O Cemitério

4 Capítulo 4 - Danças e Desmaios


Notas iniciais
"Sofrer é inevitável."

Ela estava linda como sempre, o cabelo estava preso num coque mal feito, estava usando um batom vermelho que deve ter passado no ao mesmo tempo que foi tirar o avental, pois parecia recente, os brincos eram de pérolas, a blusa era grande e preta, os jeans escuros e os pés enfiados em chinelos de dedo que todo mundo usa e os olhos, como sempre, mortos. Percebi que passei tempo demais encarando-a. Precisava falar algo.

Mas ela falou na minha frente.

– Então, João... Como você faz pra aproveitar a vida?

Não consegui conter uma risada.

– Aproveitar? Acho que já passei dessa idade!

Ela pareceu decepcionada.

– Mandei mal?

Não respondi. Como ela pode pensar algo assim?

– Faz muito tempo que eu não saio com alguém... É estranho voltar as antigas.

A Olívia diante de mim era, de novo, a Olívia morta que eu encontrei no cemitério. Senti por ela toda a atração que eu achava que podia sentir. Ela amava o marido, ela sentia falta dele, ela precisava de alguém pra suprir o buraco que ele deixara nela, ela precisava de mim.

Eu acho.

– Você não mandou mal. — sorri — Não precisa se preocupar, eu também não sei lidar muito bem com mulheres. uma vez, acabei raptando uma.

Ela arregalou os olhos

– O que? Como assim?!

Eu ri da cara dela.

– Fica tranquila, não vou fazer isso com você.

– Promete?

– Bom...

Rimos bem alto. Olhei pra ela enquanto ela sorria. Deuses, como ela é linda.

Passamos por um barzinho onde tocava MPB e paramos para assistir. A lua cheia brilhava no céu e as estrelas riam de nossas caras. Começou a tocar uma música lenta. Aproveitei o ritmo e tirei-a para dançar.

Os olhos dela, pela primeira vez, estavam em direção aos meus. Eles eram escuros, mas não tão pretos quanto os meus, e eram enormes. Arregalados, quase assustados. E perfeitos.

A música tocava.

Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar

Reconheci o primeiro verso. Aposto que em algum dia da vida dela, ela já havia cantado esta canção para o marido.

A segurava com firmeza, mantinha seu corpo bem próximo ao meu, e seus olhos na minha direção. Podia ver a hipinose que causei-a. Ela estava entregue a mim. No momento da dança eu ganhei a garota. O olhar não me enganava.

Assim que a música terminou, cheguei bem perto de seu rosto a ponto de poder ouvir sua respiração se fundindo com a minha.

E então, ela se afastou.

Ela acordou, saiu de transe. Perdi minha primeira chance.

Uma lágrima solitária saiu de seus olhos. Ela fez um pedido de desculpas sem som. Virou as costas e correu. Correu pra longe de mim.

Olhei o seu corpinho magricelo correr na direção oposta dos meus braços.

Corri atrás.

Quando ela parou, estava em prantos. O rosto estava vermelho e não conseguia conter algumas tosses e soluços.

Observei atentamente e esperei ela se acalmar.

Estávamos longe de tudo e de todos em uma rua escura.

– Desculpe.

Ela conseguiu dizer depois de um tempo.

– É que... — ela tentou continuar — Eu não...

E choro ainda mais.

– Não precisa se explicar, eu entendo.

Ela se virou, com o semblante irado.

– Você entende? — me fuzilou com o olhar de uma maneira injusta e agressiva — Você quis dizer que acha que entende, não é? Você não entende nada, nunca teve que passar nem por metade do que eu passei! Eu já fiquei sem teto, eu já fui viciada, eu já roubei, eu já fiquei em estado de miséria. Miséria, esta me ouvindo?! — ela gritava — Eu sofri mais do que qualquer ser humano deveria sofrer! E porque? pra quando eu conseguir algum tempo de paz e felicidade, vier uma droga de chuva e soterrar tudo o que eu sempre quis!

Eu a encarei.

– Você acha que eu não sei o que é sofrimento? — ela estava chorando muito, a tristeza e o luto se renovavam a cada lágrima. — Tudo o que eu faço, todos os meus esforços acabam fazendo a mim ou a alguém sofrer.

Eu deixei ela chorar. Deixei ela gritar, deixei ela limpar a alma e depois disse:

– Sofrer é inevitável.

Ela me olhou confusa.

– Quem é você?

– Você sabe quem eu sou.

– Não, eu não sei. A gente se conheceu hoje de manhã. Eu só sei o seu nome. Nunca te vi antes na vida, ninguém nunca te viu antes. E se alguém tivesse visto, com certeza lembraria. Porque você é igualzinho ao Johnny Depp.

Eu olhei pra ela com um pouco de irritação. Quem ela pensa que é pra falar comigo desse jeito? Eu sou um deus grego! E eu também não tenho nada a ver com esse tal de Johnny Depp!

– Em? — ela abusava da minha paciência. — Não vai me dizer que você é? — eu hesitei, não podia fazer qualquer besteira. — Ta com medo de quê, Joãozinho?

Já chega. Minha paciência se esgotou.

Mas assim que ia invocar milhares de caveiras para prendê-la e levá-la para o fundo do Tártaro, olhei para seus olhos mais uma vez.

Meu amor, juro por Deus, me sinto incendiar

– Você quer saber quem eu realmente sou?

– Já disse que sim.

– Tudo bem, então. Pra começar, meu nome não é João. Nunca foi, aliás, nem gosto desse nome. Meu nome é Hades.

– Hades?

– É. Hades. Eu tenho uma esposa chamada Perséfone, ela está no meu palácio, lá no submundo se queixando porque fiz dela uma rainha. Eu conheci seu marido e seu filho, impedi que meu cãozinho infernal, Cérbero, devorasse os dois. Ambos estão no Campos Elísio, é uma parte do meu reino em que ficam os bons e justos. Todos acham que eu sou um cara do mal, só porque sou o deus dos mortos, eu posso ser um cara bacana! Mas nem o meu filho, Nico,acredita nisso. É esse o tipo de tratamento que eu recebo por tentar protege-lo sempre. Você já imaginou como seria o mundo se todos os mortos quisessem voltar a vida? Essa Terra seria uma bagunça! E como me agradecem? Me acusando de homicídios! E os meus irmãos nem me defendem! Etem mais! Ajudei meus irmãos a matar meu papai, o titã Cronos, desde então, meu irmão Zeus é o deus glorioso dos céus, meu irmão Poseidon é o rei implacável dos sete mares e eu sou Hades, o Deus do Mundo Inferior e dos Mortos, assim chamado pelos gregos. Pelos romanos, sou conhecido como Plutão, aquele que dá as riquezas da terra e faz a mesma ser fértil. — aumentei o tom de voz e a fiz ficar poderosa — Poderia muito bem mandar qualquer um para as profundezas do Tártaro, apenas porque sou Hades, eu sou um deus grego, eu sou Tantanos, eu sou Queres. Eu sou o deus dos mortos.

Quando tomei folego, ela me olhava com os olhos arregalados e a boca aberta. Ela estava em choque.

– Desculpe, eu...

Não terminei a frase. Dei um tempo pra ela.

A cada segundo eu me arrependia mais e mais por ter aberto o jogo desse jeito, até que ela expressou reação.

– Você é tudo o que disse que era?

– Sim.

– Deus dos mortos?

– E o do Mundo Inferior também.

– Com aquele cão de três cabeças?

– Ele não é tão ruim.

– E... você é casado?

Eu sorri. Ela sorriu e se aproximou de mim devagar.

– Não sei se posso chamar aquilo de casamento.

– Há quanto tempo você existe?

– Olha, bastante tempo.

– Você mata?

– Não. Apenas recebo as almas dos mortos.

– E aquela história de me mandar direto pro fundo do Tártaro?

– Força de expressão.

Ela sorriu pra mim, colocou as mãos em meu rosto e disse:

– Hades?

– Isso.

– Me mostra.

Ela sorriu outra vez.

Fiz emergirem corpos esqueléticos, fiz surgir as mais incríveis riquezas que haviam sob o solo brasileiro, depois fiz todos voltarem pro ludar de onde vieram. Uma rachadura gigantesca apoderou-se do solo.

Olhei para ela para ver sua reação.

Ela apenas sorriu.

E depois desmaiou.