O Colapso de um Lobo

1 O Colapso de um Lobo


Vi o lobo abatido. Velho e manco caminhando para um lugar afastado, excluindo-se da matilha, renunciando a vida. Não era mais capaz de caçar. Se resumia a rosnar.

Rosnava para os desgostos da vida; para os desagradáveis que lhe cumprimentavam na rua, para a lua, para o sol.

Ele andava pela sala como um homem vagando no escuro, não sabia onde estava ou se enxergava coisa alguma. Tinha no rosto o sorriso de um louco, os olhos azuis vazios e sem brilho revelavam a beira de um colapso.

Deus brincava com seu desespero, ele me contou; a corda arrebentou, a arma travou, alguém o salvou.

Seus brandos e choros se misturavam com risos. Me retraio, meus olhos procuram a porta. Nunca presenciei um colapso antes. Temi que seus estilhaços me atingissem como dardos, envenenando-me com sua loucura.

“Talvez seja um sinal” eu disse.

“Não, meu amor... É uma piada,” ele me contou; agachei-me ao seu lado e tentei, em inútil desespero, juntar seus pedaços ali caídos no chão “e a moral... é que eu já estou morto”.

Seus olhos me encontraram e seu sorriso cortou mais fundo que uma navalha, dividindo meu espírito em dois na esperança de que o outro pedaço o alcançasse, mas ele nunca chegou. Perdendo-se na escuridão; deixando-me pela metade.

Estava feito, pensei, enquanto o segurava em meus braços. Seus pedaços viravam pó em minhas mãos, seus restos consumidos em chamas. Algo se levantará das cinzas, mas o que eu não sei.

Só sei que o que eu tinha se foi e que agora me sinto a beira de um colapso.

Notas finais
E aí, o que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!