O Clã da Aljava de Ferro
3 2 - O Conselho Baldônico
Notas iniciais
Boa leitura a todos.
O SOL BRILHAVA MANSAMENTE NAQUELA MANHÃ NADA SINGULAR. Os raios de luz inundavam a saleta através da janela de vitrais coloridos, tocando os objetos de prata espalhados pelas prateleiras de madeira velha e alguns cupins em alguns pontos. Ele, observava tudo de longe.
A Clunk's & Co. era uma das lojas mais conhecidas em Argshire. Não por sua excepcional quantidade de vendas ou sua fachada bem cuidada, mas pela fama de galanteador que seu proprietário Stannislaw Clunk — cujo sobrenome dera nome ao lugar – conservava com um certo orgulho. Um homem de meia idade, barriga saliente, rosto avermelhado e bigodes curvos acentuados que fazia questão de alisar com a ponta dos dedos a cada mulher que encontrava, sem a menor preocupação.
Na ocasião, encarava uma dama de porte médio, gorda – dizia-se que gostava das gordas e novas –, vestido bufante em tons róseos (um tanto queimado nas bordas e completamente pálido na altura dos ombros), pregado, alguns itens indistintos pendurados. Tinha seios fartos o que fazia os olhos do homem correrem do rosto para o corpo com certa frequência.
–Está mui formosa hoje, Srta. Sinclair. — disse ele ajeitando o bigode.
–Oh, Sr. Clunk, o senhor é muito gentil. — respondeu ela corando de leve.
Uma sombra deslizou silenciosamente pela encosta de pedras, se escondendo atrás da lixeira mais próxima. Sua forma tornara-se visível. Um garoto de pouca idade, entre treze e quinze. Usava um casaco de astracã cor de caramelo, por cima de uma camisa branca sem botões, colete de couro, uma bolsa sem costura e cinto do mesmo material. Este exibia uma estranha figura na fivela, algo que lembrava uma flecha. Os olhos mantinham os dois adultos na mira, sem oscilar. Pelos cálculos e pela ação precisa, tudo daria certo. Retirou de dentro da bolsa marrom uma bola de pelos claros que, após algumas cutucadas, desdobrou-se em um rato de face miúda e olhos negros. Colocou-o gentilmente no chão e checou novamente o plano.
–Conto com você, Flitch. — disse o garoto com a voz meio rouca.
O pequeno animal pareceu ter entendido. Despertou do que parecera um breve cochilo e pôs-se a correr pela lateral da loja rente à parede, em direção oposta, contornando qualquer obstáculo no caminho. A medida que prosseguia, se aproximava do casal perdido numa conversa despreocupada.
–... e se você não acredita, eu posso te mostrar. — disse Stan Clunk num tom provocante.
–Sr. Clunk, eu acredito no senhor... — a mulher gorda parecia interessada – mas gostaria de ver mesmo assim.
–Por favor, me chame de Stan! — disse beijando a mão dela.
–Ah, sim. — a face converteu-se um tom mais avermelhado. — Stan.
O garoto empurrou a janela colorida gerando uma abertura suficiente para seu corpo magricela esgueirar-se para dentro da sala de estoque da loja. Agarrou com dificuldade a grade metálica e escorregou para o chão. Não era uma altura considerável mas para alguém como ele, deveria ser uma tarefa mais difícil. O chão de mármore fez um barulho seco quando seus pés o tocaram. Como que por instinto, buscou algo para ocultar sua presença ali, caso o som tenha se propagado até a frente da loja.
Flitch, o rato, estava para cumprir sua missão. Os olhinhos brilhantes fitaram o melhor ângulo para subir pelo vestido da dama e logo começou a ganhar altura. Em questão de tempo, tudo aconteceria. Dentro da loja, o garoto percorria a visão pelas prateleiras empoeiradas, como se procurasse por algo específico. Havia coisas de todos os tipos. Taças, bandejas, talheres, adornos de armamentos, seteiros, escudos e até mesmo estatuetas de seres estranhos, que ele nem fazia ideia do que eram. Mas quando seus olhos tão azuis como o céu em um dia de primavera repousaram sobre um quadro na parede, a sensação de ter encontrado um tesouro estampou sua face.
–Mas o que é... isso?
Na parede jazia uma moldura dourada (a única coisa não prateada ali) que comportava um recorte antigo do jornal O Folhetim. Apertou os olhos concentrando-se no que dizia. As letras em tinta negra já estavam velhas e descascadas em alguns pontos. Mesmo assim ele prosseguiu com a leitura.
DESCONHECIDO VENCE
ARCHBALDO NA PROVA DE ARCOS
Nesta atípica manhã de terça, os cidadãos de Argshire foram surpreendidos com uma cena rara. O famoso arqueiro Sebastian Archbaldo, cujos feitos são conhecidos até nas terras ocultas do norte, foi derrotado na competição de Arco Livre das regionais. O vencedor, que preferiu ser identificado apenas como “Clunk” nos presenteou com quatro acertos críticos perfeitos em sequência, contra três do atual campeão. Em sinal de esportismo, ambos cumprimentaram-se antes que o desconhecido deixasse Argshire, dez mil estauris mais rico. [...]
O garoto parou de ler. O restante não era tão interessante quanto aquele trecho. Releu o mesmo, atentando para a frase “preferiu ser identificado apenas como 'Clunk'”. Não era completamente óbvio, mas seu interior sabia que era Stan Clunk. Do contrário, qual seria o motivo de guardar aquele recorte de jornal?
Antes que ele pudesse pensar em mais alguma coisa, o grito desesperado da mulher chamou sua atenção. O pequeno rato finalmente fora reconhecido, ao passear pela gola do vestido. O escândalo só foi maior quando as mãos gordas do Sr. Clunk correram pelo corpo dela, tentando agarrar o animal, mas somente seu corpo era tocado. Ele desistiu quando o olhar dela tornou-se ameaçador. O rato percebeu que era hora de se retirar e saltou para o chão, parando à frente deles. Stan retirou os sapatos e os arremessou contra Flitch, mas nenhum acertou.
–Me desculpe Srta. Sinclair. Vou... — disse olhando para o fundo da loja, notando algo estranho. — Vou pegar uma vassoura.
A mulher continuava a gritar.
Dentro da saleta, o menino engoliu seco. Se não corresse dali seria descoberto. O problema era sair pelo mesmo lugar algo extremamente complicado para alguém como ele. Agarrou a moldura da parede, que deixou uma marca mais clara indicando que algo fora retirado, e colocou-a na bolsa de couro pendurada no pescoço. Em seguida, deslizou para o lado, ocultando-se entre duas prateleiras, momentos antes que o Sr. Clunk entrasse.
O homem macilento observou a sala, como se procurasse algo (não a vassoura). A sensação de que havia alguém ali era eminente. Andou alguns metros entre as pilhas de velharias empoeiradas. Então mirou na parede onde antes estava sua maior lembrança do passado e constatou sua ausência. O rosto enrubesceu-se, a têmpora marcou a fronte e os dentes rangeram. Pigarreou alto e rumou para a porta de acesso à sua residência. Stan Clunk morava nos fundos da casa, uma iniciativa para poupar dinheiro e tempo. Ele não gostava de andar ou fazer qualquer esforço, algo claramente visível em seu porte físico. Aquele era o momento de fugir. Ou não.
Quando os pés do menino ganharam o corredor, uma mão pesada o segurou pelos ombros. Pela primeira vez em semanas, Stan Clunk criara uma armadilha funcional, e agora poderia sentir o gosto da vingança.
–Não tão rápido, seu moleque! — disse ele virando o garoto para si.
–Me solte! — respondeu o menino se debatendo. — Tire essas mãos gordas de mim!
–Não vou perder essa chance, vou te dar a surra que você merece! — Stan exibia um sorrisinho de satisfação. — Acha que vai se livrar só por ser filho de quem é?
–Não preciso do meu pai... — respondeu o garoto com a voz rouca – eu sei me defender sozinho!
Com um solavanco, ele se livrou do homem deixando o casaco para trás enquanto corria para fora. Perto da porta, agarrou Flitch que observava a mulher se debater sem nenhum sentido, estando o animal longe dela. Em seguida galgou em direção a rua, tão rápido quanto seus pés conseguiam. A bolsa de couro batia contra seu peito balançando em múltiplas direções. Stan saiu disparado em perseguição contra o delinquente, mas ele era pesado e lento demais, não tinha forças nem velocidade. A medida em que a distância entre eles ia aumentando, o homem berrava por ajuda, na esperança de que alguém pudesse auxiliá-lo. E ele estava com sorte.
Um grupo militar passava por ali naquele momento. Quatro homens fortes, armados e com um ar de poucos amigos (como deveriam ser). Usavam o uniforme das forças reais de Argshire, sobretudo marrom e longas botas de couro. Os gritos de Stan chamaram a atenção e graças ao treinamento policial logo identificaram a situação, mesmo que parcialmente e atenderam ao chamado. O homem aflito que pedira por socorro já não corria mais, apenas indicava a direção em que o menino fugira. Logo atrás, a mulher atacada pelo rato vinha correndo, com o rosto tão vermelho quando o dele.
–Céus, o senhor está bem? — disse ela arfando.
–Sim, estou...
Stan curvou-se, apoiando as mãos sobre os joelhos. A respiração estava difícil. Mas nada superava o furor em seus olhos. Naquele momento, o que realmente importava é que aquele garoto pagasse pelo que fizera, não importava o quão importante fosse, ou seu nome representasse na sociedade. Ele era um ladrão e merecia ser punido. E de preferência, por suas mãos gordas.
–Foi a última vez... que aquele fedelho... invadiu a minha loja.
–Você o conhece? — indagou ela. Não houve chance de ver o rosto do menino quando passou por si.
–Todos conhecem. — disse ele reerguendo-se, a face exibindo a insatisfação. — Aquele é Owen Rideeway.
A Rua 32 estava apinhada de pessoas, todas ocupadas com suas vidas. O comércio exibia suas mercadorias, os consumidores passeavam pelas lojas, a maioria sem pretensões financeiras. A Casa de Penhores do Sr. Bishop anunciara uma oferta especial de troca para peças usadas. Mesmo assim, continuava quase vazia. Já a Bluberry Novos Costumes estava lotada. Segundo o que se dizia nas ruas, um carregamento novo de vestidos fazia a alegria das damas de Argshire. Tom Bradley mostrava orgulhoso sua coleção de rifles e seteiros, todos com preços exorbitantes. O setor urbano de Argshire era comumente pacífico. O índice criminal era mantido abaixo do esperado dado a cultura firme construída pelos antepassados e pelas mãos de ferro do xerife Gennor.
Eugène Cyrus Gennor, ou Cyrus Gennor como preferia ser chamado era um homem alto e forte, músculos salientes, cabelos pretos e olhos verdes intensos. Idade por volta dos quarenta e poucos anos. Temperamento sólido e quase imutável. Ocupava o cargo a quase oito anos e desde então mantinha a cidade em ordem, observando a tudo pela vidraça de sua sala, último andar da torre de vigia no centro. Naquela manhã, fora informado pelo rádio que um grupo estava em perseguição do “ladrão da loja Clunk”, como fora apelidado pelos guardas. Cyrus já o conhecia. E aguardava com certa ansiedade pela captura do menino.
A respiração estava descompassada. O ritmo com que o coração batia, acelerado. Os olhos azuis percorriam o ambiente com velocidade, esquadrinhando o caminho de modo que suas ações demorassem menos tempo. Fugir era sua especialidade, mas nunca houveram tantos guardas furiosos em seu encalço. Owen Rideeway fugia pela Rua Career, espiando pelos ombros a aproximação dos homens da lei. Ao fazer uma curva e entrar numa ruazinha estreita, que ganhava altura em relação ao próximo cruzamento, a bolsa bateu forte contra seu peito e dentro dela, Flitch guinchou, provavelmente por ter sido atingido pela moldura roubada de Stan Clunk.
–Desculpe... — ofegou enquanto saltava por sobre alguns caixotes no meio do caminho. Logo atrás, os guardas tentavam alcançá-lo, com armas em punho.
–Hei você, pare agora mesmo! — gritou um deles. Mas foi inútil. Owen não demonstrava sinais de que iria desistir de fugir.
–Pare ou não teremos opção! — berrou um outro logo atrás. Sem a resposta, ele retirou uma arma seteira do bolso e apontou contra o menino.
–Não acerte ele. — advertiu um dos guardas.
–Eu sei.
O dispositivo seteiro com ponta de meia-lua disparou uma flecha de metal veloz que rasgou o ar, passando a centímetros da cabeça de Owen e acertando a parede à seu lado. As lascas de concreto e pedra espelharam-se no ar em uma nuvem de poeira. O garoto deslizou para baixo, rolou pela rua descendo pela encosta gramada até chegar no telhado de uma loja de tecidos.
Pendurou com o braço esquerdo no cabo de aço que prendia uma barraca próxima e com um movimento rápido curvou-se no ar, chegando ao chão logo em seguida. Outra flecha disparada acertou o calçamento de pedras. Do alto da ruela os guardas ainda mantinham a perseguição. Owen voltou a correr no momento em que três dos quatro oficiais desceram a encosta em sua direção. O que ficara para trás enfiou a mão dentro da capa e retirou uma haste de ferro estranha. Apontou-a para frente e ela se estendeu dobrando de tamanho. Com um barulho seco, três arcos empilhados surgiram, ao mesmo tempo em que ele prendia na parte de baixo da arma um cartucho de munição. Então mirou no corpo do garoto e puxou o gatilho, resultando em disparos contínuos de flechas.
Seus pés saltavam de um lado para outro se esquivando dos ataques, cada vez mais próximos. Ficar em um lugar aberto o tornava um alvo fácil. Começou a pesar as opções, seu cérebro fervilhando em múltiplos pensamentos. Os olhos corriam de um lugar para outro como quando se remexem durante o sono. Avistou ao lado uma aglomeração de pessoas. Estava com sorte. Acelerou e entrou na Rua 32. O homem que ficara para trás tomou uma direção diferente e logo saiu de vista. Os demais continuavam atrás dele, proferindo insultos e gritando para que qualquer um o parasse.
Uma mulher gritou quando Owen esgueirou-se por entre ela e uma outra. Passou depressa pela fachada da Bradley Sparks causando uma expressão de intriga na face torta de Tom. Um homem tentou agarrá-lo mas era demasiado lento e o que conseguiu tocar foi a poeira deixada para trás.
O menino desaparecia entre as pessoas, já com o fôlego esgotado. Os guardas estavam cada vez mais próximos de conseguir alcançá-lo e aparentemente estavam mais ágeis também. Recostou na parede de uma loja fechada, longe da vista de todos. Colocou a mão esquerda no peito, massageando enquanto sentia a pulsação acelerada. Depois deu uma conferida se Flitch estava bem. O rato miúdo o encarou com os olhinhos negros e brilhantes.
–Nós já vamos pra casa amigo...
Não houve tempo para mais explicações. Uma pequena esfera metálica quicou no chão três vezes antes de rolar e parar aos pés do garoto. Rapidamente tentou se levantar, mas o mecanismo ativou antes. Uma trava destacou-se e a esfera se partiu com um barulho surdo, liberando uma nuvem de fumaça branca.
A visibilidade era zero. A atmosfera, sufocante. Os olhos azuis dele se irritaram e finos traços vermelhos se formaram ao redor da íris. Tateou as cegas alguma rota de fuga se arrastando no chão na tentativa de evitar tropeços. Os dedos sentiram uma leve mudança no ambiente, estava mais fresco. Correu por ali. Lentamente a cortina enevoante se dissipava e o ar penetrava no pulmões com mais facilidade. A ânsia por liberdade o cegou por um minuto. Estava caindo numa armadilha.
Tudo aconteceu rápido demais. Um braço forte. Um aperto na garganta. E então, o mundo ficou escuro.
Àquela hora da manhã, o sol já brilhava com maior esplendor. A sombra do grande carvalho oscilava com a brisa que gentilmente acariciava a parte alta da cidade. Hum homem cujo rosto estava marcado por uma longa cicatriz – que partia do olho esquerdo cortando até abaixo da orelha direira – jazia parado ali a tempos. Tobias Rideeway exitava em passar pelos portais de ferro daquela instalação. Seu corpo estava ali, mas sua mente vagava no oculto de seus pensamentos. Ele estava com Lenora.
Quatorze anos haviam passado e ele ainda podia sentir sua presença. Ele a amava incondicionalmente. E lhe dera o maior presente que ele poderia ter – um filho. Constantemente se permitia sonhar com ela, com sua família completa, mesmo contra as recomendações médicas. Ele não se importava com as consequências, contanto que pelo menos em sua mente eles permanecessem juntos.
Despertou do devaneio quando uma pequena ave de plumagem azul vivo pousou em seu ombro. O animal exprimiu algumas notas antes de alçar vôo para o céu limpo. Os olhos do homem o acompanharam antes de recaírem sobre fachada do lugar novamente. Parou sobre uma rocha tão alta quanto ele. O símbolo do clã da Aljava de Ferro preso sobre ela. Algumas inscrições entalhadas na pedra, dentre elas a frase que definia as ideologias de Argshire e toda a tribo do Leste, Et pazi do gouom – A Justiça é estreita.
Ele riu. Sentiu seu estômago rodopiar, como se estivesse sendo centrifugado. Desejou por um momento não estar ali. Aparentemente, mesmo o homem mais importante do Leste tinha seus receios. Ele fora convocado para estar ali. E conversar com o Conselho Baldônico era sempre um desafio. Respirou fundo pela quarta vez e tomou ânimo para entrar.
O interior era incrivelmente tedioso. Um extenso corredor de paredes de pedra, chão de mármore cinza escuro, iluminação fraca. Como esperado, o lugar estava vazio. Tobias seguiu pelo corredor, acompanhando a fiação das lâmpadas desgastadas pelo tempo. Virou a direita numa divisão próxima. Depois novamente a direita.
Havia chegado à sala de reuniões Beta, geralmente usada para tratar de assuntos de média importância. Sentiu uma pontada na barriga. Era hora de enfrentá-los.
Era uma sala circular grande, com uma grande mesa em forma de arco, que circundava as paredes. Oito pessoas de aparência idosa ocupavam os lugares disponíveis, cada um com sua particular fisionomia. A luz era razoável e o ambiente era desprovido de janelas. Todos levantaram-se quando Tobias entrou, cumprimentando-o com uma reverência. Retornaram à posição inicial exceto por um dos homens, que permaneceu ereto, fitando-o nos olhos.
–O Conselho aprecia a presença do Lorde Rideeway, líder da Tribo do Leste. — disse o homem por trás da mesa.
–Qual o motivo da intimação, Conselheiro? — Tobias fora direto ao assunto.
O homem em pé pigarreou alto, exibindo seu tom de desaprovação. Prosseguiu após um breve silêncio.
–A ameaça da guerra contra o Norte é eminente. — disse com firmeza. — O mundo que conhecemos está prestes a mudar novamente.
–Por favor, Lorde Rideeway. — disse a voz suave da mulher que ocupava o sexto lugar. -Nas condições atuais de nosso exército, teríamos chance contra um ataque pleno do Norte?
Tobias observou a mulher de cima a baixo. Usava uma túnica cor de cereja com adornos dourados e um colar de pérolas enrolado em três dobras no pescoço. Os cabelos compridos estavam amarrados em um coque. E quando fez menção de responder, o ancião interveio.
–Nosso exército seria derrotado com facilidade. — cada palavra era carregada de ironia. -Basta olhar pela academia e ver a quantidade ínfima de jovens sendo treinados. O Norte está um passo à frente.
–Conselheira Fortune, Argshire possui atualmente a melhor tecnologia no campo militar. Temos uma quantidade razoável de jovens em treinamento, todos muito habilidosos e aptos. — Tobias desviou o olhar para a mulher sem piscar. -Não possuímos informações do Norte, desconheço o fundamento do que foi afirmado aqui.
–Nossos espiões retornaram de Paska, milorde. — disse uma mulher no primeiro lugar. Aparentemente era a pessoa mais nova ali. -Segundo seus relatórios, Bellanor fechou a fronteira com os condados e intensificou o recrutamento militar.
Tobias instalou uma expressão intrigada na face.
–Desde quando o Conselho intercepta informações de meus espiões antes da Divisão de Inteligência?
–Desde que suas ações levaram o Leste a fraquejar. — disse o outro homem.
–Conselheiro Rideeway, por favor. — disse a mulher colocando-se em pé.
–Tudo bem Conselheira Brierton. — disse Tobias. -Tenho certeza que meu pai... o Conselheiro Rideeway... apenas se equivocou.
–Me equivoquei?! — bradou o homem. A têmpora saliente.
–A questão aqui é saber se estamos nos preparando para quem sabe, um ataque. — disse um segundo homem após se levantar.
Tobias deixou de encarar o pai e virou-se para o homem.
–Como já havia dito, Conselheiro Lappidge, estamos treinando os melhores homens com a tecnologia mais avançada. Mesmo que com maior número, venceríamos pela qualidade.
Lappidge pareceu concordar e voltou ao assento.
–Humpf, patético. — bufou o Conselheiro Rideeway.
–Angus, por favor! Não queremos mais discussões! — insistiu a mulher de sobrenome Brierton.
–Rowena, eu sei o que estou fazendo. — respondeu ele num tom frio.
–Isso não vai levar a nada. — disse uma voz masculina grave e lenta. -Temos que agir e a solução é óbvia.
A voz se levantou e logo exibiu seu locutor. Um homem de rosto nada amigável, nariz torto e olhos cinzentos começou a andar entre os demais. Usava um sobretudo preto com botões dourados e uma capa escura com detalhes em verde musgo.
–O que sugere, Conselheiro Deuboe? — indagou Rowena.
–Temos que nos aliar ao Sul. — respondeu encarando Tobias.
Houve um murmúrio de escândalo, como se ele tivesse proferido uma terrível sentença. Tobias fechou os olhos e baixou a cabeça em uma mescla de decepção e receio. Não era oculto a ninguém que negócios com a tribo do Sul seria uma tarefa árdua, complexa e por que não dizer quase impossível. E diante da reação do filho, Angus Rideeway pareceu concordar apenas para fazer Tobias ser punido indiretamente.
–Vamos votar. — disse. -Os favoráveis levantem a mão direita.
Tobias olhou em volta e notou seis braços estendidos. Duas mulheres, uma delas Rowena Brierton, discordaram da ação.
–A votação foi concluída. O Conselho Baldônico delibera a ação de promoção da aliança com a Tribo do Sul. — disse a Conselheira Fortune. -Algo a declarar, milorde?
Tobias balançou a cabeça negativamente. Depois olhou diretamente para o pai, que de igual forma o encarava com furor.
–Uma carta será enviada para o Sul, para realizar a proposta. Temos uma semana para os preparativos. — continuou ela. -Esta reunião está encerrada.
Lorde Rideeway deu as costas para todos e inciou os passos pesados e apressados em direção à saída.
–Tobie! — gritou uma voz atrás dele, mas foi ignorada.
A voz o chamou de novo, desta vez mais próxima.
Ele continuou a andar sem olhar para trás. Até que seu braço direito foi puxado para trás, obrigando-o a encarar o pai.
–Você já esqueceu o poder que Menrir possui? Você carrega no rosto a vergonha do nosso povo. Ou já se esqueceu daquela noite, em que seu filho nasceu?Este... estado de falsa paz que você criou... vai desaparecer em breve. — sua voz era cheia amargura.
–Se isto for verdade, você me ensinou bem como fracassar. — respondeu Tobias soltando-se e enfim saindo do prédio.
Angus, deixado pra trás, o fuzilava com a mente.
As portas do Conselho se abriram e Lorde Rideeway saiu em disparada. Logo à frente, Cyrus Gennor o aguardava junto à sombra do carvalho. Quando Tobias se aproximou dele, curvou-se em reverência.
–Com sua licença, milorde. — começou ele. -Sinto ter que atrapalhar seu dia, mas creio que sua presença delegacia seja necessária.
–O que foi dessa vez? — perguntou com curiosidade.
–Seu filho, milorde. Desta vez... nós o pegamos.
Notas finais
E deixem reviews!!!!
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