O Catalizador
1 Capítulo 1
Os céus choravam nesse dia negro; a transmissão do rádio já havia ficado turva, distante; nada mais tinha importância. Sentado em meu quarto, apenas pensava em todos os pecados que havia cometido naquele ínfimo espaço de tempo que chamei de vida. Ora, eram muitos para que pudesse me lembrar, mas novamente não tinha importância. Havia feito o que todos disseram ser impossível; provei a todos o poder que retinha.
Não quiseram acreditar.
Mas eu provei a eles. Ah, sim, eu fiz questão de mostrar-lhes o que eu podia fazer.
Meu orgulho cegou-me; ele era um véu em meus olhos, uma voz sedutora em meu ouvido induzindo-me em certa direção, um gosto docemente amargo em minha boca; fui ao ponto mais alto apenas para que pudesse cair. Mas na queda, não podia contentar-me em permanecer sozinho; ah, não.
Eu tinha de levar o mundo comigo.
Tenho uma cadeira reservada no inferno; rio sozinho, minha voz já rouca: ora, o inferno é bom demais para mim. Olho para meu piano de cauda; tanto tempo passastes comigo, e nunca pude agradecer as notas doces que soltavas de suas cordas, que acalentavam minha alma de uma forma sempre inesperada. Meus ombros curvados e cansados pareciam sustentar o mundo inteiro. Bom, não era totalmente uma mentira: eu segurava todas as mortes do mundo; passadas, presentes e futuras.
As lágrimas desesperadas que uma vez rolaram em minha face estavam secas, e o momento em que ocorreram distante. O arrependimento era um homem cuja aparência surpreendia à primeira vista. Era sempre seguido da epifania; ah, sim, a mulher cuja beleza plantava idéias em sua mente, tão distantes, porém tão verdadeiras. Ela se aproxima aos poucos, mas fujo dela; seus olhos azuis parecem reter o segredo do mundo, mas não desejo olhá-la.
Tenho uma faca em mãos; manuseio-a com delicadeza, lembrando das memórias que esta companheira me deixou. Sinto a melancolia entrando pela minha porta, abaixando-se e sussurrando em meu ouvido. Peço que vá embora, mas ela fica. Envolve-me com suas garras, sem deixar resquícios de outra sensação que já tenha passado por mim. Minha mente começa a formar diversas teorias, fatos, suposições, tentando apenas acalentar-me.
Mas, espere; o que é isso? Uma calma repentina, vinda do nada, atravessou minha alma naquele momento. As lágrimas voltaram a rolar em minha face, e vários pensamentos passaram por minha mente; as pessoas que poderia ter salvado, as coisas que deixei de fazer, o que poderia ter evitado fazer.
Um estrondo chacoalhou todo o cômodo, jogando-me no chão e cobrindo-me com uma fina camada de poeira que caíra do teto; a hora chegou. Calmamente, levantei-me, tirei o pó sobre minha camiseta e abri a porta.
Ora, eu não estava preparado para o que vi.
Após meus olhos se acostumarem com a claridade repentina, meus ouvidos foram, aos poucos, reconhecendo os sons à minha volta. Pessoas gritando, chorando, correndo, morrendo, queimando, rezando. Eu olhava para o rosto de cada uma delas, sabendo que havia desencadeado tudo aquilo.
Pisei no asfalto e comecei a caminhar entre as pessoas como se fosse apenas mais um dia normal. Um jornal no chão me chamou a atenção; eu sabia o que estava escrito, já que reli a reportagem várias e várias vezes. Lembro-me das palavras exatamente: “Explosões solares ameaçam consumir a Terra em 100 anos”. Ora, pensei eu naquela época, porque não adiantar as coisas um pouco?
Se Deus soubesse o quanto me arrependo. Meu ateísmo nos últimos dois dias dissipou-se como sangue na água, e minha recente fé fortalece-se a cada minuto. A cruz de aço em meu peito, já escura do suor de minhas mãos, lembrava-me da única pessoa que eu desejaria poder ter salvado; mas era tarde para repensar minhas atitudes.
Dirigi-me àquela casa que conhecia tão bem; observei cada detalhe dela, como se quisesse gravá-la em minha alma. Pessoas esbarravam em mim na rua esburacada, os rostos retorcidos de terror; não me importei. Não podia me importar, já que pedi por isso. Minha pele queimava absurdamente, e estava indo da vermelhidão para algo pior; algo que eu realmente não queria saber o que se tornaria.
Cheguei à porta da casa e analisei a maçaneta por alguns segundos, antes que minhas mãos trêmulas respondessem ao meu estímulo e a girassem lentamente. A porta rangeu levemente, antes que se abrisse o suficiente para que eu pudesse entrar na sala.
Tudo estava silencioso e estranhamente arrumado, a na ser pela fina camada de poeira do estrondo de pouco tempo atrás. Mas eu sabia exatamente onde encontrá-la. E ela sabia que eu viria, uma hora ou outra. Subi as escadas, degrau por degrau, aproveitando os meus últimos minutos. Abri a porta à minha direita, e lá a vi.
Encolhida ao lado da cama, abraçada a um urso de pelúcia que me levava ao verão de dois anos atrás, estava ela; embora as lágrimas corressem livremente por sua face, deixando marcas negras pelo seu rosto, olhei para ela como se fosse a coisa mais linda do mundo. Ela me olhou, e seus olhos eram indescritíveis; naquela hora, soube que tudo o que eu poderia fazer era abraçá-la. Com movimentos lentos, como se tivesse todo o tempo do mundo, andei até ela e abracei-a, mais forte do que jamais havia abraçado alguém. Quando ouvi a explosão, soube que teria apenas mais alguns segundos, antes que esta chegasse à Terra. Em meio a novas lágrimas, tive tempo para dizer apenas uma frase, em meio a desculpas nunca antes ditas:
- Eu sou o catalizador.
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