O Ciclo dos Mortos
3 Recordações indesejáveis
ETHAN:
Quando eu vi a cabeça do zumbi quicando no chão, pensei que eu ainda havia alguns minutos de vida.
Viro minha cabeça para o lado esquerdo e vejo um jovem com a aparência de 24 anos lançando algumas facas para matar os mortos-vivos. Lembro também que ele tinha olhos azuis e cabelos de cor preta. Ele parece estar gritando alguma coisa, mas apenas reparo quando percebo que os alertas são para mim.
– LEVANTE LOGO! VENHA CÁ! — ele exclama. Me levanto rapidamente do cadáver do veado, colho minha mochila que está caída ao lado e corro para a delegacia.
O jovem está segurando uma grade arrebentada para lançar as facas nos zumbis. Aproveito da mesma e entro lá. O mesmo a fecha e a tranca com um punhado de correntes. Nós corremos para o interior da delegacia, antes que fossemos pegos de surpresa por qualquer imprevisto.
Chegamos lá arfando. A primeira coisa que faço é subir um lance de escadas que leva a algumas salas de funcionários. Logo depois, me jogo no chão, de tão cansado que estou.
– Qu-qual o seu no-nome? — tento perguntar.
– Alastor... Alastor Giacomelli — ele responde.
– Muito obrigado... obrigado mesmo, Alastor. Sem você, eu já estaria morto.
– Bom, de nada. — ele olha para mim, provavelmente me examinando — Você foi arranhado ou mordido por algum errante?
– Errante?
– Érr, zumbis. Enfim, foi ou não?
– Não.
Novamente, ele volta a me examinar. Desta vez, ele presta atenção na minha mochila.
– O que há dentro desta mochila? — ele pergunta
– Armas, tanto brancas quanto de fogo — respondo.
– Seria muito útil, érr... qual o seu nome?
– Ethan Ber...
– Seria muito útil, Ethan! Bom, tome alguma ducha. Este cheiro de sangue de veado deve trazer mais errantes para cá.
– Os zum... ops, os errantes são atraídos pelo cheiro?
– E pelo som.
Alastor me mostra aonde fica o toilet, e me dirijo ao mesmo. Faz semanas de que eu não tomo uma ducha ou até mesmo um banho. Para mim, o barulho da água do chuveiro caindo sobre as partes do meu corpo é gratificante.
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Logo após tomar o banho, dirijo-me ao vestiário que a delegacia possui em todos os seus banheiros. Lá, visto um colete de couro rasgado — deixando-o com mangas curtas -, uma camisa regata branca por baixo, uma calça jeans, um tênis Converse e, por baixo das minhas vestes, um colete anti-balas para proteger-me de possíveis mordidas de errantes.
Antes de ir tomar uma ducha, Alastor me disse para encontrá-lo na sala de funcionário Nº 21, que estava localizada no segundo andar da delegacia.
Tento achar as escadas que levam ao segundo andar, e encontro as mesmas destruídas e sendo bloqueadas por pedaços de madeira. Me pergunto sobre como estes apareceram aqui até olhar para o teto da delegacia: embora boa parte do mesmo estivesse intacta, um pequeno buraco — que seria composto por estes pedaços de madeira — caiu. E, embora os lances de escada para o segundo piso estivessem bloqueados, Alastor deixara uma tábua para eu subir. Subo na mesma e consigo chegar ao segundo andar, sem muito esforço.
Então, procuro pela sala Nº 21. Logo de cara, acho uma porta que havia todas as características que aparentariam ser aquela sala: uma porta feita de madeira de carvalho, com uma pequena parte feita de ouro, escrito "21', além de um olho mágico.
Me aproximo mais daquela porta, e giro a maçaneta da mesma. Quando a abro, vejo apenas uma mulher que aparentava estar na casa dos 20 anos, com cabelos castanho-escuro, olhos da mesma cor e com a altura na média. Ela também trazia, consigo, uma caixa de lenços, já que estava chorando. Alastor também estava presente no cômodo, tentando acalmá-la.
– Vamos, Clove! — ele tentava animá-la e tentar fazer com que a mesma não ficasse tão melancólica quanto já estava — Venha beber um pouco de água.
– Eu não estou com sede. — ela diz.
– Mas você não bebe há duas semanas!
– Mesmo assim, eu não quero beber nada. — ela insiste — Saia daqui, não está vendo que estou em um momento depressivo?
– Por que está em um momento depressivo?
– Não posso dizer nada sobre o assunto — ela diz, friamente. — Agora, saia!
Eu e Alastor saímos da sala, para tentar não irritar Clove ainda mais.
– Então era esse o motivo pelo qual você me chamou? — pergunto, meio que murmurando para ela não ouvir ou sentir-se ofendida.
– Bom, não era necessariamente esse. Eu ia te entregar aquela sua mochila para pegarmos algumas armas e irmos em busca de alimento, mas pelo jeito, temos que tratar disso agora.
– Afinal, quem é ela e o que está acontecendo?
– Eu encontrei ela na rua há algumas semanas atrás lutando contra os errantes com um pau de madeira — Alastor me explica — a socorri, e ela estava aos prantos de tanta fome e sede que passava. Quando ela chegou aqui na delegacia, bebeu litros e mais litros de água, enquanto trazia biscoitos em suas mãos de dez a dez minutos.
– E por que ela está assim?
– Eu não sei. — Alastor coloca sua mão direita em seu queixo, "fazendo uma pose" de quem está pensando seriamente em algo ou alguém. — Bem, ela não quer falar comigo. Mas se o problema realmente for eu, não teria problemas em ela falar com você, certo?
– Não... quer dizer, da minha parte, não. Basta ver a opinião dela sobre o assunto.
– O.k.. Estarei aqui te esperando.
– Como assim?
– Siga em frente. Abra esta porta e tente falar com ela. Não teria problemas, certo?
– Érr, nã...
– Foi uma pergunta retórica. Agora vá.
Estou vendo que estou sendo obrigado a ir conversar com Clove. Giro a maçaneta da porta e vou até ela. Porém, antes de eu pensar em qualquer forma de como iniciar um diálogo com ela...
– O que você quer, grandinho? — ela pergunta para mim.
Tento pensar em alguma frase de efeito para tentar dialogar com ela.
– Acalme-se, abaixe a bola — respondo. Não sei se esta frase teria sido boa, mas pouco importa agora — É Clove o seu nome, certo?
– Sim.
– Bem, Clove, eu não estou aqui para lhe agredir ou para fazer um mal qualquer a você, apenas quero tentar acalmá-la para eu, você e Alastor saírmos deste apocalipse vivos, mas precisarei da sua colaboração — ela franze a testa para mim — Posso contar com sua parte?
Ela mexe a cabeça, de forma com que esteja indicando algo positivo, ou, em outras palavras, um "sim".
– Então por que você está chorando? — pergunto.
– Não posso falar — Clove responde.
– Por que você não pode falar? Se for algo ruim, não será nada comparado ao oque há la fora. Afinal, em momentos de superação como esse, devemos botar tudo que nos enfraquece para fora e principalmente sermos fortes. Caso contrário, nós morremos.
Ela bufa, mas enfim, abre a boca para contar todo o motivo do choro.
– O meu p-pai a-cabou de-de-de... m-morrer.
– Espere, respire fundo! Como você sabe?
Ela aponta para um cadáver sendo engolido pelos errantes. Devia ter sido aquelas as únicas lembranças de seu pai.
– N-nós havíamos c-combinado de vir-m-mos para c-cá — ela gaguejava de tanto chorar — Um i-ia e o outro d-dava cobertura. Eu v-vim e ele a-atirava neles para m-me salvar. Ele aca-acabou de tentar vir para c-cá. Chamei o Alastor para d-dar-me algumas a-armas para eu dar c-cobertura ao meu p-pai, mas ele estava t-te ajudando. Qu-quando ele chegou, já era tarde demais.
Penso em tudo que poderia estar ocorrendo na cabeça de Clove. Todos os seus pensamentos que lhe trariam uma vida mais monótona ainda, toda a melancolia que lhe rodeava, e toda a infelicidade que ela via em viver. Eu já passei por aquilo quando os meus pais morrera, no início deste apocalipse.
– Bem, eu te entendo — digo para ela — Meus pais morreram dois dias depois de anunciarem que os errantes haviam tomado conta de todo o planeta Terra.
Por mais que eu tentasse, não conseguia tirar aqueles últimos momentos de meus pais da cabeça. Era algo inevitável.
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Naquele dia, lembro de uma grande tempestade estar tomando conta de Dallas. Meus pais estavam com metralhadoras de combate, preparados para sair de casa e atirar em todos os errantes para abrir caminho. Eu insistia para eles não fazerem isso, mas eles apenas me ignoravam. Logo avisei que ficaria naquela mesma casa, até alguém (como o Alastor) viesse me trazer esperança.
Quando eles abriram a porta, se depararam com meia-dúzia de errantes esperando-lhes na porta. A fechei rapidamente, e acho que este foi o pior ato que já fiz em minha vida. Se eu não tivesse fechado a porta, eles poderiam estar vivos agora. Porém, já era tarde demais para ficar de remorso. "A tranquei a sete chaves" e me preparei para qualquer errante que pudesse invadir nossa casa.
Os gritos de minha mãe tentando tirar o errante de seus ombros está na minha cabeça, e é algo que não consigo esquecer.
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– Foi assim que eles morreram — digo, após explicar tudo para Clove.
– Pelo menos eles não se transformaram em um deles. — Clove diz
– O que você quer dizer? — pergunto
– Se os errantes apenas te mordem e te matam, você se tornará em um. Se eles comem todo o seu corpo, não haverá como "voltar à vida" novamente. — ela explica — Eles apenas deixaram o meu pai mordido e morto no chão, já que estavam ocupados demais tentando abrir as celas daqui.
Não foi um dia muito bom, já que arranquei algumas lágrimas de saudades dos meus pais. Eles tinham tudo para viver felizes. Uma boa casa, bons empregos, uma família sempre disposta a ajudá-los. Mas o apocalipse veio para estragar tudo isso.
– Bom, agora vamos descer para beber um pouco de água? — pergunto para Clove — Não é muito bom guardar memórias em sua mente por muito tempo. Apenas te enlouquecerá.
Clove olha para os meus olhos por dois segundos. Então, ela diz:
– Está bem.
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