Notas iniciais
Traduções nas notas finais.

19 de Novembro de 1990

Eram quase oito horas da noite quando o detetive Mota Batista olhou para o seu relógio de pulso, prateado com uma corrente de couro. Tinha sido um presente de aniversário da sua mulher e, portanto, era-lhe muito querido aquele relógio.
O dia tinha sido razoavelmente parado hoje – apenas houve um caso mais grave de uma ameaça terrorista que se veio a confirmar falsa. Cada um dos detetives investigava no caso que tinha em mãos, alguns investigavam o tráfico de armamento feito através da costa algarvia, outros investigavam a entrada de droga que se desconfiava ser feita em Sagres. Ambos os casos eram algo difíceis de resolver, tendo em conta que os detetives tinham de investigar juntamente com a Marinha, que apesar de enviarem ótimas pessoas, estas eram um bocadinho mais relaxadas do que os detetives encarregados que todos os dias iam até ao gabinete do encarregado da nossa diretoria queixar-se. Este apenas lhes respondia que nada podia fazer, uma vez que não tinha esse tipo de poder.

— Detetive Batista? – ouviu-se a voz de Carminho a chamar pelo atendedor de chamadas da secretária do detetive Mota Batista. Carminho era uma das responsáveis por atender todas as chamadas que chegavam e depois reencaminhá-las para os respetivos detetives, caso se mostrasse uma preocupação real.

— Diz Carminho – respondeu o detetive enquanto olhava para as últimas notícias no jornal. Todos os dias Mota Batista comprava o Diário de Notícias, habitou-se a lê-lo desde pequeno, uma vez que o seu pai o lia todos os dias em voz alta com ele.

— Tenho na linha número quatro uma mulher, mas não consigo compreender nada, ela fala em inglês, mas parece preocupada.

— Eu trato disto – respondeu o homem, agarrando no telefone. – Obrigada Carminho.

Enquanto esperava para que a chamada fosse reencaminhada, virou outra página do jornal. Nada de novo, mais assuntos sobre política, o que lhe despertava um profundo desinteresse.

You gotta help me! Please! 1— um sotaque britânico forte fez-se ouvir pelo telefone. A mulher gritava e parecia ter dificuldade em falar e respirar entre lágrimas.

Ma’am, calm down 2— disse o detetive, num carregado sotaque português. – You need to explain me what happened exactly. 3

My daughter is missing! 4— respondeu a mulher chorosa do outro lado da linha. – She was supposed to come back from school three hours ago, and she’s still not home! 5

Maybe she went home with a friend 6— Mota Batista sabia que nada podia fazer enquanto não passasse uma quantidade substancial de tempo e em três horas era impossível afirmar que a menina tinha realmente desaparecido. – Try calling her friend’s parents and then give me another call. 7

Look, Sir! I’m telling you that my daughter is missing! She would never go home with anyone without telling me! 8

I’m sorry, but I can’t help you right now 9— respondeu o detetive de forma áspera, mas com uma certa pena. – Let’s wait a few hours and then I’ll see what I can do. 10

Depois disso, Mota Batista só ouviu o som agudo a afirmar que a chamada tinha caído. Suspirou de forma exasperada e levantou-se. Tinha que ir comunicar ao encarregado aquilo que tinha acontecido.
Ele sabia que isso não mudaria nada – as autoridades não podem fazer nada se não houver prova de que algo realmente aconteceu, só quando passassem cerca de oito horas é que teriam algum tipo de jurisdição para puderem investigar o caso.
Bateu levemente à porta do encarregado Barbosa e esperou que este o mandasse entrar.

— Encarregado Barbosa, desculpe estar a incomodá-lo, mas chegou-me agora uma chamada de uma mulher inglesa a dizer que a filha está desaparecida há três horas – explicou o detetive Mota Batista. – Eu disse-lhe que não podíamos fazer nada enquanto não passasse mais tempo e ela desligou-me o telemóvel na cara.

— Fez bem – respondeu o encarregado sem levantar se quer a cabeça do seu pequeno bloco onde tomava notas. – Se for alguma coisa de substancial, investigaremos mais tarde.

O encarregado Barbosa era um homem que tinha cerca de sessenta anos, próximo da idade da reforma, com uma barba branca farfalhuda e um bigode comprido e revirado também branco. Tinha rugas por toda a cara, o que lhe conferia um ar carrancudo. Quem o conheceu mais jovem diz que na sua altura de ouro, o encarregado Barbosa roubava os corações das moças da aldeia só com os seus olhos azuis muito pálidos. Tinha sido o parceiro do meu pai várias vezes.

— Se é tudo, vou-me embora – disse o detetive, virando-se para sair.

— Pode ir para casa agora, já está aqui há algumas horas e não me parece que hoje vá aparecer algo de importante – respondeu o encarregado, continuando com a cabeça enterrada nas suas notas – Aproveite para passar tempo com a sua senhora e os seus filhos, Batista.

— É o que farei, senhor. – respondeu Batista, saindo do gabinete e fechando a porta atrás de si.

Enquanto arrumava as coisas e se preparava para se ir embora, tinha a estranha sensação de voltaria a ouvir aquela mulher britânica…

Notas finais
1. Tem que me ajudar! Por favor!
2. Senhora, acalme-se.
3. Tem que me explicar exatamente o que aconteceu.
4. A minha filha está desaparecida!
5. Ela devia ter voltado da escola há três horas e ainda não está em casa!
6. Se calhar foi para casa com um amigo.
7. Tente ligar aos pais dos amigos dela e depois ligue-me outra vez.
8. Ouça, Senhor! Eu estou a dizer-lhe que a minha filha está desaparecida! Ela nunca iria para casa de outra pessoa sem me dizer!
9. Peço desculpa, mas não a posso ajudar agora.
10. Vamos esperar mais umas horas e depois eu vejo o que é que posso fazer.