Notas iniciais
Eu a encarei, ela tinha medo da morte.

Como qualquer outro, eu, obviamente, me desesperei.

Fiquei desesperado por um bom tempo e depois me acalmei. Mas só me acalmei porque percebi que ela estava acordando.

- Eu devo estar sonhando!

Ela olhou pra mim.

- Talvez eu ainda esteja, to olhando pro Johnny Depp!

- Eu não sou nem um pouco parecido com eles, não sei de onde vocês tiram isso!

- Não se preocupe, é uma coisa boa. A maioria das mulheres já se apaixonou pelo Johnny Depp.

- Até você?

- Inclusive eu. Agora me ajuda a levantar, Johnny.

Eu não pude deixar de rir da cara dela e de rir por como ela encarou tudo isso.

Ela ficou de pé e eu perguntei:

- Você não tem medo de mim?

- Porque eu teria medo de você? Você não é de nada. Eu simplesmente escorreguei, ok?

Eu ri. Eu realmente adorei o jeito dela. Quando ela não está sofrendo pelo luto ela é uma mulher incrível. Acredito que o senso de humor que conquistou seu marido. E a beleza, e a simpatia, e a beleza, e ela toda. Ela por completo.

- Me desculpe mesmo assim.

- Não precisa pedir desculpas. Pra ser sincera eu sempre gostei de mitologia grega e sempre achei injusto você ter sido encarregado dos mortos.

Eu ri.

- Você precisa ver os que perguntam se sou Deus.

Ela riu. Eu apreciei o sorriso dela.

- Me fala de você. — eu disse — Você sabe tudo de mim.

- Eu? Bom... Eu nasci amaldiçoada. Meu pai fugiu com a melhor amiga da minha mãe e ela tinha que se virar pra sustentar eu, ela e meu irmão. Sem falar no meu tio traficante que ficava as custas dela. Esse meu tio me mostrou o caminho das drogas, viciada e sem dinheiro, comecei a me prostituir pra conseguir dinheiro. Minha avó me colocou em uma clínica de reabilitação e passei 17 anos de minha vida nessa agonia.

- Ual.

- Pois é. E não para por aí, consegui dar um jeito na minha vida. Conheci o Cláudio, um servente de pedreiro que logo se tornou meu marido e ele me ajudou a voltar a estudar e me tornar uma professora. Foi muito difícil e eu consegui graças à Deus. Ou aos deuses. Mas ninguém queria uma professora ex-viciada, então comecei a lecionar numa escola pequena cheia de alunos que ninguém tem mais esperança, sem salário fixo e sem carteira assinada. Minha mãe faleceu e meu irmão está perdido no mundo desde quando completou seus 18 anos. Meu tio foi preso porque minha avó contou pra polícia que sabia quem era o chefe do morro. Logo, juraram a minha avó de morte. Mesmo assim, eu persisti. Eu e Cláudio, nós dois contra o mundo. Logo foram nós três contra o mundo. Marcelo nasceu após quatro anos do nosso matrimonio. Eu finalmente encontrei algo para ter esperanças na vida. Tinha um companheiro, tinha um filho e faria de tudo pra não deixar ele sofrer como eu sofria. Eu tinha um trabalho, eu tinha condições de sair da merda. Mas aí veio a chuva e levou tudo. Me afastaram da escola porque eu era muito depressiva para dar aula em jardim de infância. Resolvi que não tinha mais nada a perder então peguei o primeiro emprego que vi pela frente só pra conseguir me alimentar. E agora, aqui estou eu contando minha história patética pro deus grego dos mortos e do mundo inferior na esperança dele me levar pra morte de uma vez.

Ela sorriu de canto de boca e depois me encarou com a expressão mais morta do que eu achei que seria possível. Eu segurei na mão dela e fiz ela olhar dentro de meus olhos.

- Sabe o que eu vejo em você?

Ela fez que ia chorar e eu continuei:

- Morte. Você está morta. E foi por esse motivo que eu me senti tão atraído por você. Eu não posso te reviver, eu não posso fazer você se sentir bem com a sua vida porque não é assim que funciona, eu juro que se eu pudesse eu faria de tudo pra te salvar da sua própria morte interior, mas eu não posso. Eu não sei lidar com isso, mas eu posso te oferecer um lugar. O que você chamaria de paraíso.

Ela chorava muito. Ela estava sem reação até que ela me abraçou e explodiu com lágrimas. Chorou apoiada em meu peito e quando parou e se recompôs ela olhou para mim e perguntou:

- Você quer que eu morra?

Eu olhei para ela sem responder.

- Eu não vou morrer. — ela continuou — Eu não posso morrer.

Eu a encarei, ela tinha medo da morte. O que é algo perfeitamente normal já que ela era uma mortal. Eu continuei olhando para ela.

- Hades, você deixaria eu ver meu marido pela última vez?

- Não hoje. Temos que esperar um pouco.

- Esperar o que?

- Esperar minha mulher sair de casa.

Notas finais
Desculpa a demora, gente. Eu estava sem inspiração, espero que tenha ficado bom.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.