O Chefe da Guarda Real (Iwaoi)
1 Iwaoi I One-Shot
Notas iniciais
O Chefe da Guarda-Real
por Sahh
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O Reino de Aoba, comandado pelo Grande Rei, Oikawa Tooru, é temido e invejado por todos os outros reinos por sua imponência e alta prosperidade em relação a seu poderio militar e aos seus guardas, considerados os mais qualificados de toda região. Seus rios cristalinos são os que mais atraem visitantes, que almejam ver com seus próprios olhos a água mais pura e azul do continente.
◘◘◘
O grandioso Reino de Aoba se encontrava parcialmente calmo naquela tarde, um contraste com as últimas semanas, animadas. Todos os reinos da região, afinal, estiveram atentos ao grande casamento em Tori, realizado há alguns dias. O matrimônio mobilizou a todos, visto que não era todo dia que um rei se casava.
Kageyama Tobio se casou com uma camponesa do reino, e, desde a festa, todos voltaram às suas rotinas. Para alguns, entretanto, havia ainda muito a ser comentado sobre o casamento, especialmente quando o maior interessado se tratava do “Grande Rei”, vulgo Oikawa Tooru.
— Iwa-chan, ainda não consigo acreditar no quão brega foi o casamento do Tobio-chan. Estou tão feliz!
Iwaizumi Hajime, que caminhava ao lado do rei, lançou-lhe um olhar de austeridade. Seus marcantes olhos verde-oliva assumiram, por um segundo, um aspecto confuso até compreenderem o que Oikawa estava dizendo.
— É mesmo? Eu achei que a cerimônia foi dez vezes melhor que a sua. Isso deve ser inveja.
O rosto de Oikawa, encantador e delicado, se torceu numa expressão ofendida.
— Inveja? Eu? Que ultraje, Iwa-chan! Levar um tiro doeria menos!
— Não me dê ideia, Oikawa; estou com o rifle em mãos. Aliás, faz meses que você vem reclamando do Kageyama. Fico surpreso de nenhuma praga ter arruinado o casamento dele.
Oikawa o encarava emburrado. Logo ele desviou, bufando em teimosia e superioridade.
Ele cruzou os braços.
— Às vezes é como se eu parecesse um mago desalmado da maneira como você fala, Iwa-chan.
— Essa foi uma ótima definição, Majestade.
— Chega, Iwa-chan, isso está ficando irritante. Estava tão animado com a ideia de conversarmos um pouco depois de tanto tempo e é assim que você me trata? Que maldade.
Iwaizumi revirou os olhos, mas não falou mais nada. Conhecia Oikawa desde a infância, então não lhe era mistério seu jeito infantil. Algumas vezes seus subordinados comentavam sobre a personalidade de Iwaizumi e a do rei serem incompatíveis e, mesmo assim, combinarem de uma forma que era praticamente impossível achar amizade mais duradoura e confiável que a do rei e seu cavaleiro.
Iwaizumi lançou um olhar para o rosto de Oikawa, que caminhava ao seu lado, e entediou-se com seu bico ranzinza. Ele de fato era infantil… Às vezes se perguntava a razão de ter se afeiçoado a alguém como Oikawa. E, pelo andar da carruagem, aquele bico continuaria por semanas caso Iwaizumi não tomasse uma providência.
— Está bem. Fique à vontade para falar mal do seu precioso rival. Terei de escutar suas opiniões mais cedo ou mais tarde mesmo…
Oikawa o olhou com singela surpresa.
— Realmente? Bem — Seu tom assumiu uma nota de vaidade, e Iwaizumi segurou um suspiro — primeiramente, não seja presunçoso, Iwa-chan; Tobio-chan jamais chegaria ao ponto de ser meu rival. Não poderia dizer o mesmo de Wakatoshi-chan, mas…
— Nem comece a falar sobre o Wakatoshi. Prefiro seu veneno contra Kageyama; é mais rápido e suportável.
Oikawa censurou-o pela parte do “veneno”, mas rapidamente se recompôs e começou a tecer críticas sobre a decoração, banquete, convidados e criadagem no casamento de Kageyama. Terminava, como sempre, dizendo que cada um desses aspectos era muito superior em Aoba.
Enquanto escutava, Iwaizumi assistiu a cada linha de expressão que ocupava o rosto de Oikawa desaparecer. Para muitos, as comparações que Oikawa fazia entre Aoba e Tori significava nada mais que arrogância, mas Iwaizumi sabia que na verdade ele estava apenas orgulhoso de si mesmo. Embora tentasse esconder, Oikawa tinha suas inseguranças, principalmente sobre Ushijima Wakatoshi, e foi exatamente por isso que ainda há pouco Iwaizumi interrompeu a conversa de seguir nessa direção.
A rivalidade com Kageyama — sim, rivalidade, Oikawa gostasse ou não —, por outro lado, era mais benéfica. Kageyama reagia a ela tanto quanto Oikawa, e embora Iwaizumi achasse a situação estúpida, admitia que graças a ela os dois reinos caminhavam em prosperidade.
— Kageyama Tobio, o Rei Egocêntrico de Tori... — A voz de Oikawa o tirou de seus pensamentos. — Ouvi alguns criados em Tori se referindo a ele dessa maneira, sabia?
— Não é como se já não soubéssemos disso — respondeu Iwaizumi. — Faz alguns anos que Kageyama se tornou alguém perfeccionista e pavio-curto. Não deve pegar leve com o pessoal dele.
Oikawa se calou por alguns segundos, e Iwaizumi cogitou que ele entrara em uma de suas reflexões.
— Não é esse o problema — disse ele, por fim. — Tobio-chan está claramente me desafiando outra vez. Você viu o novo Bobo da Corte que ele empregou? Sinceramente, Iwa-chan, me senti passado para trás!
Iwaizumi, mesmo torcendo pelo contrário, já esperava que ele trouxesse o assunto à tona.
— Ele realmente nos superou nesse ponto — admitiu, cuidadoso. — Não tenho ideia de onde Kageyama arrumou uma figura daquelas.
O desânimo voltou às feições de Oikawa, mas Iwaizumi pouco poderia fazer sobre isso diante da impiedosa lembrança da performance do bobo que surpreendeu a todos. O garoto de cabelos alaranjados não parou quieto um só segundo e executou saltos monstruosos. Ele recebeu todos os holofotes da festa, com certeza. Além disso, Iwaizumi não sabia se Oikawa… reparou na forma como Kageyama olhava para seu novo bobo. Algo como fascinação dançava nos olhos endurecidos de Kageyama enquanto assistia às performances do bobo, e isso permaneceu nos pensamentos de Iwaizumi.
Mas não tiraria conclusões precipitadas. Isso era trabalho de Oikawa.
Que, de súbito, retomou a animação.
— Bem! Pelo menos posso me gabar de ter uma esposa mais bonita. A loirinha humilde era fofa, mas não se equipara à beleza de minha rainha. Por sinal… preciso procurá-la. Ela certamente deve estar com a Dama de Companhia.
Iwaizumi sentiu algo em seu peito azedar.
— Eu acho essa mulher uma sonsa…
— Que rude, Iwa-chan! Eu gosto dela!
Iwaizumi revirou os olhos, mas não comentou mais nada, pois sabia o que acabaria dizendo caso continuasse.
— Antes de você ir procurá-la, precisava te dizer sobre os novos recrutas. Há dois que se destacam, mas um deles é indiferente demais. Preguiça. Os nomes são Akira Kunimi e Yūtarō Kindaichi. Me deixam estressado.
Oikawa encolheu os ombros.
— Posso mandá-los à forca, se quiser.
— Você ama demais cada ser vivo desta nação para fazer algo assim. Só não deixe ninguém ouvir esse tipo de coisa saindo da sua boca. Não seria bom para sua imagem imaculada.
Oikawa reclamaria, mas desistiu quando os passos dos dois se detiveram em um cruzamento de dois corredores.
Era ali que seus caminhos se separavam.
Iwaizumi sentiu o peso familiar no estômago e o gosto da impotência na ponta da língua, mas tentou não dar atenção a isso.
— Vejo você em alguns dias — disse, seguindo pela direita. — Encontre algum bom senso enquanto eu estiver fora.
Outra despedida forçada. Iwaizumi não gostava disso, mas o que podia fazer? Sua agenda estava lotada nas últimas semanas.
— Iwa-chan.
Parou ao aperto em seu antebraço. Oikawa checou seus arredores rapidamente antes de retribuir o olhar inquisidor de Iwaizumi.
— Tooru?
Oikawa uniu suas bocas. Foi um contato rápido, mas veemente, e Iwaizumi impediu-o de ficar com a última palavra segurando-o pela nuca e o puxando para outro beijo.
Prensou-o na parede. Oikawa subiu os braços para seu pescoço. O beijo continuou, ora lento, ora desesperado. Mal separavam os lábios em busca de ar e os uniam de novo, um ciclo viciante.
Oikawa interrompeu o beijo em definitivo quando afundou o rosto na curva no pescoço de Iwaizumi, logo acima da armadura. A respiração dele era rápida. Iwaizumi, impaciente, fechou os olhos, mas pousou o queixo nos cabelos sedosos e envolveu o corpo esguio de Oikawa em seus braços.
— É incrível — começou, vestígios de veneno em seu tom de voz ofegante — você achar que isso compensa o período, aliás, ridículo que ficaremos separados. Você é um sádico, Tooru.
Oikawa ergueu os belos e inocentes olhos para os franzidos de Iwaizumi.
— Mas funciona, não?
— Você é terrível. Mas falei sério em relação a tudo isso ser ridículo. Não conseguimos conversar de verdade nem mesmo durante o casamento. Não estou reclamando da carga do meu trabalho, muito pelo contrário. Só acho estressante ter de lidar com essa demora. É difícil ficar longe de você.
Iwaizumi poderia estar jogando seu orgulho fora confessando isso, mas a verdade é que ele não estava com vontade de “dar uma de durão”, pelo menos não no momento.
E isso afetou Oikawa.
— Iwa-chan — Um sorriso trêmulo nasceu em seu rosto impecável. —, você sabe ser romântico quando quer, não é?
— Não é minha intenção ser o romântico desolado, Tooru. Estou falando sério.
Oikawa suspirou enquanto erguia os olhos para o teto do corredor, e algo se agitou dentro de Iwaizumi quando ele percebeu que ele finalmente largou a pose debochada.
— Iwa-chan. Eu prometo que após seu regresso da próxima missão mexerei alguns pauzinhos e deixarei nossas agendas tranquilas. — Então esboçou uma expressão magoada. — Também estou com saudades, sabia? Não fique achando que estou confortável com tudo isso, pois não estou.
Agora foi a vez de Iwaizumi se sentir desarmado.
Sim. Não podia olhar somente para o próprio umbigo. Oikawa detestava aqueles períodos de separação tanto quanto ele.
— Voltarei o mais rápido que puder — E, abrindo um sorriso presunçoso: — Não esqueça que cobrarei a sua companhia mais tarde. Está autorizado a fazer o mesmo comigo.
O rosto de Oikawa resplandeceu-se.
— Entendido, Iwa-chan! Tome cuidado, viu?
— Eu sempre tomo.
Retomou seu caminho. Não havia sido a despedida que Iwaizumi queria, mas daquela vez eles não se separaram sem revelar, um ao outro, o que sentiam ante toda a situação.
Respirou fundo. Honraria o que disse quando retornasse, e sabia que Oikawa faria o mesmo. Não havia, no mundo, nada tão forte ou insistente quanto a paixão que ambos sentiam um pelo outro. O coração de Iwaizumi estava em posse de Oikawa, e vice-versa, e seja lá o que acontecesse, os dois jamais renunciariam ao segredo que dividiam.
[...]
Após a partida de Iwaizumi e demais guardas, Oikawa se recusou a gastar sua tarde em tédio e desânimo. Afinal, ele tinha um reino para comandar e ordens a ditar. Oikawa sempre soube como usar as pessoas, mas não de forma ruim; aflorava nelas, na verdade, o melhor que elas tinham a lhe oferecer. Ele sempre priorizava o bem da nação que tanto amava, e para isso não se deixaria abalar, pelo menos não por muito tempo.
Se pelo menos a situação da vez não fosse sobre Iwaizumi…
Oikawa suspirou o suspiro leve e fascinado de quando pensava em seu cavalheiro. Mesmo após todos aqueles anos era impossível para Oikawa controlar o coração sempre que perto dele. Era apaixonado demais para isso. Tudo em Iwaizumi era encantador — os olhos firmes e impacientes; a personalidade destemida mas também preocupada com aqueles ao seu redor e sua beleza viril.
Começaram a se relacionar na pré-adolescência, quando finalmente revelaram seus sentimentos um para o outro. Era verdade que Oikawa, na época, estava extremamente ansioso com a possibilidade de se abrir com Iwaizumi, não ser correspondido e por conseguinte estragar uma amizade de anos. Mas então Iwaizumi o pegou de surpresa ao se declarar primeiro, ansioso, mas determinado. Apesar de na ocasião ambos descobrirem que o sentimento era recíproco, foi apenas anos depois que tiveram coragem para avançar no campo físico — especificamente quando Oikawa ficou noivo. Em um impulso, Oikawa solicitou a presença de Iwaizumi em seus aposentos e, à chegada dele, o beijou, o primeiro beijo de uma infinidade que viria depois. Era arriscado, mas Oikawa se recusava a doar suas primeiras experiências para sua futura companheira, e por isso, nas semanas que antecederam a chegada desta, ultrapassou todas as barreiras com Iwaizumi.
O plano era: depois do casamento, parariam com aqueles encontros, mas após a primeira vez não teve como voltarem à simples amizade. Havia amor, amor do qual Oikawa não abria mão. Um amor que ainda hoje ele e Iwaizumi cultivavam, apesar do tempo escasso para dedicarem um ao outro.
Mas, contanto que continuassem fiéis ao amor que sentiam, bastava.
E Oikawa afinal não mentira — de fato os compromissos e afazeres seriam reduzidos à volta de Iwaizumi.
Oikawa contaria os segundos até lá.
▪️▪️▪️
— O que está havendo?
Oikawa fez a pergunta dias depois da partida de Iwaizumi, após descer as escadarias principais e encontrar o salão com os portões abertos e uma grande agitação. Os olhares subiram para seu rosto após sua pergunta, e todos se endireitaram. Oikawa percebeu um pergaminho nas mãos de seu emissário segundos antes de este as colocar nas costas para uma vênia.
— Majestade…
— Chegaram más notícias? O que é tudo isso?
Issei Matsukawa, o emissário, engoliu em seco e trocou olhares com alguns dos guardas presentes.
— Houve um problema na missão de escolta a que nosso esquadrão foi enviado, aquele liderado pelo capitão Iwaizumi.
— Sim, sim, sei bem. O que houve? — Sem respostas de imediato. Oikawa apertou o corrimão da escadaria e umedeceu os lábios. — Foram mortos. É isso o que está escrito aí?
Mais silêncio.
— Digam-me agora.
— Não, Majestade, não houve mortes — disse Matsukawa. — O chefe Iwaizumi, no entanto, está sendo trazido o mais rápido possível. Ao que parece, ele foi gravemente ferido, e sem tratamento adequado…
Ele não continuou, e Oikawa não exigiu que terminasse.
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— Iwa-chan, eu trouxe mais dos seus tofus agedashis!
Duas semanas depois, a enfermaria do castelo brilhava com o sol da manhã. Oikawa se sentou à borda do leito de Iwaizumi, que o encarou pensativamente até dizer:
— É engraçado o fato de ser necessário algo assim acontecer para conseguirmos passar um tempo juntos.
Oikawa fez uma careta enquanto pousava a comida de Iwaizumi na mesinha ao lado do leito.
— Não diga isso, Iwa-chan. Você já está se recuperando, então devemos pensar em coisas felizes.
Iwaizumi arqueou uma sobrancelha.
— Oras, mas sua companhia já se enquadra em “felicidade”. Mudando de assunto, você anda um tanto distraído nos últimos tempos. Não me diga que está se estressando com ideias inúteis outra vez.
Oikawa abriu um sorriso… acanhado. Ele baixou os olhos para os lençois de algodão.
— De fato andei pensando em algumas coisas. — Ergueu o queixo. — Iwa-chan, o que aconteceu a você me assustou muito. Achei que morreria se… bem, se você morresse antes. Graças a Deus você conseguiu resistir e se recuperar aos poucos, mas… e da próxima vez? O que poderemos esperar?
— Tooru…
— Iwa-chan, você recebeu três facadas nas costas, e também quase foi degolado. Sem contar as fraturas. Faz ideia da sorte que tem de estar vivo?
Iwaizumi desviou os olhos verde-oliva. Ele sabia que Oikawa não deixaria sua “quase-morte” para lá tão cedo. Em seus primeiros dias no hospital, enquanto oscilava entre a consciência e a inconsciência, escutava a voz distante de seu Rei exigindo ver Hajime. Só após Iwaizumi obter uma repentina melhora e ser transferido à enfermaria, que finalmente pôde receber visitas de Oikawa.
No começo, foi difícil aplacar os ânimos de Oikawa e convencê-lo de que não estava mais sob risco de morte, e achou que funcionou quando Oikawa aparentemente se acalmou há alguns dias.
Mas Iwaizumi deveria saber que, em relação à Oikawa, com a calma vem o perigo. Sabia o quanto a mente de Oikawa era ardilosa, e agora lhe restava apenas aguardar e descobrir o que ele estivera tramando.
Mas antes…
— Oikawa. Sei que tudo isso deve tê-lo preocupado muito, mas devemos lembrar que foi apenas falta de sorte. Seja lá o que tenha decidido, não precisa se estressar tanto. Eu me cuidarei melhor daqui para frente.
O rosto de Oikawa era uma incógnita.
— Sei bem que se cuidará — disse ele. — Se cuidará justamente porque estou demitindo você do posto de Chefe da Guarda Real.
▪️▪️▪️
— Oikawa, você precisa reconsiderar.
— Outra vez com isso, Iwa-chan? — lamentou Oikawa na manhã seguinte. — Quantas vezes mais irá insistir?
— Insistirei até que você se esqueça dessa decisão ridícula. De verdade, Tooru, estou cada vez mais estressado com essa história.
Oikawa suspirou teatralmente e sentou-se à beira do leito.
— Iwa-chan, como você é teimoso. Ainda não entendeu que minha decisão é irreversível? Eu lhe disse: você está fora da guarda real. Não irá me convencer a mudar de ideia.
Iwaizumi cerrou os dentes.
— Está louco de fazer uma coisa dessas comigo. Eu quem mantém a guarda na linha. Os guardas me respeitam e eu os respeito. Faço o melhor possível para manter a segurança do castelo e do reino, jamais fiz corpo-mole no trabalho, e é assim que me agradece? Tirando-me da função para a qual nasci?
O rosto de Oikawa ficou severo.
— Eu sinto muito. Mesmo. Mas já me decidi. Não quero nunca mais passar pela agonia que passei.
— Você está sendo egoísta.
— Egoísta? Estou puramente preocupado com você e é esse o rótulo que recebo? Egoísta?
Iwaizumi prensou os lábios e desviou do olhar indignado de Oikawa.
— Se fizer isso, Tooru, jamais o perdoarei.
— Que fique sem perdoar. Prefiro isso a sua morte prematura.
— Oikawa, tem ideia do absurdo que está dizendo?
Oikawa se ergueu.
— Eu realmente não queria dizer isso — disse com autoridade —, mas aqui vai. Sou seu rei, e se estou lhe dizendo que está dispensado de seus serviços na guarda, é isso o que vai acontecer. Me desculpe.
Iwaizumi abriu a boca para retrucar, mas mordeu o lábio inferior e novamente olhou para outro lado. Oikawa também não disse mais nada; pegou a bandeja vazia e se retirou da enfermaria.
▪️▪️▪️
— Pois não?
Oikawa arqueou as sobrancelhas diante dos dois guardas que o chamaram. Eram altos e bem jovens. Provavelmente novatos.
Eles executaram mais uma vênia ao se aproximarem, e Oikawa deteve seus olhos no mais alto, cujo cabelo lembrava um nabo. Desviou para o outro e encontrou olhos escuros e entediados. Quando se apresentaram, Oikawa piscou em reconhecimento.
— Ah, claro. Kindaichi e Kunimi. Ouvi falar de vocês. O que desejam?
O jovem chamado Kunimi desviou os olhos para longe, deixando ao outro a responsabilidade de se explicar.
— M-Majestade, nós… nós soubemos que você afastou o chefe Iwaizumi da guarda…
— Permanentemente, esqueceu-se de dizer.
Kindaichi empalideceu.
— De verdade?
— Não queremos de forma alguma questionar sua decisão, Majestade — interveio Kunimi. — Mas temo dizer que ninguém está confortável com a saída do capitão. Podemos conhecê-lo há pouco tempo, mas é nítido que é ele quem sustenta a guarda.
— E...?
Kindaichi e Kunimi se entreolharam, se viraram para Oikawa e, curvando-se, disseram:
— Pedimos humildemente, Majestade, que você permita a volta do capitão Iwaizumi.
Oikawa prensou os lábios.
— Não. Me desculpem, rapazes, mas não. Admiro sua lealdade para com o capitão, é um belo sentimento. Mas a decisão já está tomada. E não a mudarei.
O abalo de Kindaichi e Kunimi atingiu Oikawa mais do que ele gostaria de admitir, mas isso ainda era pouco para convencê-lo. Alternou o olhar de um rapaz para o outro e então lhes deu as costas.
Um grito:
— Majestade, precisamos do comandante Iwaizumi para nos guiar!
Kindaichi, que logo continuou:
— Kunimi e eu só estamos vivos por causa dele. Na última missão, o capitão não pensou duas vezes para nos salvar. É o que todos dizem por aqui: você, Majestade, junto dele, são os pilares que sustentam esta nação. Então… lhe pedimos, por favor, que não acabe com esse sustento.
Oikawa não disse nada. Kunimi, suspirando, tocou Kindaichi no ombro.
— Devemos ir. — E desviou os olhos de volta para Oikawa. — Sentimos muito por nossos modos, Majestade. Não vai se repetir.
E, assim, os dois se retiraram. Oikawa, por outro lado, permaneceu no lugar por muito tempo até, bufando, balançar a cabeça e seguir seu caminho.
▪️▪️▪️
Três dias depois, Oikawa acompanhava Iwaizumi durante a noite. O jantar fora servido há pouco, mas, Iwaizumi, que não estava com fome, recusou. Isso não agradou Oikawa, que passou os minutos seguintes espiando Iwaizumi por cima da lombada do livro que fingia ler. A situação entre eles não estava boa; as conversas eram superficiais e a expressão de Iwaizumi, mais pétrea possível.
— Me disseram que não demorará para você deixar a enfermaria. É uma boa notícia, não? Finalmente voltará à rotina.
— E que rotina, Tooru? — perguntou Iwaizumi com os olhos fixos nas mãos sobre as pernas. — Se for para ficar à toa, como certamente ficarei, a enfermaria me parece coisa melhor.
Oikawa se obrigou a respirar lenta e profundamente.
— Pense nisso como uma oportunidade para descobrir novos passatempos. Tenho certeza de que você achará algo que fisgue seu interesse.
— Sabe qual é a única coisa que atrai meu interesse agora? — Iwaizumi buscou seus olhos. — Voltar ao meu posto.
Oikawa remexeu-se na cadeira.
— Iwa-chan. Eu já disse, você não voltará a ser guarda…
— E eu já falei que não pararei de insistir. Sei perfeitamente que é impossível fazer você mudar de ideia, mas nem por isso pararei de expressar minha insatisfação. E como estou insatisfeito, Tooru...
Oikawa umedeceu os lábios.
— Iwa-chan, ouça bem…
— Não. Não quero ouvir mais nada de você. — Iwaizumi afundou a cabeça no travesseiro e cruzou os braços. — Foi só o que tenho feito. Escutar. Não aguento mais. Prefiro ficar sozinho.
— Então por que não trocamos os papeis? — sugeriu Oikawa tremulamente. — Sei que no momento você não tem o melhor a se dizer, e que está irritado. Mas acho que fará bem a você.
Iwaizumi o encarou por poucos segundos, então sentou-se novamente.
— Sabe, Oikawa, eu adoro o que faço. Servir à Aoba sempre me encheu de orgulho. Eu amo essa nação, amo…
— Iwa-chan…
— … assim como amo você.
Oikawa se calou na mesma hora.
Iwaizumi continuou:
— A ideia de servir este reino como guarda sempre me foi admirável. Gostava da ideia de proteger estas terras. É onde nasci, afinal. E você também. E, desde que alcancei o ponto mais alto, confirmei que é tudo o que quero fazer.
— Iwa-chan — implorou Oikawa. — Por favor. Já estou pressionado demais.
— Eu amo ser guarda. Não há outra coisa que eu queira fazer. Que eu possa fazer.
— Hajime, pare.
— E você quem sempre me inspirou a seguir esse caminho. Você aguardava a hora de fazer a diferença neste reino, e você realizou seu desejo. Como não o admirar e querer fazer o mesmo?
— Hajime…
— A verdade é essa, Tooru. Sou o Cavaleiro de Aoba. Meu trabalho é proteger e servir este reino até meus últimos dias nesta terra, mas, acima de tudo, protegerei você, o líder desta nação, meu líder. E é por isso que ao passo que você teme pela minha vida eu temo por você, fonte da perseverança que carrego, que preciso, a todo custo, cuidar e proteger. Afinal, você é meu Rei, e eu seu Cavalheiro.
Silêncio pesado. Mas então leve. Oikawa baixou os olhos marejados, um sorriso infeliz na face.
— Droga, Iwa-chan… — suspirou ele. — Sua insistência acaba comigo.
Iwaizumi finalmente se compadeceu.
— Venha cá, Tooru.
Oikawa secou os olhos e fez o que Iwaizumi pediu. Iwaizumi tocou-lhe o rosto tão logo Oikawa sentou-se, e Oikawa fechou os olhos, feições doídas. A mão de Iwaizumi então percorreu os cabelos em sua nuca, explorando as mechas macias e bem cuidadas.
Iwaizumi inclinou-se e selou seus lábios. Oikawa deixou escapar um soluço antes de retribuir. Lágrimas se misturaram, e Iwaizumi sugou-as junto aos lábios que tremiam.
Sentiam-se em paz. Quando Oikawa relaxou os ombros e entrelaçou suas línguas, Iwaizumi sabia que conseguiu convencê-lo. Envolveram-se com mais veemência, com mais fome. Iwaizumi deitou-se nos lençóis e puxou Oikawa, que se deitou ao seu lado e envolveu seu rosto com as duas mãos, aprofundando o beijo até ficarem sem ar.
Minutos depois, separaram-se, mas não se soltaram tão rápido. Iwaizumi massageava o rosto de Oikawa com os polegares, hipnotizado pelas bochechas coradas e pelos olhos brilhantes e resignados.
Oikawa abriu um sorriso triste.
— Este pode não ser o fim mais confortável para mim, mas vejo que é o mais correto.
Um sorriso emocionado se abriu nos lábios de Iwaizumi.
— Era somente isto, Tooru, o que eu queria escutar de você.
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