O Clã de Descendentes - A Ascensão da Magia
11 Predadores e Presas
Notas iniciais

Merlin corria na direção da colina de onde haviam vindo. Era uma cena bem engraçada, pois ele era um homem já idoso com uma blusa abotoada azul com flores amarelas, óculos escuros e usava também bermudas. Atrás dele iam os três humanos, as fadas e o Gênio. Merlin subiu o Glastonbury Tor e ao chegar na coluna de pedras redonda icônica lançou um feitiço. Todos puderam ver os raios de energia saindo de suas mãos e pareceram tocar na coluna de pedra e rebater para todas as direções.
— O que você fez? — perguntou Amanda se esticando após subir o monte.
— Um feitiço de proteção. Vamos precisar ficar ocultos de toda a cidade para treinar por aqui — disse Merlin que estava muito empolgado.
— E por onde vamos começar? Não me preparei pra isso... — disse Bernardo cruzando os braços — já é noite... Não é melhor esperarmos até amanhã?
— Ora meu jovem, pergunte para o próximo lobo que vier lhe perturbar em seus sonhos se ele virá amanhã. Sabe o que ele lhe responderia? — fez uma pausa — Nada! Ele só iria se alimentar de seus medos até você se corroer.
— Um pouco dramático não? — Sussurrou Primavera para Flora
.
— Os métodos de Merlin... Fazer o que? — Disse Flora de volta.
Merlin abriu sua maleta e de lá um livro saltou para suas mãos.
— Hm... Primeiramente... Leitura, acho que todos possuem... Mas eu não os li ainda.
Se dirigiu até cada um deles. Ajeitou seus óculos os colocando mais próximos da ponta do nariz fitando primeiramente Amanda nos olhos.
— Você canta não é mesmo? Tem medo de altura? Não deveria... Bem... Você vai ser uma guerreira formidável... Claro, se houver algum treinamento.
Amanda tentava desviar o olhar, mas os olhos de Merlin eram cada vez mais penetrantes.
— Você tem um bom coração garota. Não vejo alguém assim desde... Ah! Fazem tantos anos! Pois bem, agora o outro — disse Merlin passando para Khalil — Diferente... Diferente da Amanda. Você é mais divertido, desculpe Amanda, mas é muito ingênuo, desculpe garoto. Com o tempo você será um grande herói assim como o Aladdin foi.
O Gênio sorriu.
— E esqueça esse passado de vez! Grandes heróis tem grandes histórias para contar — Khalil sorriu — Agora o próximo... — disse passando para Bernardo que não se mostrava animado com aquilo e achava bastante invasivo — Dane-se o que você pensa... Não é nada invasivo.
— É bastante.
— Como se você tivesse muito o que esconder... Passou a vida no escritório e não confia nos outros. Na verdade não confia em mim. É cético e não acredita em nada do que falamos de primeira... Também é muito crítico.
Todos olhavam para Bernardo que estava se sentindo bastante incomodado com as críticas de Merlin.
— Que são para seu próprio bem... As minhas críticas no caso... Até porque garoto é isso que faz um bom feiticeiro — disse Merlin piscando e se dirigindo a sua bolsa — Mas voltemos... Vocês sabem usar uma espada?
Todos se entreolharam.
— Sei usar armas... — Disse Bernardo.
— Eu já esfaqueei um cara... — Disse Khalil.
Bernardo e Amanda o olharam assustados.
— Uma vez só... — emendou o jovem.
— Santa Afrodite o que ensinam nas escolas hoje em dia?! Peguem!
Merlin estalou os dedos e no ar surgiram três espadas de madeira que caíram lentamente aos pés de cada um deles.
— Sabem usá-las?
— Eu fazia esgrima na escola, acho que sei — disse Amanda enquanto realizava alguns golpes contra o ar.
Bernardo pegou a espada e a olhou de cima para baixo. Visivelmente não entendia o que fazer com aquilo.
— Eu não faço a menor ideia do que fazer. Então que tal a próxima lição?
Merlin revirou os olhos com desdém.
— Se você não sabe é razão para aprender. Se pulássemos para o que você já sabe qual seria o ganho com isso? Vamos rapaz. Venha você e a moça.
— Essa eu quero ver. — Disse Khalil cruzando os braços.
Bernardo se colocou de frente para Amanda. Ambos estenderam as espadas. Amanda separou as pernas entrando em posição defensiva. Bernardo a copiou, ao que a menina vibrando a espada pelo ar bateu na sua canela e o jovem caiu com as costas no chão.
— Você facilitou demais. — Disse ela sorrindo enquanto estendia a mão pra ele. Bernardo, porém era bastante orgulhoso e recusou a ajuda. Os outros riam de sua condição enquanto ele tentava se levantar.
Mais uma vez ambos se colocaram na frente um do outro. Amanda que sempre aparentara ser frágil agora parecia uma verdadeira guerreira. Quando o novo round começou, seus movimentos eram belíssimos e a espada parecia uma extensão de seu corpo. Era confiante e determinada como uma verdadeira espadachim. Todos agora podiam ver que lutava tão bem quanto cantava e desviava tão bem quanto dançava no palco de seus shows.
Derrubou Bernardo mais uma, duas, três vezes. Na terceira vez estava completamente suada e sorria. Os cabelos castanhos com as mechas azuis e rosas caíam pelos ombros. Sua respiração ofegante e semblante focado lhe davam uma aparência voraz, mas ao mesmo tempo muito sedutora. Era uma jovem belíssima e Bernardo já havia reparado nisso, mas naquele momento nem mesmo a beleza dela falava mais alto que seu ego ferido e tentando se vingar da moça catou um punhado de terra e jogou no seu rosto tentando cegá-la. Amanda prontamente desviou do golpe astuto e com um chute acertou o jovem na barriga enquanto este ainda se levantava.
— Isso não vale! — Disse ela irada enquanto ajeitava os cabelos.
— Isso é uma guerra... Vale tudo. — Disse Bernardo tentando se levantar.
— Parem de brigar, somos todos adultos aqui. — Cortou rispidamente Merlin — Os dois, voltem para o escritório. A lição vai continuar com Khalil.
Já estava tarde quando Amanda e Bernardo voltavam para o escritório. As fadas se ofereceram para os acompanhar, mas os dois estavam tão irritados pelo que acontecera que preferiram ir sozinhos. Ao longo do caminho não falavam uma só palavra. Amanda ainda limpava o cabelo com medo de haver restos de terra e Bernardo massageava o braço por conta dos movimentos cansativos. O jovem também estava com os lábios cortados e os lambia constantemente.
— Isso não vai ajudar. — Disse Amanda quebrando o silêncio — só vai deixá-los mais ressecados.
— O que?
— Seus lábios.
Bernardo voltou o olhar para a estrada e continuou com a expressão fechada.
— Sério? Qual é cara, eu to tentando te ajudar. — Disse Amanda indignada com sua atitude.
— Nunca pedi a sua ajuda, pra nada na verdade. Nem pra acreditar nessa droga de magia toda rolando à nossa volta, nem pra sair de deserto algum, nem pra brincar de espadachim. Pra nada. Então por que você continua?! Será que não consegue só ficar quieta e me deixar com os meus problemas por um minuto?!
Amanda até aquele momento olhava para ele.
— Eu só estava tentando ser sua amiga. — Disse a garota olhando para o chão enquanto os dois andavam — Não é nada demais.
Bernardo percebendo sua grosseria tentou se retratar:
— Olha... Eu só estou de cabeça cheia e...
— Aí é que ta! Você sempre está de cabeça cheia! Você é grosso sem motivos, você é pessimista ao extremo, você está sempre sendo um babaca com todo mundo! E você despreza a única pessoa que não está ligada a você por um juramento. O mais estranho é que eu continuo tentando tirar algo de bom de você, mas não sai! — Amanda fez uma pausa — E o mais engraçado de tudo isso é que você realmente não entendia como era parente da Fera. Se ele foi igual ao que a gente sabe das histórias, você ainda é o mesmo monstro que ela era.
Amanda apertou o passo e continuou seguindo o caminho. Bernardo se espantou com as palavras de Amanda que o fizeram se sentir muito mal. Pensou em dizer algo, mas nada do que ele dissesse faria com que ela o ouvisse naquele momento. Continuou o caminho há alguns metros de distância de Amanda, até que ambos ouviram um estranho sussurro.
— Você ouviu isso? — perguntou Amanda se virando para ele.
Bernardo fez um gesto como se pedisse silêncio. Amanda voltou para perto dele e ambos olhavam em volta tentando saber de onde viria o sussurro. Decidiram se esconder atrás de uma cerca com uma moita de maneira que pudessem ver a estrada sem serem notados. Algum tempo depois souberam de quem havia vindo a voz.
“Eles estavam aqui agora! Eu juro!” disse uma voz sombria, no que outra respondeu “Continue procurando por eles! Não podemos perdê-la de vista”. Então viram as sombras das criaturas se movimentando pela parede, aparentavam ser um cavalo e um lobo, ambos sombrios e deformados. Sempre que passavam pelas paredes era como se o som de almas gritando os acompanhasse. Bernardo e Amanda continuaram escondidos até que os dois seres das trevas estivessem longe o suficiente.
— Foi exatamente como o lobo que eu vi naquela outra noite! — Disse Amanda — A gente precisa avisar aos outros o mais rápido possível.
***
Merlin terminava de explicar a Khalil como usar corretamente a faca quando Bernardo e Amanda chegaram de volta ao monte em que estavam. As fadas vieram ao encontro dos dois ao perceberem que estavam muito perturbados.
— O que houve? Falem logo! — Disse Flora.
— Nós estávamos voltando quando dois Seres das Sombras apareceram... Eles estavam procurando pela Amanda eu creio. — Disse Bernardo ainda respirando com dificuldade.
— Por que eles estariam procurando Amanda? — Perguntou o Gênio.
— Não sei, eles disseram que não poderiam “perdê-la” de vista... Só eu estava com Bernardo ali — respondeu Amanda.
— Pra que lado eles foram?! — perguntou Merlin desconfiado.
— Eles iam em direção do seu escritório. — respondeu Bernardo.
— Essa não! Eles não estão procurando Amanda! — gritou Merlin enquanto pegava a mala e já se colocava a correr.
— Então o que é?! — gritou Amanda que corria logo atrás.
— A espada! Eles querem a espada de Arthur! — Gritou Arquimedes que estava empoleirado nos ombros de Merlin.
Todos correram de volta ao escritório de Merlin na tentativa de alcançar os demônios. Quando chegaram ao antiquário, porém, encontraram tudo do mesmo jeito. Merlin olhou em todos os cantos na tentativa falha de encontrar algum. Acendeu as luzes, pois sabia que a luz queimaria os corpos dos seres. Foi quando de um pequeno buraco na parede saíram as duas criaturas sombrias. Elas gritavam enquanto suas sombras corriam pela sala. O som de almas condenadas enchia o salão e causava uma sensação perturbadora sobre todos.
Os sete se colocaram ao centro da sala esperando um comando de Merlin, mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa as sombras queimaram ecoando um último grito de pânico. Amanda estava com o coração na boca, as fadas com seus olhos arregalados e Merlin cada vez mais preocupado.
— Elas estão ficando mais fortes. Demoraram muito para queimar. — Disse Merlin ainda sério — Vamos descer ao meu escritório. Precisamos nos proteger.
Desceram a escada atrás do balcão e chegando novamente ao escritório tentaram ordenar os pensamentos.
— Merlin, você disse que estavam atrás de uma espada... — perguntou a Madrinha.
— Sim, a espada de Arthur.
— Onde ela está? — perguntou Khalil.
— Desculpem, mas não posso mostrá-la... É mais seguro assim, mas fiquem calmos, ela não está aqui.
— Por que eles querem a espada? — perguntou Bernardo.
— Boa pergunta rapaz, eu não faço a menor ideia.
— Então como sabe que a queriam? — continuou Bernardo incessante.
— Já tentaram pegá-la mais de uma vez... Depois que Arthur morreu eu me afastei totalmente de seus descendentes. É um tanto solitário e triste ser eterno em um mundo onde todos morrem. Decidi voltar para a Inglaterra algum tempo depois e a única coisa que me sobrou de memórias de Arthur foi Excalibur. Até então eu a guardo, mas por algum motivo que desconheço, esses seres das trevas tentam de tempos em tempos a tomar.
— Eu acho que a espada é encantada, mas esse velho teimoso não acredita.
— Ora Arquimedes, como não? Eu mesmo a encantei não se lembra?
— Você a encantou para que ela ficasse presa à pedra, eu estou falando de magia verdadeira.
— Está chamando minha magia de falsa?! — Exclamou Merlin revoltado com a audácia.
— Como se precisasse falar algo... — Sussurrou o Gênio.
— Como se atrevem os dois?! Eu...
— Senhores! Parem já com essas brigas inúteis! — Gritou Flora — Elas só nos atrasam. Proponho que todos durmam e amanhã pela manhã continuaremos as lições. Os três jovens não vão aprender a lutar ou qualquer outra coisa sozinhos.
Merlin reclamou entre dentes. Levantou os braços e estalando os dedos fez surgir três portas diferentes no estúdio circular. Cada uma levava a um quarto onde dormiriam ele e Arquimedes, as fadas e Amanda e o Gênio, Bernardo e Khalil. Todos se recolheram e fecharam suas portas. Havia sido um dia exaustivo o que a essa altura já estava sendo bastante comum na vida de todos eles.
***
No dia seguinte todos acordaram bem cedo para voltar aos treinos no Glastonbury Tor. O clima entre o Gênio e Merlin ainda era o mesmo de competição, diferente de Amanda e Bernardo que não haviam sequer se cumprimentado a manhã inteira. A lição dessa manhã seria meditação, mas a aula que deveria trazer calmaria para todos os alunos estava gerando muitas dores de cabeça para todos.
Acontece que ao começar a aula Merlin colocara todos para meditar, o Gênio, porém lançou uma risada de canto, fosse para caçoar de Merlin, fosse por que era realmente uma criatura imprevisível que ria facilmente de tudo. O feiticeiro não gostou nada daquilo e ambos começaram a discutir, no que Khalil se intrometeu para separar os dois mágicos.
No meio de tudo aquilo Bernardo se levantou e ia dar uma volta. Quando Amanda também o cutucou com as palavras dizendo que como ele não conseguira meditar deixaria a aula. Ambos começaram a discutir quando Fauna se levantou para ser intermediadora. A cena era perturbadora, com todos gritando e pouco se fazendo a respeito, mas foi Madrinha quem deduziu o que estava havendo e que possivelmente cessaria as brigas.
— Parem todos! Não percebem?! — gritou a pobre fada quase inaudível ao passo que todos pararam para ouvi-la — As criaturas das trevas estão vindo e ficando mais fortes por que nós estamos as alimentando. Não que nossas brigas influenciem toda uma gama, mas se nós não nos unirmos elas prevalecerão sobre a nossa desunião. Me admiro todos vocês não terem pensado nisso.
Na verdade todos pensavam isso, mas a força das trevas é algo tão maligno que se infiltra nos corações e mentes das pessoas e as cega. Mesmo que saibam que estão sendo dominadas não se dão conta de quanto estrago suas atitudes fazem à sua volta.
— Podemos voltar à lição e tentar criar um espaço harmônico? — Perguntou Madrinha gastando suas esperanças.
Todos voltaram à meditação. Merlin prometera que a meditação os ajudaria a vencer o medo enquanto enfrentassem os Seres das Sombras. Ficaram em silêncio por bastante tempo e conseguiram bons resultados esvaziando suas mentes. Se mostravam muito mais focados nas outras tarefas que eram coisas como: técnicas de batalha, estratégia e também teoria de magia. Ficaram estudando por uma semana, acordando todos os dias bem cedo e indo dormir apenas quando tivessem atingido o máximo de esforço. Já o relacionamento entre eles continuava o mesmo. Gênio e Merlin continuavam trocando insultos quando podiam e Amanda e Bernardo não se falavam desde a outra vez, chegava a ser preocupante, pois por mais que o Gênio e Merlin brigassem não passavam de discussões bobas e alfinetadas sobre seus dons mágicos, logo já estavam novamente se falando novamente. Já Bernardo e Amanda transformaram a situação em algo tão pessoal que pareciam não considerar que um e outro existiam.
Temendo as proporções que aquele sentimento poderia tomar, Madrinha tentou conversar com Bernardo, para ver se arrancava do “enteado” uma resposta plausível. O encontrou ao pé da montanha após uma lição de batalha enquanto ele descansava longe de todos.
— Bernardo... Aconteceu algo entre você e Amanda?
— O que?
— Você e Amanda, até onde eu sei eram amigos, mas desde o dia em que encontramos os Seres das Sombras vocês estão bastante afastados.
— Não sei o que você está querendo dizer...
— Bem, vocês não se falam, não se cumprimentam, quando olham um para o outro o olhar de vocês se mostra bastante vazio. Isso me preocupa.
— Ah... — Suspirou o rapaz — Não se preocupe. Aconteceu algo estranho no caminho para o escritório há uma semana atrás e acredito que ambos não sabem lidar com isso.
— Bernardo — disse a fada muito atenciosa — Sei que é difícil, mas você ou ela precisam ajustar isso. As criaturas de quem tanto falamos são mais do que sombras, são mais do que simplesmente vencidas com a luz acesa. Não é porque vocês conhecem a magia branca que podem subestimar a magia negra. Quando uma sombra dessas se infiltra na sua alma é difícil sair. O Gênio levou dez mil anos, Lady Tremaine morreu carregando uma sombra em sua alma. Não deixe qualquer brecha de ódio, rancor ou inimizade aberta, pois esses seres farejam isso e é por aí que se infiltram.
Bernardo concordou com a cabeça e a fada segurou suas mãos.
— Você é bom querido. Só não sabe ainda. Não se martirize tanto, você merece estar aqui. Pode ser um desastre com a espada, mas não se preocupe, não é só a guerra que faz um príncipe.
A bondosa fada se levantou e lhe beijou a testa. Voltou para o agrupamento e deixou o jovem pensativo à beira do monte.
***
Ao anoitecer fizeram uma pausa antes do jantar. Khalil e o Gênio conversavam, Fauna cozinhava enquanto as outras fadas e Merlin relembravam bons momentos. Bernardo após pensar sobre suas atitudes à tarde percebeu que era o momento propício para se retratar com Amanda. Ele a chamou e saíram os dois do escritório se pondo a caminhar pela cidade.
A pequena vila era sempre parada. As pessoas eram bem simples e todas praticamente se conheciam. Geralmente cumprimentavam os heróis disfarçados enquanto passavam, mas agora já anoitecia e todos se recolhiam em suas casas. Bernardo e Amanda passaram pelas ruas quase desertas até chegarem a um pequeno lago. O trajeto havia sido estranho. Amanda perguntara pra onde iam uma vez, ao que Bernardo só respondeu que ela saberia quando chegassem. O lago para onde Bernardo a levou era próximo ao antiquário. Ao seu redor haviam algumas árvores e um banquinho onde poderiam se sentar para ver o horizonte. O crepúsculo dava uma tonalidade belíssima para o céu que naquele momento coloria com uma luz cálida o rosto dos dois.
— Por que me trouxe aqui? — perguntou Amanda.
— Eu quero me desculpar por aquela noite... As coisas que eu disse... Foram desnecessárias e eu queria que deixássemos para trás. Sempre fomos amigos e o que você disse é verdade: você é a única pessoa que realmente se importou comigo desde o início sem necessariamente precisar disso.
Bernardo a olhava nos olhos. Eram lindos olhos de cor lilás. Amanda o olhava, mas seu olhar era bem distante e quando Bernardo reparou, ficou bastante desconfortável.
— Tudo bem — disse ela.
— Somos amigos então? — perguntou ele.
— Somos.
— Tem certeza?
Amanda riu de canto baixando levemente a cabeça. Quando levantou o rosto sua expressão se tornara sombria.
— O que você quer Bernardo?
— Como assim?
— Você quer um beijo pra saber se estamos bem? Uma prova de amizade? Um aperto de mãos? — disse Amanda cada vez mais agressiva — A verdade é que eu ainda odeio você. Eu te odeio desde o dia em que nos conhecemos, porque você é sempre tão chato e coloca todos à sua volta pra baixo.
Bernardo começou a ficar abalado quando se lembrou do que a fada Madrinha dissera durante a tarde.
— Amanda, para! Eu sei que você não sente isso! São as sombras, elas estão te mudando.
— Me mudando? Essa é sua desculpa pra você sendo um pé no saco? Joga toda a culpa sobre seres das sombras, nossa, quando eu achava que você não seria mais ridículo você se supera. A culpa não é de sombras, você acha que pode ser um otário com as pessoas e pedir desculpas assim? Como se todos tivessem que aceitar o pedido de Vossa Alteza? Eu estou com raiva e eu vou continuar com raiva de você se eu quiser!
— Vê?! Você está agressiva desnecessariamente Amanda, estamos tentando fazer as pazes.
— Não fale de mim como se soubesse o que eu estou fazendo aqui! Eu só vim porque você me chamou! Eu não quero fazer as pazes droga! — Amanda agora estava gritando. Bernardo tentou segurar suas mãos.
— Eu estou cansada de você! E me larga!
— Calma Amanda. — Bernardo insistia em segurar suas mãos.
Amanda preparou um soco e acertou o rosto de Bernardo. O jovem, porém, conseguiu se equilibrar e conter os socos seguintes.
— Amanda, pare! Não deixem que eles te dominem.
— Eles já me dominaram! — gritou uma voz sombria que já não se assemelhava à de Amanda.
— Essa não! O que nós fizemos?
A garota continuava tentando acertá-lo, até que após um chute conseguiu derrubá-lo de costas. Quando Bernardo estava caído no chão, Amanda se colocou por cima dele prendendo seus braços e olhou nos olhos do jovem. Os olhos de Amanda agora estavam esverdeados e seu semblante cada vez mais obscuro, aproximando-se do ouvido dele, a garota sussurrou:
— Eu sei onde Excalibur está, estou indo pegá-la agora. Você vai dar meia volta e vai fingir que nada disso aconteceu. Se perguntarem onde estou, diga que vim colher flores... — finalizou a garota com um sorriso macabro.
Um brilho verde surgiu nos olhos de Bernardo por alguns segundos e então o rapaz se levantou e voltou pelo caminho de onde viera deixando Amanda à beira do lago desaparecendo nas sombras.
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