O Chamado de Nymeria

1 Capítulo I - O Demônio intocável


Notas iniciais
É um capitulo de introdução.
Espero que continuem acompanhando.

Eddie Hamm caminhava apressadamente e quando se deu conta, já estava bem próximo do píer onde seu amigo Gabriel havia informado que estaria. Gabriel havia negado a explicar o motivo da ligação ao telefone, mas deixou demonstrar que sua voz estava bem aflita. Quando Gabriel viu Eddie se aproximando, acenou; Eddie foi ao encontro do amigo e após cumprimentá-lo, pediu explicações.

“Eddie, meu avô morreu”, disse enxugando algumas lagrimas de seus olhos vermelhos.

“Conte-me o que aconteceu”.

“Essa é a parte estranha; eu não poderia lhe esconder a parte estranha, a parte estranha está junto de sua morte”, disse com sua voz ainda mais tremulada.

“Acho que não deve saber”, disse, começando a explicação, “mas meu avô é o professor de historia da faculdade federal, o conhecido doutor Alturus de Azevedo. Sim, por mais que compartilhávamos o mesmo sobrenome, não era tão conhecido nosso parentesco, pois meu avô era um homem muito reservado, ainda mais depois de sua aposentadoria há dois anos. Meu pai, seu filho, depois que morreu, apenas fez meu avô se afastar ainda mais de nossa família e das outras pessoas. De uns meses pra cá, eu acabei indo visitá-lo com uma freqüência de um dia a cada duas semanas, mas no começo ele pouco falava; isso até eu demonstrar interesse pela cultura ocultista da região. Ele começou a me mostrar uns livros e contar historias de um culto da região muito poderoso chamado de O Culto de Nymeria, um culto ocultista que guarda grandes segredos. Creio que isso tenha sido nosso maior erro.”.

“O Culto de Nymeria deve ter percebido que meu avô estava revelando segredos e deve ter mandado matá-lo, mas ai está a parte estranha. Como já havia dito, meu avô é um homem muito reservado, os vizinhos diziam que ele quase nunca saia recebia visita, sendo que meu amigo Bruno e eu éramos as únicas visitas. Raras vezes chegava a sair de casa, mas quase sempre ia ou voltava com algum livro nas mãos, que acho ser fruto de suas visitas ao culto. Um dia, saia a noite com um livro debaixo dos braços e passou pela praça central, mas de repente, como contam as testemunhas, ele começou a se debater e gritar algo como “Tirem-no daqui” e segurar a garganta como se algo invisível o atacasse, como se um ser oculto tivesse-o matando, como se o culto tivesse ordenado alguma criatura a matá-lo por falar de mais”.

“Quando morreu, recebi parte de seus bens logo no dia seguinte e fui informado que eu era seu único herdeiro. Eu nunca precisei muito de dinheiro, pois mesmo não sendo rico, eu nunca passei por necessidades, então aquela noticia tinha me deixado mais curioso do que “feliz”, se é que eu poderia ficar feliz com aquilo. Entre seus bens, recebi alguns manuscritos do meu avô que falava ainda mais do culto, dos seres que se escondiam nas sombras e que citava algo que meu avô já havia me contado, de uma criatura interdimensional que poderia matar um homem como se ele não fosse nada. Pode parecer loucura, Eddie, mas acho que esse culto matou meu avô e eu sendo seu único herdeiro, posso ser considerado suspeito por esse crime ainda sem solução aparente”.

“Mas o quê a pericia concluiu?”.

“Ainda nada, mas se sabe que ele tem queimaduras na garganta e taquicardia, mas não se sabe muito bem o que causou”.

“Sim, é algo bem estranho. Mas e se eu sugerisse uma detetive particular para investigar o caso?”.

“Bem, seria ótimo! Meu avô me deixou uma herança relativamente boa; eu não sei o quanto deve custar uma detetive, mas tenho certeza que posso arcar”.

“Ela não costuma cobrar caro, isso poderia levar menos casos a ela e isso é algo que ela não quer. Além de que ela convive com pouco, ela sempre diz isso”.

“Tudo bem, e quem seria essa detetive?”

“Seu nome é Úrsula Reios”.

No mesmo dia, Eddie e Gabriel foram à casa de Úrsula.

“Esse é um local muito perigoso. Olhe todos esses homens fortes e mal-encarados”, disse Gabriel, andando a passos largos em companhia de Eddie.

“Não se preocupe, Úrsula conhece todos esses homens, em que sua maioria são traficantes”.

“E por que ela seria amiga de pessoas assim?”.

“Acho que devo te contar mais a respeito de Úrsula antes que se surpreenda: Úrsula é viciada em heroína, mas ela pode ficar meses sem usar a droga e não sofrer de crise de abstinência, ela diz que é porque seu cérebro é melhor que a da maioria. Ela diz que o uso da droga relaxa seu cérebro, que está sempre trabalhando mais que o normal, sendo ela uma pessoa que sempre estimula o cérebro, sendo uma pessoa com ótima capacidade dedutiva e que consegue “ler” rostos, além de ser uma ótima observadora. Mas eu creio que ela tenha começado com o uso da droga por desavenças familiares”.

“O que houve entre ela e a família?”.

“Digamos que eles não aceitaram muito bem a mudança que ela fez. Retrógrados. Mas isso não vem ao caso. Nessa vizinhança é mais comum a circulação de drogas e o local é bastante vigiado pelos moradores devido ao seu comercio. Ora, chegamos.

Os dois subiram uma escada de uma vila que possuía cinco casas duplex, mas que eram divididos em duas casas. Antes de Eddie bater a porta, Úrsula grita de dentro da casa: “Já vou, Eddie”. Gabriel tenta ver de onde, daquela casa do segundo andar, bege e com esquadrias de madeira, Úrsula teria visto-os chegar. Úrsula abriu a porta de roupão bege e os cabelos loiros desgrenhados. Suas feições magras pareciam ainda mais magra para Eddie, que não a via por algumas semanas. Gabriel estranhou a aparência dela, com seu rosto cadavérico e olhos baixos.

“Trouxe algo que pode fazer você deixar a heroína por hora. Você não está sob efeito, não é?”

“Eddie, Eddie, tanto que nos conhecemos e você ainda não me conhece? Vamos entrar”.

Gabriel percebe que a casa de Úrsula era bem pequena, tendo a sala como primeiro cômodo, um ambiente bege que possuía apenas um sofá de dois lugares e uma poltrona, além de um tapete.

“Desculpe-me, jovem De Azevedo, é que quando não vejo Eddie por semanas ele sempre acha que estou me empanturrando de drogas, mas pela minha cara ele pode ver que não estou sob efeito. Mas eu sabia que vocês viriam aqui, por isso faz umas cinco horas que eu não uso nada”.

“Mas eu não vi Eddie ligando para você, e como sabe meu sobrenome, você já viria aqui, Eddie?”

“Não, não viria. Como você soube Úrsula?

“Eu soube da morte do professor Alturus de Azevedo e de como tinha sido uma morte estranha e inconclusiva para a pericia. Sabia que Gabriel de Azevedo se sentiria ameaçado em ser acusado de matar o avô para receber a herança e que procuraria alguma ajuda externa da policia para desvendar o caso do envenenamento do avô, e que Eddie, ao saber disso após suas aulas, pelo Gabriel, iria sugerir meus serviços, já que vocês são amigos, e depois da analise que eu fiz de você quando Eddie me contou que iam sair juntos no mês passado, soube o quanto era solitário e de como Eddie, seu único amigo “intelectual” era mais capacitado para tentar entender a morte de seu avô do quê seu amigo viciado em jogos”.

“Eu não entendo; como você descobriu isso tudo?”.

“Não é obvio? Eu vivo de noticias assim, por isso não foi difícil descobrir sobre a morte de Alturus, ainda mais sendo tão famoso e dado a estranheza de sua morte. A herança eu tive que pesquisar mais a fundo para descobrir essa informação, mas eu soube provavelmente um pouco antes de você. Sobre o que aconteceria com você, continua obvio, não é estranho ter casos de mortes inexplicadas e os herdeiros serem acusados de terem provocado a morte, ainda mais no seu caso sendo o único herdeiro. Deduzi pelo meu conhecimento sobre você, com base numa conversa descontraída de Eddie, como já contei, que você ficaria com medo de recaírem suspeitas sobre você e o resto eu creio que já expliquei bastante.

“Mas você se enganou em algumas coisas, como o fato de que eu não planejei chamar ninguém, apenas aceitei a opinião de Eddie. Mas que historia é essa de envenenamento?”.

“Espere, Úrsula, isso que você nos contou faria sentido se você descartasse a hipótese de Gabriel não ser o assassino; você está desconsiderando essa hipótese?”, perguntou Eddie, olhando para Gabriel, dando a entender que aquilo não era uma acusação.

“Sim, por mais que eu ainda possa voltar atrás. O fato de ele estar aqui, mesmo não tendo sido sua escolha primaria ainda valida minha hipótese, mas a minha maior prova é de depoimentos que coletei da policia e por conta própria: alguns vizinhos viram uma pessoa encapuzada tocar a companhia de Alturus e conversar com ele um pouco na porta antes de Alturus mandá-lo entrar, ou seja,levando em conta a privacidade dele, se tratava de alguém um mínimo conhecido, mas que não era uma visita tão comum que pudesse ser acobertada por outras visitas sem alguém desconfiar. Por volta das oito e meia, vinte minutos após a entrada do sujeito encapuzado na casa, Alturus sai apressadamente após a visita encapuzada sumir na esquina, caminhando com seu grosso livro ocultista, já envenenado por ricina”.

“Envenenado por ricina?”

“Sim, é a causa mais obvia, mas não se preocupem, eu irei revisitar o corpo para ter certeza. E levando em conta que a praça estava cheia quando aconteceu o ataque e ninguém se feriu, dá para saber que o ataque não foi pelo ar, mas pela comida ou pela bebida; na verdade, pela bebida, por isso, não beba qualquer bebida na casa de seu tio. O inchaço e a dor local, especificamente pela garganta, é resultante da ricina na água; na comida ele teria dores nos órgãos internos. Desculpem-me. eu acho que não preciso explicar mais o porque o garoto não é suspeito. Primeiro porque ele realmente parece que não sabia sobre a herança, segundo, porque se soubesse, ele poderia ter sim mandado matar mas ele não procuraria alguém de fora da policia para investigar; teria deixado com a policia que resolve em torno de 10% dos homicídios não explicados. Quanto aos fatos, não posso dizer mais enquanto não tiver mais informações”.

“Úrsula, por favor, resolva este caso, você parece saber bem mais do que eu sobre esse caso, mas eu ainda aposto tudo que ele foi morto pelo Culto de Nymeria, conhece esse culto?”.

“Sim, mas é uma acusação grave. Quero que me conte tudo que contou para Eddie sobre isso”.

“Mas antes, gostaria de saber como descobriu que Eddie iria bater na porta? Não vejo brechas que daria para nos ver de fora”. Gabriel olhava ao redor tentando encontrar algo que respondesse sua pergunta, mas o que Úrsula via era seu rosto mais alegre e esperançoso.

“Eu amo esse lugar porque existem muitas pessoas informadas na região e eu aprendi a ler esse lugar, quando entra alguém desconhecido na região, quando entra alguém conhecido ou quando é o Eddie”.

“Mas ela não me deixou bater na porta porque escutou meus passos chegando e sabia que eu chegaria conforme aquela explicação que nos deu, não é verdade? Ela sempre tenta me irritar”.

“Quando formos à casa de seu avô, é melhor fechar as cortinas das janelas que seu avô deixou aberta para que os vizinhos pudessem ver de fora quem era aquele homem encapuzado. Dito isso, podem voltar para casa”.

Notas finais
Criticas e sugestões são sempre bem-vindas.