O Cisne Acorrentado
2 Capítulo 2
LOREN DE PEIXES SUSPIROU enquanto ouvia todo o barulho na casa de seu Mestre e preparava um chá.
Parecia-lhe que todo o Santuário estava ali e ele se perguntava como aquela casa comportava tantas pessoas. Ele sempre teve a impressão de que a casa de seu Mestre fosse grande, mas isso porque nunca ficavam mais de cinco pessoas juntas ali dentro. Agora havia mais de dez.
Eram nove e meia da manhã e seu Mestre ainda não havia acordado. Porém, bem cedo pela manhã Mu, Shaka, Aiolia e Ikki chegaram para uma visita. Depois deles vieram todos os outros, inclusive Marin. Loren deu por falta de apenas uma pessoa: o homem loiro da casa de Aquário.
Eles faziam um barulho infernal, andando para lá e para cá. Loren tentou avisá-los de que seu Mestre estava apenas cansado, mas ninguém lhe prestou atenção. Todos queriam entrar no quarto e ver como estava Shun, mas seu pupilo não permitiu, nem mesmo a Ikki, que irritou-se. Foi preciso muito tempo para que o cavaleiro de Fênix se acalmasse, e, ainda assim, ele continuou resmungando que era o irmão de Shun e tinha todo o direito de estar ao lado dele.
Loren não se afetou pelo estardalhaço daquele homem robusto e que, da primeira vez, não acreditou que fosse irmão de seu Mestre, mesmo que Shun tenha lhe dito várias vezes que Ikki era seu completo oposto.
— Quer ajuda com o chá? — Perguntou Shaka, entrando na pequena, mas bem equipada cozinha.
— Não, já está quase pronto. Mas pode ajudar com o café.
— Café?
— Para as visitas. Quem sabe assim mantenham as bocas fechadas.
Shaka riu, indo pegar o pó e já sabendo que teria algum trabalho, pois Shun não tinha cafeteira, sempre preparava o café manualmente.
Na sala Shiryu e Roan, o discípulo de Fênix, tentavam explicar a Ikki que ele deveria ser um pouco mais paciente, enquanto este não lhes dava ouvidos. Aiolia, Milo, Mu e Marin conversavam num canto, de modo de que ninguém ouvia o que diziam. Foi quando bateram na porta.
Milo, que estava mais perto, abriu. Era Sora, o discípulo de Hyoga, que trazia um buquê de lindas tulipas amarelas em suas mãos de anjo.
— Meu Mestre não pôde vir visitar Herr1 Amamiya, mas pediu que eu trouxesse estas flores.
De repente fez-se silêncio na sala.
Milo, Marin, Mu e Aiolia se entreolharam. Shiryu permaneceu calado, mas visivelmente decepcionado. Seiya xingou Hyoga baixinho e Ikki cerrou ainda mais seus punhos. Os novos cavaleiros de ouro não entenderam o porquê daquele silêncio. Mas Sora ficou constrangido.
— Entre, Sora — disse Milo, abrindo espaço para que ele entrasse.
Nesse momento Shaka de Virgem e Loren apareceram na sala, curiosos pelo silêncio repentino.
Com apenas um olhar para o cavaleiro de Aquário e outro para Mu, Shaka soube o que se passava e baixou ligeiramente a cabeça, voltando para a cozinha sem nada dizer.
Loren olhou diretamente nos olhos de Sora, que tinha as faces avermelhadas e então vislumbrou o buquê de tulipas.
— Obrigado pelas flores — disse o cavaleiro de Peixes, pegando-as em suas mãos e as colocando num canto afastado da sala, onde quase não se podia vê-las.
Sora ficou intrigado.
— Não vai levá-las para Herr Amamiya?
Loren lançou mais um demorado olhar para aquele rapaz de olhos azuis e confusos, e suspirou, fitando as flores de soslaio.
— Não — respondeu simplesmente. — Meu Mestre é alérgico a tulipas.
Ikki de Fênix arregalou os olhos e levantou-se subitamente.
— Do que você está falando?! Shun não é alérgico a nada!
Shiryu teve que levantar-se também e segurar um dos braços de Ikki para que o cavaleiro de Fênix não avançasse sobre Loren como queria fazer há tanto tempo.
— Desculpe-me... — Sussurrou Sora. — Creio que meu Mestre não sabia.
— São flores lindas — disse Loren, com um meio sorriso e ignorando Ikki. — Foi certamente uma boa escolha. Mas meu Mestre não pode chegar perto delas sem ter um ataque de espirros. Infelizmente eu vou ter tirá-las da casa, mas não quero que pense que estou sendo ingrato.
— Oh, não... Eu entendo — respondeu Sora.
Ikki permaneceu calado, olhando diretamente para Loren e com uma raiva que não fazia questão de esconder.
— Desde quando? — Perguntou, com uma voz quase conformada.
Loren apenas acariciou levemente as pétalas das flores e disse:
— Desde a primeira vez que ele foi comprar algumas mudas numa floricultura do centro de Atenas, para fazer o jardim. Ele escolheu todas as flores a dedo. Comprou lindos lírios, que são os que mais gosta, e ficou maravilhado com as tulipas, mas teve um ataque alérgico quando chegou perto delas. Nem ele mesmo sabia, como vê, senhor Amamiya. É normal que o senhor também não soubesse.
Ikki não gostou do modo como foi chamado de “senhor Amamiya”. Loren lhe pareceu levemente sarcástico, se é que aquele garoto sério poderia ser sarcástico.
O silêncio que continuava sobre todos os outros cavaleiros foi interrompido quando Shaka apareceu com uma bandeja de café e serviu a todos. Ikki sentou-se e não disse mais nada.
Lili passeava entre os lençóis de flores azuis e brancas, balançando levemente seu rabo felpudo. Subiu em uma pequena elevação na cama, deitando-se em bem ali.
Shun de Andrômeda acordou ouvindo um miado e sentindo um pequeno peso em seu peito.
Lili fitou seus olhos verdes por um longo tempo, então miou preguiçosamente, balançando o rabo que arrastava o lençol. Shun sorriu, mas logo seu sorriso sumiu quando ouviu as vozes em sua casa.
Sentou-se na cama, colocando Lili no chão e, antes que pudesse pôr seus pensamentos em ordem, a porta se abriu.
Loren de Peixes entrou com uma xícara fumegante de chá.
Os dois se entreolharam, mas nada disseram.
Loren pôs o chá na mesinha de cabeceira e sentou-se na cama, ao lado de seu Mestre, acariciando seus longos cabelos verdes e seus olhos cansados.
— Estão todos aí, preocupados, Mestre. Mas eu não deixei ninguém vê-lo. Achei que o senhor gostaria de ficar sozinho.
Shun pegou a xícara em suas mãos e, com a pequena colher, mexeu, esfriando o chá.
— Fez bem, Loren. Fez muito bem — murmurou.
— Mas seu irmão não gostou. Acho que ele também não gosta de mim.
Shun sorriu levemente.
— Ele não gosta de ninguém que chegue perto demais de mim.
— Então ele terá ainda muitos motivos para me odiar.
— Estão todos aí? — Perguntou Shun, olhando para a porta.
Loren percebeu imediatamente o que seu Mestre queria dizer com aquela pergunta. Shun não queria saber se estavam todos lá, mas sim se Hyoga Yukida estavam entre todos naquela sala.
O cavaleiro de Peixes não era mais uma criança e via claramente — através dos olhos de seu Mestre — que havia muito mais entre Shun e Hyoga que todos pareciam saber, menos ele. Suspirou longamente e beijou a testa de seu Mestre.
— Não Mestre. O senhor Yukida não está aí. Ele mandou flores pelo seu discípulo, Sora.
Shun não pôde evitar um sorriso desdenhoso.
— Flores? Ele nunca foi tão romântico. Onde estão?
— Eu acabei de dar um fim nelas. Eram tulipas.
— Oh — o sorriso de Shun tornou-se ainda mais sarcástico. — Tulipas... Logo na primeira vez que ele me manda flores, tinham que ser tulipas? Não veio um cartão?
— Não, senhor. Nenhum. Nem mesmo uma mensagem por Sora. Apenas mandou dizer que não pôde vir.
— Por que será que não estou surpreso? — murmurou Shun, mais para si mesmo.
Quando terminou de tomar o chá — Loren realmente tinha um dom para isso — Shun pediu que seu discípulo pegasse sua túnica no guarda-roupa. Fora um presente de Shaka. Uma longa túnica cor de pele com desenhos indianos e bordas costuradas com pedrarias. Shun gostava de vestir roupas folgadas, que não grudasse em sua pele e que não fizessem calor. Aquela foi sua primeira túnica, depois dela ele comprou outra dezena, de todos os tipos e cores, que usava diariamente quando estava em casa.
Vestiu-se com a ajuda de seu discípulo e penteou seus longos cabelos diante de um espelho. Quando terminou, tocou levemente seus olhos e suspirou. Há cinco anos aqueles eram os olhos de um homem que não era mais Shun Amamiya.
Loren assistia a tudo calado, acariciando Lili em seu colo. Seu Mestre foi em direção à porta, preparando-se antecipadamente. Ele sabia que seria um teste à sua paciência.
— Espere um pouco, Mestre — pediu Loren, levantando-se. Shun não virou-se, mas parou com a mão na maçaneta. — Quando o senhor irá me contar? Quando vai me dizer o porquê de tudo isso?
Shun baixou a cabeça e permaneceu calado. Loren pensou que ele abriria a porta de repente e não responderia, mas logo ouviu a voz de seu Mestre.
— Quando estivermos a sós. Agora, venha aqui − estendeu sua mão para Loren, que a segurou. — Fique comigo, sim? Eu não quero ficar sozinho com eles.
Ikki de Fênix era o que estava mais próximo da porta do quarto de Shun, mas, mesmo assim, não ouvia nenhum ruído vindo de lá. Ele foi o primeiro a ver seu irmão saindo daquele quarto que tanto teve o ímpeto de arrombar, vestido em uma estranha túnica, parecida com as que Shaka vestia. Mas não foi aquela estranha roupa que fez sua raiva e sua impaciência aumentar ainda mais, foi a visão singular da mão de seu irmão entrelaçada com a mão de Loren, que a apertava levemente.
Shun parou diante daquelas pessoas e, mais uma vez, fez-se silêncio.
Ikki ergueu-se da poltrona em que estava, dando lugar a seu irmão, que agradeceu com uma voz baixa e cansada.
Loren sentou-se num dos braços da poltrona, sua mão ainda segurando a de seu Mestre. Ikki postou-se do outro lado de Shun, pegando em sua mão livre, meio enraivecido, meio consternado pelo seu irmão. O cavaleiro de Andrômeda sorriu e entrelaçou os dedos de Ikki nos seus.
— Sinto muito se preocupei vocês, mas estou bem — disse Shun, olhando para todos aqueles rostos conhecidos e recém-conhecidos.
— Shun, o que aconteceu com você? — Perguntou Ikki, preocupado.
— Nada, onii-san. Vê? Eu estou bem. Só um pouco cansado. E sinto muito por ter estragado esse dia que deveria ser divertido.
Do outro lado da sala Milo riu alto.
— Ah, mas AINDA será um dia divertido. Esqueceu que teremos uma festa?! Você disse ao Aiolia que iria!
Ikki não gostou do comentário sobre festas num momento como aquele. Shiryu também não. Mas os cavaleiros de ouro e Seiya — por um motivo bem egoísta — sorriram.
— Eu vou — respondeu Shun, também sorrindo. — Eu não poderia deixar de ir.
Loren apertou um pouco mais a mão de seu Mestre, como se o advertisse, mas este virou-se para ele com um sorriso ainda mais largo no rosto e sussurrou:
— Não se preocupe, está tudo bem.
Ikki observou a cena contendo sua raiva. Era impressão sua ou aquele garoto parecia mais intimo de seu irmão que ele mesmo?
— Bom, já que você está bem e vai à festa — comentou Aiolia — então eu e a Marin vamos subir que temos muita coisa para fazer.
— Ah, eu e o Shaka também estamos indo e Milo... — Mu puxou o cavaleiro de Escorpião. — Você também vem.
Shiryu de Dragão olhou abismado para os cavaleiros de ouro, que antes lhe pareceram tão preocupados e agora agiam como se nada houvesse acontecido.
— Como eles podem ir embora desse jeito? — Perguntou o cavaleiro de Dragão quando viu Milo fechando a porta, empurrando o novo cavaleiro de Câncer que os acompanhou e soltando extravagantes risadas, até que nada mais se ouviu.
— Eles apenas me conhecem bem — disse Shun. — Vocês irão ficar para o almoço? Já está tarde.
— Ah! — exclamou Seiya. — Nossa, eu disse a Saori que iria almoçar com ela hoje!!
E levantou-se rapidamente, aproximando-se de Shun e beijando sua face.
— Nos vemos à noite, Shun. Eu gostaria de ficar, mas...
— Tudo bem — sorriu.
Jen de Sagitário apenas observou seu Mestre sair apressado e suspirou.
— Eu também vou indo. A casa de Sagitário está uma bagunça e tenho a leve sensação de que vou ter que fazer tudo sozinho.
— Oh, eu subirei com você! — Disse Roan de Gêmeos. — Vai ficar Mestre? — Perguntou a Ikki.
— Não — respondeu seu Mestre. — Eu gostaria de conversar com você, Shun. Mas agora não é o momento — e olhou raivosamente para Loren que o ignorou.
Shiryu de Dragão concluiu que Ikki estava certo. Aquele não era o momento adequado para conversas. Levantou-se cumprimentando o amigo.
— Nos vemos à noite, então.
— Sim — concordou Shun.
A porta se fechou e naquela silenciosa sala ficaram apenas Loren, seu Mestre e Sora de Aquário, visivelmente envergonhado.
— Desculpe-me — disse Sora, olhando insistentemente para as mãos que entrelaçava e desenlaçava. — Eu não quero ser intrometido, mas acho que meu Mestre gostaria de ficar um pouco sozinho na casa de Aquário. Além do mais, a comida dele não é boa.
Loren passou uma mão pelos cabelos e suspirou. Shun de Andrômeda sorriu.
— Oh, sim. A comida de Alexiei é sempre insossa. Todos esses anos e ele ainda não descobriu para que serve o sal? — Levantou-se, aproximando-se do belo cavaleiro de Aquário, pegando seu rosto entre as mãos. — Você deve ter sofrido muito numa cabana minúscula que ele chama de casa. Mas vejo que é um bom rapaz — e aproximou seus lábios do ouvido de Sora. — Ele não fez nada que não devia com você, não é?
O rosto de Sora corou violentamente e ele olhou nos profundos olhos verdes daquele homem que ainda lhe sorria, mas agora não era apenas um sorriso gentil, mas levemente maldoso.
— M-meu Mestre nunca fez nada que não deveria, Herr Amamiya! — Ele disse, baixando o rosto.
Shun beijou a testa de Sora e, com suas mãos aparentemente frágeis tocou seu ombro.
— Desculpe-me, eu não deveria ter dito essa bobagem. Esqueça — e, voltando-se para Loren, completou: — Você faz o almoço?
— Sim, Mestre. O que o senhor quer?
— Qualquer coisa leve. Não estou com muita fome.
Shun pegou a mão de Sora e o levou até a cozinha, sendo seguido por seu pupilo.
— Sente — apontou uma cadeira. — Porque não me conta um pouco sobre você? Parece-me um rapaz quieto, como seu mestre.
Sora contou a um curioso Shun sobre sua vida, a família que perdeu e seus anos de treinamento. Ele era realmente um rapaz tímido, mas gostava de contar histórias, pelo que Loren e seu Mestre puderam observar. Fizeram uma tranqüila refeição e, ao final desta, foram descansar um pouco entre as árvores que circundavam a casa.
Com sua longa túnica arrastando no chão, Shun sentou-se, escorado em um grosso tronco de oliveira, os olhos fechados como se dormisse.
Loren e Sora deitaram-se no chão com as cabeças apoiadas nas longas pernas do Mestre e o ouviam o contar sobre a batalha do Santuário, uma história que lhes contaram tantas vezes quanto as estrelas que brilham no céu, mas que nunca se cansaram de ouvir.
Quando Shun finalmente terminou e calou-se, observando distraidamente o balançar das árvores, Sora estava com os olhos fechados e a respiração calma, como se dormisse, mas Loren continuava desperto, olhando para a copa das árvores.
— Mestre — chamou o discípulo.
— Hm?
— Sora está dormindo. Esta é uma boa hora, Mestre.
Shun sorriu à insistência de seu discípulo, mas não podia culpá-lo. Era assim tão importante para Loren saber o que havia acontecido em sua vida?
Mas Loren era como seu filho. Não negaria isso a ele.
— Nenhuma hora é boa para relembrar esse assunto... — murmurou o Mestre. — Mas, sim, eu irei contar, já que quer tanto saber.
Loren fechou seus olhos castanhos, quase amarelos pela claridade do dia, para ouvir a história que tinha todas as respostas para as perguntas sobre seu Mestre que nunca foram respondidas.
E Shun Amamiya, com sua voz de veludo, começou a contar a história que tanto tentou esquecer.
FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO
1 Herr, significa “senhor” em alemão.
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