ALASTOR:

– O que fazemos? — perguntava Billy.

– Em relação a que, exatamente? — pergunto.

– Sobre o cadáver daquele cara. E se acharem?

– Bem, eles terão de saber quem o matou. Seríamos uma das últimas opções do Imperador.

– Como sabe?

– Este hotel está cheio de criminosos. Os via direto na TV e nas manchetes de jornais. Seriam os primeiros suspeitos deles.

– Até que você tem razão.

O elevador finalmente chega no térreo. Quando suas portas são abertas, avisto Clove acompanhada de um garoto loiro e uma menina com cabelos não muito longos e ruivos.

– Stephan e Lexie, vejo vocês no quarto. — Clove diz. Ela checa para conferir se ambos já foram. Quando não percebe a presença deles, pergunta: — Enfim, qual o plano?

– Eu e Billy — começo a explicar — vamos para o décimo segundo andar, onde está o Ethan, e iremos libertá-lo. Antes disso, temos que ter certeza de que eles não terão a visão da câmera ou eletricidade para apagarmos a luz e não nos enxergarem libertando-o. Por isso, você terá que acabar com a fonte de eletricidade do prédio e despistar os guardas das câmeras. Por precaução, as destrua.

– Entendido. — Clove responde.

O problema nem era Ethan, e sim o Imperador. Segundo aquele cara que eu e Billy espancamos, ele tinha uma pequena fonte de eletricidade extra e várias câmeras do prédio em seu cafofo — cujo ninguém, absolutamente ninguém sabe onde fica.

– Billy, você sabe o que faremos com o Imperador? — pergunto.

– Conheço uma menininha que pode tirá-lo de seu cômodo, mas precisaremos da localização do mesmo. — ele diz.

– Tenho uma ideia! — exclama Clove — Alguém pode vigiar o Imperador nesta noite para ver onde ele vai.

– Quem vai fazer isso? — pergunto. Infelizmente, Billy e Clove franzem a testa para mim. Creio que aquilo fosse um sinal de que eu iria vigiá-lo. — O.k. então.

– Vou para o meu quarto — diz Clove — Seja furtivo, Alastor, e tente não gerar barulho. O Imperador fica rodeando o hotel. Ele geralmente fica no quarto andar.

– Como você sabe tudo isso? — Billy pergunta.

– Stephan. Aquele garoto loiro. Ele já pensou em fugir daqui. Enfim, vou indo.

Observo Clove se dirigindo ao elevador. Eu e Billy a acompanhamos, pois terei que ir até o quarto andar.

Entro no elevador e quase aperto o botão "4". Só não o apertei porque Billy me interrompe:

– Agora não, xará. Fique no térreo um pouco. Vai que o Imperador passa por aí. — me retiro do elevador, e me apoio em uma coluna localizada ali perto.

O térreo não era tão cheio quanto o de um hotel normal. Raramente, mais de seis pessoas ficavam no mesmo. Agora, por exemplo, haviam apenas três: um garoto que aparentava estar em seus 12 ou 13 anos, que carregava restos de uma ave, uma senhora idosa que andava por aí de bengala em busca de entretenimento, e eu.

–-

Após algum tempo, decido abandonar aquele recinto, e me dirijo ao quarto andar. Vou até o elevador, e aperto o botão "4". Espero cerca de vinte segundos até que o mesmo chegue no piso desejado. Porém, quando chego, mal consigo me movimentar. Isso pois uma meia-dúzia de guardas e o Imperador parece que previam que eu estava indo para lá.

– Surpresa! — disse o Imperador. Então, um soldado pega uma arma de choque e bate em mim com ela.

A única coisa que lembro é que eu desmaiei.

–-

Quando abro meus olhos, há uma faixa cobrindo a minha boca, impedindo que eu fale qualquer coisa. Cordas com nós prendem os meus pulsos, fazendo com que eu não consiga mexer os meus braços.

Tento observar a área em que eu estou. Certamente, seria a sala do Imperador. Era circular, e havia quatro monitores, todos com a visão das câmeras do Hotel San Villar. Algumas caixas de som também estavam presentes, logo do lado do computador em que o Imperador via a planta do hotel.

Quando a porta se abre, vejo apenas um número: "89". Então a sala era localizada no oitavo andar. O Imperador entra com a sua trupe de guardas, e dá um tapa na minha cara. Foi um tapa fortíssimo. Fortíssimo mesmo. Logo depois, ele arranca a faixa que cobria minha boca, finalmente. Mal conseguia respirar direito pelo nariz. Mas isto era questão de nervosismo.

– Acha mesmo que seu grupinho conseguirá sair daqui? — o Imperador pergunta.

– Acho. — respondo. Um dos soldados aponta a arma para mim, mas o Imperador intervém e a afasta.

– Que pena. Mais um iludido na história desse planeta. Realmente, isso é decepcionante.

– Em uma situação como essa, não vejo outra forma de decepção a não ser o apocalipse.

– CALE-SE! — ele vocifera — Nunca... nunca conclua oque eu digo, certo? — balanço a cabeça negativamente. — Não? — a balanço, novamente — GABE! EI, GABE! ME DÊ O ALICATE!

Com o pedido do alicate, hesito instantaneamente. Será que ele iria me torturar? Mal aguentei ver Ethan sendo espancado pelo Imperador com um simples taco de beisebol. Agora, imagina alguma parte de meu corpo sendo danificada por um alicate. Iria ser doloroso demais!

Após uns vinte ou trinta segundos, um dos dezesseis guardas que estavam presentes ali entrega o alicate para o Imperador. Presumo que ele seja o Gabe.

– Abra a boca. — o Imperador ordena, já com o alicate em mãos. Primeiramente, não a abro, mas, após uns dois segundos, vejo que estou sendo obrigado. Por isso, abro minha boca.

O Imperador abre o alicate, e começa a focar os meus dentes. Em questão de segundos, ele começa a arrancá-los.

– NÃO FAÇA ISSO! — exclamo — POR FAVOR! — estava doendo muito. Assim como eu imaginava.

– Agora implora para que eu simplesmente "não faça isso"? — ele zomba — Que hilário você é... Era comediante, por acaso?

Como apenas minhas mãos estavam imóveis, minhas pernas, obviamente, estavam livres. Por isso, consegui chutar o queixo do Imperador, já que o mesmo estava vulnerável por deixar sua face livre para agressões e por estar perto demais de mim.

Os guardas começam a apontar suas armas para minha direção, quase puxando o gatilho das mesmas, mas todos eles são interceptados pelo Imperador. Ele sussurra algo como "Deixa comigo" para Gabe.

Mal havia percebido que havia outra porta naquele cômodo. O Imperador se dirige a ela, tentando — segundo os meus instintos — achar algo. Provavelmnte mais um instrumento de tortura contra mim. Por isso, desejo que ele não encontre, caso isso seja o caso.

Ele volta com uma chave de grifo vermelha em suas mãos.Mas não era vermelho da cor da chave de grifo. Era vermelho de sangue.

O Imperador volta se aproximar mais de mim. Então, com a chave, ele começa a me bater. Primeiramente, eu não achava que doía muito, mas o pior é a dor que vem depois. Isso porque você acha que não faz danos ao seu corpo, mas depois, tudo se acumula, criando a pior dor possível.

– PARE, AGORA! — imploro — POR FAVOR!

– Érr... não. — ele responde.

Consigo cuspir em sua face quando ele se aproxima. Os guardas, desta vez, em vez de ameaçarem em atirar em mim, riem da cara do Imperador.

– Vão rir de mim mesmo? — ele pergunta — VÃO RIR DE MIM MESMO? Isso vale a vida de todos, TODOS vocês. Enfim, caro idiota, vai falar ou não?

– Falar o que? — pergunto. O Imperador começa a rir de mim, como se eu tivesse feito algo de errado e alguma coisa extremamente envergonhante.

– O que você e seu pequeno grupo planejam?

– Não vou responder a sua pergunta.

– NÃO?! — ele diz — Bom, então você prefere morrer do que viver? Perguntaríamos para seus amiguinhos. Qual o nome deles mesmo? Ethan... Clove... Billy... Katherine...

– Quem é Katherine? — indago, realmente sem saber de quem era aquele nome.

– Oras... Vamos descartá-la da lista e considerar todos os outros nomes.

– Eles nunca iriam responder.

– Então morreriam também.

– Bom, de qualquer forma, pode me matar. Não irei responder mesmo. Suas chances de sobreviver nisso aqui apenas cairão.

– Continuarei vivo. Já não podemos dizer o mesmo de você.

Novamente, ele me bate com aquela chave de grifo. Realmente, aquilo dói bastante. Por um momento, pensei que eu iria morrer com mais sete ou oito batidas com aquilo. Porém, tentei resistir o máximo possível.

– E AGORA?! — insiste o Imperador.

– Nunca... irei... falar — respondo, sabendo que minha morte estava perto. Sei que estava sendo teimoso naquela hora, mas como não ser?

– Última chance.

– Não irei falar.

– O.k. — ele me bate mais uma vez com a chave de grifo, e observa um dos guardas zombando dele. O vi sussurrando coisas como "Estúpido" para outro soldado ao seu lado, que também ria. O Imperador, então, joga a chave de grifo em sua cabeça, fazendo com que a mesma voe pelo cômodo. Obviamente, matando-o. — Quer que isso aconteça com você também? — dizia ele, referindo-se ao guarda que ria. Ele balança a cabeça negativamente — E com você? — ele pergunta, dirigindo-se a mim.

– Talvez — respondo.

– Talvez?! Pff... Você merece ser morto.

O Imperador se dirige ao quartinho em que ele pegara a chave de grifo. Demorou uns quarenta e cinco ou sessenta segundos até que ele abandonasse aquela parte do cômodo com um arame enorme. Na ponta, o mesmo tinha um círculo que, provavelmente, conectaria a algo ou alguém. Já na outra, estava localizado algo afiado, que, certamente, seria para carregar a energia de alguma coisa. Assim, chego a conclusão de que ele faria que alguma eletricidade viesse até mim, matando-me.

Obviamente, me apavoro, pois eu não queria morrer cedo. Isso poderia ter sido fruto de minha teimosia, fazendo com que eu me sinta arrependido da mesma.

Ele volta a vir em minha direção, onde eu aproveito e cuspo em seu sapato. O Imperador parece ter ignorado, pois dizia algo para mim:

– Tire a camisa.

– O que?

– Tire logo.

– Como? Meus braços estão amarrados.

– Desamarre as mãos dele, Gabe. — ordena. Então, o soldado que eu presumia que fosse Gabe retira a corda que imobiliza os meus braços. Aproveito e lhe dou um soco na testa. Porém, foi inútil, pois como ele estava com capacete, resistiria aquela "agressão".

Alguns segundos depois do soco que eu dera, ele retira o capacete de sua face e me dá uma coronhada com a sua metralhadora. Pela terceira ou quarta vez (segundo os meus cálculos, que se perdiam em minha cabeça), o Imperador pede para que Gabe pare. Mas não era só Gabe. Os outros guardas voltaram a me ameaçar, fazendo uma pose de uma pessoa que estaria prestes a atirar em outra.

– Tire... logo... esta merda de camisa! — o Imperador ordena. Retiro a mesma. A jogo no outro canto do cômodo, e a mesma atinge um guarda. Os outros soldados ali presentes riam da cara dele, mas o Imperador apenas ignorava. Ele conecta aquele círculo da ponta do arame em meu peito. — Dai-me uma escada, Igor. — dizia ele.

Um soldado sem o capecete (não, não era Gabe) com os cabelos de tom marrom-claro sai da sala, e retorna com uma escada. O Imperador a pega, e coleta a outra ponta do arame. A que continha alguma coisa pontuda. Ele tenta alcançar uma lâmpada que se localizava no teto do cômodo.

Foi aí que eu me toquei que ele estava tentando me matar por descarga elétrica.

– POR FAVOR, NÃO! — eu implorava. Tentava tirar aquele negócio redondo com minhas mãos, mas era quase impossível. Os guardas mal tiveram que ameaçar-me.

– Você que optou por morrer.

– Merda! — resmungo.

Então, ele conecta aquele troço agudo na lâmpada. Primeiramente, sinto um choque extremamente forte, que torra todas as partes do meu corpo. Felizmente, consigo resistir, de forma surpreendente.

Logo, desce da escada e se dirige ao mesmo quartinho em que tirara a chave de grifo e o longo arame. Ele retorna de lá com um balde de água.
Então era isso. Ele ia jogar a lâmpada no balde de água, e eu ia morrer, já que a água é o maior condutor de energia da Terra... ou o que sobrou dela.

– Últimas palavras? — ele dizia.

– Ainda tenho esperança de que você vai morr...

– Três segundos. — ele intercepta — Tempo esgotado. Adeus, sr. Giacomelli. — então, ele solta a lâmpada. Era aquele o meu fim...

...se não fosse um dos soldados, que chutara o balde para longe.

"Ele salvou minha vida", penso. Estava tão feliz, mesmo sabendo que minha morte estaria perto.

O soldado que me salvara joga uma granada que continha gás lacrimogêneo logo depois que chuta o balde novamente. Ele quebra a lâmpada — que, até então, era a única fonte de luminosidade do quarto — e me puxa.

– Vamos! — ele disse. Reconheci a voz de primeira.

Era a voz do loirinho que acompanhava Clove no térreo.

Ele me leva até o elevador, mais rápido que a luz. Aperta, então, o botão "9".

– C-como descobiu que eu estava a-aqui? — pergunto

– Clove ouviu dizer que haveria uma execução feita pelo Imperador. — ele explica — Primeiramente, pensamos que era aquele tal de Ethan que iria ser morto, mas pensamos em ver o cômodo em que o Imperador permanecia. Vasculhei por todos os andares, e achei um soldado que ia me matar. Quebrei o seu pescoço e fiquei com a roupa dele. Fiquei sabendo, mais adiante, que todos os guardas teríam de ir para a sala do Imperador. Foi aí que eu te reconheci e te salvei.

– Obrigado, o-obrigado mesmo. Qual o seu nome?

– Stephan Barne...

– Obrigado, Stephan!

Então, chegamos ao nono andar. Stephan me leva cuidadosamente ao quarto de número 94. Quando abre a porta, vejo uma garota e Clove desesperadas.

– Stephan, ajude-o! — Clove dizia.

– Como? — ele pergunta, ao mesmo tempo que trancava a porta.

– Você fazia curso de medicina. Ele parece estar todo ferrado!

– Mas eu não sei de tudo. Lembra que eu abandonei a faculdade?

– Dá água pra ele — dizia a garota.

– Onde tem água, Lexie? — perguntava Stephan.

– No banheiro. — Stephan se dirige ao banheiro, e volta com uma garrafa d'água. Ele joga um pouco em meus ferimentos, e sou obrigado a superar a dor.

– Aguente o ardor. — dizia Stephan — É extremamente normal, eu acho. — então, ele pega um resto da água que sobrou e estende a mão para me dá-la — Beba este resto.
Bebo a água que estava na garrafa. Então, penso nos guardas que estavam presentes. Deveríam estar vasculhando o hotel por ora.

– Que tal deixá-lo dormir? — Clove perguntava para Stephan.

– O.k. Durma ali, Giacomelli.

– Me chame de Alastor, por favor. — digo.

– Durma ali então, Alastor.

Então, Lexie, Stephan e Clove me levantam e me deixam sobre a cama. Fecho os meus olhos e embarco em um sono tão esperado quanto a paz mundial...

...pelo menos, naquela ocasião.