O Cisne Negro
4 Capítulo 4
Cerca de dois meses depois, estou sentada confortavelmente em meu sofá bebendo uma xícara de café, quando meu celular toca, um número desconhecido, atendo:
—Alô?
—Gabriella? Aqui é a Poliana, eu preciso te falar uma coisa muito séria- pude ouvir a voz da mulher trêmula do outro lado da linha (à propósito, Poliana é a mulher de meu irmão)
—O que houve?- perguntei preocupada
—É o seu irmão, ele sofreu um acidente seriíssimo...e agora, ele está no hospital em estado grave.
—Oh meu deus, isso é sério?- apesar de todo o ódio que ele supria por mim, eu não podia achar este fato uma coisa comum, que não afeta, porque afeta, sim.
—É. E eu preciso de você, ele foi internado em um hospital maior em outra cidade, eu não vou poder levar as crianças, pode cuidar delas esses dias? -a voz dela ficava cada vez mais trêmula e desesperada.
Por um curto espaço de tempo, não pude responder, eu não soube como fazer isso:
—Claro...mas, você deve saber -não continuei a frase
—Eu sei de tudo, sei o que ele pensaria sobre isso, mas eu não concordo com nada daquilo, e não tenho escolha, não há outra pessoa, por favor me ajude- a moça chorava do outro lado da linha, tudo que pude pensar era na reação posterior de meu irmão
—Eu vou te ajudar, mas por favor, não deixe ele saber, pelo seu próprio bem.
—Não se preocupe com isso, eu vou na sua casa agora mesmo, meu voo é daqui a três horas.
—Ok.
—Muito obrigada, mesmo.
Ela desligou o telefone e eu não soube como lidar com aquilo, eu amava meus sobrinhos, mas não achava aquilo uma boa ideia, com certeza traria problemas, se não para mim, para ela, e se não para as duas.
Cerca de vinte e três minutos desde a conversa, ela estava em meu apartamento, parecia disfarçar ao máximo suas emoções na frente dos filhos. Ela deixou as crianças comigo e partiu para seus afazeres:
—Tia, o que está acontecendo? Por que minha mãe deixou a gente aqui?- aquela voz amedrontada de uma criança desentendida quebrou meu coração
—Ã...não sei se já foi lhes explicado, mas o papai de vocês está doente, sua mãe foi cuidar dele- eu já me perdia em minhas palavras, como dizer aquilo à crianças? -mas não se preocupe, logo, logo ele vai estar bem- sorri para as crianças enquanto ia a encontro de um abraço triplo.
Eu suponho ter conseguido acalmá-los por um tempo. Mas já não sabia mais como entreter duas crianças dentro daquele apartamento velho e sem graça. Conversava com eles quando meu celular tocou:
—Alô?
—Gaaaabi, posso ir a sua casa agora?
—Meus sobrinhos estão aqui, se você vier vai me ajudar com alguma coisa bem legal para a gente fazer- disse e sorri para eles
—Uhu, eu adoro crianças, chego aí num minuto.
—Ok.
Desliguei a ligação, e instantaneamente minha sobrinha, a mais velha pergunta:
—Quem era?- com aquela voz de criança curiosa
Demorei a responder, não sabia se dizia a verdade, ou se dizia que era apenas uma amiga, me decidi por dizer a verdade:
—Minha namorada- eu disse aquilo e um gelo tomou minha espinha, como eles reagiriam? Como o pai deles reagiria ao saber que enquanto eles estavam comigo eu lhes apresentei minha namorada?
—Eu não sabia que você namorava, tia- ela riu um pouco -achei que você era tipo a tia dos gatos.
—O quê?- eu ri, e não só por ter achado graça, mas pelo alívio de ela não ter achado estranho
Pouco tempo depois, o interfone toca, minha sobrinha atende:
—Tia, o nome da sua namorada é Karolina?
—É- respondo
—Pode mandar subir, tio!
A menina sobe, bate em minha porta e eu a abro, para minha surpresa, ela tinha trazido quatro ingressos para um parque de diversões famoso na cidade:
—Quem quer ir com a titia aqui se divertir?- ela perguntou para meus sobrinhos.
Fomos ao parque, e enquanto eu estava na fila para comprar um sorvete, recebo uma mensagem de minha cunhada:
Está tudo bem por aí? Estou tão preocupada. Seu irmão já está bem melhor, já saiu da cirurgia (eu também não sabia sobre nenhuma cirurgia), e está correndo tudo bem, ele deve ter alta ainda essa semana.
Respondi que estava tudo bem, e ler aquilo me deu um alívio muito grande, eu amo meu irmão, apesar de tudo, não gostaria que nada de terrível lhe acontecesse.
O passeio no parque divertiu muito meus sobrinhos, eles não estranharam o fato de eu não ter um namorado menino, e nada poderia estragar aquele dia. Será mesmo?
A Karol me deixou em casa, e assim que chegamos lá, a mãe deles me ligou, um tanto quanto desesperada para quem havia dito que tudo correra bem:
—Eu falei, eu não sei por que fiz isso. Devia ter aguardado, desculpe-me.
—Calma, você fez o quê?- um frio na barriga me tomou- E qual foi a reação?
—Ele...disse que você não era gente de se misturar, brigou comigo por eu ter deixado nossas crianças num lar tão bagunçado quanto o seu, e disse que torcia para você não apresentar a eles seu mundinho escroto- do outro lado da linha, eu já ouvia um choro- eu quero te desculpar, por tudo isso que ele disse, você não é nada disso do que ele acha.
—Você não tem que se desculpar por ele. Só digo uma coisa: eu não vou mais ficar com medo de enfrentá-lo. Você fez bem, é uma oportunidade de ele ver que eu não sou o que ele acha, não que eu deva alguma satisfação à alguém.
—Eu só quero agradecer. Sei que está cuidando bem da Ágatha e do Maurício. Eu tenho que desligar agora. Adeus.
Antes que eu pudesse responder, ela já desligara o telefone.
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