Vincent acordou cedo, tomou um banho rápido e pôs seu confortável roupão de banho de cor azul marinho. Calçou as pantufas pretas que Donna havia lhe dado de presente há uns dois meses, em seguida, desceu até a cozinha para preparar o seu café da manhã.

Enquanto virava suas panquecas na frigideira com o auxílio de uma espátula, planejava mentalmente o que faria ao longo do dia, especialmente no período da manhã, cujos acontecimentos esperados por ele resultaria na eficácia – ou não – de seus planos.

Levou as panquecas para complementar as delícias que já estava na grande mesa da sala de jantar, uma das preciosidades de sua mãe. Ela acomodava doze pessoas e era trabalhada em madeira. Vincent não se lembrava de ter tanta gente em sua casa, a ponto de ocupar todos aqueles lugares, o máximo de companhia que teve naquela mesa foram uns três ou quatro colegas da faculdade que iam lá para estudar ou quando eram visitados por alguma amiga de sua mãe. No entanto, ele não abria mão de fazer suas refeições ali, não havia lugar mais agradável em sua casa para esse propósito, mesmo que só ocupassem sempre dois lugares, o dele e o de Donna. Algumas vezes, era posto um lugar a mais, no caso, quando vinha a melhor amiga do casal almoçar ou jantar com eles. No máximo, quatro pessoas se sentavam lá: quando Adelle trazia consigo algum pretendente, o que foram muitos ao longo dos últimos anos.

A única certeza que ele tinha era de que precisava de maiores informações, para então planejar tudo nos mínimos detalhes. Queria saber mais através de Jaime, o próprio pai da garota, ele era o mais indicado para sanar as suas dúvidas, mas se ele não estivesse no Instituto, iria sondar Clayton ou qualquer outro funcionário que pudesse lhe dar mais pistas sobre ela.

Ao terminar de tomar o seu café, subiu para o seu quarto, apanhou o celular do criado-mudo e discou rapidamente, ao que uma voz masculina e sonolenta atendeu:

— Nossa chefe, por que tão cedo? Aconteceu alguma coisa no hos...

— Não Jhoe, calma. Só preciso de uma informação, antes de subir para lá – interrompe-o.

— Tá, qual é? – pergunta Jhoe.

— Temos os resultados anteriores do uso de temozolomida? Quero um comparativo de todas as avaliações e resultados dos testes que foram feitos nos últimos seis anos, para obtermos um resultado mais satisfatório.

— Sério isso, chefe!? Não precisa, está tudo certo com ele, já dá para ser lançado no mercado essa nova fórmula – argumenta ele, surpreso com a decisão de Vincent.

— Não Jhoe, vamos mesmo precisar revisar, acho que dá para melhorarmos em uns 60% a fórmula do TMZ.

— Caramba, você e seu perfeccionismo! – diz gargalhando. — Se acredita mesmo que dá para melhorar, tô contigo! Vamos rever o material e "descobrir" como que dá pra melhorar, mas Vincent, só temos as anotações referente aos testes anteriores e sabe né, não é a mesma coisa.

— Sei cara, precisamos das cópias desses testes, mancada minha não orientar vocês a arquivar isso também.

— Relaxa chefe, ninguém manda arquivar isso, só importa mesmo os resultados finais. Além do quê, há seis anos você não estava lá com a gente, o chefe anterior também dispensava esses papéis – diz rindo. — O arquivamento de tudo fica por conta do Instituto de Pesquisas e ... é isso chefe, é só pedir lá que eles fazem uma cópia pra tu.

— Boa, garoto! – diz Vincent sorrindo. — Bom ter por perto alguém que pense em tudo!

— Ah, fala sério chefe, tu ia pensar nisso mais cedo ou mais tarde – Jhoe gargalha, agora mais desperto do seu sono. — Teu QI é elevado, dá pra bem mais que isso.

— Está legal Jhoe, vou deixar você levantar, se arrumar e ir para o hospital – Vincent responde rindo.

— Como assim? Fiz o turno da noite, tô quebrado! – responde assustado. — Hoje só entro depois do almoço.

— Hoje tu entra às oito, quero que prepare a equipe para quando eu chegar com o material.

— Mas Vincent... – tenta argumentar.

— Quem falou que é preciso ir ao Instituto? Quem vai? Pode se candidatar se quiser e poderá entrar um pouco mais tarde, mas não muito, porque preciso de você lá com a equipe – informa Vincent.

— Droga, sabe que ninguém gosta de te representar lá, aquele Clayton Freeman é um pé no saco!

— Ótimo, então esteja no hospital às oito, lembre-se que são horas extras bem remuneradas – diz rindo.

— Tá legal! – responde Jhoe se sentindo vencido. — Eu e minha boca grande...

Desligaram. Vincent estava satisfeito, já tinha pretexto para chegar em Jaime. Devolveu o celular ao criado-mudo. Tirou o roupão e levou-o para o banheiro, estava seco e confortável, andando nu pelo quarto. Foi até seu closet, onde pegou um terno escuro, uma camisa salmão e uma gravata preta. Calçou as meias e os sapatos, e foi se ver no espelho.

Terminou de abotoar a camisa e ajeitar a gravata, enquanto focava o olhar no seu cabelo em frente ao espelho. Teve que penteá-los, embora não quisesse, pois achava que aqueles fios bagunçados lhe caíam bem, mas não podia deixar daquele jeito, tinha que ficar impecável e perfeito!

Vincent sabia que além das mulheres, os homens também o olhavam com admiração, em alguns casos, até com inveja. Ele sabia que chamava demasiada atenção, que sua presença era sempre notada e sempre o chamavam "boa pinta".

Atentou-se a sua expressão serena, onde nada em sua aparência denunciava os seus pensamentos. Sorriu para si mesmo, um sorriso bonito e espontâneo, que chegava a ser sedutor e convidativo.

Ouviu o alarme do despertador do seu celular, o que fez ele lembrar que já passava das sete horas e que precisava ligar para o Instituto.

Discou direto para o ramal do setor de seu interesse, torcendo para que Jaime atendesse, afinal, só o seu patrão Clayton e ele, por ser o assistente, eram autorizados a atender aquela linha. Mas naquele horário, Clayton não estaria no Instituto, então se viesse a ser atendido, seria exatamente por quem Vincent queria.

Chamou uma, duas, três vezes...

— Escritório do doutor Jaime Freeman, bom dia! Em que posso ajudar?

— Bom dia Jaime, como você está? – pergunta com naturalidade. — Aqui é Vincent Hughes, do Hospital Bom...

— Oi Vincent, sei quem é você, não precisa dessas apresentações! – interrompe Jaime com gentileza e simpatia. — Estou bem e você? Do que precisa?

— Opa, que bom que lembra de mim – responde educado, retribuindo a gentileza de Jaime. — Preciso de um favorzão, mas não sei se é você ou o Clayton que pode conseguir isso para mim.

— Pode falar, Vincent – incentiva Jaime.

— Quero cópias de todos os resultados referente aos testes que foram feitos com o TMZ pelo Hospital Bom Samaritano, mas tem que ser desde o início, de uns seis anos atrás.

— Nossa, é bastante tempo hein... Os últimos resultados do TMZ você já retirou?

— Já sim, mas preciso mesmo dos antigos, é importante! – diz aparentando urgência.

— Assim que o Clayton chegar vejo com ele para me liberar os arquivos antigos, acho que não vai ter problemas. Aí, adianto aqui para você.

— Valeu mesmo Jaime, vai me ajudar muito, obrigadão cara – diz empolgado.

— Imagina, vai ser um prazer. Só me dá uma hora para falar com o Clayton e procurar os arquivos.

— Claro Jaime, tranquilo, daqui uma hora estarei aí.

— Vou te esperar.

Vincent desligou o aparelho celular satisfeito e empolgado. Só precisava enrolar um pouco para ir ao Instituto. Sorriu ao se lembrar de Donna, ela deveria estar no colégio a essa hora, não havia nenhum problema em dar uma passadinha por lá para vê-la.

Não demorou muito e ele estacionou próximo ao colégio em que a namorada trabalhava. Passou pela secretaria para perguntar a sala em que Donna estava lecionando, ao que um rapaz de aparelho informou ser na sala de leitura e o orientou em que direção seguir para chegar até lá.

Os funcionários já o conheciam e sabiam que estava ali para ver a professora Donna Dixon. Enquanto seguia pelo amplo corredor do colégio, Vincent cumprimentava com um "bom dia" seguido de um sorriso a todos que o olhavam, chegando a deixar uma ou outra pessoa sem jeito. Assim que se deparou com a sala de leitura, avistou sua namorada debruçada sobre a mesa de uma aluna, provavelmente ajudando-a à interpretar o texto que lia.

Donna percebeu os olhares dos alunos que pararam com suas leituras e olhavam para a porta. Virou-se para saber o que havia atraído a atenção das crianças e sorriu ao ver Vince ali parado. Ela orientou aos alunos que voltassem a ler seus livros, que tratavam da Independência dos Estados Unidos. Pediu licença e saiu, fechando a porta atrás de si.

— Que surpresa boa! – diz, sem se atrever a beijá-lo, pois receava ser repreendida por seu ato, mas o abraçou.

— Estava com muita saudade de você, aí resolvi dar uma passadinha rápida aqui, antes de ir trabalhar. – diz amoroso.

— Obrigada amor. Vince, quero te ver essa noite! – murmura.

— Eu também, depois combinamos. Donna, e sua entrevista ontem, como foi? – indaga curioso.

Donna fechou a cara, mostrando-se irritada.

— Vou te contar depois, é melhor.

— Tudo bem amor – diz ele, percebendo o quanto o assunto a desanimou. — Não importa o que aconteceu, você não pode desanimar, tenho certeza que vai conseguir! – fala em tom carinhoso.

Ela sorriu.

— Obrigada, Vince – diz dando um selinho rápido no namorado.

Se despediram. Ambos voltaram para as suas obrigações felizes, embora não pelas mesmas razões.

Vincent chegou no Instituto empolgado, tanto quanto uma criança fica ao ir passear com os pais. Atravessou o saguão do prédio apressado, mas sem deixar de cumprimentar os que passavam por ele, não importava se eram doutores renomados ou faxineiros, demonstrava a mesma simpatia e educação, o que fazia sua presença ser sempre agradável a todos.

Entrou em um elevador lotado, limitou-se a cumprimentar os presentes, sem dar brechas para diálogos. Sentia que o olhavam de canto, curiosos.

Chegando ao quinto andar, foi para a sala de espera, onde havia uma recepcionista atrás de um balcão. Abordou-a perguntando sobre o escritório de Jaime Carter e pedindo para que anunciasse sua chegada.

O escritório de Jaime ficava praticamente em frente à sala de Clayton Freeman, mas Vincent nunca havia lhe prestado atenção ou procurado diretamente por ele. Deu três batidas firmes na porta, obtendo resposta que vinha de uma voz grossa:

— Entre, Vincent.

Jaime era um homem com mais de quarenta, baixo, magro e calvo, cuja voz grossa chegava a surpreender, já que tinha um corpo tão franzino. Suas feições eram simpáticas, até alegres, embora estivesse visivelmente abatido.

— Com licença, olha só eu te dando trabalho logo cedo – entra rindo.

— Que nada Vincent, estou aqui para isso. Sente-se, fique à vontade.

Jaime estava entretido olhando para o monitor do seu computador, abria vários documentos ao mesmo tempo, buscando algo específico. Vincent, antes mesmo de se sentar, reparou na mesa de Jaime, lembrou que parte daquela papelada estava no escritório de Clayton no dia anterior, resolveu usar isso para iniciar uma conversa:

— Muito trabalho para fazer, Jaime?

— Pois é – responde ele, sem tirar os olhos do monitor.

Vincent decepcionou-se com a resposta, esperava mais que um simples "pois é". Teve que insistir:

— O Clayton não gosta nada de acumular todo esse trabalho, deve estar te enchendo o saco! – ri descontraído, esperando sua reação.

Jaime tirou as mãos do teclado e virou-se para ele:

— Ai Vincent, o Clayton não entende. Você deve saber que ele é sozinho, a vida dele é esse trabalho, não tem família nem ninguém, mas eu não, eu tenho mulher e duas filhas. São minhas responsabilidades, se precisam de mim, eu tenho que estar lá com elas, entende? – justifica nervoso.

Vincent finalmente conseguiu iniciar a tão esperada conversa.

— Claro que entendo Jaime, tenho uma namorada com quem quero me casar e não tenho filhos ainda, mas pretendo ter. Também faria tudo que fosse necessário para ficar perto da minha família, não há nada mais importante que isso! – diz aparentando comoção.

— Que bom que você entende. Família é tudo mesmo! E quem quer ter problemas? Ninguém Vincent, ninguém, mas não tem jeito, não dá para fugir deles, tem que enfrentar né! – Jaime fala mais relaxado.

— É verdade cara, não tem jeito. Mas me conta, resolveu o "problema"? – indaga curioso.

Jaime coçou a cabeça calva e encarou-o:

— Minha filhinha engravidou do namoradinho, os dois são muito jovens. Minha mulher ficou histérica quando Christine contou, assustou mais a menina.

— O Clayton comentou isso comigo, disse que estava preocupado com sua filha, que ela quase morreu tentando um aborto – diz para mostrar que estava a par da situação.

— Clayton, preocupado? Não seja tão gentil Vincent, Clayton não se preocupa com ninguém, além dele mesmo – responde. — Ela está mais calma agora, fez o que fez porque minha esposa reagiu muito mal com a descoberta. Minha mulher também não tinha a intenção, mas ficou decepcionada com a Chris. Sempre conversamos tanto com ela, orientamos em tudo, mas esses jovens, você sabe como são inconsequentes...

Vincent começava a sentir dó daquele homem que era tão devoto da própria família.

— É verdade Jaime, os jovens são mesmo inconsequentes, mas é da falta de maturidade, não é por mal – diz tentando agradar.

— É assim que eu penso, Vincent. Confesso que fiquei muito triste com tudo isso. Chris desde criança falava que ia ser médica. Agora vai ser mais difícil. E tudo que economizamos para a faculdade de medicina dela, irá para o casamento e para meu neto – ri nervoso. — Sabe, já estou me conformando, a Chris não vai nos orgulhar com o diploma de medicina, mas vai nos dar um neto!

Jaime estava realmente conformado, era um homem bom que tentava ver o lado positivo daquela situação, e um neto lhe parecia algo bom, apesar de tudo.

— É verdade meu amigo, você tem toda razão. Que bom que decidiram casar, vão iniciar uma família juntos.

— Difícil aceitar esse casamento, mas não tem outro jeito. Fico feliz que o Samuel, meu genro – ri ao pronunciar a última palavra. — queira assumir o filho e até tenha proposto o casamento. Samuel é novinho como ela, mas é muito bom e ficou do seu lado dia e noite, no hospital e em casa. Realmente se preocupa com a Chris. Vão casar antes do bebê nascer, daqui dois meses, a barriga vai estar grande, mas é melhor assim. Vão ficar juntos, apesar dos gritos da minha mulher e de todos os problemas que estão enfrentando, pelo menos há amor! – finaliza descontraído.

Vincent ouvia atento, mas ainda não sabia o suficiente.

— Entendo, o importante é que sejam felizes. Ela deve estar em repouso então, sua esposa está cuidando dela em casa ou a deixaram ficar com o noivo? – diz, querendo saber mais.

— Essa semana ainda está conosco, graças a Deus ela e meu neto estão bem.

— Então ela vai para a casa do noivo – afirma Vincent curioso, mas sem demonstrar interesse.

— Ah não, ela não se dá muito bem com a sogra. Para lá não vai. Chris quer ir para cabana com Samuel, como ele não fica à vontade em casa, acham que ficarão bem lá até casarem. Se a conheço bem, nem vai querer voltar para cá, sempre me disse que queria a casa da floresta só para ela, e depois de tudo o que aconteceu, a pobrezinha precisa mesmo de um cantinho que a faça bem – fala mais animado.

— Vão tirar férias de Los Angeles, entendo, parece mesmo muito bom para eles – diz, torcendo para que Jaime falasse mais.

— Ah não, vão para perto, eu não deixaria eles irem muito longe. Temos uma boa cabana nas Montanhas de San Gabriel.

— Na Floresta Nacional de Angeles? – pergunta surpreso.

— Sim, conhece aquela região?

— Passeios escolares – ri lembrando dos vários passeios, enquanto ainda estava no colégio.

A Floresta Nacional de Angeles está localizada na cordilheira Montanhas de San Gabriel, onde grande parte dela está ao norte do Condado de Los Angeles, tratando-se de uma floresta urbana, recebe diariamente visitas de muitos grupos escolares da região. Quase toda a área da floresta é pública, mantida pelo governo, no entanto, há muitas cabanas, chalés e pequenas estruturas de recreação e lazer, em meio ou ao redor da floresta, que são particulares.

— Imagino que se divertiam muito por lá, sinto que estou no paraíso toda vez que vamos passar o final de semana na cabana, me faz um bem! Só lá que eu consigo repor as energias que o Clayton me faz gastar! – gargalha.

— Sim, nós gostávamos bastante, mas faz muitos anos que não vou, e não tenho onde ficar por lá – diz rindo também.

— Não seja por isso Vincent, vamos marcar um almoço lá qualquer dia, você leva sua noiva, ela vai amar, tenho certeza.

— Convite aceito, é só eu e ela termos uma folga do trabalho que combinamos com sua família, só que você vai ter que me guiar até chegar lá, a floresta é grande, vou me perder até encontrar a sua cabana.

— Não tem como se perder, olha, vou te mostrar como é simples chegar lá – Jaime falava animado, o assunto realmente o agradava. Nem sequer percebeu que parou de procurar pelos documentos que Vincent foi buscar. Planejar o passeio com o novo amigo fazia-o esquecer também aqueles dias amargos que tinha passado. Acabou dando detalhes do percurso a ser feito, até abriu uma das redes sociais que tinha e mostrou fotos lindas da cabana, era mesmo uma casa na floresta. Ver Vincent empolgado com a ideia de ir com ele conhecer a cabana animava-o ainda mais.

Se passaram mais de duas horas para que concluíssem aquela conversa prazerosa e para que Jaime entregasse a Vincent as informações que ele precisava, além do material que levaria ao hospital.

Vincent foi direto para o trabalho, havia muito para discutir com a equipe sobre as melhorias que poderiam fazer na fórmula do TMZ, para isso, todos já o aguardavam no laboratório.