17 anos depois

Anika acordou com o típico som do despertador, olhou para o lado e bateu em cima dele para desligar. Laila estava ao seu lado como de costume ocupando boa parte do travesseiro branco, a gata dormia serenamente enquanto Anika tinha que se levantar para mais um dia cansativo. Seu corpo estava ainda dolorido pelo sonho desta noite, virou o pescoço várias vezes para ver se a dor passava, mas nada ajudava.

Sentiu um toque macio em seu braço e quando olhou para o lado Laila já estava em seu colo se espreguiçando e passando seu corpo dourado pelo de Anika.

— Dormiu bem meu amor? – Disse para a gata que deu um pulo até o chão caindo graciosamente nas quatro patas. – Pelo menos alguém dormiu...

Anika se levantou com dificuldade e foi se arrastando para o banheiro onde fez sua higiene matinal e ficou um tempo se olhando no espelho, não sabia se o que via era o que eles queriam mesmo, se era apenas mais uma. Mas sabia que aqueles olhos azuis transformavam as pessoas, sabia que aquele cabelo negro dominava os seres humanos, pois um dia ela dominou.

Tinha que se preparar, pois teria um longo dia na academia de Luxemburgo e esse não seria outro dia em que se atrasaria. Prendeu os cabelos em um rabo alto e colocou o uniforme sem graça que a academia lhe força á usar.

No café a monotonia era a mesma de todos os dias, Laila a acompanhava tomando seu leite e Anika apenas tomava um café amargo que ela adorava. Virou para o lado e viu sua maleta marrom quase vomitando as provas que ainda tinha que corrigir. Depois do almoço eu corrijo... – Pensou enquanto olhava para o jornal do dia anterior que não leu.

— Olha Laila – Anika pega o jornal e o abre mostrando sua outra metade. – Cientista ganha prêmio por clonagem de animais em Luxemburgo. – A noticia era de primeira página e embaixo do enorme título tinha uma imagem de um homem que não chegava á ter 40.

Seus cabelos eram negros e desgrenhados que chagavam até quase bater nos ombros, seu rosto tinha uma palidez incomum e seus olhos se destacavam por serem tão escuros. Anika olhou aquela foto tentando entender o porquê dos cientistas sempre terem cara de louco, esse não era diferente, seu sorriso era um pouco perturbador e tinha um leve defeito nos seus dentes da frente onde um sobrepunha o outro e seu rosto era coberto por pequenas manchas claras. Anika admirou aquele homem por alguns minutos sem saber o motivo, talvez de orgulho, ou inveja...

— Parece que alguém está se dando bem neste país não é? – Laila notando o rosto tristonho vai até sua dona e lambe seu rosto deixando um fino brilho de baba, Anika passa as costas da mão no rosto e dá um sorriso bobo de agradecimento. – Um dia a gente consegue né querida? Um dia...

Olhou para o relógio de pulso e tomou o resto do café, pegou a maleta, deu um beijo em Laila e saiu de casa deixando a gata manhosa lá o dia todo. Sentiu o ar gelado daquele começo de inverno correr por todo o seu corpo, pegou em sua bolsa um cachecol que sempre carrega e colocou envolta do pescoço. Ao lado de sua casa tinha um beco fino onde guarda sua moto, escondida. Colocou o capacete e foi em direção á academia. Na rua muitos a atormentavam, o que mais odeia é dirigir, prefere ficar em casa deitada ou que á levem. Seu corpo ainda estava diferente por causa dessa noite, mas não é hora de pensar nisso, e sim em como ela iria explicar ao seu chefe aquele pequeno erro.

Parou no farol e aproveitou para olhar no espelho se estava tudo bem lá atrás, sempre teve um medo enorme de alguém batem em sua traseira, olhou para o lado e lá estava o idiota que quase á fez perder o emprego, Ethan. Seu pior aluno e ao mesmo tempo o aluno mais dedicado, como isso é possível?

Anika estava estressada só em ver aquele rosto perto dela, se ela não precisasse tanto desse emprego poderia muito bem sair e denunciar Ethan. Em segundos lembrou daquele momento torturante, a humilhação pública...

Ele corria pelo corredor da escola com o suor escorrendo pelo rosto enquanto Anika o observava da outra ponta se perguntando se ela o deixasse passar ou perguntaria qual é o problema, ele carregava uma pequena sacola nas mãos que estavam cobertas por uma luva.

Ethan olhava muitas vezes para trás, mas ninguém o perseguia, naquele corredor só restavam Anika e Ethan. Ela estava em frente á porta da secretaria pegando suas cosias no banco quando deixou sua maleta cair derrubando as provas e trabalhos. Quando foi pegar sentiu seu corpo sendo jogado ao chão com um chute, olhou para o lado e viu Ethan caído deixando que a sacola jogasse todo o seu conteúdo para fora.

— Isso são drogas Ethan? – Gritou Anika para o garoto que recolhia o produto rapidamente e colocava na sacola.

— Não... – Sua voz estava diferente, com uma força que Anika nunca tinha visto antes, deixou as folhas caírem no chão novamente e foi até ele.

— Claro que é, Ethan! Porque está com drogas nessa sacola? – Ela arrancou a sacola das mãos dele e o empurrou para o chão, abriu-a e observou cada um. Sua expressão era inexistente, não sabia mais o que dizer. Aquela academia tinha duas regras essenciais, as mais importantes, sexo e drogas são proibidos e sem conversa.

— Por favor Sra. Birdi, não é o que você está pensando – Ele começou a chorar e implorar de joelhos para ela que ainda estava surpresa pela atitude do garoto de correr com essa quantidade significativa de droga.

— Desculpe-me, mas terei que te entregar ao diretor da academia. – Ela foi em direção á porta da frente onde seu chefe estava, mas foi detida por uma mão que puxou seu tornozelo fazendo-a cair e a sacola novamente ir para o chão.

— Diretor! – Gritou Ethan. – Diretor!

Logo a porta se abre e Anika fica frente á frente á dois sapatos pretos brilhantes, um bate no chão repetidamente enquanto o outro fica parado. Seu chefe estava olhando para uma de suas professoras jogadas no chão segurando uma sacola de drogas.

— Diretor, desculpe gritar pelos seus corredores. Mas descobri uma coisa... – Ethan se levantou e com isso dando liberdade para que a moça se levantasse, ela pegou a sacola e entregou ao diretor cruzando os braços em seguida.

— Claro que descobriu não é Ethan? – Ela olhou sinicamente para o garoto que mantinha sua expressão de pena.

— Sim... Desculpe-me Sra. Birdi, mas terei que dizer.

— Desculpa? Desculpa porq...

— A Sra. Birdi está usando drogas. – Anika ficou sem reação pela mentira que interrompeu sua frase, seu chefe á olhou com uma raiva que quase era tocável, suas palavras não saiam mais da boca e seus braços já não estavam mais cruzados, e sim jogados ao lado do corpo sem força alguma.

— Como é? Senhor isso é mentira, eu nunca usaria drogas em toda a minha vida. – Ela tentava jogar as palavras para fora, mas faltava-lhe ar para isso.

— Senhorita Birdi, a maior regra dessa academia é mentiras tolerância zero.

— Achei que fosse sexo e drogas. – Falou o garoto com inocência.

— Também, mas mentiras para mim é bem pior. Por favor, Anika, na minha sala. Agora – Ele carregou a sacola na mão até que Anika entrou e fechou a porta atrás de si, pode ouvir a pequena risada de vitória de Ethan, o garoto que ela mais queria matar no momento.

— Senhor tem que acreditar em mim, na era eu que estava com essa sacola. – Ela se sentou na cadeira á frente da mesa de madeira e seu chefe jogou a sacola em uma das gavetas logo se sentando á sua frente.

— Acredito em você senhorita Birdi, essa sacola não é sua... – Ele apontou para a gaveta e ficou olhando profundamente para os olhos de Anika até pegar uma pequena caixa de papelão pequena e de dentro dela tirar uma sacola branca. – Mas essa é...

Anika ficou surpresa ao ver aquela sacola novamente, nunca imaginou vê-la novamente muito menos tão perto. Aquela sacola lhe causou grandes estragos se arrepende de cada um deles, apagou aquelas lembranças de sua mente de um jeito tão forte que nem mesmo se lembrava exatamente como foi, só se lembrava que teve um momento mais baixo do que o chão na sua vida, e ali na frente estava a prova, nas mãos do homem mais forte daquele prédio e aquele que podia mandar nela o quanto quiser.

Pegou aquela sacola das mãos dele com raiva e examinou o que ainda tinha sobrado daquelas drogas. Quase nada, talvez tenham caído quando jogou no lixo, outro erro que cometeu jogando aquela sacola num dos lixos da academia.

— Onde pegou isso? – Perguntou ela já ficando vermelha de raiva

— Uma aluna disse que á viu usando no banheiro... – Anika já estava pronta para levar aquela demissão perfeita no meio da cara. – Tem algo á responder?

— Isso não é meu... – Sussurrou ela, sabia que não poderia dizer, mas para proteger seu emprego faria qualquer coisa. – É... É do meu ex namorado.

— Seu namorado usa drogas? – Ele colocou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos pedindo mais informação

— Meu ex usava, e isso era um pouco do que ele me deu para entregar á outra pessoa, mas...

— Mas achou errado e resolveu jogar no lixo? — Ela não sabia o que dizer, seu ex dizia que se ela contasse para alguém ele saberia e a mataria... Ela guarda esse rancor á meses e o medo se infiltra em cada célula.

— Sim... Eu jamais usaria drogas em toda a minha vida. Jamais. – Ela levantou a cabeça um pouco mais mostrando sua atitude contra isso.

— Acredito... E acredito também que teremos que fazer um exame antidoping na senhorita.

— Claro... Não tem o porquê não.

Anika fez o exame e o diretor viu toda a verdade naquele sangue limpo e sem nenhum indício de drogas. Dias depois ela pegou Ethan usando drogas atrás da escola em um espaço aonde poucos vão por ser escuro e pequeno, mas Anika sempre ia lá para fumar um cigarro eletrônico da qual funcionava á vapor d'água.

Tentou não dizer nada e apenas sair dali como se nunca tivesse visto, voltou para a academia e continuou sua vida comum.

Chegou pouco antes do horário e para aproveitar o tempo foi para a biblioteca corrigir algumas provas, ás vezes ela pensa em desistir da Bioquímica e ir para outra área parecida, mas pensar em deixar todo esse trabalho á qual lutou duro para conseguir. Ela não consegue.

Passava a caneta com raiva por aquelas provas inúteis, ou melhor, as respostas inúteis. Olhava para o relógio e faltavam poucos minutos para bater o sinal de sua primeira aula, guardou as coisas na bolsa e viu um pequeno bilhete grudado na capa da sua apostila: Cuidado com o dia de hoje professora, muita coisa pode acontecer.

Anika engoliu em seco e pegou sua bolsa, em dois passos ouviu seu nome sendo dito em um sussurro. Olhou para trás, mas de nada encontrou, apenas aquelas prateleiras de madeira antigas cheias de livros empoeirados, continuou seu caminho que parecia aumentar á cada passo. Ouviu seu nome novamente, mas desta vez estava perto, muito perto. Correu, correu até bater em um aluno que por grande "sorte" que tinha, era Ethan.

— Me desculpa Ethan. – Disse ela se ajeitando e perceber estar envolta dos braços de Ethan que a segurou para não cair, olhou para o rosto dele e notou um sorriso sínico que não entendeu, mas teve medo.

— Calma professora, monstros não existem, apenas eu...

Ele a soltou e deixou que ela desmoronasse no chão, deixou-a ali caída e seguiu seu caminho rindo vitorioso. Anika sentiu um medo estranho, como se não fosse ele o motivo, e sim outra coisa, algo que está á sua espera.

Levantou e seguiu rumo á sua primeira aula, em todos os seus 45 minutos algo á torturava. O medo. Olhava o relógio á cada minuto esperando que o tempo passasse rápido, para que ela pudesse ir para casa e ficar lá, protegida junto com Laila.

De repente sente um cheiro de fumaça forte entrando em suas narinas, pela porta viu uma fina camada de fumaça cinza subir. Quando á abriu viu o fogo quase á tocando, gritou para todos da sala para que saíssem e corressem para fora do prédio.

— Droga, minha bolsa. – Resmungou. Voltou alguns passos até a sua mesa onde pegou os papéis rapidamente e enfiou em sua bolsa. Correu até a porta que se fechou contra a sua cara fazendo-a cair no chão.

Se levantou e tentou abrir a porta novamente, mas de nada adiantava. Seu ar estava faltando junto com suas forças, o calor aumentava ainda mais. Foi até a janela e não conseguiu abrir. Olhou para os vários alunos que saiam correndo para o estacionamento com as blusas no rosto. A fumaça saia de várias janelas na academia deixando uma grossa camada de ar cinza lá fora.

Tentou abrir a janela novamente, mas não conseguia. Pegou a cadeira mais próxima e jogou contra a janela que por sorte se quebrou deixando que seus cacos caíssem lá fora. Espero que não caia em ninguém – Pensou ela.

— Vai pular mesmo professora? – Ouviu a voz de seu querido aluno, Ethan, vindo de sua mesa. Mas lá não havia nada. Apenas grande parte da fumaça.

— Ethan?

— Vai mesmo pular? – Ela procurou por debaixo da mesa por alguém, mas aquilo era um pouco impossível, alguém estar escondido ali no meio de um incêndio. Olhou novamente para ver de onde vinha a voz dele e notou algo incomum grudado embaixo de sua cadeira, um rádio comunicador, pequeno e todo preto. – Percebe a altura de onde está? Terceiro andar professora. – Ela pegou aquele aparelho que estava grudado por uma fita isolante preta e apertou o botão vermelho lateral.

— Ethan, o que está fazendo? – Disse ela com a boca quase tocando o rádio, seu corpo já suava e sua voz estava falhada pela grande quantidade de fumaça que estava inalando.

— Vejo que encontrou o rádio. Bom, professora... Só estou fazendo um serviço. – Ele estava rindo através do rádio o que deixou Anika com medo e desesperada.

— Então vai me matar? – Ela hesitou em perguntar aquilo, ela não tinha o que fazer, ou encarava aquele fogo e morria em cinzas ou pulava do terceiro andar e morria pelo tombo. Ambos seriam uma morte lenta e dolorosa.

— Quem disse matar?

— Ethan, me tira daqui.

— Relaxa, os bombeiros estão vindo.

Anika estava passando mal, sua visão já não estava tão boa e sua respiração estava mais lenta. Seu corpo estava para cair no chão.

— Pode desmaiar agora.

Ela apagou.

Ethan sorria para si mesmo por de trás de uma árvore grande de onde observava a janela que Anika havia quebrado, olhou por seu binóculo para ver se ela havia desmaiado como esperava, estava na hora. Era aquela à hora para agir como seu chefe havia lhe falado.

Colocou uma roupa térmica que seu chefe mandou fazer justamente para esse plano e foi em direção ao prédio pela porta dos fundos para que ninguém o visse entrar. Colocou os utensílios dentro da roupa para proteger e abriu a porta. O calor estava quase que insuportável, mas se seu chefe estava certo, ele teria 10 minutos para fazer o combinado e sair dali.

Passou pelo fogo e subiu as escadas rapidamente até a sala onde Anika estava e entrou devagar para ver se ela estava mesmo desmaiada, viu os pés dela aparecendo por de trás da mesa dela, foi até lá pegou em seu pulso. Estava tudo ocorrendo como o planejado, ela ainda tinha pulso, mas por pouco tempo. Ouviu a sirene dos bombeiros chegando perto e tentou ser rápido. Pegou o isqueiro que seu chefe lhe deu, era branco e tinha as iniciais A.B. desenhadas em preto, pegou as mãos de Anika e passou pelo isqueiro deixando suas digitais no objeto, pegou o rádio comunicador que ainda estava na outra mão dela e correu. Correu até a biblioteca, o lugar onde o incêndio começou.

Entrou lá e viu que o fogo habitava mais forte onde estava, foi até o lugar onde seu chefe disse, a mesa onde Anika havia corrigido as provas e deixou o isqueiro cair naquele espaço, se jogou para trás vendo que uma prateleira estava para cair em sua cabeça, mas não foi tão rápido fazendo com que ela caísse em seu pé. Tentou tirar aquela madeira pesada de cima de si, mas seu corpo estava com quase todas as forças desgastadas. O calor aumentava mais e percebeu que sua roupa já não estava ajudando tanto. Chutou forte a prateleira fazendo-a se quebrar e conseguindo tirar seu pé que doía muito. Mancou até a porta por onde entrou, derramando lágrimas pelo seu pé que com certeza estava quebrado.

Vendo que os bombeiros estavam vindo em sua direção correu para o lado contrário que iria e se jogou no meio dos arbustos. Esperou que eles saíssem de seu campo de visão e correu até a vã que lhe esperava do outro lado da rua.

A porta se abriu e ele se jogou, antes que pudessem fechá-la o motorista deu partida e correu até o ponto de encontro. A vã era grande e dentro tinha apenas dois bancos que ficavam um de frente ao outro e uma caixa com aparelhos que usaram e

No caminho Ethan tirou a roupa e bebeu uma água. Seu colega de "trabalho" o vangloriava por ter conseguido completar a missão que lhe fora mandada. O motorista aperta o botão de um controle e o grande portão de ferro se abre dando passagem á vã.

Saem todos os três passageiros e todos entram por uma porta de metal barulhento, não vendo nada param de andar sendo atingidos por uma luz forte do balcão.

Estava vazio, várias portas por todas as paredes e andares circulavam o lugar, mas ninguém se mexia naquele meio. Á frente uma porta estava aberta e nela estava escrito em tinta preta Chefe da ordem. O motorista foi em direção á uma porta da esquerda e nela entrou sem dizer nada, seu colega olhou para Ethan e correu para a mesma porta que o motorista foi.

— Vem aqui Ethan! – Gritou alguém de detrás da porta aberta.

Ele andou rápido para não estressar seu chefe e quando chegou na porta o encontrou encostado na janela coberta por madeira deixando apenas algumas fendas de luz passar, ele fumava algo fedido que Ethan quase não agüentou.

— E ai? – Perguntou o homem. Ele tinha uma pose forte de machão, seu cabelo negro era bem jogado para trás e sua barba mal feita era seu charme, seus olhos eram negros, mas abafados pelo vermelho das drogas. Seu corpo também já estava um pouco acabado, estava mais magro e fraco, mas sua cabeça continuava erguida. Não era mais alto que Ethan, mas tinha a voz mais forte daquele espaço.

— Deu tudo certo James. – Disse Ethan ainda parado na porta.

— Ela ainda está viva certo? – Ele jogou o cigarro em um balde de água que estava ali perto e se sentou à mesa de metal que ficava á frente da porta.

— Sim senhor.

— Ótimo... Espero que agora essa vadia aprenda que não se pode estragar meus planos. – James colocou seus pés na mesa e acendeu um charuto desta vez.

— Mas James, ela apenas pegou um saco de drogas que nem tinha muito, a gente conseguia repor o que perdemos em menos de uma semana.

— O problema meu caro, é que não são apenas por aquelas míseras drogas. – Ele enfiou o charuto na boca e logo soltou uma forte fumaça marrom no ar

— Então porque fizemos isso com ela? – Ethan estava mesmo preocupado com sua professora, sempre foi um aluno ótimo e nunca de se envolver nesse tipo de trupe, mas a culpa disso foi seu irmão e o culpará ele até o inferno se possível.

— Acredite, Anika fez muito mais do que apenas pegar minhas drogas. Agora saia, tenho trabalho á fazer, e você tem que terminar o seu.

— Sim senhor.

Anika foi carregada sã e salva para fora da Academia que já não estava pegando fogo, um doas alunos avisaram que uma das professoras ainda estava lá dentro. Foi levada adormecida por uma ambulância até o pronto socorro mais próximo.

Acordou 12 horas depois deitada em uma maca recebendo oxigênio por aparelhos e com várias faixas no corpo, sua maca era rodeada por uma cortina alta que á separava de outros pacientes, ouvia alguns gemidos e algumas pessoas conversarem, mas as vozes pareciam longe, seu corpo ainda não estava naquele mundo. Uma hora estava ouvindo a voz de Ethan a mandando desmaiar e no outro estava num hospital.

Do nada a cortina se abre vagarosamente e Anika se assusta, a moça vestia um vestido branco, seu cabelo castanho estava preso num coque alto e seu corpo mostrava seus 40 anos, mostrava ter 4 filho ou mais. Pegou uma prancheta que ficava na ponta da cama e foi mais perto de Anika com um sorriso forçado no rosto.

— Está melhor querida? – Perguntou ela com sua voz fina

— Sim... Mas estou com sede. – Anika nunca gostou de hospital, mas sabia que estavam ali para ajudá-la, e estava protegida.

— Claro, daqui a pouco virá comida e bebida para você. Está á 12 horas sem comer, não sei como conseguiu. – A enfermeira deu uma leve risada e passou sua mão pela testa machucada de Anika. – Vejo que os curativos estão bem feitos, daqui a pouco teremos que refazê-los.

— O que houve?

— Queimaduras de segundo grau, sorte que a porta estava fechada, se não você nem estaria aqui agora minha florzinha – Aquela mulher tratava Anika como se fosse uma de suas filhas, o que era bom. Mas também fazia Anika querer se afastar de tanta graciosidade. A porta... Fechada... Ethan não queria mesma matá-la, mas então porque ele á prenderá lá?

— Tays, eles chegaram... – Uma enfermeira aparece sussurrando no ouvido da enfermeira que pelo jeito se chama Tays.

— Claro, já estou indo lá. – A moçinha saiu e Tays fez uma rápida anotação na prancheta deixando-a na cama, fechou a cortina dando antes uma piscadela para Anika.

Anika ficou ali, pensando, tentando entender do porquê daquilo ter acontecido á ela. Pensou também em quando tempo Laila estava sem comer, no mesmo momento em que fez aquela pergunta Laila pulou em seu colo mostrando seus pelos lisos e brilhantes.

— Laila, o que está fazendo aqui? – Anika perguntou á gata que se deitou no corpo magro da dona cochilando, com uma das mãos Anika fez carinho no corpo de Laila e fazendo ronronar.

— Eu a trouxe, chorou muito quando fui á sua casa. – Anika se assustou com o homem que apareceu á sua frente abrindo um pouco mais a cortina, não o conhecia, nunca o tinha visto antes, então porque entrou na sua casa?

Ele vestia um enorme sobretudo azul marinho e por debaixo um conjunto social simples, seus cabelos eram castanhos quase loiros e seus olhos verdes acabando em um castanho claro para combinar o cabelo. Seu corpo era bem estruturado e tinha um físico ótimo. Ao lado tinha um homem com o mesmo visual, mas seu físico era totalmente diferente, era gordo e baixo, seus cabelos eram bem vermelhos, um vermelho natural. Seu rosto era coberto por sardas e seus olhos eram bem mais verdes que o do outro.

Ambos estavam com as mãos dentro do bolso do sobretudo observando Anika passar sua mão pelo corpo da gata manhosa, ela tentou ignorá-los, mas como ignorar dois homens que invadiram sua casa?

— Porque foram á minha casa, e quem são vocês? – Anika perguntou já brava com tal atitudes deles que nem se quer se apresentaram.

— Oh claro, Senhorita Birdi, meu nome é Erik e esse é meu aprendiz David. Ambos somos da polícia do estado de Luxemburgo. – Disse o ruivo gordinho, ele tinha um charme na voz. Quem o visse sentiria um pouco de medo no começo, mas escutando sua voz e sua gentileza, perde esse medo. – Estamos investigando o incêndio da Academia.

— Sim e o que houve? O que minha casa tem haver com isso?

— Esperávamos que a senhorita respondesse. – Disse David se sentando em uma cadeira que puxou de outro espaço coberto por outra cortina

— Eu não sei de nada. – Respondeu ela, a gata parecia estar entendendo o que está acontecendo, pois se levantou e arqueou o corpo ameaçando os dois delegados com os dentes. – Calma Laila, eles não. – Laila foi para mais perto de sua dona e deitou ao seu lado ocupando um pouco do travesseiro, mas não tirando seus olhos raivosos dos dois homens.

— Senhorita Birdi, esteve na biblioteca antes do incêndio? – Perguntou Erik pegando seu celular que era do tamanho de um tablet e levou para mais perto do rosto de Anika que percebeu estar sendo gravada, sua voz pelo menos.

— Sim, estive. Estava corrigindo provas. – Anika começou a ficar com certo medo das perguntas que viriam á seguir, sabia que estava numa enroscada que nem mesmo deveria estar.

— Bom, encontramos isso no local onde você estava "corrigindo" as provas – David pegou o isqueiro branco com as iniciais A.B. que fora deixado na biblioteca, e logo fazendo aspas com o dedo na palavra "corrigindo".

— Não reconheço esse isqueiro, eu nem mesmo fumo. – Anika estava achando interessante o modo como tudo estava contra ela esses últimos meses, primeiro seu namorado á larga, depois quase perde o emprego, e agora é acusada por incendiar o trabalho de sua vida.

— Não fuma? – Perguntou Erik, logo puxou o celular para perto de si e tocou o dedo pela tela de touch screen. – Esses vídeos foram feitos por uma das câmeras de segurança da Academia. – Ele mostrou um vídeo em preto e branco para Anika onde ela pegou o cigarro eletrônico e encostou-se à parede daquele beco escuro fumando vapor d'água. Dois passos mais para dentro do beco e aquela imagem não existiria, talvez seja por isso que não estão acusando Ethan de usar drogas, ele não foi pego pela câmera que ela nem sabia que existia.

— Esse cigarro não é de verdade... Ele é eletrônico, podem ver na minha bolsa, só tem um e funciona á vapor d'água.

— Mas é claro, colocamos essa probabilidade, e com isso fomos ver sua bolsa.

— E achamos isso – David pegou uma caixa de cigarro onde nela continha apenas três maços, Anika ficou surpresa, com certeza alguém estava a incriminando. Alguém cujo o motivo seja o mais perfeito.

— Isso não é meu.

— Não é? – Erik fez uma cara de confusão e ao mesmo tempo sínico, ela teria que inventar alguma desculpa. Se falasse sobre James á alguém poderia até ser morta, nunca se sabe em quem confiar quando se fala em James West.

— Não... Eu estava guardando para uma amiga, ela não podia ser pega fumando então eu estou ajudando-a á parar.

— Então pegou o isqueiro e acendeu mais da metade da caixa para que ela não fumasse? – Erik mantinha a expressão sínica no rosto.

— Não, eu nunca fumei.

— Senhorita Birdi, não quero acusá-la tão diretamente. É melhor assumir.

— Mas não fui eu! Eu fiquei presa na sala durante o incêndio, eu poderia ter morrido. Um aluno idiota me prendeu lá para "levar uma lição". Talvez por ter dado nota baixa á ele, não sei. Mas eu quase morri asfixiada e vocês me acusam por ter incendiado um prédio inteiro? Que tipo de louco bota fogo num lugar e fica lá dentro? – Anika gritou com raiva fazendo muitas enfermeiras parecerem pedindo silencio, ela queria sair daquela discussão idiota o mais rápido possível, Laila foi ao chão com a raiva que a dona expelia pelos poros.

— Anika, pedimos que fale mais baixo para não acordar o resto dos pacientes. – Pediu Tays, Anika assentiu e logo a enfermeira saiu com suas colegas para longe.

— Me desculpa, mas tenho provas mais que concretas de que foi a senhorita que incendiou. Encontramos em sua casa maços de cigarro desta mesma marca com sua saliva neles, encontramos suas digitais nesse isqueiro e ficamos sabendo que a Academia não á pagou esse mês por causa de um incidente com drogas. – Erik chegou mais perto e colocou as mãos na calça social não mudando seu tom de voz deixando Anika ainda mais brava

— Eu estava denunciando alguém por usar drogas e eu sou punida. Isso é injusto.

— Realmente, parece injusto. Mas seu chefe nos contou que teve uma pequena discussão com a secretaria por causa disso. E dinheiro, neste mundo, vale muito.

— No meu estilo de vida sim, mas não é por isso que eu botaria fogo numa Academia inteira. Eu amo aquele lugar, batalhei muito para conseguir, porque estragaria minha própria vida?

— Não sabemos, responda você. – David até agora estava quieto quase dormindo na cadeira e deu suas palavras, mostrava estar um pouco impaciente e cansado.

— Quero meu advogado, apenas digo isso.

— Concordo, irá precisar. – Erik saiu pela cortina deixando ela e David ali, ele abaixou a cabeça e logo se levantou.

— Nunca pensei que isso seria tão chato, você podia facilitar não é? – Ele bateu forte o pé e saiu dali como uma criança que não ganhou doce. Anika não estava mesmo acreditando, chamou Laila que pulou para sua barriga, lambeu sua bochecha o que não fez Anika melhorar nada.

Estava em um caso perdido, James sabia exatamente o que fazer quando queria algo, e se ele quer colocá-la na cadeia, ele ia conseguir. Se ela não o denunciasse nunca sairia das grades. Mas talvez ficar no xadrez por 5 ou mais anos, seja melhor do que dormir o resto da vida no escuro da morte.

Dormiu novamente esperando acordar e estar tudo resolvido, mas não ia ser assim. Estava se preparando para o que viria a seguir, duras palavras de grandes pesos.

Uma semana depois tirou alta e saiu do hospital com sua gata e roupas que os policiais trouxeram para ela.

Chegou em casa e nada de a luz acender. Deve ter queimado – Pensou. Foi para o quarto e jogou as roupas na cama, passava a mão pelas paredes para não se perder. Por mais que as luzes das janelas entrassem, era pouco que ela enxergava por causa do inverno que deixava o céu mais escuro.

Foi até a cozinha pegar um copo d'água e chegando à sala o deixa cair.

— Olá, Anika... Que saudade.

— James?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.