O Caso de Rachel Charles
2 Capítulo 2
Mota Batista saiu da diretoria e dirigiu-se até ao parque de estacionamento que existia ao fundo da rua – não que se pudesse chamar parque de estacionamento a um descampado em terra batida, mas era aí que todos deixavam o seu carro.
O seu carro encontrava-se estacionado no lugar mais perto da saída do parque, uma vez que ele era quase sempre o primeiro a chegar, à exceção do encarregado Barbosa. Entrou dentro do seu BMW E30 preto de 1987 e colocou a sua pasta e o seu casaco no lugar do pendura – estávamos em pleno Inverno, mas mesmo assim as temperaturas eram altas a meio da tarde, mas como Mota Batista saía de casa ainda de manhã, a sua mulher obrigava-o sempre a trazer casaco.
Ligou o rádio e deixou-o numa qualquer estação, não ligava muito a música, mas sentia que o rádio lhe fornecia uma companhia decente no caminho solitário que fazia até casa. Algarve estava a crescer devido ao turismo, mas ainda não tinha crescido até ao ponto de se tornar uma cidade inundada por prédios como Lisboa e Mota Batista orgulhava-se de viver nas periferias do Algarve, numa modesta vivenda azul, que só contava com alguns vizinhos, o que tornava as relações todas bastante amistosas, uma vez que não tinham mais ninguém com quem falar nas redondezas – era uma amizade por necessidade.
Assim que chegou a casa, estacionou o carro à frente do portão da garagem e agarrou nos seus pertences para sair do carro. Mota Batista adorava o seu trabalho, mas chegar a casa e estar com a sua mulher e os seus filhos era a coisa mais recompensadora que existia para ele.
— Pai! – ouviu uma voz masculina, mas ainda assim bastante aguda, chamar por ele. Era o seu filho, João, que chamava por ele. João era um rapazinho de nove anos, com o cabelo muito escuro e os olhos muito azuis, Mota Batista costumava dizer que ele saiu à mãe. – A mãe disse que hoje não vinhas jantar.
— E não vinha, mas o encarregado Barbosa deixou-me sair mais cedo – respondeu Mota Batista, acarinhando a cabeça do rapaz.
— A mãe está a fazer carne guisada – disse Luisinha, a filha mais nova de Mota Batista, que naquele momento parecia entretida a desenhar. Luisinha tinha apenas seis anos e era a menina dos olhos de Mota Batista. Ele não tinha preferidos, mas sempre quisera uma menina e sentia que era sua missão protegê-la, ainda para mais, com tudo o que via e ouvia diariamente na delegacia. Luisinha, tinha o cabelo castanho, quase loiro, como Mota Batista, que lhe caía pelos ombros em cachos, mas tinha os olhos azuis como a mãe.
— Então, ainda bem que vim jantar – respondeu Mota Batista, beijando a cabeça da menina. – A mãe está na cozinha? – perguntou, enquanto tirava a sua gravata cinzenta.
— Sim – respondeu João, voltando para o pé da irmã e continuando a brincar com os seus blocos Lego.
Mota Batista pousou a sua pasta, o casaco e a gravata no sofá e dirigiu-se até à cozinha, onde se encontrava Rosa, ao pé do fogão a mexer a carne com uma colher de pau. Rosa era uma mulher robusta, já tinha tido dois filhos, por isso era normal que não tivesse o corpo que tinha quando casou com Mota Batista, mas ainda assim era uma mulher linda, de cabelo escuro comprido e olhos azuis.
— João? – perguntou Rosa, assim que se apercebeu que Mota Batista tinha entrado na cozinha. Rosa era a única que o tratava pelo primeiro nome, à exceção do seu melhor amigo. Rosa virou-se e sorriu. – Viste jantar?
— Sim, o encarregado Barbosa deixou-me sair mais cedo – respondeu Mota Batista, dando um beijo à mulher. – Não havia grande coisa para se fazer na diretoria.
— Ainda bem, meu amor – respondeu Rosa, voltando-se a virar para o fogão, retomando a sua atenção ao jantar. Mota Batista sentou-se numa das cadeiras da mesa de jantar que se encontrava na pequena cozinha. – Como é que correu o dia hoje?
— O habitual – respondeu Mota Batista. – Se bem que…
— Se bem que? – perguntou Rosa, virando-se de novo para Mota Batista. – O que é que aconteceu?
— Mesmo antes de sair, recebi um telefonema – disse Mota Batista, com uma voz e olhar pesados. – Era uma mulher, britânica. Disse-me que a filha estava desaparecida.
— E encontraram a miúda? – perguntou Rosa, preocupada.
— Não. Nem sequer pude investigar o caso, ainda só tinham passado três horas desde que ela não sabia nada da criança – respondeu Mota Batista, levando uma mão à cabeça. – Falei com o encarregado Barbosa e ele disse-me que eu tinha feito bem em rejeitar o caso, e eu sei que fiz, aquilo podia não ser nada, a miúda provavelmente foi para casa com uma amiga e esqueceu-se de avisar a mãe. Mas não consigo evitar sentir esta sensação de que isto é mais do que isso.
— João, tu não podias fazer nada naquela altura – disse Rosa, tentando reconfortar o marido. – Mesmo que pudesses, ela provavelmente não desapareceu e é como tu dizes, deve ter ido para casa de uma amiga.
— A mãe dela disse-me que ela nunca faria uma coisa dessas – respondeu Mota Batista. – Oh Rosa, imagina que era com a nossa Luisinha. Ao falar com ela, só me lembrei da nossa filha. A Luísa também nunca iria para casa de uma amiga sem nos avisar. E se tivesse sido a minha filha?
— Mas não foi – disse Rosa. – Tu sabes que às vezes os miúdos têm pancadas. Também, se ela não voltar até amanhã, aí já podes fazer alguma coisa.
— E se ela não sobrevive até amanhã, Rosa? – perguntou Mota Batista, olhando a mulher nos olhos.
— Que disparate, João! Claro que sobrevive – Rosa levantou-se e voltou a tomar atenção ao jantar.
— Eu já vi casos como este – protestou Mota Batista, levantando-se e dirigindo-se até ao frigorífico. – Muitas das vezes as crianças não sobrevivem, ou porque os raptores se cansam delas, ou porque as utilizam e depois já não precisam delas. Se aquela criança morrer, eu não sei como é que vou encarar os pais.
— Não penses nisso agora, agora é hora de jantar e estares com a tua família – disse Rosa, desligando o lume e tirando o tacho do fogão, que colocou em cima de uma base que se encontrava na mesa. – Meninos, jantar!
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