – O... O que houve? – perguntou com cautela.
— Provavelmente Jafar deixou alguns pupilos em Agrabah e eles invadiram nosso reino. Nessa invasão... levaram minha Ana.
— Para onde?
— Um lugar sem volta. Empurraram-na de um penhasco. Foi tudo muito rápido, ela nem teve chance de tentar se defender com magia.
— Nossa, Will!
— E isso não é o pior.
— Ah, meu Deus, ainda dá para piorar?
— Ela estava grávida.
— Ah, Will, sinto muito!
De coração partido após a triste história, a morena sentou-se ereta e puxou a cabeça do namorado para seu ombro. As cicatrizes de Will conseguiam ser ainda mais dolorosas que as dela. Um brilho aquoso surgiu nos olhos do homem e ele logo tratou de fechá-los.
— Mas o que está acontecendo aqui?
Belle estava tão concentrada no cafuné que fazia, que sequer ouvira os passos de Killian se aproximando. Nem se dignou a responder, apenas olhou feio para ele e fez “Ssshhh”. Will permaneceu imóvel, Killian bufou, mas algo na expressão no rosto da mulher deve tê-lo feito acreditar que o casal não estava fazendo nada demais. Ainda assim, o olhar do pirata ainda traduzia seu pensamento: De qualquer forma, ele está contaminando meus lençóis.
— Vou servir o almoço – disse por fim e saiu da cabine.
— Vamos? – chamou Belle.
Will abriu os olhos e, antes de começar a se levantar, disse:
— Obrigado.
— Pelo quê?
— Por me ouvir.
*~*~*
Estavam a menos de um dia de viagem de Nova York e Will e Belle estavam mais próximos do que nunca. Por mais que parecesse provocação, Killian pudera notar que era algo genuíno e aquilo o matava por dentro. Passos no convés no meio da noite o despertaram de seus pensamentos e fizeram-no se virar na direção de onde vinha o som, pronto para desembainhar a espada.
— Calma, sou eu – disse Belle. Usava uma camisola de seda lilás que o vento fazia esvoaçar de um jeito que deveria ser considerado ilegal.
— Caiu da cama, foi?
— Bateu a insônia.
O pirata tirou um frasquinho de rum do bolso do casaco e atirou-o para ela, que apanhou-o com reflexos de lince, abriu-o e tomou um gole.
— Você e o Will, hein? – tentou soar displicente, mas sua expressão era a de alguém cujos órgãos estavam se desintegrando.
— O que tem? – perguntou na defensiva, atirando o frasco de volta.
— Estão mais próximos.
— O Will finalmente se abriu comigo, me sinto mais próxima dele.
— Então agora é amor?
Alguns pontinhos vermelhos começaram a pipocar no rosto dela e, para não acabar berrando, a moça respirou fundo por alguns segundos e disparou, num tom colérico, porém baixo:
— Mas que fixação! Que diferença faz se é amor ou não?
— Toda!
— Por q...?
— Porque eu te amo, Belle! – bradou sem pensar e cobriu a boca com as mãos, surpreso com as próprias palavras.
A morena empalideceu, mas sua expressão era impassível. Nenhuma surpresa, choque, indignação, alegria, raiva... nada. Aquilo só piorou o estado de espírito do pirata que, controlando-se para não erguê-la do chão e sacudí-la, perguntou:
— E então?
— Então o quê?
— Eu digo que a amo e você não apresenta nenhuma reação?!
Após alguns segundos de silêncio, a morena anunciou:
— Vou me deitar.
E passou apressadamente por ele, desaparecendo escada a baixo logo depois.
— Ótimo! – exclamou, socando a amurada – Agora estraguei tudo mesmo.
*~*~*
— O Jolly Roger é muito chamativo, não quero que meu navio seja roubado – choramingou Killian enquanto se aproximavam do porto de Manhattan.
— A Azul me deu um pó para camuflá-lo, relaxa – disse Belle.
O navio ancorou e os três foram procurar um lugar para comer. Entraram numa espécie de cantina italiana e, enquanto esperavam, Belle colocou o laptop recém-adquirido sobre a mesa e começou a pesquisar a reportagem onde Paige dissera ter visto o pai.
— Estranho... – comentou baixinho e os dois olharam para ela – O suposto Jefferson está de terno e gravata e carregando uma maleta, parece que ele trabalha nesse prédio ao fundo.
Antes que pudessem começar a levantar teorias, suas massas chegaram. Como não faziam uma refeição decente há dias, Belle guardou o laptop e os três puseram-se a comer como se não houvesse amanhã. Quando estavam terminando, ouviram um burburinho que começara entre os funcionários:
— Aquela sem-teto de novo!
— Chamem alguém para tirá-la daqui.
— Mas que horror! – sussurrou Belle e levantou-se num pulo, disposta a ajudar a desconhecida.
Will a seguiu até a entrada, onde ambos se depararam com uma mulher loura segurando um bebê que começou a chorar a plenos pulmões. Os joelhos do homem cederam.
— Will! – exclamou, tentando levantá-lo. Ele estava pálido, petrificado e parecia à beira de um desmaio.
— O que aconteceu? – perguntou Killian, que ouvira o grito de Belle e correra até ali.
— Não sei, me ajude a levantá-lo.
A loura começou a se afastar com o bebê e Will, com os olhos fixos na moça, disse num fio de voz:
— Ana.
Belle demorou alguns instantes para compreender o que fora dito e, quando finalmente o fez, a loura já havia saído do recinto. A morena deu dois tapinhas desesperados no braço de Killian e berrou:
— Rápido! Vai atrás dela!
O pirata saiu correndo, Belle segurou Will com firmeza antes que ele despencasse novamente e foi com ele até o garçom mais próximo para pedir a conta. Reuniu seus pertences, pagou pela comida e saiu correndo do estabelecimento. Não demorou muito para encontrar Killian e a suposta Anastasia na calçada e se adiantou até eles.
Era difícil, quase impossível, crer que aquela mendiga maltrapilha um dia fora rainha. Seus cabelos claríssimos estavam sujos e desgrenhados, seu corpo estava quase esquelético, os lábios carnudos pareciam ressecados e suas roupas não passavam de farrapos. Quanto ao bebê, apesar do péssimo estado do cobertor que o envolvia, sua aparência era saudável, o que fez a morena suspirar de alívio.
— Ana, sou eu, Will – disse ele, dando um passo em direção à mulher, que continuava a olhá-lo catatônica.
Ele se virou meio desorientado para Belle e, quando seus olhares se cruzaram, ambos tiveram a mesma ideia. Will olhou-a meio inseguro, mas ela assentiu com a cabeça e disse:
— Faça.
Então, sem hesitar, ele foi até a loura e a beijou. Afastou-se com um brilho esperançoso no olhar, mas a mulher continuou encarando-o imóvel e quando reagiu, foi para empurrá-lo e gritar:
— Quem é você?
Will abriu a boca para protestar, mas Belle o puxou de canto e sussurrou:
— Alguém apagou a memória dela. Beijos de amor verdadeiro não funcionam em quem não sabe quem é.
— E agora?
— Leve-a para o Jolly Roger. Eu e o Killian vãos comprar coisas para o bebê.
— Ela não vai querer ir comigo, deve achar que sou um tarado!
Belle caminhou até a loura e perguntou docemente:
— Como é seu nome?
— Eu... eu não sei.
— Não tem problema. Vamos chama-la de Ana, tudo bem? – a mulher assentiu com a cabeça e Belle prosseguiu – Sei que não nos conhece, mas vamos ajudá-la. O Will vai levá-la a um lugar seguro onde possa tomar um banho e se alimentar. Ele promete não beijá-la de novo, pode confiar.
— E... e você?
— Vou comprar algumas roupas e produtos de higiene para o bebê e encontro vocês lá. Eu prometo – acrescentou, olhando-a nos olhos, já que Anastasia pareceu confiar nela.
— Hm... Tudo bem.
Will colocou gentilmente as mãos nas costas da mulher – que, para surpresa de todos, não se retraiu – e rumaram para o porto. Com cara de quem não estava entendendo absolutamente nada, Killian se aproximou de Belle e perguntou:
— Você pode, pelo amor de Deus, me explicar o que está acontecendo?
— Posso. Mas enquanto procuramos um mercado, vem!
Não demoraram a encontrar um. Belle logo apanhou um carrinho de compras e começou a andar pelos corredores do mercado. Killian deu um pigarro para lembrá-la de que lhe devia explicações, a morena deu um longo suspiro e disse:
— A mendiga loura é na verdade a antiga rainha do País das Maravilhas e esposa do Will, que ele pensou ter sido morta durante a gravidez.
O pirata ficou mudo e com cara de tacho por algum tempo e, quando abriu a boca para dizer algo, um pequeno detalhe lhe veio à mente:
— Quem diria que aquele traste era rei!
Belle, que colocava dois grandes pacotes de fraldas ao mesmo tempo no carrinho, virou-se para ele com um olhar matador e o pirata logo tentou dar um jeito:
— Er, digo, por quanto tempo ela esteve sumida?
— Não sei ao certo. Não sei nem se ela caiu direto aqui, provavelmente não. Em cada mundo o tempo passa de um jeito diferente.
— Então o bebê...
— Provavelmente é filho do Will, sim.
Os dois entraram em silêncio na seção de artigos de higiene. Belle apanhou alguns cotonetes, algodões e uma loção de banho para bebês.
— Filha – Killian disse sem mais, nem menos.
— Perdão?
— Ela me disse que a criança é uma menina.
— Hm – resmungou, jogando um pacote de lenços umedecidos no carrinho.
— E agora?
— Agora o quê? – grunhiu, acelerando o carrinho na direção de alimentícios.
— Como vocês vão ficar?
— Não ficamos.
— Mas já? Assim? Sem nem conversar com ele primeiro?
— Ai, meu Deus, eu não sei, está bem?
Killian atirou uma caixa de bombons no carrinho para que Belle tivesse algo além dele próprio para atacar. O pirata juntou o que lhe restava de coragem e começou:
— Então, quem sabe, nós poderíamos...
— Não. Você já teve sua chance.
— Engraçado que para o crocodilo você já deu umas... Quatro chances? Cinco? Dez?
— Foi justamente nesse processo que eu aprendi que, em certos casos, uma chance é o bastante – rosnou, pegando uma última embalagem de Pringles e se dirigindo ao caixa.
— Belle, você sabe que eu...
— Ssshh, não sei de nada! Sei que você se aproveitou de mim enquanto eu era Lacey.
— Num momento de fraq...
Ele nunca chegou a concluir a frase, pois Belle terminara de pagar e começou a soterrá-lo com as sacolas. O pirata começou a andar em direção ao caminho para o porto, mas ela o puxou pelo sobretudo.
— Ainda não acabou.
O pirata choramingou enquanto ela, como uma mãe impaciente, o arrastava para dentro de uma loja de departamentos. Deixaram as compras num guarda-volumes, passaram rapidamente pela seção de Cama, Mesa e Banho, onde Belle pegou duas toalhas e uma manta para o bebê, e logo seguiram para a maior seção: a de roupas.
A morena pegou algumas roupinhas para a criança e, para Anastasia, roupa íntima, uma calça jeans, três camisetas e um par de sapatilhas que ela rezou para que coubessem. Ao perceber que Killian seguia em direção ao caixa, voltou a puxá-lo pelo sobretudo.
— Que foi agora?
— Vamos à seção masculina.
— Mas o Will já tem roupa!
— Ele tem. Você não.
— O QUÊ? Que há de errado com minhas roupas?
— Tudo! Não vê que fica todo mundo encarando?
— Pensei que fizessem isso porque sou diabolicamente belo.
A bibliotecária revirou os olhos antes de fechá-los e inspirar profundamente. A julgar pela vagareza com a qual ela soltava o ar, provavelmente estava contando mentalmente. Quando finalmente abriu os olhos, eles faiscaram na direção do pirata:
— Diabolicamente tapado, você é! Quando você foi ao banheiro no restaurante, vieram me perguntar se estava tendo Comic Com e do que era seu cosplay.
— Comic quem? Meu o quê?
— AAARGH! – berrou, atraindo olhares de quem estava mais próximo – Não interessa! Sei que vim aqui numa missão secreta e não vou ficar andando com um urubu metrossexual ao meu lado.
— Metro o quê?
O olhar de Belle se tornou tão mortífero, que ele apenas ergueu os braços num gesto de rendição e começou a olhar os jeans.
*~*~*
— Já preparei seu banho. E lá tem toalha e roupas limpas. Também separei as coisas para dar banho na neném quando ela acordar. Você se alimentou bem? Está confortável?
A loura sorriu para Belle e assentiu com a cabeça.
— Sim, muito obrigada.
— Qualquer coisa, é só chamar.
Anastasia foi para o banho e Belle, para a cabine onde Will observava petrificado o sono daquela que muito provavelmente era sua filha. Sentou-se ao lado dele na cama, deu-lhe um tapinha na coxa e perguntou:
— E aí?
Ele se virou para a morena com uma expressão completamente perdida e disse num tom de voz quase choroso:
— O nome da bebê é Penellope. Nome da minha irmã que morreu. Será que quando ela escolheu esse nome, ainda se lembrava de tudo? Ou será que...
Ele parecia à beira das lágrimas e Belle prontamente o puxou para que deitasse a cabeça em seu ombro. Após alguns minutos lhe fazendo cafuné em silêncio, ela disse séria:
— Will, você precisa ir com ela para Storybrooke. A Fada Azul pode ajudar.
— Mas e o Rumplestiltskin?
— Não estamos mais juntos, ele nem vai lembrar quem é você.
Dizer aquilo em voz alta foi um modo de oficializar o término que eles sequer haviam discutido. Will engoliu em seco e ergueu a cabeça.
— Belle, eu sinto muito.
— Não sinta.
— Você é tão linda, doce, inteligente...
— Mas a Ana é o amor da sua vida e ela está viva! Will, eu estou feliz por você, de verdade – sorriu – Vou ligar para a Regina, ver se ela me ajuda a garantir a proteção de vocês.
— Como posso te agradecer?
— Sendo feliz com elas.
— Sei de alguém que vai ficar muito feliz com sua solteirice e minha partida.
As orelhas da moça fumegaram. Nem faria sentido bancar a desentendida, pois a indireta fora mais que direta. Ela ficou muda e Will prosseguiu:
— Não que eu goste desse ex-maneta maquiado mas... dá para ver que ele é louco por você.
— Azar o dele – retrucou, parecendo criança emburrada.
— Bells... Agora que somos só amigos, me sinto menos humilhado em dizer que dá para ver que você sente algo por ele também.
Belle se engasgou e recebeu tapinhas nas costas. Não havia nada mais a ser dito, então, os dois se abraçaram, Will deu-lhe um beijo na testa e, ainda corada, ela saiu da cabine. Na saída do convés, esbarrou com Killian e ele a segurou de maneira protetora pelo braço.
— Aonde você vai?
— Fazer uma ligação. O sinal ali no porto é melhor.
Ele não a soltou e ficou encarando-a intrigado.
— Você está bem? – levou as costas da mão à testa e às bochechas dela – Está quente.
E vou esquentar mais ainda se você continuar me tocando, pensou desesperada, afastou a mão “nova” do pirata de seu rosto e disse enquanto descia correndo as escadas do navio:
— Estou bem!
Quando estava bem afastada do mar, pegou o celular e ligou para Regina.
— Alô – atendeu a prefeita.
— Regina, é a Belle. Preciso de um grande favor seu – Regina não respondeu e, conhecendo-a bem, Belle teve a certeza de que ela havia revirado os olhos e feito cara feia, mas superado logo depois, afinal, depois de tantas maldades, Regina lhe devia.
— Diga.
— Como anda a fronteira da cidade?
— Tranquila, demos um jeito.
— Ótimo, preciso de alguém para vir buscar o Will.
— OI?
— Encontramos a esposa que o Will acreditava estar morta. Está desmemoriada e com filha aqui na Grande Maçã.
— Jesus!
— Precisamos leva-la à Fada Azul.
— Tudo bem. Assim que possível, mando alguém para busca-los.
— Mais uma coisa – ouviu um suspiro profundo do outro lado da linha e deduziu que a prefeita estivesse contando mentalmente até dez. Ignorou-a e prosseguiu – Garanti ao Will que o Rumple não iria mais atrás dele. Eu realmente acho que não vai, mas... você poderia ficar de olho para mim?
— Tudo bem.
— Obrigada, Regina.
*~*~*
— Não conseguiu dormir na rede?
Belle surgira do nada no convés, de pijama e bebê no colo. Ela cedera a cabine do capitão para Anastasia e Penellope.
— Ouvi a Penny choramingando e não quis acordar a Ana – respondeu.
Killian caminhou até elas e deu uma boa olhada em Penellope, que chupava o dedo tranquilamente e tinha os olhinhos fixos na morena.
— Graças a Deus a menina puxou a mãe.
Belle deu-lhe uma breve fuzilada com o olhar e soltou um muxoxo. Ele riu, deu o próprio dedo para a pequena segurar e comentou:
— Você leva jeito.
— Eu amo crianças... Mas com a sorte que eu tenho, o máximo de filho que vou conseguir terá quatro patas.
— Eu queria muito dizer que adoraria ser pai dos seus filhos, mas não irei fazê-lo, porque não quero ser jogado no mar.
— Ainda bem que sabe.
Penellope soltou um resmungo sonolento e começou a coçar os olhos. Belle aninhou-a junto ao peito, a pequenina voltou a chupar o dedo e, poucos minutos depois, já estava em sono profundo.
— Vou devolver para a mãe e já volto – sussurrou e saiu em direção às cabines.
Killian já estava planejando ir se deitar, mas depois daquele “já volto”, ficou paradinho onde estava. A morena retornou pouco depois, trazendo uma garrafa de rum.
— Roubei mesmo – falou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
— Contanto que compartilhe, não vejo problemas.
— Faça as honras, capitão – disse, estendendo-lhe a garrafa.
— Obrigado, milady.
Killian abriu a garrafa, tomou um gole e passou-a à Belle. Os dois passaram um tempo compartilhando o rum sem dizer nada e, quando perceberam, a garrafa estava vazia e as bochechas de Belle, adoravelmente coradas.
— Tá pra nascer princesa mais pé de cana!
— Ainda bem que sou bibliotecária.
— Princesa bibliotecária.
— Tsc – deu um muxoxo e inclinou-se perigosamente sobre a amurada para contemplar o reflexo da imensa lua cheia no mar.
— Beeeeelle... Vai cair daí, sua doida – disse em tom de alerta.
A morena se preparou para lhe dar uma resposta bem petulante, mas bem naquele instante, tropeçou numa corda e no segundo seguinte, não estava mais no navio.
— BELLE! – berrou o pirata e, sem pensar duas vezes, atirou-se no mar.
A água estava mais gelada do que havia imaginado e a lua não iluminava tanto quanto ele gostaria, mas, ainda assim, se empenhou na busca por Belle, que acabou emergindo com um filete de sangue na testa e expressão desorientada.
— Ei! Você está bem? – Killian arregalou os olhos e puxou-a para si.
— Acho... que bati a cabeça no casco...
Killian olhou para cima e teve a agradável surpresa de ver Will segurando uma grande lanterna para iluminar o curto trajeto que teriam que nadar até o cais. O pirata a puxou para mais perto e foi nadando com Belle; pouco depois, já a estava deitando no chão de madeira e sentando-se ao seu lado.
— Acho que vou levá-la ao hospital.
— Não – grunhiu – Um banho quente e um curativo e eu fico nova. Você deveria tomar um também.
Killian não se convenceu, mas precisava aquecê-la, então subiu com ela as escadas do navio. Will e Anastasia aguardavam apreensivos no convés e, quando chegaram, a loura se adiantou:
— Eu a ajudo com o banho.
Killian assentiu, pôs a morena no chão e Ana entregou a filha a Will, para amparar a bibliotecária até as cabines.
*~*~*
— Certeza de que não quer ir ao médico?
Anastasia a ajudara com o banho e lhe fizera um curativo na testa. Will cedera-lhe a cama de baixo do beliche que dividia com Killian e fora dormir numa rede. Belle, já devidamente deitada e coberta, piscou sonolenta para o pirata e resmungou:
— Eu estou bem.
— Você bateu a cabeça.
— E ganhei um galo! No máximo, uma concussão leve e pronto, acabou!
— Já está gritando comigo? É, está tudo bem com você mesmo.
Ela fez menção de olhá-lo feio, mas o comentário de Killian fora demais para a morena aguentar e acabou por fazê-la rir.
— Faça o favor de nunca mais beber perto da amurada!
— Aye, Capitão!
Ele precisou controlar a vontade de beijar-lhe os lábios, apagou a lamparina que segurava e deitou-se na cama de cima. Belle adormeceu na hora, mas Killian passou um bom tempo encarando a escuridão até conseguir pegar no sono.
Na manhã seguinte, Belle despertou com seu celular vibrando. Era uma mensagem de David, avisando que em poucas horas chegaria a NY. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, Killian adentrou a cabine com duas sacolinhas e um copo do Starbucks.
— Bom dia, flor do dia!
A morena sentou-se na hora, tomando cuidado para não bater a cabeça na cama de cima, e estendeu os braços para receber a comida.
— Quem disse que são para você?
— Eu! – respondeu com petulância.
— Essa é minha garota! – ele riu e lhe passou o café, o quiche e o muffin que havia trazido.
— Obrigada – murmurou, bebericando o café – As coisas que compramos para a Ana e a Penny estão arrumadas?
— Sim. Por quê?
— Daqui a pouco o David chega.
Dito e feito: o xerife de Storybrooke apareceu menos de duas horas depois. Como o navio estava invisível aos olhos alheios, Killian foi esperá-lo no cais.
— Bom dia – cumprimentou, enquanto adentrava o navio – Mas o q...? – começou, ao pousar os olhos em Belle no convés.
— Digamos que rum e mar não são uma mistura tão boa quanto aparentam – respondeu ela, dando de ombros.
Naquele momento, Will apareceu carregando as malas, seguido de perto por Anastasia com a filha no colo. A loura ainda aparentava um pouco de segurança, mas dava para ver que o homem conquistava sua confiança pouco a pouco.
— Prontos? – perguntou David e ambos assentiram com a cabeça.
Belle se aproximou da mulher para dar um beijinho na cabeça de Penellope e aproveitou para abraçá-la.
— Obrigada por tudo – disse Ana, olhando para ela e Killian.
— Por nada – respondeu a morena – Vai dar tudo certo, você e a Penny serão muito bem tratadas em Storybrooke.
Quando as mulheres se afastaram, Will puxou Belle para um abraço apertado e disse:
— Ah, Bells, nem sei como agradecer! Eu só te atrapalhei e, ainda assim, recebi tanta ajuda...
— Tsc, atrapalhou nada! – respondeu, dando-lhe um tapinha no braço antes de se afastar.
Will e Killian trocaram um longo olhar de rivalidade e cumplicidade misturadas e apertaram as mãos.
— Faça o favor de cuidar muito bem dela – disse Will.
— E você ainda duvida de que eu vou? – o tom do pirata oscilava entre petulância e camaradagem.
Estavam todos de saída quando David pareceu se lembrar de algo e retrocedeu.
— Ei, Gancho! – passou-lhe um papelzinho enrolado – Henry pediu para eu te dar isso.
O pirata deu uma espiada no papel, abriu um meio-sorriso e respondeu:
— Agradeça a ele por mim.
Quando ficaram só os dois no navio, Killian passou o braço pela cintura de Belle e perguntou:
— O que quer fazer agora, milady?
— Não quero, mas preciso dormir mais um pouco para ver se a dor de cabeça passa.
— Ressaca ou é da batida?
— Não sei. Ambas, eu acho.
A morena começou a se afastar em direção à cabine onde dormira, mas o pirata disse:
— Pode voltar a usar minha cabine.
— Obrigada – agradeceu e, antes de sumir de vista, virou-se para ele e acrescentou – Ei, Killian! Dá uma olhada nos livros que eu trouxe. Peguei algumas histórias de piratas, achei que você poderia gostar.
*~*~*
Belle acabou acordando na hora do almoço, mas ao menos sua cabeça estava bem melhor. Trocou de roupa, se arrumou e foi procurar Killian para almoçarem fora. Encontrou-o deitado numa rede, vestindo jeans e camisa xadrez azul e concentrado na leitura de A Ilha do Tesouro. Ele ficara tão bem com as novas roupas e o fato de estar lendo... Era uma visão tão sexy que as pernas da bibliotecária até bambearam.
— Pois não? – perguntou erguendo uma sobrancelha e parecendo se divertir com o sobressalto da mulher ao ter sido pega em flagrante a observá-lo.
-E-e-eu... Hm... Er... Vamos almoçar?
— Sim, eu estava só te esperando. Quer comer o quê?
— Hoje estou a fim de comer besteira. Tipo hambúrguer e batata frita.
— Ótima escolha! Podemos ir àquele lugar do M amarelo...
Belle assentiu com a cabeça e os dois deixaram o navio em busca de um Mc Donald’s. Não tardaram a encontrar um, pediram seus lanches e, quando foram se sentar, uma lembrança passou pela mente da morena, fazendo-a abrir um sorriso melancólico. Killian mergulhou uma batata no ketchup e, antes de leva-la à boca, perguntou:
— O que houve?
Belle hesitou por alguns segundos, mas acabou respondendo:
— É que minha primeira tentativa de encontro com o Rumple foi comendo cheeseburger. Ele que me mostrou a maravilha que são os condimentos.
A retorcida involuntária que os lábios do pirata deram mostrou que ele não ficara muito satisfeito com a resposta, mas, mesmo com sua insatisfação, perguntou serenamente:
— Você sente falta dele?
A mulher pensou um pouco, bebericou seu refrigerante e respondeu por fim:
— Sim... Quero dizer, sinto falta dos momentos bons... – Killian pareceu ter levado três bofetadas seguidas e ela buscou um jeito de se explicar – Não do jeito que você está pensando! Querendo ou não, o Rumple teve um papel muito importante na minha vida, não é algo que eu possa simplesmente apagar. Mesmo com tudo que nós passamos, eu gostaria de ser amiga dele.
— E vocês conseguiriam ser só amigos? – perguntou franzindo o cenho.
— Ué, eu sou só sua amiga, não sou?
— Porque quer – retrucou sem pensar, mas emendou depressa, antes que ela pudesse protestar – Mas nossa história não é longa como a de vocês dois.
— Longevidade não é sinônimo de intensidade.
Aquilo foi suficiente para fazê-los terminarem a refeição em silêncio.
— Anda, vamos pegar um táxi – Belle quebrou o silêncio levantando-se e apressando Killian para fazer o mesmo.
— Aonde vamos?
— Descobri que o suposto Jeff trabalha no Empire State Building.
Ela lhe pediu para esperar um minuto e, quando voltou, trazia uma enorme barriga falsa de grávida que fez o pirata se engasgar.
— Mas o q...?
— Sssshhh!!! – ela o puxou para perto do táxi mais próximo e sibilou – Sei que isso é errado de mil e uma maneiras, mas não posso me arriscar a pegar uma fila quilométrica e perder o horário de trabalho dele.
— Desde quando você sabe o expediente dele?
Ela ergueu o celular, mostrando uma imagem com o quadro de funcionários do prédio.
— E como você... Deixa pra lá. Espiã!
Os dois entraram no táxi – Belle fazendo questão de se sentar com dificuldade, como se barriga pesasse horrores -, a morena disse o destino ao taxista e se aconchegou a Killian, segurando-lhe a mão. Ele arregalou os olhos e logo recebeu um arranhão na palma.
— Precisamos parecer um casal – grunhiu na orelha dele, dando-lhe um beijo na bochecha para disfarçar.
— Acho que vou gostar disso – murmurou de volta, dando-lhe um estalado beijo próximo à boca. A mulher lhe dirigiu um sorriso amável que ele sabia muito bem que significava “Eu vou te matar”.
Os dois chegaram ao Empire State e, de fato, havia filas quilométricas, mas assim que bateram os olho na barriga de Belle, seguranças direcionaram “o casal” para a fila preferencial, que não contava nem com trinta pessoas.
— A senhorita é uma perfeita diabinha, sabia? – sussurrou Killian, abraçando-a pela cintura.
— Sabe, não precisamos ser um casal tão melosinho – respondeu no mesmo tom e tentou se afastar, mas ele não afrouxou o abraço.
— Claro que precisamos! Estamos esperando nosso primeiro filho, estamos nas nuvens!
A morena sentiu uma imensa vontade de revirar os olhos, mas como chegara a vez deles, apenas sorriu para o atendente e solicitou dois ingressos.
Pouco depois de terem adquirido os ingressos, se viram conduzidos a um dos vários elevadores. Durante a eterna subida, Killian aproveitou para abraçá-la gentilmente por trás e pousou o queixo em sua cabeça. Belle, por sua vez, estava tão concentrada em encontrar o suposto Jefferson, que nem se deu ao trabalho de se afastar e até passou os braços sobre os dele.
Desceram no observatório do 86º andar e, por alguns minutos, esqueceram-se completamente que tinham uma missão a cumprir. Belle boquiaberta apertou o braço de um igualmente boquiaberto Killian; ambos hipnotizados pela vista. Ela se lembrou de um trecho de uma das músicas cantadas por sua versão animada da Disney: Quero viver num mundo bem mais amplo, com coisas lindas para ver. Seu coração encheu-se com aquele sentimento, pois desde os tempos de Floresta Encantada, sempre sonhara em se aventurar por outros reinos. Em Storybrooke, como sempre acontecia algum problema novo que requeria sua ajuda, acabou se acomodando. Porém, diante daquela imensidão, ela percebeu o quanto queria conhecer o mundo; outras cidades, outros países, outras culturas.
— Bells? – Killian despertou-a de seus pensamentos.
— Eu.
— Você está bem?
— Sim, eu só... Vou tirar umas fotos – sacou o celular do bolso e se afastou. Depois de uma volta e alguns cliques, seu lado racional voltou a comandar a operação – Vamos, ele deve estar no 102º.
Os dois entraram no elevador novamente e subiram até a cobertura. No minuto que as portas se abriram, as pernas de Belle bambearam; a vista dali conseguia ser ainda mais impressionante. A morena tornou a agarrar o braço de Killian, tão deslumbrado quanto ela, e sussurrou:
— Sabia que dá para ver cinco estados daqui?
Os dois “turistaram” por um tempo e quando menos esperavam, foram surpreendidos por uma voz às suas costas:
— Querem que eu tire uma foto, casal?
Os dois se viraram para ver quem era e a expressão de Belle congelou no rosto: o suposto Jefferson. Não havia a menor dúvida de que era o homem do vídeo, até a roupa era a mesma. Mas, apesar de poder facilmente se passar por um irmão do Chapeleiro, visto de perto, era nítido de que não se tratava da mesma pessoa.
— Tudo bem? – perguntou ele, ao notar a expressão da mulher.
— T-tudo. É que você me lembra muito um amigo.
Antes que a morena pudesse cair no choro, Killian passou o celular ao estraanho e puxou-a para um abraço. Eles forçaram um sorriso, o homem bateu a foto, ambos agradeceram e se dirigiram aos elevadores. Saíram do prédio e, quando estavam a uma distância segura, Belle se escondeu atrás de um poste e se livrou da barriga.
— Belle... – começou Killian assim que ela reapareceu, mas Belle apenas ergueu a mão para silenciá-lo.
A morena se dirigiu à escadaria mais próxima, sentou-se nos degraus, abraçou os próprios joelhos e começou a chorar copiosamente. Prontamente, Killian a envolveu nos braços e começou a lhe afagar os cabelos.
— Eu sinto muito, Belle.
— Como vou olhar na cara da Paige agora? – soluçou.
Ela fez menção de puxar os próprios cabelos, mas ele a impediu. Continuou a consolá-la por alguns minutos e, quando a morena pareceu se acalmar, levantou-se e pegou-a pela mão para que se levantasse também.
— Vou leva-la a um lugar que tenho certeza de que vai animá-la um pouco.
Naquele instante, passou um táxi e Killian fez sinal. Os dois adentraram o veículo, o pirata sussurrou o destino para o motorista e Belle sequer se deu ao trabalho de tentar ouvir, pois duvidava muito que qualquer coisa fosse capaz de animá-la no momento.
Alguns minutos depois, o taxista parou. Killian pagou, desceu do carro e foi abrir a porta para Belle. A mulher desembarcou com uma expressão indiferente que logo foi substituída por uma de choque ao se deparar com o edifício construído em estilo neoclássico e os dois imponentes leões em sua fachada toda em mármore branco: a Biblioteca Pública de Nova York.
— Como você...?
— O Henry me deixou uma lista de luares para te levar.
Ela ficou sem reação por alguns segundos, depois acabou abrindo um sorrisinho encabulado. Satisfeito, o pirata sorriu de volta e lhe estendeu a mão para que adentrassem o local.
Quando o cheiro dos cinquenta milhões de livros invadiu as narinas de Belle, ela precisou se controlar para não sair rodopiando pelos corredores como uma verdadeira princesa Disney. Como um pai que solta a cria no parquinho, Killian encostou num canto e observou de longe enquanto ela se embrenhava nos corredores e salas de leitura.
Acho que morri e fui para o céu, pensou a bibliotecária, suspirando diante de uma compilação de mitos gregos de capa dura que devia ter mais de mil páginas. Logo em seguida, aproximou-se de um livro igualmente grosso contendo a obra completa de Shakespeare. Deus, vou ter um orgasmo literário!, concluiu mentalmente com as pernas bambas diante de coleções de Victor Hugo e Jane Austen.
Após três horas se deliciando, localizou Killian absorto na leitura de Oscar Wilde e, com um sorriso orgulhoso, foi até ele. Assim que a viu se aproximando, fechou cuidadosamente o livro e perguntou, olhando-a:
— Pronta para ir?
— Já que não posso morar aqui... – deu de ombros.
— Posso te levar a mais um lugar?
— A quantos quiser.
Com um sorriso triunfante, ele a pegou pela mão e os dois saíram da biblioteca.
*~*~*
— E então? – perguntou um ofegante Killian, após terem pegado a balsa para a Liberty Island e subido trezentos degraus até a coroa da Estátua da Liberdade.
— Isso é incrível! – exclamou, olhando ao redor.
Depois de dar uma volta e tirar algumas fotos, voltou para o lado de Killian e segurou uma das mãos dele entre as suas.
— Obrigada, Killian.
Ele levou a mão livre ao delicado rosto da morena e lhe afagou suavemente o queixo com o polegar.
— Não precisa agradecer. Tudo que eu quero é te ver feliz.
Seu tom e sua expressão eram tão carinhosos e sinceros que, sem pensar duas vezes, Belle ficou nas pontas dos pés, jogou os braços ao redor do pescoço de Killian e levou seus lábios aos dele. Mais do que depressa, o pirata a envolveu pela cintura e recebeu de muitíssimo bom grado os lábios dela, dando início a um beijo lento e caloroso.
Os dois permaneceram trocando beijos e carícias por alguns minutos, mal parando para respirar. Somente ao puxá-la pela cintura de uma maneira quase obscena, Killian findou o beijo e sussurrou, roçando os lábios nos dela:
— Para onde quer ir agora?
— Jolly Roger – sussurrou de volta, ofegante.
No caminho até o porto, os dois ficaram abraçados no banco de trás do táxi, trocando beijos castos e afagos inocentes, mas era visível que ambos ardiam por dentro. Deixaram o taxista ficar com o troco, saltaram do carro e só pararam de correr ao chegarem à cabine do capitão.
Belle deitou-se ligeiramente trêmula sobre a espaçosa cama. Fugira daquilo por tanto tempo que até se esquecera do quanto o desejava. Seu corpo reagia de maneira extraordinária a cada mínimo toque de Killian. Sua pele e seus lábios ansiavam por cada toque e cada beijo do pirata, sua respiração estava irregular, seus pelos eriçados e seu coração batia tão forte que parecia capaz de rasgar seu peito a qualquer momento.
Killian, que acabara de jogar o vestido da morena para o lado, debruçou-se sobre ela, mantendo certa distância para admirá-la, depois olhou-a nos olhos e disse:
— Eu te amo.
Ela sorriu de orelha a orelha, afagou-lhe suavemente o rosto e, antes de puxá-lo de volta para si, respondeu:
— Eu também.
*~*~*
Na manhã seguinte, Killian sorriu antes mesmo de abrir os olhos. Aliás, nem queria abrí-los, uma vez que tivera o melhor sonho de sua vida. De repente, um pequeno — e gloriosamente nu — corpo se mexeu ao lado dele e o fez perceber que não fora sonho. Ainda de olhos fechados, aconchegou-se junto à Belle e foi surpreendido por sua voz sonolenta:
— Já está acordado ou foi só uma parte do seu corpo que despertou?
Pior que ela tinha razão.
— Linguinha ferina trabalhando logo cedo!
— Você ainda nem a viu trabalhando de verdade – respondeu com um sorrisinho pervertido e rolou para cima dele.
— Então me mostra!
Passaram a manhã inteira rolando na cama e só criaram coragem para levantar quase na hora de almoçar. Tomaram banho, se vestiram e decidiram ir a um restaurante chinês não muito longe dali.
— Para onde agora, madame? – perguntou ele enquanto pagavam a conta.
— Storybrooke. Não é porque minha missão fracassou aqui que vou abandoná-la.
— Sabia que diria isso – o pirata sorriu e ofereceu o braço a ela.
A morena estava prestes a entrelaçar seu braço ao dele quando algo lhe chamou a atenção: uma fina camada de fumaça arroxeada, concentrada numa pequena nuvem a alguns metros de onde estavam. As pessoas que passavam por ali, pareciam nem fazer ideia de que havia algo anormal no ambiente.
— Tem algo errado aqui – comentou, avançando a passos rápidos em direção à nuvem.
— Belle, espera!
Ela ignorou o apelo de Killian e, no instante seguinte seu corpo ricocheteou como se tivesse batido numa parede invisível e a estranha fumaça se dissolveu ao seu redor. A mulher pareceu desorientada e Killian correu para ampará-la.
— Belle, você está bem?
Por um segundo, ela o olhou como se não o reconhecesse e, em seguida, revirou os olhos e bufou:
— Amigo, quantas vezes vou ter que te falar que meu nome é Lacey?
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