O Cesto
1 Capítulo único.
O cesto ainda não estava pronto. Ela olhou de relance para Miriam, dormindo tranquilamente na esteira de palha, enquanto os dedos trabalhavam habilmente o junco. Ela suspirou, nervosa, de cenho franzido para o trabalho pela metade. Tinha que ser mais rápida. Não importavam algumas madrugadas de sono perdidas, não com o que havia em jogo. Estava muito escuro, e o óleo de sua lamparina estava quase no fim, mas ela não podia parar.
Eles estavam cada vez mais perto.
Tão perto que na noite passada ela ouvira os gritos das mulheres no bairro mais próximo. Quantas ruas faltavam até que eles chegassem até a sua? Quantas casas, quantos meninos, quanto sangue seria derramado até que chegasse a vez do seu filho? Ela já tinha testemunhado o estrago causado. A irmã mais velha do seu marido, que vivia do outro lado do distrito, agora chorava a morte do bebê mais novo. O choro das mães que perdiam os filhos contagiava as outras ao redor. Quando não havia mais lágrimas nem voz para chorar, calavam-se, e esses silêncios duravam horas.
As mãos que trançavam tremeram levemente, e a mulher abanou a cabeça para desanuviá-la. Tinha que se concentrar no cesto ! O cesto! O cesto ainda não estava pronto!
Longe, o som de sandálias esmagando o solo chegou até ela. Ela franziu a testa quando Miriam se levantou da esteira, sonolenta, mas suas mãos não pararam o que estava fazendo. Sempre tivera um sono muito leve. O menor ruído na madrugada e ela acordava, sobressaltada.
— Volte a dormir, Miriam. – a mulher ordenou, baixando os olhos para a tarefa.
Seus dedos estavam dormentes, e alguns dias atrás, sangraram. Ela teve de parar de tecer o junco enquanto enrolava os ferimentos em bandagens, depois mais um dia até que desfizesse o trabalho arruinado pelo sangue e pudesse tecer de novo. A urgência apoderou-se dela. Quantos dias mais ela teria? Será que tinha conseguido limpar todos os vestígios do sangue?
Ela nem queria imaginar o que aconteceria se houvesse uma única gota para trás que conspurcasse o cesto. Pensou nas enormes fileiras de dentes, o olfato aguçado e os olhares frios dos crocodilos, e em sua mente ela viu a cena que as vezes aparecia em seus pesadelos. O cesto flutuando, delicadamente, levado pela corrente suave do Nilo, até que uma boca enorme se abria devagar, engolindo-o. Então, mais e mais répteis surgiam das profundezas, atraídos pelo sangue e famintos para dividir seu conteúdo minúsculo.
Outras vezes, sonhava com os hipopótamos, que eram muitas vezes mais cruéis e temperamentais que os crocodilos. Despedaçavam canoas sem o menor trabalho, um cesto minúsculo boiando não seria o menor desafio para eles. Ou via em seus sonhos os remos dos pescadores, com suas braçadas ritmadas que viravam o cesto, derrubando sua preciosa carga no rio. Então, assustada, ela acordava e tecia. Não conseguiria dormir de qualquer maneira depois desses pesadelos.
— Eu também não consigo dormir. – Ela se queixou para Miriam, trabalhando no cesto um pouco mais devagar, para evitar abrir de novo os ferimentos nos dedos.
O som de madeira despedaçando-se – portas sendo abertas a força pelos soldados. – gritos inflamados e mães implorando, oferecendo comida, ouro, o próprio corpo, qualquer coisa, mas sendo prontamente ignoradas pelos soldados. Nada aplacava a sede deles em derramar sangue inocente.
— Estão mais perto hoje. – Miriam comentou.
— Não chegarão aqui. – a mulher respondeu, decidida. – Você lavou a manta como eu te pedi?
Miriam assentiu, entregando um tecido marrom grosseiro e muito gasto para Miriam. Ela presenteou a filha com um sorriso cansado, pousando o tecido no chão ao lado de si.
Faltava pouco agora, alguns detalhes a mais na tampa, apenas. Três ruas abaixo a gritaria e o choro erguiam suas vozes para a mulher, um alerta do que estava por vir, do que poderia ser perdido para sempre. Mas ela não se abalou. Elevou sua mente em uma prece silenciosa, com os dedos dormentes e uma expressão inabalável no rosto.
— Miriam. – ela ordenou, interrompendo a prece brevemente. – Acorde Arão e pegue o bebê. Com cuidado. Ele não pode chorar.
A menina não perdeu tempo concordando. Levantou-se e foi em busca dos irmãos mais novos, silenciosa como uma sombra, sobrecarregada com a gravidade do estavam para fazer, do que iria acontecer em seguida.
Com cuidado, a mulher ajeitou o tecido muito gasto no fundo do cesto e o tampou. Ela suspirou, e lágrimas surgiram em seus olhos. Alívio, medo, cansaço, tudo ao mesmo tempo.
No horizonte, o sol se erguia junto com os gritos, mas a mulher não se abalou. O destino de todo um povo dependia do conteúdo daquele cesto. Mas ela não sabia. Fez outra prece e agradeceu, sorrindo.
O cesto estava pronto, finalmente.
Fale com o autor