O Clã da Aljava de Ferro

2 1 - O nascimento do escolhido


Notas iniciais
Primeiro capítulo. Agradecimentos para todos os leitores que estão acompanhando e em especial ao Davi Bretas, meu beta.

O ano de X623 foi marcado pela guerra e o Velho Mundo estava dividido como nunca. A disputa por terras crescia exponencialmente e não mostrava sinais de que chegaria à um momento de paz. A tribo do norte aumentava seu poderio militar tão rápido quanto o vento varre a campina em um dia de sol. Seu desejo pela destruição era insaciável; sua fúria, implacável. O homem por trás de tamanha destruição, Menrir Sobbot, não tinha respeito nem pelos mortos. O líder do clã da Lâmina de Prata tinha orgulho de si mesmo e de sua força indomável. Era a única coisa que importava: ser forte e passar por cima dos fracos. E julgava não ter nenhum ponto negativo que em algum momento viesse a traí-lo e gerar sua falência. Mas seus próprios pensamentos o levaram a ruína.

Quando o combate entrou em seu clímax, Menrir e seu exército acamparam próximo as terras de Orgosh, na margem do Rio Batt. O último lugar a ser conquistado eram os domínios da tribo do leste, do clã da Cítara Vermelha. Menrir dera uma festa regada a muito vinho e mulheres, um deleite para seus soldados, comemorando em antecipação a vitória.

Já era alta madrugada quando dois homens, versados na arte de matar silenciosamente, entraram no acampamento sem serem vistos. Seus alvos marcados não tiveram tempo de questionar o que se passava. O grito de Menrir colocou todo o exército em alerta, mas era tarde demais. Seus dois filhos e sua mulher estavam mortos. E para garantir que não houvessem mais herdeiros, seus testículos foram arrancados.

Em apenas uma noite toda a honra da casa de Menrir Sobbot foi destruída. Ferido em corpo e alma, seu exército recuou. Anos mais tarde, o clã da Cítara Vermelha tornou-se o clã da Aljava de Ferro, delimitando as terras como seu domínio permanente e expulsando as tropas de Menrir dos arredores. E assim o Velho Mundo teve sua face transformada mais uma vez.

Quase sessenta anos depois, o mundo aguardava a morte de Menrir em seus últimos lamentos e o nascimento do herdeiro do clã da Aljava de Ferro.


Capítulo um

O nascimento do escolhido


O VENTO CORRIA EM DESORDEM PELA FACE ÁRIDA DO DESERTO DE FERNASHORE. Preparava-se para entrar em estado de tempestade de areia, por volta da sétima hora do dia. O céu também não estava bom. Havia nuvens negras espalhadas por todos os cantos que a vista podia contemplar. Singelos relâmpagos passeavam pelo céu aqui e ali. No alto da torre de vigília, a bandeira azul do toque de recolher estava hasteada. Dentro da cidadela, os habitantes se apressavam em recolher seus pertences para enfim repousar seguros em seus lares, livres da chuva de terra que se aproximava.

As portas do Núcleo de Ferro, o centro militar da tribo do leste, estavam lacradas. Por vários dias não saía ou entrava uma viva alma do lugar. Os comentários circulantes entre os moradores é que chegara a hora do nascimento do herdeiro de Tobias Rideeway. O Conselho dos Anciãos também reunira-se na fortaleza e aparentemente isso não era um bom sinal.

O lado norte da área externa do segundo andar estava ocupada por um homem solitário. Usava uma roupa simples para seu status, camisa de botões e calça, ambas de algodão e em tons claros. Um lenço púrpura com detalhes dourados cobría-lhe o pescoço. O rosto queimado de sol, recortado por muitas cicatrizes, exibia um ar de preocupação e a cabeleira loura balançava ao vento forte.

–Com licença milorde. — falou uma voz recém chegada, num tom cordial. -Ele pediu para que o chamasse.

Tobias virou, encarando o homem curvado em sinal de respeito. Esperava por aquilo, mas não imaginava que seria tão cedo. Respirou fundo antes de despedir o mensageiro. Olhou para o céu, as nuvens ameaçadoras cintilando entre raios vorazes. A areia já causava incômodo em quem insistia em não se abrigar. Levou a mão à têmpora, massageando levemente. Estava na hora. Os passos lentos porém decididos deram início.

Adentrou na fortaleza, onde o mau tempo não se fazia presente. Havia poucas pessoas no caminho, todas reverenciando-o na medida em que por elas passava. Um murmúrio circulava deixando o clima ainda mais tenso. Lorde Rideeway tocou na maçaneta mas não a acionou. Fechou os olhos por um minuto, na esperança de que tudo fosse apenas um pesadelo. E quando a realidade o chamou de volta, abriu a porta.

O ambiente estava quente e úmido. A iluminação fraca tinha uma coloração ligeiramente avermelhada e algumas pessoas pareciam procurar algo com avidez em grossos livros de capa rústica. Tobias olhou diretamente para a cama onde uma mulher jazia deitada imóvel. Os lençóis de linho branco finíssimo estavam cobertos de sangue. Próximas a ela, algumas mulheres choravam. O coração do homem disparou e uma onda de medo tomou conta de si. Sentiu um desejo súbito de correr até ela, mas sua passagem fora bloqueada pelo aparecimento de um velho de aparência gentil.

–Me desculpe milorde. — disse ele abatido, fazendo uma reverência. -Fui eu quem mandou lhe chamar.

–O que está acontecendo? — perguntou Tobias apreensivo.

O velho engoliu seco.

–A criança milorde... está presa. Não sabemos o que aconteceu. Parece que seu corpo se fundiu ao da mãe.

As pernas de Tobias tremeram mas ele se manteve firme. Não podia esmorecer. Apesar da dor e da angústia que sentia naquele momento, ele ainda era o maior entre todos, o líder e não poderia mostrar sinais de fraqueza. Seu eu interior estava aborrecido e choroso mas seu rosto não mudou a expressão.

–Não... há nada que possa ser feito? — indagou ele voltando a encarar a mulher na cama.

–Creio que o senhor já saiba a resposta. Se salvarmos sua esposa, perderemos a criança. — respondeu o homem.

Tobias fitou-o nos olhos, estudando a situação enquanto fazia uma varredura nas possibilidades. O velho tinha o semblante tomado pela decepção e tristeza. Não acreditava em sua impotência diante dos fatos. Mas nem mesmo o mais sábio dos homens tem a resposta para tudo.

–Tobie...

A voz rouca e fraca da mulher ecoou pelo quarto. Tobias moveu-se o mais depressa que podia, parando ao lado dela na cama. Passou o olhar pelo seu corpo frágil e debilitado. Sua aparência não chegava nem aos pés da mulher que um dia ela fora. A mais bela, atraente e sedutora dama de Argshire.



Lenora Merlawe Rideeway era um exemplo de elegância. Mesmo antes de seu casamento com Tobias, ela já cativava olhares por onde quer que passasse. Alta e esguia, pele branca macia e delicada, longos cabelos dourados e brilhantes. Lábios carnudos. Olhos tão azuis como o céu no verão. Mas era sua capacidade de amar e ajudar as pessoas que a tornava única, o motivo pelo qual Tobias a amava tanto. Como líder de Argshire, ter um herdeiro era essencial, pois o poder deveria ser mantido na família. Agust Rideeway, o pai de Tobias, criara um sistema eficaz de gestão e que era funcional ao ponto de manter a paz entre todos que por ali habitavam. E quando Tobias assumiu seu lugar, a promessa de estabilidade foi mantida.

Do amor nasceria a origem do futuro.



Os olhos opacos de Lenora procuraram pelo rosto do amado. A visão turva só permitiu reconhecê-lo pelos contornos da face. O corpo estava fraco e não conseguia reunir coragem para melhorar. Algo a arrastava em direção à morte.

–Tobie... — disse com a voz rouca.

–Estou aqui. — respondeu ele pegando suas mãos e unindo-as às dela.

–Estou... com medo...

O estômago de Tobias revirou. Apertou a fronte suprimindo a dor. O paladar estava amargo. Com um levantar de mão fez sinal para que todos os ocupantes do quarto saíssem. E sem questionar, um a um as pessoas deixaram o local.

–Tudo bem Nora. Vai ficar tudo bem. — disse ele acariciando o rosto da amada com o polegar.

–O que ele disse...?

Tobias fugia do olhar da esposa.

–O menino... eles não conseguem tirar. Está preso.

Lenora exprimiu um gemido agudo, tremendo de cima a baixo. Uma lágrima solitária escorreu por sua face pálida. Os lábios secos contraíram. O companheiro olhou em volta. Havia inúmeros frascos de soluções analgésicas. Todos vazios. O sangue na cama começava a coagular. As pernas arqueadas da mulher esticaram de súbito e a dor recomeçou, seguida de gritos irremediáveis.

–Essa não! SOCORRO! — berrou Tobias olhando em desespero para a porta.

Os anciãos entraram rapidamente pela porta, cada um correndo em direção ao lugar de onde poderia ajudar. O velho senhor de logo antes aplicou mais uma dose de solução, mas parecia que o efeito já não seria o mesmo. Parado olhando a tudo, Tobias não sabia o que fazer. Pela primeira vez constatava que seu poder não servia para nada ali. Estava longe de sua alçada. Por um instante desejou trocar tudo o que tinha pela vida da esposa.

–Tobie!

Ele despertou de seu devaneio com o chamado da mulher.

–Estou aqui Nora! — respondeu segurando novamente as mãos dela.

–Por favor... m-me prometa... me prometa que vai c-cuidar d-do nosso filho! — Lenora reunira o resto de forças que tinha para falar.

–Sim, sim querida, eu prometo. E vamos cuidar de você também!

Ela balançou a cabeça negativamente, fazendo as lágrimas escorrerem. A respiração ofegante a impediu de continuar a falar por muito mais tempo. Sentia sua alma pendendo para a escuridão. Chegara o momento, aquele pelo qual nem todos estão preparados.

–Eu... amo... você...

–Nora... não!

Lenora agarrou com tudo de si nos lençóis, na tentativa de suprimir sua dor e se preparar para o fim. Olhou diretamente para o velho, com o máximo de decisão que conseguia. Tobias entendera o recado.

–Milorde... — disse o velho.

–Faça. — ordenou Tobias.

E com um movimento complexo, o punhal foi lentamente desenhando linhas rubras na barriga inchada da mulher, com líquido escarlate irradiando a medida que a lâmina prateada percorria a pele. Por mais que o velho esforça-se para ser delicado, a cena era insuportável. Os gritos se intensificavam a cada segundo. Lorde Rideeway não resistiu caindo de joelhos, recolhendo dentro de si as lamentações. E a canção mortal prosseguiu, até que o choro da criança cessou os gritos e o fez se lembrar da razão de tudo aquilo.

–É um menino! — disse o velho.

Tobias encarou o recém nascido. Era mirradinho, cabelos escuros. Uma pele branca, manchada pelo sangue com vermelho vivo. Mas o detalhe mais chamativo era seu braço direito. Ou a ausência dele. De onde deveria sair antebraço, mãos, dedos, havia apenas uma parte, logo acima do cotovelo. O resto não fora desenvolvido. Envolveu-o em seu colo, aquecendo com seu calor, e logo depois com cobertores de peles dados a ele pelas mulheres presentes.

–Nosso filho...! Nora, é o nosso garoto!

A mulher entretanto não correspondeu. Os olhos estavam fechados. O corpo imóvel pendeu para o lado, debruçado sobre os travesseiros. A luz já não estava com ela. Sua alma fora capturada pelo vazio da morte, e não havia mais nada a ser feito. Tobias deitou a seu lado, abraçando-a e chorando, finalmente colocando tudo o que sentia para fora. E lentamente, os demais foram deixando a família sozinha.



O cachimbo aceso em sua mão exalava uma fumaça rósea e de aroma peculiar. Vez ou outra este empurrava a névoa para dentro dos pulmões do homem, com um levantar e novamente repousar do braço. As poucas luzes do ambiente não focavam seu rosto mas permitiam que sua silhueta exibisse a cabeleira comprida e desgrenhada, caindo sobre os ombros. Um acesso de tosse foi suprimido pela mão gorda e peluda. Sentado em seu trono dourado, Menrir Sobbot apreciava um momento de descanso matinal. A sombra de uma outra pessoa adentrou no aposento, parando alguns metros de seu senhor. Curvou-se com o rosto em terra e esperou pacientemente pelo reconhecimento.

–O que você quer? — disse a voz grave e penosa de Menrir.

–Perdoe-me pela insolência, Grande Menrir. Os espias voltaram e trouxeram informações. — falou o homem. Este usava um tom ameno e medroso.

Houve um tempo dominado pelo silêncio.

–Continue. — ordenou Menrir.

–Os inimigos do sul recuaram e fecharam os portões de Beasergh. Acamparam sobre todo o vale e se concentraram ali. Dizem que a tribo do leste estuda uma aliança com eles.

O ocupante do trono soltou uma baforada, circundando a si mesmo com a fumaça. Ele não sentia vontade de falar. Permaneceu calado, esperando que o servo entendesse.

–A-ah... O Núcleo de Ferro foi fechado. Parece que chegou a hora do herdeiro nascer.

O cachimbo rolou das mãos de Menrir, espalhando as cinzas ao colidir com o chão. Cerrou os punhos concentrando sua força. Sentiu o pulso acelerar, mas automaticamente controlou a respiração e o mal estar desapareceu.

–Então, — falou pausadamente – finalmente está acontecendo.

Levantou do trono e começou a andar em direção ao mensageiro. Seus passos eram lentos e pesados. O servo continuou curvado, aguardando.

–Informe Dorian. Diga para que apronte os cavalos. Vamos enviar um presente especial para eles.

–Sim Grande Menrir! Agora mesmo!

E saindo apressado, deixou seu senhor novamente sozinho nos aposentos. Menrir caminhou de volta ao trono, abaixou e recolheu o cachimbo apagado. Tornou a enchê-lo de ervas e acender com o fogo de uma vela próxima. Por um tempo ficou observando a fumaça serpentear pelo ar, ganhando altura cada vez maior na sala.

–Como será que você é... pequenino?


Tobias carregava seu filho no colo, logo após o primeiro alimento fornecido por uma ama de leite. Acariciava levemente os cabelos ralos e finíssimos, enquanto gemia o que parecia uma canção de ninar antiga. E exibia um sorriso besta na face.

–Você será grande, meu filho! — disse deslizando o dedo indicador pelo rosto do bebê. -O futuro será seu, e você dominará sobre ele melhor do que seu pai aqui. Posso até ver. Ouvir o que vão dizer. “Salvem o grande lorde do leste, o principado de Argshire. Lorde Owen Alaric Rideeway.” O meu garoto.



Notas finais
Obrigado por ler e não deixe de comentar. É assim que sei onde posso melhorar.

Até a próxima o/