O Cisne Acorrentado
7 Capítulo 7
AS MÃOS DE ALEXIEI HYOGA procuraram as do homem sentado na mesa, que ainda o fitava sem uma expressão que pudesse ser descrita. Os dedos lânguidos de Shun se cruzaram com os do cavaleiro de Cisne e apertaram. Hyoga suspirou, agradecendo sem palavras por seu carinho ter sido correspondido. Os olhos de gelo estavam agora quase opacos.
A frase com que Hyoga terminou seu relato foi aquela que Shun Amamiya mais sonhou em ouvir de seus lábios. Mas a sua própria reação não foi a que sempre imaginou — pular no pescoço de Hyoga e beijá-lo freneticamente. Ele continuou imóvel, seus olhos agora percorrendo a pia. O chá havia secado, as ervas queimavam exalando um cheiro só não insuportável porque nenhum daqueles dois homens realmente ligava para nada a não ser a si mesmos.
Tudo que passou pela cabeça de Shun além das imagens que sua mente criava para as cenas que Hyoga descrevia, era ouvir novamente. Não como uma frase que foi dita num momento de loucura, de dor, mas agora, numa noite calma e fria, onde havia apenas eles dois e mais nada.
— Fale mais uma vez — pediu o cavaleiro de Andrômeda.
Hyoga apertou ainda mais sua mão à dele e deixou sua cabeça repousar na coxa esquerda do outro, fechando os olhos.
Eis o momento que ele esperou por tanto tempo. A hora em que ele diria que não poderia mais viver sem aquele homem, que seria eternamente condenado se não fosse correspondido, tudo resumido em uma única frase de três simples palavras:
— Eu te amo — e não disse mais nada, porque nada mais poderia, ou deveria ser dito. Isso era tudo que Shun de Andrômeda queria ouvir e tudo que Hyoga de Cisne queria falar.
O corpo de Shun se curvou até que ele repousou sua cabeça sobre a de Hyoga, cheirando seus cabelos loiros, as mãos cruzadas pouco abaixo do ombro do outro, a boca tão próxima do ouvido do cavaleiro de Cisne.
— Eu te amo — murmurou. — Eu também te amo. Esperei tanto por esse dia, eu desisti dele também... Mas não quero mais pensar sobre isso.
— Nem eu.
A porta do quarto se abriu e Shun Amamiya entrou de costas, as pernas cruzadas na cintura de Hyoga, a boca procurando pelo lóbulo da orelha, onde sabia que o excitava.
Hyoga adivinhava por onde deveria caminhar, porque não via um palmo à sua frente, seus olhos estavam fechados de prazer e tudo que fazia era gemer baixinho e morder de leve a carne do outro, segurando-o firmemente em seus braços. Sua canela bateu superficialmente na armação de madeira da cama, mas não doeu muito.
Deitou o homem de longos cabelos verdes, que se esparramaram no colchão, retirou a única peça de roupa que ainda vestia: suas calças. Todas as roupas de Shun, e o resto das suas, estavam no chão, em algum lugar no caminho entre a cozinha e aquele quarto.
Deitou-se sobre Shun, beijando seus lábios pequenos e descendo a mão até o baixo ventre, apertando o sexo rígido dele entre seus dedos quentes.
— Eu quero você — Hyoga murmurou no ouvido do outro, com luxúria e prazer, e mordiscou sua orelha.
Ergueu o rosto para beijar os lábios de Shun, mas o que viu o assustou a tal ponto que não conseguiu se mover e seus olhos se arregalaram levemente.
Shun estava assustado, olhando diretamente para Hyoga com olhos vidrados e opacos. Ele quase chorava, mas o impacto do que quer que fosse não deixava que lágrimas escorressem por seu rosto. Ele ergueu-se nos cotovelos, se afastando de Hyoga, puxando seu corpo esguio para trás, até escorar-se no espaldar de madeira clara, segurando um travesseiro contra o corpo e se encolhendo, o rosto fora da visão do outro homem.
— Não... Você estava mentindo? Oh, Zeus, diga-me que não! Você falou! Falou como da primeira vez! Você disse essas mesmas palavras, desse mesmo jeito. Você mentiu para mim?! Tudo que você disse foi mentira!!
— Shun! — Hyoga chamou se aproximando, mas o cavaleiro de Andrômeda se esquivava, fazendo menção de sair da cama. — Espere, eu não menti. Acredite em mim, eu te amo. Por favor.
Shun olhou fixamente nos olhos do homem que amava e que dizia que o amava também. Os olhos azuis de Hyoga não mentiam, mas as palavras dele foram tão parecidas com as que pronunciou no dia em que o possuiu pela primeira vez e o abandonou pela manhã.
Ele soltou o travesseiro, mas uma de suas pernas ainda estava fora da cama, revelando ainda sua indecisão. Seus olhos de assustados e tristes tomaram a seriedade que ele exibia quase o tempo inteiro. Ele agora analisava.
Analisou os olhos de Hyoga, o modo como pronunciava as palavras, como pediu por favor e repetiu que o amava. Mas o que acontecia dentro dele mesmo que não conseguia aceitar tudo isso como aceitou há tão pouco tempo atrás?
Ele estava com medo.
— Você quer que eu prove? — Perguntou Hyoga, sentando-se na cama. Shun não disse nada. — Você está sério, parece tão insensível quanto acho que você se tornou, como eu também me tornei, de certo modo. A minha palavra não basta, não é?
— Alexiei...
— Não diga que não. Eu sei. Não poderia ser de outra forma. Você sabe, eu nunca esperei que fosse me receber de braços abertos e com um sorriso no rosto.
Ele levantou-se, sua nudez à mostra e não tinha vergonha. Os olhos correram pelo quarto e pararam na parede oposta à janela aberta por onde um frio vento ainda passava, mas nenhum dos dois parecia sentir àquela altura. Ele caminhou lentamente até que seus dedos tocaram a corrente quebrada em forma de M. Ele olhou discretamente para Shun, como se perguntasse se podia. O cavaleiro de Andrômeda apenas continuou olhando o que ele fazia.
Hyoga puxou a corrente e voltou a caminhar na direção da cama, enrolando-a sensualmente em seu próprio pescoço com duas voltas e depois no braço com mais duas, uma parte dela pendia em sua mão.
Ele subiu na cama como um felino e jogou a ponta da corrente na mão direita de Shun que pegou quase casualmente entre seus dedos.
Como uma pequena e curiosa criança Shun ergueu seu braço esquerdo para Hyoga, seu indicador suavemente erguido. O cavaleiro de Cisne lambeu seu dedo, mordiscando.
— Eu sou seu — murmurou Hyoga, olhando intensamente para o outro. — Eu te amo e agora eu estou acorrentado, como nunca quis há cinco anos, como tinha medo e ódio de estar. Mas as suas correntes me cercaram, me agarraram, me apertaram e não podem mais soltar. Eu não quero que me libertem. Eu sou seu. Sou o seu cisne acorrentado.
Os lábios de Shun Amamiya se abriram levemente e ele puxou a corrente em sua mão. Hyoga engatinhou até que seus rostos estivessem tão próximos que suas respirações se confundiam e podiam quase escutar as batidas dos seus corações. A boca de Hyoga encostou-se na sua.
— Eu não quero te prender, você é livre — sussurrou Shun entre um gemido.
— Isso não tem nada a ver com liberdade.
Não foi mais preciso palavras, nem provas. Apenas gestos e movimentos sensuais. Os corpos se tocando como se fosse a primeira vez, como se nenhum dos dois jamais houvesse visto ou tocado no corpo do outro. De certa forma, para eles, isso era verdade. Os dois homens que agora se moviam luxuosa e freneticamente não eram os mesmos de tempos passados que lhe pareciam tão remotos e quase fantasiosos.
Shun Amamiya sentia o homem que amava entrar e sair de dentro de si, seus corpos unidos de tal forma como se fosse um só. Seus gritos não eram contidos e ele não reprimia nenhum gemido, queria que o cavaleiro de Cisne soubesse o quanto o amava, o quanto gostava de estar em seus braços.
Os movimentos de seus corpos, as faíscas invisíveis que liberavam e queimava tudo ao redor, marcaram a noite em que dois homens renasceram para o mundo e para si mesmos.
A noite em que o cisne foi tragado para as profundezas de um lago que antes lhe era desconhecido, por correntes que tinham a força de mil homens e uma beleza que não poderia ser comparada com a de ninguém mais.
Mas o fundo do lago não era obscuro como o cisne sempre imaginou que fosse.
***
Os longos e sedosos cabelos verdes de Shun esparramavam-se pela cama, ao seu redor, formando pequenas ondas como um mar de esmeraldas. Seus olhos fixavam-se no teto, num ponto que não se distinguia de qualquer outro no forro de madeira. Os dedos delgados, femininos em todos os aspectos, apertavam ligeiramente o lençol como se não quisesse agarrá-lo, mas apenas não deixar que o vento o levasse, o incansável vento frio que ainda fazia as cortinas voarem e tocarem o teto, descendo como plumas apenas para voltarem a ser sopradas mais uma vez.
O corpo de Hyoga Yukida remexeu-se na cama macia e ele sentou-se, os olhos vendo e não enxergando um lugar qualquer na parede, os cabelos loiros esvoaçando e impedindo Shun Amamiya de ver seu rosto com clareza. Ele girou, pronto para sair da cama sem palavras ou gestos de despedidas, sem um olhar ou um beijo. Igual a tantas outras vezes em que Shun fingia dormir e o via ir embora. O verde dos olhos do cavaleiro de Andrômeda sumiu, dando lugar a um tenro azul-acinzentado que se tornou tão visível quando ele arregalou os olhos e segurou o braço do outro, que Hyoga não pôde deixar de pensar de quem seria aqueles olhos que ele nunca viu.
Desespero.
Hyoga sorriu gentilmente, tirando as mãos de Shun que o apertavam quase rasgando sua carne.
— Eu não vou embora — ele murmurou, beijando os lábios do outro. — Eu só ia colocar a sua corrente no lugar, ela está no chão. — Apontou para o velho pedaço de aço num canto que ninguém sabia como havia ido parar ali.
— Não... — sussurrou o cavaleiro de Andrômeda. — Deixe lá. Não vai, Alexiei...
Shun abraçou-o por trás, escondendo o rosto na curva do seu pescoço e ainda murmurando para ele ficar. Ficar com ele, ao seu lado, juntos... Até o amanhecer.
Hyoga não conteve um pequeno sorriso.
— Além do amanhecer, meu querido... Muito além.
Num gesto delicado Hyoga deitou o outro cavaleiro sobre os lençóis, seus cabelos verdes voltando a se esparramarem, mas suas mãos agora entrelaçavam-se nas mãos frias do cavaleiro de gelo. Shun deixou um gemido longo escapar de seus lábios quando o lóbulo de sua orelha foi mordiscado.
— Eu te amo — sussurrou Hyoga em seu ouvido. — E se há cinco anos eu te deixei sem me despedir, não vai acontecer novamente. Não mais... Nunca mais.
— Aishiteru nimo, koishii — murmurou, fechando os olhos.
***
Sora Dolbert parou e sorriu.
— Obrigado por me trazer até aqui — agradeceu a Loren.
— O seu Mestre deve estar um pouco ocupado para te acompanhar até sua casa.
O rosto de Sora corou violentamente e ele virou-se, para que Loren não visse.
— V... Você não tem ciúmes? Quer dizer... Eles devem ter feito as pazes pelo que vimos — mesmo que não tenhamos ouvido a conversa.
Loren deu de ombros.
— Meu Mestre ama o seu Mestre, e, pelo modo como o seu Mestre o olhava, eu não poderia duvidar que isso fosse mútuo. Cada um sabe o seu caminho.
— Ja... Mas foi tão difícil explicar isso ao irmão de Herr Shun.
— Ele é um cabeça-dura — respondeu Loren, secamente. — E você, é melhor ir dormir, não espere por seu Mestre.
— Não vou esperar. Boa noite.
— Boa noite.
FIM DO SÉTIMO CAPÍTULO
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