O Clã Witname: A Fúria da Deusa
1 Os três pilares.
Notas iniciais
Mais um projeto novo. Devo dizer que fiquei empolgada com a ideia, e espero conseguir desenvolvê-la até o final.
Espero que gostem dessa fic tanto quanto eu gosto.
Selene andava em passos apressados pelas ruas do reino Taetis. A medida que avançava para o Clã Moon Hawks, seu coração batia mais forte.
Treinara uma vida inteira suas habilidades para aquele dia, tendo uma ajuda aqui e ali de sua avó, no entanto, na maioria das vezes era ela e seu cajado apenas.
A brisa gélida da manhã batia em seu rosto e bagunçava seus cabelos castanho-avermelhados, e, para evitar isso, colocou seu capuz.
Já podia ver parte do mármore branco e reluzente do lugar onde realizaria o teste, e àquela altura, seu coração parecia querer sair do peito. Sentia um frio na boca do estômago, pensou até em desistir, mas a ideia saiu-lhe da cabeça tão rápido quanto entrou.
Adentrou o edifício hesitante, apresentou sua carta de inscrição para um homem barbudo que aparentava estar entediado. Ele checou por alguns segundos a legitimidade do documento e então mandou que Selene fosse até o salão de reuniões.
Chegando lá, a feiticeira se deparou com uma multidão de jovens que conversavam animados entre si. Todos eles usando trajes de batalha, armaduras pesadas e segurando armas diferenciadas.
Sentou-se em um assento qualquer a aguardou até que a cerimônia fosse iniciada, o que só aumentou seu nervosismo.
Rainha Isabel e rei Fenrec deram início aos testes, dando boas-vindas a todos os jovens ali presentes. Isabel atraía olhares maliciosos dos moços e invejosos das moças devido sua estonteante beleza. De fato, a rainha parecia não ceder aos caprichos do tempo: tinha lábios carnudos e rubros, os cabelos negros e olhos verdes, a pele se assemelhava a casca de um pêssego. Já Fenrec, em compensação, começava a exibir as marcas causadas pelos anos que tinham se passado.
Em alguns instantes, os nomes começaram a ser chamados. Selene respirou fundo e tentou se concentrar nas dicas dadas por sua avó.
"Não mostre toda a capacidade que tem já de início. Seja paciente. Deixe-os crerem que não vale o tempo gasto. Então você mostra tudo o que pode fazer."
As mãos de Selly — como era chamada pelos mais íntimos — estavam trêmulas. Sabia que existia um feitiço para afastar esse tipo de sentimento, porém, ela não sabia como fazê-lo.
— Selene La Rouge. — Uma voz gritou seu nome. Era a hora.
Hesitante, a feiticeira ficou em pé. Caminhou a passos vacilantes até a área de treinamento.
— Seja bem-vinda, senhorita. — Desejou Alaion, um ancião que ocupava o cargo de líder da Moon Hawks. — Podemos começar?
Selene assentiu.
Contemplou o ambiente ao seu redor. Haviam vários bonecos de palha que representariam seus adversários. Em torno dos espectadores e da arena haviam escudos para impedir qualquer acidente.
O homem que controlava os bonecos acionou uma alavanca. Logo, meia dúzia de bonecos de palha viam de várias direções a fim de cercarem Selene. Ela acertou um golpe fraco de magia em um deles, depois outro e mais outro, para enfim derrubá-lo. Isso pareceu entediar os jurados, que já a julgavam fraca.
Ela acertou outro com seu cajado e continuou usando a mesma tática, como sua avó havia lhe aconselhado para se mostrar fraca. Selly percebeu que já causara esse efeito nos espectadores.
Mais uma alavanca foi acionada, e agora haviam arqueiros atirando flechas mágicas que causavam uma dor leve em contato com a pele, pois era apenas um teste e não se podia colocar a vida dos participantes em risco, enquanto três bonecos empunhando espadas vinham até ela.
Os cinco arqueiros atiravam juntos. Selene resolveu se sair melhor nessa parte, ela acertou um golpe em cada boneco e derrubou os três. Conseguiu se esquivar de algumas flechas e aniquilar outras no ar. Destruiu os bonecos arqueiros com dois golpes em cada. Isso pareceu elevar as expectativas dos jurados.
O último teste era bem mais complexo. Selly devia atravessar um percurso cheio de armadilhas escondidas, derrotar inimigos e encontrar o artefato escondido em baixo d'água.
Bastou um botão ser apertado, e o campo de treinamento se modificou. Na extremidade oposta à Selene, um quadrado do chão se moveu e revelou um poço cheio de água. Mecanismos que lançavam estacas de madeira — não letais — apareceram, crateras se abriram no chão e inimigos tomaram conta do percurso.
A feiticeira começou a correr. Quando estava bem próxima a um grupo de inimigos, o chão a sua frente cedeu. Os reflexos da feiticeira a ajudaram, e ela pulou a tempo.
Acertou os cinco inimigos com um único golpe que acabou com todos. Sorriu, satisfeita. Começara bem.
Pedras começaram a cair de repente. Selly conseguiu armar um escudo mágico e continuou correndo.
Chegara na etapa das estacas. Várias delas vinham dos dois lados do campo em um padrão. A feiticeira observou por alguns segundos, e então, decidiu arriscar. Desviou com facilidade das primeiras, pois elas eram lançadas ao mesmo tempo e o intervalo entre cada lançamento era longo.
A medida que avançava, complicou ainda mais. A ordem era diferente, o tempo era menor.
Começou com uma sequência de três estrelas. Mal ficou em pé, e ouviu um barulho a sua direita. Selene olhou, e se deparou com uma estaca vindo de encontro com seu rosto. Sem pensar duas vezes, dobrou seu corpo para trás e se apoiou com uma mão rapidamente. Se jogou para o lado e caiu deitada. Uma estaca voava em direção ao seu crânio, e ao perceber, abaixou a cabeça na hora.
Os espectadores pareciam cada vez mais interessados, e Selene se sentia confiante.
Foi seu erro.
Achando que estava ganho, ela acabou não se empenhando tanto para desviar, e foi atingida por duas estacas, uma no braço esquerdo, outra na perna direita. Inicialmente, a feiticeira sentiu um choque nos locais seguido de um formigamento doloroso. Ainda bem que não eram reais, pensou.
Com alguma dificuldade, ela continuou. Não bastaram muitos passos para que a próxima armadilha fosse ativada. O chão ao redor de um quadrado abaixo de seus pés se abriu, e revelou vários pilares. O único caminho para sair dali era ir pulando entre eles até chegar ao outro lado.
Porém, Selene estava machucada, e para piorar, inimigos já se acercavam da feiticeira. Acertou alguns e arriscou pular para o pilar da frente. Quando pisou nele, sentiu uma fisgada na perna, e perdeu o equilíbrio.
Segurou-se na beirada do pilar a tempo, evitando cair nos espinhos dispostos um pouco abaixo. Com dificuldade, subiu no pilar e teve que usar magia de cura, o que a desgastou um pouco.
Os outros saltos foram mais precisos, e agora ela corria para a parede de escalada. Livrou-se dos adversários que sobraram e começou a subir.
O cansaço extremo a atrasou nesse ponto. Subiu lentamente e teve problemas para descer. Queria desistir, no entanto, faltava apenas a etapa na água para encerrar a prova.
Ela respirou fundo e se atirou na água.
Lá embaixo, estava escuro. Criou um globo de luz que iluminou seu caminho. Selly tentou ficar atenta a cada canto, mas não conseguia encontrar nada. O desespero começou a tomar conta a medida que o oxigênio ia acabando.
Foi um pouco mais fundo, e estava quase emergindo, até que algo reluziu. Algo prateado.
Rapidamente, Selene enfiou a mão na lama, e de lá tirou um pequeno espelho enlameado. Ela o limpou, e só aí se deu conta de que faltava ar em seus pulmões. Desfez o globo e saiu da água.
A prova estava completa, agora lhe restava esperar o resultado.
Retornou ao local onde fora recebida e aguardou, pacientemente.
— Peço a atenção de todos! — Gritou um homem jovem. O salão todo se calou imediatamente. Ele pigarreou. — Os nomes dos sortudos que foram aprovados serão anunciados agora. Se ouvir seu nome, permaneça aqui. Caso contrário, está livre para ir.
Ele leu um por um, em ordem alfabética. O coração de Selly estava acelerado, e ela só conseguia pensar em sua avó, feliz com a notícia de que ela fora aprovada em um dos Clãs mais importantes de todo o mundo mágico.
Entretanto, tudo desmoronou em segundos.
Não ouviu seu nome. Não havia conseguido.
Todos os aprendizes rejeitados já saiam para retornar a suas casas, e ela continuava ali, parada, sem saber o que fazer.
Quando percebeu ser a única negada ainda presente ali, saiu correndo, de olhos marejados. Correu sem rumo, sem saber onde ia. Queria se isolar, pelo menos por alguns instantes.
Treinou todos os dias desde que descobriu ser uma feiticeira. Se dedicou, batalhou. Selene havia feito de tudo para ficar mais forte, mais inteligente e mais preparada, para, no final, todo o seu esforço ser desperdiçado?!
Poderia tentar no ano seguinte, contudo, corria o risco de não passar de novo. Na realidade, corria o risco de nem poder tentar, pois seu pai era contra ela fazer o teste pela primeira vez, então, obviamente, uma segunda era incogitável.
***
Frederick voltava, cabisbaixo, do teste para ingressar na Moon Hawks. Não fora aprovado, e naquele momento, tentava pensar na melhor forma de contar aos seus pais.
Pegou o caminho mais longo possível, em prol de atrasar ao máximo sua chegada. Essa trilha passava pela Floresta das Almas, um lugar pouco frequentado por pessoas ou animais.
Tudo ali estava quieto, só se ouvia o estalar das botas do espadachim em contato com as folhas secas espalhadas aos montes pelo chão.
Até que ruídos desconhecidos começaram. Frederick parou instantaneamente. Havia algo por perto fazendo-lhe companhia.
Ele ouviu o barulho de passos que se aproximavam. Empunhou a espada e decidiu averiguar para acabar com aquilo de uma vez. Se fosse de morrer, morreria. Talvez fosse melhor, porque iria se livrar da conversa em casa e de ter que ver os pais decepcionados.
Parou atrás de um arbusto. Esperou que os passos ficassem bem mais altos e próximos, até que partiu para o ataque.
Sua espada bateu em algo sólido. Frederick abriu os olhos, e se deparou com uma garota, tão assustada quanto ele, que havia erguido um escudo mágico. Ambos tremiam, e por alguns segundos ficaram imóveis, se encarando, até que a feiticeira caiu de joelhos e sua proteção se desfez.
Se quisesse, poderia tê-la matado ali mesmo, porém, o espadachim embainhou sua espada e lhe estendeu a mão. Ela o encarou, desconfiada, e ele decidiu se pronunciar.
— Se pretendesse matar você, já teria o feito. Aceite minha ajuda, não quero fazer mal algum a você. — Percebendo que fazia sentido, a feiticeira se levantou com a ajuda dele. — Meu nome é Frederick Enrieth.
— Selene La Rouge. — Ela se apresentou, então dirigiu a atenção para a espada carregada por ele. — Também foi rejeitado?
— Pois é. — Assentiu Frederick. — Situação complicada.
A feiticeira iria responder, contudo, um rosnado de lobo vindo ali de perto, seguido de brados de uma garota, a interrompeu.
Ambos se entreolharam, e então correram em direção da origem dos ruídos.
Ao chegarem, depararam-se com meia dúzia de lobos com pelagem vermelha escura e olhos alaranjados cercando uma garota. Ela havia subido em uma árvore para se proteger das feras e tentava, com as mãos tremendo, colocar a corda em seu arco.
Ao perceberem que haviam duas presas mais acessíveis, os lobos resolveram atacar Frederick e Selene, porém, não duraram muito tempo. A feiticeira usou alguns golpes de magia que derrubaram quatro, e os outros dois foram mortos pelo espadachim.
A arqueira desceu da árvore. Ela usava uma roupa de couro preta, tinha cabelos loiros claros e olhos verdes. Sorriu para os seus dois salvadores.
— Muito obrigada! Não sei o que faria sem vocês! — Ela agradeceu. — Meu nome é Rosemary Havenspire, e o de vocês?
— Selene La Rouge.
— Frederick Enrieth. — Ele depositou um beijo suave na mão da recém-conhecida. — Muito prazer.
— Ei, não querendo ser inconveniente, mas... por que seu arco estava sem a corda? — Perguntou Selly.
— Oh... é um método para preservar a corda. Quando não estamos em batalha, ele fica desmontado. — Respondeu Rosemary.
— Deixe-me vê-lo. — Pediu Selene, e a garota entregou a arma em sua mão.
Selly analisou o arco. Era simples, e devia ser velho e usado. Ela fechou seus olhos e pensou num encantamento que preservasse-o. O objeto, então, ganhou um aspecto de novo. A feiticeira sentiu um cansaço que quase a fez cair, havia usado magia demais aquele dia. Respirou fundo e devolveu o objeto à sua dona.
— Não precisa mais andar com ele sem a corda. — Disse a feiticeira.
— Obrigada novamente, muito gentil de sua parte. — Falou Rosemary.
Selene sorriu em resposta.
Frederick, que havia se ajoelhado para averiguar os lobos, chamou a atenção das duas.
— Estranho... — Comentou.
— O que foi? — Perguntou Selene.
— São lobos da guarda, eles foram criados para protegerem a família real e são controlados por eles. O que animais como esses fazem aqui? — O espadachim checou o pescoço de um deles. — Ainda mais sem nenhuma identificação.
— Acho que não é um bom momento para nos preocuparmos com isso. — Concluiu Rosemary. — Vamos sair daqui o quanto antes, ou poderemos virar o jantar dessas criaturas!
***
— Então, seu pai odeia magia? — Indagou Frederick à Selly.
— Sim. — A feiticeira afirmou. — Uma história realmente dramática... a mulher que me deu a luz abandonou-me quando soube que minha avó continha magia em suas veias. Papai tem horror à magia e tudo ligado a ela, e não sei como não me atirou em um rio para a morte, talvez porque seu instinto paterno tenha falado mais alto. — Selene abaixou a cabeça, desolada. — Convencê-lo a me deixar fazer o teste fora um sacrilégio, impossível que conseguirei uma segunda vez.
— Eu sinto muito por isso... — Rosemary disse, em tom sincero. — Também precisava passar nesse teste. Tenho quatro irmãos mais novos, trabalhei a vida toda para ajudar em casa. Ser uma caçadora lunar ajudaria muito.
— Eu tenho uma solução para nós três! — Frederick se pronunciou, empolgado. — Se não fomos aceitos na Moon Hawks, por que não criar um clã próprio?!
— Isso é loucura. — Selly alertou.
— Não, não é! — O espadachim gargalhou. — Já posso até imaginar como será: todos venerarão o Clã... — pensou por alguns segundos — Witname! Será glorioso!
— Bom, não é má ideia. — Admitiu Rosemary.
— Continuo achando uma loucura. — Selene falou. — Mas, para a sorte de ambos, não tenho o juízo perfeito.
Os três gargalharam e continuaram a caminhada.
Notas finais
Não é obrigatório comentar, mas ajuda muuuito.
Até mais :*
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