LOREN MANARA CONTINUOU DEITADO no chão de terra, nos fundos da casa de seu Mestre, com a cabeça nas pernas de Shun, dividindo-as com Sora que eles acreditavam estar dormindo. Sora, porém, estava apenas com seus olhos azuis fechados. Ele cochilara, mas fora acordado pelo som das vozes de Loren e seu Mestre. Mas a conversa dos dois parecia urgente, de modo que ele preferiu permanecer de olhos fechados, para não atrapalhar.

Há muito Shun havia se calado e apenas apreciava o dia que seguia tranqüilamente, acariciando os cabelos dos dois rapazes. No céu, as mesmas nuvens, a mesma umidade relativa no ar.

— Já é tarde — disse Shun, por fim. — Se não nos levantarmos agora, iremos nos atrasar para a festa. Você não quer chegar atrasado em uma festa à sua homenagem, não é?

— Não, Mestre — respondeu Loren, mas não se moveu.

Shun chamou Sora carinhosamente, que fingiu acordar com extrema perfeição.

— É melhor vocês dois subirem para suas casas. Eu levei todas as suas roupas para lá, Loren.

Os dois rapazes ergueram-se. Sora espreguiçou-se, tentando manter um sorriso nos lábios, mas estava achando difícil. Ele ainda se perguntava se tudo que Shun dissera havia sido verdade. Mas ele conviveu cinco anos com Hyoga e, apesar de seu Mestre ser um tanto frio e distante, nunca demonstrou ser um homem cruel como Shun havia descrito. Porém, os olhos do cavaleiro de Andrômeda nada revelavam de fingimento ou mentira. Ele mesmo havia dito que não precisava mais fingir.

Loren puxou seu Mestre para perto de uma árvore, de onde Sora não os pudesse escutar o que dizia.

— Diga-me Mestre, eu tenho apenas uma pergunta: o senhor ainda ama esse homem?

Shun Amamiya manteve seus olhos fixos nos de seu discípulos por um longo tempo, então os fechou e suspirou.

— Sim. Eu ainda amo Alexiei. Ainda o amo... Mas prefiro que continuemos como estamos, longe um do outro. Eu já tenho sofrimentos demais. Não quero outros.

Loren beijou suavemente a delicada mão de seu Mestre e então selou seus lábios com um beijo doce. Lábios contra lábios.

— Eu te amo, Mestre — disse Loren. — Saiba disso. Eu já o deixei triste?

— Não, meu querido, nunca... Você é o meu tesouro e eu também te amo. Você é tudo que me mantém vivo.

— Então acredite quando eu digo, Mestre: eu jamais vou fazê-lo sofrer, nem deixarei que ninguém mais o faça novamente.

— Eu acredito — disse Shun com um sorriso, beijando, por sua vez, os lábios de seu único discípulo. — Eu acredito. Mas me prometa que não fará nada a Alexiei quando o vir.

— Eu prometo.

Com mais um beijo na mão de seu Mestre, Loren se retirou, mas Shun pediu que ele esperasse.

— Sora, venha comigo. E você, espere um pouquinho, e seja cavalheiro com seu novo amigo quando saírem.

Shun levou Sora para dentro da casa.

— Você tem companhia para essa noite? — Perguntou o mestre.

— Não, senhor... Eu acabei de chegar e...

— Oh, é verdade. Mas até mesmo Loren, que mora aqui há cinco anos e conhece todos desse Santuário não tem companhia para a festa.

— E o senhor? Vocês parecem bem... íntimos... — Ele disse, mas logo pediu desculpas por sua intromissão.

— Não se desculpe. Eu sou o Mestre de Loren, vou com ele, mas não pretendo segurá-lo. Ele precisa se divertir com pessoas novas.

Entraram no quarto de Shun e este abriu uma das gavetas da penteadeira. Sobre ela Sora viu o quadro de que Shun comentara e seus olhos se arregalaram de tal forma, e ele prendeu um grito com tamanha força de vontade, que Shun não pode deixar de perceber, mesmo estando de costas.

— Esse quadro... — Sora murmurou, atônito. Ele ouvira Shun descrever o quadro, mas não se lembrou naquele momento. — Esse quadro... Foi meu Mestre que... que pintou.

Aquele quadro foi o melhor e mais simbólico que seu Mestre já havia feito. Hyoga cuidava dele como se fosse vivo. E Sora já o tinha ouvido dizer, certa vez, quando seu Mestre estava bêbado, que aquele quadro resumia tudo que sentia e contava uma história que apenas quem tinha vivido seria capaz de compreender.

Shun, que segurava uma pulseira em suas mãos a deixou cair e, olhando fixamente para o quadro que tanto amava, sentiu suas pernas tremerem até que não agüentou e caiu sentado no chão, olhando para um ponto distante, mas não o enxergando realmente.

— Alexiei... Dele? Não pode...

Sora aproximou-se do Mestre, ajoelhando-se ao seu lado e segurando suas mãos. Shun virou-se para olhar nos olhos azuis do discípulo do homem que amava.

— Foi roubado — disse Sora. — Caçadores de focas passaram perto de nossa cabana quando estávamos treinando muito longe. Quando voltamos eles haviam levado tudo de valor, inclusive o quadro. Não era realmente uma obra de arte, mas significava muito para meu Mestre. Eles devem ter achado que valia uma fortuna. — Sora ajudou Shun a sentar-se na cama e sentou-se perto do Mestre. — Meu Mestre percorreu todo aquele deserto de gelo atrás dos ladrões, mas eles já não podiam mais ser alcançados. Mas é realmente extraordinário que ele tenha vindo parar aqui... Logo no seu quarto.

Shun fitou fixamente os olhos de Sora e suspirou, seus cabelos caindo displicentes sobre seu rosto de anjo.

— Você ouviu, não foi? Tudo que eu disse a Loren.

— Desculpe — disse Sora, evitando o olhar de Shun. — Não foi minha intenção.

Um leve aperto no coração de Shun o fez pensar que tudo parecia se encaixar perfeitamente. Realmente ninguém mais no mundo seria capaz de pintar uma cena como aquelas além de Alexiei. Mas Shun não sabia que ele pintava. Nunca havia pensado naquela possibilidade, pois nunca viu Hyoga esboçar qualquer interesse por quadros.

Sabendo disso, ele percebeu que nunca mais poderia ver aquele quadro com os mesmos olhos. Será que Hyoga via aquele quadro da mesma forma que ele? Ou teria um significado mais profundo e obscuro como as águas do Amor de onde as correntes saiam?

Não pense nisso, não agora, não é hora, disse a si mesmo.

Pegou a mão direita de Sora e, em sua palma, pôs a pulseira de ouro que havia pegado em sua gaveta. Nela havia um anjinho robusto com um dos braços esticado para a esquerda, como se esperasse que sua mão fosse agarrada.

— Há muito tempo a Deusa me deu essa pulseira. Fique com ela, use esta noite, assim você não vai ficar sozinho na festa.

— Mas...

— É um presente. Não se recusa um presente — disse o Mestre sorrindo o melhor que podia.

Sora pôs a pulseira cuidadosamente em seu bolso.

— Agora vá. Deixe-me um pouco sozinho. E diga a Loren em estarei pronto às oito.

Sora ainda abraçou carinhosamente Shun e saiu.

O cavaleiro de Andrômeda suspirou, deitando-se na cama.

— Maldito Alexiei... − Suspirou. − Durante todo esse tempo eu estava dormindo com você em minha parede...

***

Oito horas em ponto Loren Manara atravessou a porta da casa de seu Mestre que estava mergulhada na escuridão. Seus sapatos pretos brilhantes marcavam seus passos com ecos duros e seu terno negro o camuflava nas sombras, bem como seus cabelos e olhos escuros.

Abriu lentamente a porta do quarto de seu Mestre e o vislumbrou em um terno e sapatos iguais aos seus, com a diferença da gravata — a sua era cinza, a dele, preta com leves riscas de giz, quase invisíveis. Shun estava sentado em sua cama, seu longo e ondulado cabelo preso em uma trança frouxa que ameaçava se desfazer a qualquer momento, as mãos cruzadas, as costas levemente arqueadas para frente. Ele observava incessantemente o quadro do pintor que há pouco tempo era desconhecido.

Parecia não ter reparado a presença de discípulo, até que lhe dirigiu a palavra, porém, sem tirar os olhos do quadro.

— Sora me disse que Alexiei pintou esse quadro — murmurou, as palavras saindo quase dolorosamente, num lamento que seu rosto não demonstrava. — Foi roubado, e só os deuses sabem como veio parar nas minhas mãos.

Loren adiantou-se à frente de seu Mestre, impedindo-o de olhar para a tela sem nome, mas que agora tinha autor. Os olhos verdes de Shun encontraram os de seu discípulo. Nada disseram até que Shun ergueu-se e arrumou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. Pegou a mão de Loren e forçou um sorriso.

— Estão nos esperando — disse o Mestre, puxando seu discípulo para fora do quarto.

— Sim, estão.

***

O grande salão de festas que ficava num canto mais acessível e arejado do Salão do Mestre, acima das doze casas; estava lotado. Por todos os lados se ouviam risos e vozes, e podia-se ver as amazonas em seus mais exuberantes trajes e os cavaleiros em seus ternos pretos, poucos ousando outras cores. Todos pareciam alegres, inclusive os novos cavaleiros de ouro, que falavam e gesticulavam como se fossem velhos conhecidos.

Não havia palavras para descrever a exuberante beleza de Saori Kido. Seu rosto estava mais alongado, seu corpo mais esguio e o cabelo artificialmente encaracolado balançava conforme ela se virava para um e para outro, cumprimentando os presentes, em especial os novos cavaleiros de ouro. Foi quando ela viu Shun de Andrômeda e Loren de Peixes entrarem pela grande porta, de mãos dadas e semblantes sérios, que não condiziam com o dia de alegria. Mas assim que viu a deusa, Shun sorriu.

— Shun! Oh, Zeus, você está maravilhoso! — Ela disse, quase num grito, e nesse momento a multidão parou para ver o cavaleiro de Andrômeda em um incomum terno. Na realidade ninguém jamais havia visto Shun em um terno.

Ele não se abateu pelos olhares que lhe eram lançados e que logo voltaram a observar coisas mais importantes. Abraçou a Deusa, cumprimentando-a.

— Você está linda, Saori.

— Oh, é bom ouvir isso! Mas você está tão diferente! Está tão masculino nesse terno — ela afastou-se um pouco, segurando-o pelos ombros e observando seu corpo de cima a baixo. Só então percebeu o rapaz que a observava sem nenhuma expressão em particular no rosto.

— Então você é o cavaleiro de Peixes?

Loren aproximou-se da Deusa, recebendo dois beijos em cada lado de seu rosto.

— Loren Manara. Muito prazer.

— O prazer é meu — disse a Deusa com um sorriso. — Oh, por favor, divirtam-se! Eu ainda tenho que rodar esse salão inteiro para cumprimentar a todos. Desculpem-me por não poder conversar mais um pouco.

— Tudo bem — disse Shun, voltando a segurar a mão de seu discípulo. — Você fez um belo trabalho aqui.

Saori apenas sorriu, acenando enquanto sumia em meio a multidão.

— Ela me parece uma patricinha — murmurou Loren, sem medo de repreensão. Ele sabia que seu Mestre não tinha tanto respeito pela Deusa quanto parecia à primeira vista.

— Ela certamente é uma patricinha — concordou Shun e depois meneou a cabeça, sorrindo. — Mas não posso dizer que não é uma mulher inteligente e justa. Ela não é a reencarnação da Deusa à toa.

Ikki de Fênix avistou seu irmão antes de todos naquele salão. Tentou livrar-se da conversa com Aldebaran para falar com Shun, mas o robusto cavaleiro de Touro parecia ter muita coisa para dizer, até que Aiolia aproximou-se, trocando palavras com o brasileiro e Ikki pôde escapar com facilidade. Assim que se aproximou de seu irmão a Deusa estava saindo.

Shun lançou-lhe um sorriso gentil, mas Ikki pareceu especialmente incomodado com Loren.

— Você não quer beber alguma coisa? — Ikki sorriu pegando na mão livre de seu irmão.

— Vinho — disse Shun. E virando-se para Loren, soltou gentilmente sua mão da dele, pegando alguma coisa em seu bolso: uma pulseira com um anjinho apontando para a direita. — Use isto — colocou-a na mão esquerda de Loren.

— Isso é...?

— Uma das pulseiras de Eros. A Deusa me deu há muito tempo atrás, mas eu nunca usei. Neste salão há outra pessoa usando uma parecida — e Shun olhou por cima do ombro de seu discípulo, que se virou para ver quem era. Sora de Aquário apreciava uma champanha alheio a todos.

— Sora?

— Eu dei a outra a ele. Agora vocês terão que passar a noite juntos.

— Por quê? — Perguntou Loren, levantando uma sobrancelha.

— Porque é o que as pulseiras simbolizam, a união.

— E...? — Forçou o discípulo.

— Ele está sozinho. E você também.

— Estou com o senhor, Mestre.

Shun afastou-se de Loren, chegando mais perto de seu irmão e, sorrindo, deu dois tapinhas na sua mão entrelaçada na de Ikki.

— Não está, não — sorriu, quase cruelmente. — Você passou cinco anos comigo. Está na hora de se divertir com alguém de sua idade, bonito e solteiro. Não é uma coincidência que Sora seja tudo isso?

O cavaleiro de Peixes abriu a boca, mas não disse nada. Seu Mestre não estava lhe dando uma sugestão, mas uma ordem, por mais que tentasse disfarçar. Loren olhou de soslaio para Sora e suspirou. Todas as amazonas que conhecia estavam acompanhadas e Sora estava quase deprimido naquele canto solitário.

Ele não tinha escolha.

Ikki sorriu, puxando seu irmão para longe do cavaleiro de Peixes.

Sora de Aquário não era do tipo que se reunia facilmente em um grupo. Passou todos os anos de sua vida sozinho — no orfanato, longe das outras crianças, e na Sibéria, no deserto de gelo, tendo seu Mestre como única companhia e Hyoga era sempre calado e um tanto distante — e estar subitamente no meio de tantas pessoas o deixava ao mesmo tempo assustado e excitado.

Olhava pela janela, para as escadarias do lado de fora, com uma taça de champanha na mão, do qual pouco provara. De vez em quando seu olhar se voltava para o salão onde os casais dançavam e conversavam entre si ao mesmo tempo, onde todos pareciam contentes e sem preocupações, apenas com a deliciosa tarefa de se divertir em mente. Sora suspirou. Não de tristeza, mas de inveja porque ele não sabia dançar.

Avistou seu Mestre sentado em uma das mesas que ladeavam todas as paredes do salão, circulando o agitado centro dançante.

Alexiei Hyoga circulava a borda da taça de champanha com o dedo indicador, olhando atentamente para a frente, não escutando a conversa de Seiya, Shiryu, Nagi e Roan. Mesmo de longe Sora podia ver que os olhos de seu Mestre não expressavam nada em particular, ele apenas olhava constantemente para a mesma direção. Os olhos azuis do cavaleiro de Aquário se moveram, acompanhando o olhar do Mestre e encontraram Shun de Andrômeda dançando suavemente com seu irmão, ignorando o olhar do cavaleiro de Cisne.

Os cabelos de Shun ameaçavam livrar-se da fina fita branca que os prendiam em uma trança, enquanto ele era levado de um lado para outro pelas mãos fortes de seu irmão. Shun sorria, mas Sora não podia dizer se era realmente um sorriso ou uma farsa, apesar de saber que o Mestre de Loren não precisava mais fingir, como ele mesmo dissera.

Voltou a olhar seu Mestre, que continuava na mesma posição, os olhos ainda fixos em Shun. Aquele era o modo de seu Mestre expressar sua admiração pelas coisas e pelas pessoas. Ele apenas olhava. Não havia críticas, nem aprovação ou desaprovação, ele simplesmente fixava os olhos naquilo que admirava, como se a qualquer hora fosse desaparecer e ele quisesse aproveitar o máximo daquela beleza.

Sora não havia comentado com seu Mestre nada do que escutou da boca do próprio cavaleiro de Andrômeda. Ainda não acreditava totalmente no que ouviu e tentava sempre manter em mente que seu Mestre havia mudado com o tempo. Ele queria verdadeiramente acreditar nisso.

Porém, contou sobre o quadro roubado, porque achou ser um direito de seu Mestre saber. Hyoga ficou realmente impressionado com a noticia. Mas tudo que disse foi apenas “o destino usa vários meios para chegar a apenas um fim”.

E também contou sobre as flores e a alergia de Shun. Seu Mestre apenas levantou uma sobrancelha e praguejou baixinho, depois agiu como se nada houvesse acontecido.

No entanto, agora ele estava ali, do outro lado do salão, admirando de seu próprio jeito o homem de cabelos verdes que Sora havia confundido com uma mulher na primeira vez que o viu — não sem motivos. O cavaleiro de Aquário especulava sobre o que realmente aqueles dois sentiam um pelo outro e se perguntava se todos os caminhos do Amor eram tão dolorosos como o caminho que Shun de Andrômeda percorreu. Ele desejou fervorosamente que não.

Sentiu um cosmo conhecido se aproximar e viu Loren de Peixes vindo em sua direção.

Loren aproximou-se perigosamente do rosto de Sora e ficou o observando por tanto tempo que o cavaleiro de Aquário sentiu-se incomodado.

Sora era lindo. Indiscutivelmente o cavaleiro mais belo que Loren já havia visto, além de seu Mestre. Seus cabelos castanho-claros brilhavam sob a luz dos lustres e seus olhos tinham agora um tom esverdeado que Loren não tinha percebido antes. Suas delicadas mãos lívidas seguravam a taça de champanha e tremiam levemente. Os olhos piscaram algumas vezes na medida em que o rosto corava.

— Sozinho? — Perguntou Loren, num tom casual.

Sora demorou alguns segundos para responder.

— Ja1... — ele disse em alemão.

Os olhos de Loren cerraram-se um pouco, como se tentasse entender, então disse:

— Você é alemão?

Sora negou timidamente.

— Suíço, de Berna. — Respondeu. E vendo que Loren não disse mais nada e apenas ficou o observando, perguntou: — Você entende alemão?

— Um pouco. Sei um pouco de várias línguas.

— Você tem um sotaque engraçado — disse Sora, com um sorriso tímido. — Eu não consigo identificar.

— Português. Sou de Lisboa.

— Ah... É mesmo, você arrasta o erre.

Loren afastou-se um pouco do cavaleiro de Aquário quando Milo de Escorpião passou perto dos dois, rodopiando com uma amazona e piscou, mexendo os lábios no que Loren entendeu como: “não perde tempo, né?”.

Sora, por sua vez, deixou um suspiro baixo escapar e tomou o resto da bebida que segurava nas mãos. Enquanto procurava com os olhos um garçom para pegar mais uma taça de champanha viu uma amazona não muito longe olhando na direção de Loren, ignorando completamente uma amiga que lhe dizia alguma coisa ao pé do ouvido. O cavaleiro de Peixes, no entanto, parecia não a ver.

— Tem uma moça olhando para você — disse Sora, apontando discretamente com o olhar. Loren viu a amazona, já a conhecia, mas era apenas uma entre muitas. Não pareceu se interessar. — Você não vai até lá? Ela é linda e eu a vi dançando agora a pouco — disse, quase suspirando de inveja. — Você não gosta de dançar?

Loren baixou o olhar para Sora, que corou mais uma vez, suas faces mudando para um vermelho rosado.

O cavaleiro de Peixes tocou a face quente do outro e aproximou seu rosto do dele.

— Você tem a outra pulseira de Eros — sussurrou Loren, pegando no pulso de Sora, para mostrar a pulseira que ele mesmo usava. — Sabe o que ela significa?

— Não... Mestre Shun me deu. Ele disse... Disse que eu não ficaria sozinho esta noite se a usasse.

— Elas simbolizam a união.

— União?

Loren esticou seu pulso e o de Sora, colocando-os lado a lado. Os anjinhos de ouro esticavam suas pequenas mãos um para o outro.

— Meu Mestre tem métodos curiosos para unir um casal.

— Mas...

— E respondendo à sua pergunta: sim, eu gosto de dançar. Mas não quero dançar com aquela mulher. Quero dançar com você.

O cavaleiro de Peixes puxou um perplexo Sora pela mão, na direção da pista de dança, mas o outro parou, não se deixando levar.

— Nein2!, eu não quero — disse o cavaleiro de Aquário, choramingando. — Você só está fazendo isso porque seu Mestre quer. Eu não vou dançar com você!

Com sua habitual paciência Loren Manara se aproximou mais uma vez do rosto de Sora, analisando-o, como se aproximar seu rosto do de outra pessoa fosse dizer quem ela realmente era.

— Eu disse que quero dançar com você. Não estou fazendo isso por meu Mestre.

Sora fixou os olhos no chão, tímido.

— Não está mentindo?

— Não.

Mas ainda assim Sora permaneceu imóvel. O olhar de Loren percorreu o cavaleiro de Aquário que levantou seus olhos azuis esverdeados apenas um pouco, observando distante as pessoas dançando no salão. O corpo dele relaxou melancolicamente e suspirou. Loren entendeu imediatamente o porquê.

— Você não sabe dançar?

— Nein... — respondeu Sora, fechando tristemente os olhos.

— Isso não é problema, venha, eu ensino a você.

— Aqui? Não, aqui não! Eu iria pisar em seu pé, eu poderia cair e seria uma vergonha! Não, por favor.

Loren compreendeu a urgência daquela suplica e voltou a puxar Sora pelo braço, mas agora na direção da porta de entrada do salão de festas.

Shun de Andrômeda viu quando os dois saíram e sorriu, contente por finalmente Loren estar com uma boa pessoa, não com aquelas amazonas atiradas que costumava levar para a cama.

FIM DO QUARTO CAPÍTULO

1 Sim, em alemão.

2 Não, em alemão.