O Caso Walker
1 Prólogo
Notas iniciais
✞
O East End estava um completo breu. Não que um dia ele tenha sido um local minimamente iluminado e convidativo. Na verdade, muito pelo contrário: à noite, era iluminado apenas por alguns lampiões, geralmente mostrando apenas a silhueta de muros e escadas. A paisagem quase sempre era acompanhada com música e gritos de homens bêbados vindos das várias tabernas próximas.
Porém, nessa madrugada nenhum lampião encontrava-se aceso, todas as tabernas haviam se fechado, os bêbados não se encontravam no local de costume... E Andrea estava apavorada. Com lágrimas nos olhos, a prostituta tateava as paredes do East End na esperança de conseguir enxergar sem os olhos. Não tinha trazido um único isqueiro, vela ou qualquer coisa para iluminar o local e agora se arrependia amargamente. Com as mãos sem deixarem por um segundo as paredes desregulares, a menina começara a subir as escadas escorregadias o mais rápidos que seus pés descalços conseguiam levá-la, entrando em diversas ruas e percorrendo todo o local que não fazia ideia de onde a levariam. A única coisa que importava naquele momento era correr, correr muito e despistá-lo.
Porém, os passos Dele continuavam os mesmos: molhados, calmos e cada vez mais próximos, não importava o quanto ela corresse e parecesse se afastar. Então, já desnorteada, Andrea se encostou num canto e começou a chorar. Seu vestido estava encharcado, seu cabelo loiro acabado e os olhos verdes inchados até não poder mais.
— Me desculpe! — gritou, alto, claro apesar da sua voz tremida e cheia de soluços — N-não vai se repetir, meu amor, eu juro! — Mas sabia que era tarde demais. Andrea conhecia Meu Amor, o Homem Sem Rosto, e estava certa que ele não a perseguira de Piccadilly até ali para deixá-la ir sem nenhuma lesão. Os passos só se aproximavam, ficando mais altos ao longo dos segundos. A menina já podia senti-lo ali...
Quando tudo se silenciou. Não havia mais passos, não havia mais sombras. Apenas o restante de chuvisco e a respiração abafada de Andrea. Teria Meu Amor ido embora? Não, impossível. Sem sua vingança, ele não sairia, ela tinha certeza absoluta. Quando ela fosse abrir os olhos, lá estaria ele. Então, pensou, não os abriria. Melhor partir de olhos fechados e sem saber o que a atingiu.
E foi de repente que se sobressaltou com um barulho agonizante. Nada a tocara, nada a fizera mal, era apenas um som muito parecido com unhas arranhando uma parede, só que muito mais alto e agudo, fazendo a menina se arrepiar da cabeça aos pés e tapar os ouvidos com tamanha forca que podia sentir seu cérebro sendo comprimido.
Então, silêncio novamente. Sem mais arranhões, sem mais passos, sem mais chuva... Sua presença não era sentida em lugar nenhum, e agora a menina podia se perguntar se estava completamente sozinha.
E quando abriu os olhos, percebeu que sua resposta era "sim". Todo o barulho agonizante dos arranhões, afinal, foram com o propósito de escrever uma mensagem na parede bem em frente à que Andrea se encontrava encolhida. Bem grande e certamente feito por unhas humanas, estava escrito claramente a palavra "Vá". E só foi a partir daí que conseguira pensar positivo. Não era do feitio dele, mas parecia que o Homem Sem Rosto a tinha deixado partir.
Não, não era possível. Ele nunca deixara ninguém partir, nunca! Nos primeiros segundos, ela achou que era apenas um alívio momentâneo que ele queria passar a ela, e depois de dois minutos estaria ali, pronto para matá-la de forma brutal. Então ali mesmo ficou, imóvel e com a respiração fraca, esperando sua morte a qualquer momento, ali mesmo. Imaginou que seria largada naquele beco, sangrando ou seu corpo havia se ser jogado no mar para nunca mais ser encontrado. E esperou por mais de trinta minutos exatamente da mesma forma. Esperaria Meu Amor tanto tempo? Ela o conhecia, não era nada paciente, e provavelmente se fosse matá-la já o teria feito. Ainda na suspeita, respirou um pouco mais forte, e quando deixara mais alguns minutos se passarem, se sentiu melhor para sair dali. Se fosse morrer, que morresse, mas não esperaria mais um minuto por sua morte como uma covarde.
A menina se levantou dolorida e com as costas toda arranhada por conta da parede pontiaguda a qual se espremera. Seu cabelo estava encharcado e cheios de lama e seus pés descalços totalmente cortados. Mas apesar de tudo, ela estava bem. Conseguiria voltar pra casa tranquilamente, e ao chegar lá, tomaria um belo banho quente e trataria dos pés ela mesma.
De alguma forma, quando já havia encontrado o caminho de volta até as tabernas, os típicos lampiões do local haviam voltado a se acender e os homens bêbados voltaram a berrar e beber na mesma empolgação de sempre. Com certeza não daria os ombros para aquilo. Meu Amor era poderoso e vingativo, mas era um ser humano qualquer. No dia seguinte, quando fosse trabalhar, certamente perguntaria ao dono da taberna o que havia acontecido ou quem havia passado por ali para ficar parado durante mais de uma hora, principalmente na madrugada, o horário com mais movimento.
Sua casa não era muito longe dali, graças a Deus. Em alguns minutos de caminhada já podia-se avistar seu bairro e as casas mal distribuídas de tal maneira que o espaço de passagem por entre as casas era extremamente estreito. A prostituta podia jurar que existiam mais casas naquele bairro do que estrelas no céu. Eram todas iguais, e não eram poucas as vezes que os moradores se perdiam naquela imensidão e demoravam um bom tempo para conseguirem localizar suas residências. Felizmente, Andrea já havia dado um jeito nisso, pintando sua casa numa cor que até o próprio Diabo repararia, mas assim era melhor. Nunca se confundia com outras casas, evitando sempre motivos para brigas e reclamações, principalmente com vizinhos como aqueles.
Enquanto subi as chamativas escadas douradas do seu casebre, a menina se perguntava o que faria primeiro ao chegar em casa. Depois do banho e da janta, certamente iria ligar para a Taberna onde trabalhava e tentar agendar seu horário para um pouco mais cedo. Depois, mandaria uma carta de agradecimentos ao Homem sem Rosto e provavelmente marcaria uma sessão para a semana seguinte.
Quando todos os seus pensamentos foram interrompidos por um puxão no ombro, e todas as luzes do bairro se apagaram. Assustada e confusa, a menina tateou o mais depressa possível o piso debaixo do tapete a procura da chave da porta da frente. Estava ali, bem onde havia deixado. Abriu a porta com as mãos trêmulas e entrou em casa afobada. Mas o momento em que se virou para fechar a porta, foi o tempo de sentir o crucifixo entrar com tudo em um de seus olhos e atravessar sua cabeça.
Andrea não teve tempo de gritar.
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