O quarto circular tornou-se, gradualmente, cárcere. A princípio, sentiu-se aliviado por estar lá, já que se encontrava longe do perigo. Contudo, foi condicionado a recuperação até o dia do torneio e simples horas pareciam ser dias. Não havia nada o que podia fazer, a não ser fazer coisas inúteis, tais quais decorar o nome da maioria dos livros da estante a frente, contar quantos ursos apareciam na tapeçaria e, sobre tudo, dormir. Não podia gastar tempo naquele quarto pois tarefas importantes o aguardava, se bem que era obrigado, caso não quisesse ser um herói frágil. Nada houve nesse período, apenas comidas ruins e livros engraçados como “Kernlor, o mago maníaco”.

Passados dois dias de puro tédio, estava finalmente sentindo-se revigorado. A alvorada ainda não chegara, o dia estava agradavelmente frio e Tern, o velho que o presenteou com o lírio, o tinha instruído de realizar um exame definitivo de saúde quando o sol alcançasse seu auge. Mas não tinha sono, conhecia bem seu corpo e Tern não estava ali para o impedir. Apenas com as roupas de baixo, achou um roupão com uma calça, ambos de algodão, ambos decentes, em cima de uma mesinha ao lado que não havia percebido antes. Pois então se vestiu, abriu a porta de madeira, discretamente, e pôs-se a descer a escadaria espiral de pedra.

O caminho foi um pouco longo e nada iluminado até o térreo. Nele, passou por várias salas com a porta aberta. Aparentava ser uma torre aonde se encontrava, mas não uma torre comum, a torre dos guerreiros e cavaleiros de Loneway, uma das maiores. Há até quem diga que uma pessoa que esteja no extremo sul do reino poderia ver esta torre. Em alguns andares, observou certas portas abertas. Alguns quartos possuíam homens discutindo sobre planos de guerra, outros possuíam homens dormindo, outros tinham mulheres, outros nada haviam. Mas o térreo foi seu andar favorito. Ao chegar ao pé da escadaria, a primeira coisa a vislumbrar foi um grande escudo de obsidiana, pendurado perto ao teto na parede, com um anjo e um demônio, armados pintados nele, um de costas para o outro, sobre fundo vermelho. Atrás do escudo, dois tridentes de prata dispostos em X com pontas de ouro. Logo abaixo, uma bancada que continha um guarda de capacete espinhado de prata e couro, trajando um gibão de ferro. Do lado oposto da sala a bancada, havia uma lareira que iluminava a sala inteira. No meio dos dois, localizada na parede, estava a porta em forma de arco que o levaria para fora da torre. O guarda aparentava dormir, mas acordou rapidamente assim que o dito Almur deu o primeiro passo no chão coberto por pelo de javali do sul.

— Alto! — O guarda parecia um pouco sonolento — Ah, Almur. O que faz fora da cama tão cedo? Você deveria descansar...

— Sobre isso — Tentou pensar no que o irmão falaria e olhou para a lareira — Estou farto de repousar naquela cela. Não deverias ficar tão surpreso por minha atitude.

O guarda pareceu um pouco confuso.

— Sim, claro. Ninguém pode realmente aprisionar o espírito guerreiro do grande Sor Highwood no dia dele! Sim, sim, claro. Hoje você vira um cavaleiro, um guerreiro e eu sei… já vi outros virando cavaleiros. Sim, você deseja dizer um belo de um adeus para as velhas fanfarras, não? Há! Vá em frente, ninguém saberá — Deu uma pequena gargalhada.

Com o rosto um pouco corado, partiu para a porta em forma de arco e deu o primeiro passo para fora da torre.

O que via era a paisagem mais linda em toda a sua vida, uma vez que descobriu agora que estava em cima de uma colina. As estrelas pareciam tão próximas a ponto de poder esticar a mão e pegá-las. Em frente de si, um caminho de pedra posto em uma descida um pouco longa de grama verde-clara. No sopé da colina, estava a Guilda dos Cavaleiros, uma construção majestosa e quadrangular feita de pedras grossas que a fazia parecer até uma grande vila, vista dali. Conseguia ver as torres postas nos extremos da guilda, os grandes muros, um grande espaço em seu centro, o pátio das batalhas, e um grande portão avermelhado que o levaria para dentro.

“Demais é pouco para descrever esse lugar!”, pensou e logo em seguida deu um pequeno pulo, sorrindo, com ambas as mãos para o alto. Começou a sentir um pouco de frio e, escutando o som dos insetos que ali viviam, continuou alegre e solitariamente pelo caminho. Mais a frente, conseguiu vislumbrar um pequeno lago. Começou a tremer um pouco e apertou o passo, chegando ao portão avermelhado que era ainda mais grandioso de perto. Examinou-o por um tempo, tentando procurar qualquer abertura ou alguém para abri-lo, mas não teve sucesso: O portão parecia pedra. Entretanto teve sorte, logo em seguida ouviu um grank e a porta lentamente se abriu. Dela, gradualmente, começou a sair uma frota de guerreiros muito bem armados, mas um pouco devastados.

— … caiu dos céus no momento em que sua espada o tocou. — Ouviu um guerreiro qualquer dizer — O pobre Lance foi partido e cozido em dois na hora… que Hun'Julw o carregue.

— Não devemos mais pensar em como sobreviver, mas como levar o máximo conosco ao submundo…

Com medo do que ouviu, conseguiu finalmente observar uma brecha na grande coluna de soldados e entrou pelo portão.

Via-se em uma sala grande, um salão na verdade. Grandes colunas de mesas de madeira se estendiam em sua frente, com vários cavaleiros juntos a elas. Banqueteavam-se avidamente de comidas de média classe, ainda vestidos com suas próprias armaduras, uma mais bonita que a outra. Conseguiu ver o horror nos olhos de uns e o prazer nos de outros. Cada mesa possuía aproximadamente dez candelabros de três velas cada um. Estava mais quente. Procurou cruzar a sala por entre as mesas para chegar na porta do outro lado. Contudo, enquanto o fazia, esbarrou em um rapaz esguio, de cabelos longos e claros e olhos verdes, não muito mais velho que ele. Ele trajava uma cota de malha simples e tinha um elmo entre os braços. Ergueu as sobrancelhas ao vê-lo:

— Almur! Que surpresa! Ora, venha e sente-se aqui!

— Parece tentador, mas estou um pouco ocupado — Achou que o conhecia de algum lugar.

— Como sempre, ocupado… — Ele disse e o dito Almur fez sinal positivo com a cabeça.

— Mas creio que posso esperar um pouco. — Disse, sentando-se em uma cadeira ao lado dele — Diga-me, alguma batalha perdida?

— Perdida? O contrário, amigo. Conseguimos pegá-los de surpresa na Bacia Seca e começamos com grande vantagem, se bem que não foi uma batalha tão fácil. Os ocidentais aliaram-se a causa de Yowrn, o rei élfico, e trouxeram os seus bichinhos de guerra para a batalha. Uma pena que não pudesse ter ido, teria triunfado sobre eles e teríamos perdidos menos homens, realmente. Mas não tinha idade e não era um cavaleiro formado, mas agora será!

— Sim, serei. — Não sabia de estratégias de batalha, nem de reinos e de governos, era só um vendedor medicinal que brincava de tentar ser guerreiro. A palavra “heroi” pulsava em sua mente, meio translúcida — Não sei se um bom, na verdade, mas servirei o propósito honradamente.

— “Não sei se um bom”? Chamo-te para beber esse vinho e já está bêbado! — Gargalhou e pegou uma taça de vinho — Você ainda tem…

— Você? — Um homem baixo e gordo de cabelos castanhos da outra mesa o interrompeu — Você irá ser um cavaleiro, criança? Aposto que perde a cabeça na primeira batalha, de qualquer um dos dois jeitos. Perdemos homens bons e leais em uma simples batalha, garoto. Não seja um bom cavaleiro e morra. Seja um bom cavaleiro e morra levando inimigos. Cavaleiros não tem propósito, nem honra. Apenas a habilidade de cortar e perfurar. — E virou-se, dando-os às costas.

Um silêncio se perpetuou por um tempo entre os dois.

— Não se sinta ofendido. — O rapaz loiro pegou sua mão e o levantou da cadeira — Porcão! — O homem virou-se novamente a eles — Esse aqui se tornará uma lenda e muitos cantarão suas conquistas, ao contrário de você que morrerá numa vala escura cheia de merda. — Sentiu um pequeno impulso de riso, tanto pela palavra usada pelo rapaz, tanto pela expressão do rosto do homem, que ficou todo contraído e vermelho — Vai fazer você engolir suas palavras.

— QUANDO?

— Agora! Vamos para o pátio das batalhas.

Sentiu um grande frio na espinha. “AGORA?”, e de repente o rapaz já estava o levando para o outro lado da sala, com o homem gordo logo atrás.

Passaram por um corredor escuro, um arsenal de armas e equipamentos, um quarto onde um velho estava deitado lendo “A aurora eterna” e uma biblioteca. Não houve nem uma simples palavra trocada entre eles, até que finalmente chegaram ao pátio das batalhas.

O grande pátio de batalhas era ainda mais épico do que os tantos descreviam. Muitos archotes iluminavam a grama, a terra e as pedras do pátio, como se fosse dia. Em contorno, podia-se ver também o lugar destinado a plateia, que se encontrava pouco cheia a este momento. Encontravam-se não dentro do pátio, mas ao redor dele, debaixo da arquibancada, protegidos por grades verticais de pedra, portanto outro corredor. Já estava havendo combate lá dentro, mas chegou ao fim logo que entrou, com um campeão de lança submetendo outro. Não conseguiu ver muitos detalhes, uma vez que logo foi levado a sala de planejamentos logo adiante.

— Preciso que agende a próxima batalha para Almur Highwood — Falou o rapaz de olhos claros para um homem qualquer à porta da tal sala.

— Sob ordens de quem? — Sua voz era bem grave, para um homem de cabelos brancos e grisalhos e pele manchada

— Sob ordens de Leonard Talhart e de Denis Malrus, sob minhas ordens e sob as desse homem, mesmo que de pouco valham. — O homem não o conhecia, e pareceu um pouco nervoso por tal. O homem gordo, Denis, fez uma careta.

— Desculpe, mas não posso simplesmente interromper a ordem das batalhas, tudo foi anteriormente combinado…

— Ache um meio, ou eu acho um para você dizer adeus ao pão de cada dia.

— Creio que posso… talvez… — Respirou por um momento — Tudo certo. Vou falar com os superiores. Highwood, vista-se para a batalha.

— Contra quem? — O dito Almur soou bem fraco e covarde, e as três pessoas olharam para ele. Não houve resposta e viu-se logo obrigado a se vestir. Entrou numa sala um pouco distante, de porta de aço negro, aberta, e encontrou um gibão de couro, grevas de madeira e um escudo de carvalho pendurados em uma parede de lá dentro. Como a sala estava deserta, vestiu-se um pouco lentamente, mas vestiu-se. Achou uma espada em um baú aberto que tinha ali, uma espada ordinária e, sendo a única que tinha lá, viu-se obrigado a pegá-la. Saiu dessa sala parecendo um verdadeiro selvagem. Quando retornou para perto dos outros, Leonard parecia estático, o outro homem não estava mais ali e Denis gargalhou.

— Não dura nem um minuto.

— É o que veremos — Respondeu Leonard em desafio.

E, próximo a eles, encontraram um banco e lá esperaram até o chamarem. Observou as batalhas que se passavam, e isso contribuiu para que começasse a tremer. Um homem com uma marreta conseguiu praticamente dobrar um homem, que teve de ser socorrido na hora. Outras batalhas foram mais pacíficas, como uma dança já ensaiada, porém com resultados não muitos diferentes das batalhas. Era simples: O forte ganhava e o fraco perdia. Sabia que seria o fraco, e sabia que perderia…

… provavelmente. O anunciante das batalhas de voz amigável, autoproclamado Harrie Janse, finalmente o chamou.

— A próxima batalha será diferente do cronograma. Esperava-se que o campeão Garhold tornasse-se cavaleiro superior agora. Contudo, teremos algo de mais relevância. Chamo o sr. Highwood para o pátio.

Sentiu os pés e as mãos gelados e suados de repente. A espada que tinha em mãos não parava de tremer. Esperava ficar ali para sempre e ficaria feliz em ficar. Simplesmente não conseguia se mexer. Leonard o levantou e, como se tivesse sido desligado do mundo, viu-se passando pela porta de ferro que dava entrada para o pátio. Segurava a espada com as duas mãos. Muitos aplaudiram e de repente percebeu que o céu encontrava-se laranja de um lado e negro de outro: a alvorada chegara. O silêncio tomou conta do lugar.

— Highwood — Continuou o anunciante — Agora é hora de seu juramento. Sabe as palavras?

— Não… — Sua voz pareceu surpreendentemente alta, parecia algum tipo de magia.

— Então repita as palavras que ouvir: Uma simples existência torna-se útil.

— Uma simples existência torna-se útil. — Ninguém estava dizendo nada, todos permaneceram totalmente sólidos perante seus olhos, entretanto escutava as palavras e conseguia força para dizê-las.

— Não importa minha grandeza, meu inimigo me temerá, sempre. Se lutar contra homem, ele cairá. Se lutar contra fera, ela cairá. Se lutar contra rei inimigo, ele cairá. Se lutar contra deuses, eu ascenderei. Se morrer, levarei todos os inimigos comigo. A espada é forte e não se quebrará! — O céu ficou claro por total.

— O juramento foi feito! — O anunciante voltou a falar — Agora é hora de seu teste. Traremos Sor Levy Granhord ao pátio.

A porta de ferro da outra extremidade do pátio se abriu. De lá, surgiu um cavaleiro em armadura verde, com um elmo de viseira fechada com três chifres. Era uma cabeça maior que o dito Almur, mais largo e possuía uma espada curta de cor azul, com um escudo espinhado no braço direito.

— Aproximem-se.

O outro cavaleiro se posicionou próximo ao centro do pátio, e Almur fez o mesmo. Esperou, tremendo enquanto olhava para o cavaleiro imóvel, pelo sinal de começar o conflito. A corneta tocou, e a batalha começou.

Não surpreendentemente, quem liderou a primeira série de golpes foi Granhord. O primeiro ataque foi um golpe transversal descendente que, por puro reflexo, o fez levantar o escudo de carvalho no momento certo, fazendo-o bloquear o ataque. Lascas de madeira voaram para todos os lados. Sem saber o que fazer, Almur deu um pulo para trás, para ganhar algum espaço. Tentou pensar no que fazer, mas Granhord o surpreendeu com uma estocada. A espada perfurou o couro como se fosse seda, atingindo-o no peitoral direito próximo ao ombro. Em desespero, soltou um grito de dor e rapidamente o repeliu com o escudo, atingindo-o na cabeça e fazendo dar dois passos para trás. Sangue saia de seu ombro. Granhord era bem mais experiente que ele e logo executou outro ataque vertical ascendente. Conseguiu desviar para trás, mas a espada do oponente atingiu o gibão de couro. Não houve danos, se bem que Granhord não se deteve apenas ao ataque e logo empurrou-lhe com o escudo espinhado. Não conseguindo reagir, foi lançado ao chão com o impulso, deixando tanto escudo quanto espada cair, com um grande corte na bochecha direita e no pescoço. Se fosse uma batalha comum, teria ficado ali, no chão, todo submisso. Mas tinha muito em jogo. Muitos morriam em guerras enquanto perdia tempo, inclusive, possivelmente, seu irmão. Juntou todas as forças, apoiou-se sobre o joelho, retomou a espada e escudo, levantou-se e começou a lutar de verdade.

Garnhord correu para ele, realizando um ataque horizontal da esquerda para a direita. Surpreendentemente, o ataque foi bloqueado e o dito Almur, com a sua espada, o atingiu na virilha acima da coxa. Rapidamente, sem perder a oportunidade de outro ataque, realizou um ataque horizontal da direita para a esquerda, acabou atingindo o elmo do oponente com tanta força que o fez cambalear. A luta parou por um instante. O oponente ficou em pé, ajeitou seu elmo meio tombado e avançou contra ele em uma estocada. A lâmina azul dele começara a exibir um tênue brilho branco em espiral. Em um pensamento rápido, fez uma tentativa falha de se esquivar para a direita, uma vez que percebeu que estava preso ao chão, mesmo que nada o prendia. O golpe fez um corte em seu abdômen de raspão, propositalmente, e foi libertado do chão. Quase caiu de costas, mas recuperou o equilíbrio e desferiu rapidamente um corte vertical, de cima a baixo. Granhord não fez nenhum movimento para se defender e o golpe veio com força total, raspando sua lâmina em na armadura esverdeada. Não houve danos aparentes, mas Granhord não se movia mais. Uma contagem começou e, após terminar, a batalha fora sido ganha. O sangue do dito Almur corria pelo seu traje de couro e caia no chão. Granhord não aparentava ter levado qualquer dano, mas continuava estável, imóvel.

— O resultado é claro! Almur Highwood é oficialmente cavaleiro! — O anunciante declarou a todos enquanto aplaudiam.

Estava dolorido, ensanguentado, cansado e o sol já brilhava acima de si. Entretanto permitiu a si mesmo um sorriso e um erguer da espada. Esse era o primeiro passo, a primeira vitória. O anunciante continuou:

— Qual título deseja? Sugiro Highwood, o Grande!

— Todos saudam Highwood, o Grande! — Disseram da arquibancada — Um novo guerreiro nasce hoje!

— Eu serei — Dsse e todos fizeram silêncio — O Cavaleiro dos Lírios.

— E por que não das margaridas? — Disseram da arquibancada, de novo, e todos desataram a rir…

… até certos cavaleiros entrarem no pátio e tirarem o elmo de Levy Granhord.

— Pelos sete céus — Um dos homens disse, enquanto todos na arquibancada iam se calando — O que é isto?

De Granhord podia-se ver que era um pouco velho: Com cabelos ainda lisos que caiam em sua testa, orelhas de tamanho maior que o convencional, olhos grandes e um rosto um pouco manchado. Mas tanto cabelos, orelhas, olhos, lábios, tudo em seu rosto estava cinza. Ele parecia… petrificado.

Notas finais
Nesse capítulo eu quis introduzir o teor mágico e que a história terá. Não pensem que haverá uma batalha de magos voadores, nem que tudo será apenas na base de conversa e aço, mas algo próximo ao real com alguma carga extra de magia. Só para esclarescer, não existirão pessoas que tenham "poderes mágicos" como o fim desse capítulo sugeriu ;D