O Clã da Aljava de Ferro
1 Prólogo
Notas iniciais
Uma gota de suor escorreu pela face pálida do Professor Perys B. McGill. Sua respiração curta e descompassada precedia as constantes dores no abdômen imobilizado. A pele fragilizada de suas mãos ameaçava rasgar devido a pressão que as trancas de metal exerciam sobre ele. O ruído produzido por aquela máquina parecia uma canção mortal. Embora consciente, não conseguia esboçar qualquer reação paliativa. Começou a praguejar contra si mesmo por ter sido tão tolo.
Foram incontáveis os avisos de seus amigos de que trabalhar com Dr. Tireese Daemon não traria boas coisas. E de fato não trouxe. Ele era vingativo, traiçoeiro, incapaz de perdoar – segundo o que diziam os habitantes da cidade – mas o bom professor se negava a acreditar, vendo apenas a magnificência do intelecto de Tireese. A princípio, a união entre os dois cientistas mais famosos de Argshire prometia um futuro brilhante. Os maiores cérebros nos campos de saúde e tecnologia juntos realizaram inúmeras proezas e apresentaram melhorias para o mundo. Mas nem sempre as coisas saem do modo como foram planejadas. E a ganância humana nunca deixou de reinar os pensamentos de T. Daemon.
Perys roncou alto, a respiração difícil lhe fizera despertar dos devaneios recentes. Uma sombra do outro lado do aposento atraiu os olhos do professor, acompanhada de leves sons de passos. A silhueta lhe era familiar. De mais, a propósito. Seu coração disparou ao ver a figura se aproximar, quase tão afoita quanto ele.
–Owen?! — balbuciou ele incrédulo -O q-que faz aqui? Fuja!
O garoto de pouca idade chegou até ele, tateando com a mão esquerda sobre a máquina estranha, pensando uma maneira de retirá-la de cima do velho. Mas a única mão boa não tinha forças suficientes. Perys viu a frustração no rosto do garoto, e forçou um sorriso.
–Owen, tudo bem... — um de seus olhos fechou-se para conter a dor -não precisa se preocupar. Fuja!
–Eu não vou fugir! — bradou o menino entre lágrimas. Sua respiração tentava conter os sentimentos em erupção. -Eu não posso deixá-lo aqui!
O menino chamado Owen debruçou sobre a a máquina, procurando por alguma junção ou eixo que pudesse afrouxar para libertar o homem. E lá estava, oculto sobre um tampo de madeira. Ergueu-o e estudou uma maneira de soltar o parafuso que encontrara. Mas enquanto preparava a ação mentalmente, um barulho de porta se fechando no andar de baixo fez seu sistema sobrecarregar de adrenalina. Não havia mais tempo. Num esforço desesperado, segurou com a mão esquerda em um dos lados e puxou com o máximo de forças. Inútil. O barulho da madeira rangendo pelas pisaduras informava que alguém estava subindo. E quando uma sombra surgiu no alto da escada, Owen pulou para baixo da mesa mais próxima, torcendo para que não fosse pego. O novo visitante logo ganhou corpo e cabelo. Parou sob o batente da porta, encarando o professor indefeso preso junto à sua máquina mortífera.
Tireese Daemon usava o habitual terno cinza de risca de giz, gravata borboleta vermelha, relógio de ouro meia lua pendurado pelo bolso a fora e o chapéu coco em tons mais claros, decorado com a insígnia do Clã dos Ourives. Os olhos cinzentos fitaram a agonia do outro homem. A face pálida contraiu-se em um sorriso maléfico, as rugas tornando-se mais expressivas. Alisou o bigode grisalho aparado antes de começar a falar.
–E inútil. — disse ele andando lentamente até Perys.
–Tireese... por quê? — indagou o professor.
–Hahahaha! — a gargalhada era fria e desdenhosa -Você sabe o motivo, querido amigo.
Owen ouvia tudo de onde estava, tomando o máximo de cautela possível.
–Cretino miserável! — bradou Perys com o máximo de forças que tinha -Vai acabar destruído por sua própria cobiça!
–Isso jamais vai acontecer, eu não sou como você.
–Eu vou te impedir!
–Me impedir? — e outra gargalhada surgiu -Não importa o quanto você lute, sempre estará fadado ao fracasso, Perys. Lhe falta audácia. E isso eu tenho aos montes.
–Audácia que custou a vida do seu filho?
A reação foi instantânea. O rosto do velho professor fora socado com violência pelo punho feroz de Tireese. Sangue começou a sair do nariz recém quebrado, escorrendo e formando uma poça no chão. Os olhos tristes de Owen cintilaram em lágrimas. Ele queria pular ali e defender o amigo, mas era apenas uma criança, e nada poderia fazer contra um adulto poderoso como aquele. Respirou fundo tentando conter a agonia.
–Nunca mais... ouse falar nele, ENTENDEU? — berrou Tireese. Seus olhos estavam cobertos de cólera.
Perys tossiu em vermelho, enquanto seus pulmões clamavam em desespero por ar. O sangue escorrera pelo nariz, dificultando a respiração ainda mais. O outro homem percebeu e retirou um lenço do bolso, passando a limpar o rosto do professor sem nenhuma preocupação com a dor que causava.
–Me m-mate logo! — a voz rouca de Perys produzia bolhinhas no sangue derramado.
–Não, não, não! — dizia Tireese num tom quase infantil.
O garoto sentiu medo, assistindo a tudo de onde estava. Nunca vira Dr. Daemon daquele jeito. Seu estado era quase psicótico. A pele leitosa adquirira um tom vermelho não natural.
–Ainda não é hora de morrer! Você precisa viver para presenciar isso. Quero que me veja matá-lo já que ele veio até nós de tão boa vontade, certo Pequeno Owen?
O garoto arregalou os olhos no mesmo instante em que uma onda gélida percorreu seu corpo, eriçando os pelos. O coração disparou e as pernas ameaçaram tremer. Engoliu em seco e lentamente saiu de seu esconderijo improvisado. Perys debatia-se debilmente, inconformado com a situação.
–Não! — bradou.
–Cale a boca! — ordenou Tireese. Depois voltou-se para Owen. -A que devo o prazer da visita, rapazinho?
O menino encarou aquele adulto intimidador com o máximo de cautela possível. Ele não queria demonstrar medo, mas ainda sim era apenas uma formiga frente à um tamanduá, em termos de força e experiência.
–Deixe o professor em paz! Ele não merece o que você está fazendo com ele?
Tireese riu em deboche.
–Não merece? NÃO MERECE? QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA ME DIZER ESSAS COISAS, MOLEQUE?! — berrou ele, fazendo a têmpora saltar. Owen recuou.
–Rápido, fuja!
Antes que ambos pudessem esboçar qualquer reação, Tireese enfiou a mão nos bolsos, retirando um estranho artefato. Tinha o aspecto de uma arma, vários arcos de ferro intercalando-se em uma haste de metal, que prendia uma flecha de três pontas.
–Ninguém vai sair daqui! — o rosto do homem iluminou-se com um sorriso diabólico.
–Não pode ser... — disse Owen perplexo. -Você... foi você quem roubou a Trianam¹ do nosso arsenal! Traidor!
–Vocês traíram a si mesmos com essas ideologias fantasiosas. Eu só peguei o que era meu por direito.
–Já chega. — Owen estendeu o braço direito, apontando para o homem perverso. Uma flecha com a ponta gasta surgiu na extremidade.
Qualquer pessoa de fora estranharia. Aliás, diria que era mentira se não visse com seus próprios olhos. De que as terras de Argshire possuíam a melhor tecnologia existente não restava dúvidas. Mas daí a começar a criar organismos mecânicos? Era impossível. Mas não para Perys. O braço metálico, sem qualquer resquício de carne humana fazia pequenos estralos e zunidos enquanto aguardava parado no ar. Não era um simples membro autômato. Era uma arma de guerra.
–Hahahaha! — o riso debochado de Tireese saiu mais intenso dessa vez. -Guarde isso garoto. Crianças não devem brincar com coisas afiadas. — um momento de silêncio -Ande logo antes que eu perca a paciência de vez.
Owen respirou fundo e fechou os olhos. já havia decorado o ambiente em sua volta. A posição exata de cada item, utensílio, mobília. Os cálculos começaram. Sua mente fervilhava, os olhos remexiam por baixo das pálpebras. “Cinquenta e dois.” Controlou a respiração de modo que quase não podia ser notada. “Cento e três. Duzentos e quinze”. O coração reduziu os batimentos. A concentração estava no ápice. “Quatrocentos e setenta e nove”. E abriu os olhos.
–Tem razão Sr. Daemon. Pessoas inexperientes não devem brincar com coisas afiadas.
Tudo aconteceu tão depressa que olhos humanos não seriam capazes de acompanhar. A flecha do braço autômato de Owen deslocou no ar velozmente, acertando um escudo no chão. Alterou a trajetória rumando para frente, deparando-se com um balde de metal logo a frente. Depois seguiu curso para cima antes de bater finalmente contra a luminária e ser arremetida em direção a máquina que prendia o velho Perys. A flecha acertou em cheio o naco de madeira que prendia o parafuso antes estudado pelo garoto. E então o eixo se soltou permitindo que o professor conseguisse empurrar a máquina para longe de si. Antes que Tireese pudesse esboçar qualquer reação, Owen já apontava uma nova flecha para ele.
–Acabou. — disse Perys ainda engasgado com o sangue, levantando-se com dificuldades.
O outro homem riu. Não havia medo em seus olhos. Sua face exibia satisfação.
–Tem razão velho amigo. Acabou...
Enfiou a mão no bolso direito, retirando um pequeno globo metálico, que brilhou intensamente em seguida. O professor arregalou os olhos, pois sabia o que estava por vir. E no passo em que o homem dava sua gargalhada final, agarrou Owen pelas vestes, jogando-o contra a janela afora. Os olhos muito azuis do menino cintilaram com o brilho da explosão, seu grito ecoando como um uivo desesperado. E então, tudo se fez silêncio.
Notas finais
---------
Obrigado por ler até aqui e fique a vontade para comentar, criticar, elogiar (melhor ainda) e dar sugestões.
--------------------
Acompanhe a saga também no facebook: http://www.facebook.com/AsCronicasDeRideeway
Visite nosso blog para mais informações e extras: http://ascronicasderideeway.blogspot.com
Fale com o autor