O Caso De Scarle Road
6 Sexto.
Notas iniciais
Bom. Para a alegria geral da nação, resolvi que já deu de mimimi. Estamos já chegando num ponto dessa fanfic em que não faz mais sentido eu ficar de enrolação, né? Não gostei tanto desse capítulo, mas tentei ser o mais breve possível (por incrível que pareça) e escrever só o necessário, pra chegarmos logo na parte que realmente interessa, huhuhu.
Claro que não nesse capítulo u_u Então sejam os bons e lindos leitores que vocês já são, leiam tudo com calma e me deixem reviews pra eu ficar feliz. ♥
Cegueira.
A luz ofuscante consumia os olhos de Sherlock Holmes enquanto ele, adaptado à escuridão, permanecia sentado bem em frente ao sol vigoroso das onze da manhã. Mantendo as cortinas bem abertas e os pés apoiados sobre a madeira da janela, sentia suas pupilas tão contraídas e encarava a estrela brilhante tão diretamente, que começava já a visualizar com o canto dos olhos vultos brancos que não existiam.
Watson o estivera encarando no dia anterior. Watson estivera nervoso na noite anterior antes, é claro, do detetive estragar tudo. Aquilo não queria dizer nada. Holmes piscou algumas vezes com força enquanto formavam-se delicadas gotículas sob os seus glóbulos oculares. Watson havia acariciado e cheirado o manto que era ocasionalmente utilizado por ele. Aquilo certamente queria dizer algo. Em que diabos Watson estava pensando? Em que diabos ele próprio estava pensando?
O cachorro Gladstone latiu, e o homem sentiu uma forte vontade de chutá-lo pra longe dali. Ao invés disso, apenas lançou-lhe um olhar repreendedor:
“Calado.”
O cachorro Gladstone talvez soubesse. Talvez, estivesse lendo os seus pensamentos e o desaprovando. Holmes contraiu toda a musculatura de sua face na direção daquela pobre criatura. Quem era aquele ser ínfimo para desaprová-lo? Quem era ele para desaprovar ou até mesmo fazer qualquer julgamento que fosse a respeito do grande Sherlock Holmes?
Mais um latido.
“Calado, Gladstone”, rosnou.
Na verdade, os motivos pelos quais Gladstone latia eram piores do que Holmes imaginava naquele momento. No fundo, o detetive os conhecia: tratava-se da grande movimentação das ruas. A cada vez que ouvia barulhos estrondosos, o animal agitava-se, assustado. E naquele dia em especial, a movimentação era muita. Uma movimentação realmente atípica, realmente surpreendente; uma movimentação comum apenas em dias festivos como... a véspera de Natal.
Suspirou. Não queria saber. Não queria ter aqueles pensamentos. O fato de ser um indivíduo absolutamente sozinho não o incomodava – viver sem Watson não o fazia feliz, mas ele conseguia lidar com a dor, já que tinha ainda ao seu lado casos a serem investigados, experimentos a serem feitos, drogas a serem injetadas. Tudo tornava-se suportável. Mas quanto ao médico... ele sim estaria melancólico em um dia como tal. E aquela constatação transformava-se em um grande peso nas costas do homem, que já estava com algum remorso pelas duras palavras dirigidas ao amigo.
Iria procurá-lo. Evidente que o faria. Precisava que Watson entendesse que suas intenções, a fundo, não eram ruins.
Então, percebeu que não estava certo de suas próprias intenções, e lembrou-se que a véspera de Natal seria uma boa data para invadir uma casa, provavelmente desocupada para as festividades, e investigasse o que quisesse pelo tempo que quisesse.
Direcionou seus olhos para a lista de nomes de hóspedes que estava largada sobre o chão. Não adiantou muito olhá-la, já que estava momentaneamente cego pela luz ofuscante; mas sabia que ali constavam os nomes de Adolf Weinberg e Robert Boucher, dois inúteis que mais estavam servindo para atrasá-lo no caso do que para atuarem como possíveis cúmplices de fato. De qualquer forma, precisaria tomar uma atitude em relação àquelas pessoas.
Teve algum trabalho para conseguir o endereço de Adolf Weinberg. Nas primeiras horas da manhã, antes mesmo de sentar-se à frente da janela, o detetive entrara em contato com possíveis vizinhos e moradores de rua até que, enfim, o seu poder de dedução se havia mostrado útil mais uma vez, e ele agora se levantava e se dirigia para o grande edifício habitado pelo homem (edifício esse que era localizado, na realidade, a uma só quadra de distância de seu próprio lar). Estivera esperando o improvável esvaziamento da rua para colocar em prática os seus dotes de abridor de portas trancadas – levava consigo grampos e objetos similares; como que por um milagre, o momento não tardou a chegar.
Invadir um domicílio privado.
Certo do que fazia, e chegando-se à porta rapidamente, estancou o pequeno grampo no buraco da fechadura de uma casa silenciosa o suficiente para ser considerada vazia, e após alguns minutos (por que Watson não estava presente para simplesmente arrombar a porta?), enfiou-se dentro do recinto.
Era de um requinte singular. Assim que adentrou, viu-se em uma grande sala espelhada. Os móveis, de arquitetura muito clássica, dispunham-se em meio a quadros antigos e extintos, e Sherlock Holmes não pôde deixar de encarar as obras por alguns instantes. Era lógico que fortuna de Adolf tinha a mesma origem da pobreza iminente que vinha ameaçando a família Lloyd há alguns anos – a origem nos jogos. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e o fez lembrar que o antigo parceiro também tinha chances de cair em desgraça se continuasse vivendo como estava antes de Holmes tirá-lo de casa.
Procurou então mudar o rumo de seus pensamentos; o que o interessava de verdade com certeza estava localizado no andar superior.
Assim, com o silêncio sepulcral com que aprendera a se mover, deslizou por uma larga escadaria acima, e encontrou de forma rápida a porta que o levaria ao quarto privado de Weinberg. Aproximou-se e girou a maçaneta. Destrancada, é claro. Tomou o cuidado de fechá-la em silêncio também, já que o investigado poderia chegar a qualquer momento e agora já não havia um Watson para dar-lhe cobertura.
Que falta fazia Watson.
Vasculhou as gavetas e armários de Adolf Weinberg enquanto ainda – ainda? – pensava no amigo. Encontrou os objetos mais diversos: documento de identidade, antigas e irrelevantes certidões de nascimento, fotos que já não tinham valor... Agora era certo que iria procurá-lo. Sim, iria procurar Watson. Convinha que se desculpasse.
Franziu o cenho por conta de seus próprios pensamentos. Sherlock Holmes se desculpando. Ah, as humilhações a que se submetia por conta do outro... tão desnecessárias. Mas Watson, no fundo, era um homem sensível. Um homem duro por fora e mole como massinha por dentro. Holmes sorriu em tom de deboche.
Ajoelhou-se no chão e deu uma espiada no que havia sob a cama de casal. A pequena caixa que guardava uma coleção de charutos, um diminuto quadro que talvez tivesse algum valor financeiro ou sentimental, uma roupa íntima feminina... Besteiras. Teve uma sutil aversão ao tocar e mencionada roupa feminina, mas fez questão de ignorar a própria reação de imediato. Era um homem, afinal – e prosseguiu em sua procura.
A seguir, veio em suas mãos o que de fato esperava encontrar: um desenho apagado de Agatha Sharpen Lloyd, e a escritura. A bendita escritura que estivera procurando.
[...]
Eram cerca das duas da tarde quando John Hamish Watson virou vigorosamente a garrafa de rum recém-comprada da venda da esquina. Era estimulante sentir mais uma vez o poder do álcool correndo pelas suas veias e fazendo piorar o seu sofrimento. Pelo menos, passava agora a concentrar-se na queimação da sua faringe e estômago, ao invés daquela que se concentrava no peito.
Passara a noite e a manhã toda organizando e reorganizando freneticamente os seus pertences dentro da casa. Fazia questão de lembrar que era um homem muito organizado; desde quando morava com Holmes, a sua organização evidenciava a diferença entre os quartos – o dele, arrumado, limpo, claro, não se comparava ao do outro, sempre escuro, sujo, com objetos e papéis jogados sobre o piso. Mas Holmes não o interessava. Por que estava pensando em Holmes?
Incomodado, coçou os olhos vermelhos pela exaustão da noite. Ao abri-los, focalizou um quadro da sala e decidiu que ele também estava torto. Tratou então de voltar a arrumar os objetos quando o que realmente precisava era arrumar os sentimentos inconvenientes e os pensamentos desconexos que o vinham acompanhando há tanto tempo.
Durante a longa madrugada, considerara diversas vezes ir à casa do amigo assim que o dia amanhecesse e comunicá-lo que estava desculpado. Mas desculpado pelo quê, se Holmes nem ao menos havia pedido o perdão pelas suas últimas atitudes? Não que precisasse, claro. A ofensa que Watson sentira na noite anterior agora já se havia convertido em uma grande dor por estar afastado do parceiro. E ao mesmo tempo... queria dar o perdão, sim. Mas era preciso que pedissem o perdão. Com que coragem iria à casa do outro como se nada tivesse ocorrido? Aquilo seria humilhar-se. E Holmes já tinha o peito inflado demais.
Não, não, permaneceria na sua própria casa arrumando os móveis. Beberia o dia todo se fosse preciso. Afinal, o dia era de festa.
[...]
Sherlock Holmes chegou ao número 221B em Baker Street e subiu a escadaria usual, imaginando que já estaria atrasado para recepcionar a visita que deveria aguardar para aquela tarde. Bastou virar a chave na porta para que localizasse com os olhos uma senhora de meia-idade, trajes pretos e nariz quebrado, sentada sobre uma cadeira de madeira que ele mantinha disposta no hall. Dado o número de inutilidades que Holmes acumulava no chão, era admirável que a mulher tivesse conseguido chegar até ali e encontrado um lugar para se acomodar.
“Sherlock Holmes”, disse ela, erguendo-se assim que o avistou também. Parecia relativamente aflita com algo. “Sobre a carta que você enviou...”
Uma mulher solitária. Uma mulher cujo marido havia falecido tão recentemente. Uma mulher que se entregava a prazeres carnais com outros homens quando Walter ainda vivia, tamanha a solidão absoluta que sentia diariamente. Homem nenhum poderia aplacá-la sozinha.
O detetive não pôde deixar de sorrir ao encontrá-la em seu lar.
“Não se preocupe”, interrompeu ele. “Acertei em procurá-la?”
Agatha Lloyd sorriu também, e deixou que seus olhos corressem timidamente pela sala lamentável onde se encontrava.
“Fiquei muito chocada com a morte de meu marido...”, murmurou. “Hesitei em procurar você para encontrar o culpado, mas como também não tenho o dinheiro...”.
“Você não deve se preocupar”, repetiu Holmes, aproximando-se. “Meu amigo Watson esteve no enterro de seu marido e disse que você parecia muito triste”, mentiu, enquanto desviava os olhos por um momento. Ela assentiu com a cabeça. “Walter era conhecido de Watson e eu imaginei que devesse ajudá-la porque sei que isso também o deixaria contente”.
“Sim, Watson...”
“Mas a senhora não me procurou por mais motivos”, insistiu ele. “Já que o dinheiro, como nós dois sabemos, não seria um problema”.
O dinheiro não seria um problema.
Agatha mordeu seus próprios lábios, parecendo nervosa. Era verdade que antes de casar-se com Walter ela costumava ganhar seu dinheiro em uma casa noturna, com um trabalho que poucas mulheres concordariam em fazer. Era também verdade que, por vezes, quando Walter a deixava absolutamente sozinha e com tão pouca verba por tantos dias, a mulher rendia-se ao antigo ofício com poucos clientes especiais. Pensou em Adolf Weinberg e em outros homens com quem Walter mantinha dívidas. Gostava de acreditar que, trabalhando ocasionalmente, ela ajudava a pagar todas aquelas dívidas... apesar de não ter para tanto o consentimento do marido, é claro. Em seu âmago, sabia que praticava o adultério mais por prazer do que por fidelidade financeira ao cônjuge.
Encarou mais uma vez o sujeito que estava à sua frente.
Sherlock Holmes era um homem de poucas mulheres, dizia-se. Na verdade, nenhuma mulher, pelo que Agatha sabia. Mas agora, oferecendo-se para ajudá-la na investigação e afirmando que dinheiro não seria problema, ele dava a entender que gostaria de fazer parte de sua clientela. Afirmando a inexistência de um problema, dava ainda a entender que queria ajudá-la não para alegrar o coração de um amigo que perdera Walter a pouco tempo, mas sim que o faria se tivesse algo em troca. A viúva reconhecia em seu sorriso sutil uma intenção similar à de muitos homens a quem já tinha se entregando. Ou então... pensava reconhecer.
De súbito, deu-se conta de que se tratava de um homem atraente. Um homem que talvez fosse reservado e taciturno pelo ressentimento de viver sem ninguém para fazer-lhe companhia.; um homem que dizia que iria ajudá-la por causa do amigo Watson, mas que com certeza também não tinha uma moça há algum tempo...
Sem hesitar, ela colocou as mãos sobre os ombros do hóspede e aproximou o rosto do seu. Sentiu a própria cintura sendo envolvida lentamente por braços firmes.
“Não o chamei porque Robert Boucher...”, sussurrou Agatha, a respiração passando a alterar-se pela proximidade com alguém do sexo oposto. Agatha gostava daquela sensação. “Robert Boucher já estava seguindo Walter... eu o pagava”, confessou. As mãos passeavam lentamente pela camisa branca do detetive. “Meu marido saía por noites e não voltava nunca... eu estava sozinha... precisava descobrir... mas se eu soubesse que Sherlock Holmes não cobraria pelos seus serviços, eu não teria contratado...”
Holmes levou o indicador aos lábios da moça em uma tentativa de fazê-la calar-se. Nada daquilo era novidade, e agora que já tinha a confirmação para suas suspeitas, convinha que ela falasse o mínimo possível. O barulho de uma voz como a dela o perturbava.
“Por favor”, murmurou em meio a uma intensa concentração para manter um sorriso receptivo. “Explicações não são mais necessárias...”
Procurou pensar nos olhos cor de safira, mas foi em vão. Era melhor que acabassem logo com aquilo.
[...]
Bolas coloridas.
John Watson, um homem respeitado no mundo da medicina e em toda a sua cidade, formado, casado, equilibrado, vivido até onde sabia, satisfeito com a vida levava, apaixonado pela mulher que tinha ao lado, bem de vida e hipócrita como apenas ele sabia ser, permanecia largado sobre uma bonita poltrona vermelha que se encontrava em seu escritório.
Já não tinha certeza da cor da poltrona. Estava... como dizer? Talvez estivesse um pouco alterado pelo rum. Era Natal.
Os limites das paredes confundiam-se com os limites do teto. Mary Morstan não estava em casa e talvez não voltasse a fazer companhia ao pobre marido tão cedo. As bebidas, os jogos, as apostas até tarde que o homem vinha fazendo... ela não era obrigada a aturar. Holmes devia saber se ela voltaria ou não. Se já sabia, por que não contar ao amigo? Por que não contar ao parceiro e confidente de tantos anos?
Afundou uma almofada na cara com as próprias mãos, certo de que o melhor para si seria a asfixia. Um momento. Asfixia?
Tirou as mãos do rosto. Não estava raciocinando bem. Pousou o estofado sobre o colo e teve a impressão de que ele se movia, o que indicava que havia exagerado no álcool. Mas que importava? Não sabia. Tinha uma só certeza: matar-se não era a solução, não. Matando-se, conseguiria somente uma esposa infeliz e arruinada que passaria a viver no campo, além de mais uma notícia para os jornais da cidade. O que realmente queria era destruir o causador de sua infelicidade. O motivo pelo qual vinha bebendo, jogando, destruindo o seu emprego e a serenidade da sua casa. O motivo pelo qual Mary Morstan não estava ali, o motivo pelo qual estava passando o Natal de 1981 na mais injusta solidão. O que realmente queria era matar Holmes.
Fechou os punhos sobre a almofada. Resolveu que tomaria logo aquela atitude.
Bolas coloridas ocupavam todo o campo de visão de Watson quando ele, embriagado a ponto de errar a porta de saída e adentrar um quarto, decidiu que chegara o momento de agir. Trôpego, as pernas entrelaçando em si mesmas, saiu. O céu já estava escuro.
A cidade era bela àquela hora. As luzes acesas das casas de família pareciam pequenas estrelas cadentes na visão no médico.
Conforme prosseguia em seu caminho, tinha a sensação de que as ruas ficavam mais e mais vazias, provavelmente porque o comércio fechava e os mercadores, industriais, trabalhadores de todos os gêneros, mulheres, crianças, médicos, detetives, policiais e mendigos já se recolhiam nos lares em que haveriam de jantar. Todos jantariam cercados por amigos e pessoas queridas. Todos, exceto ele.
Seus motivos para marchar rapidamente eram claros. Esganar Sherlock Holmes traria a ele todos os benefícios que podia imaginar – um grande noticiário informando que o detetive de ego mais inflado de toda Londres finalmente havia sido calado cairia como uma luva para todas as dores e todas as aflições que o médico vinha sentindo por conta do amigo. Sim. Arrombaria a porta de sua casa, diria algumas boas verdades e voaria sobre o seu pescoço, tirando-lhe a vida com as próprias mãos. Talvez ainda, se tivesse sorte, enquanto matando o melhor e único amigo que tinha, aparecesse a última oportunidade de cheirar o âmbar fresco e terroso, roçar as mãos na barba malfeita da sua vítima, olhar de perto as grandes íris cor de carvão e contornar, quem sabe até provar o sabor da pele que por tanto tempo vinha desejando, e...
Estava fora de si.
Tropeçou em uma vala e caiu na rua. Estava a poucos metros de Baker Street.
[...]
Desagradável.
Sherlock Holmes sabia qual seria o resultado de deitar-se com uma mulher como Agatha. Imaginava, aliás, que o resultado seria o mesmo para todos os companheiros que tivesse na cama, exceto...
Havia falhado. Tentara dar à mulher a certeza de que queria a sua presença no apartamento, mas a pressão por estar agindo de tal forma para conseguir mais informações, somada à certeza de que seu prazer carnal teria de necessariamente envolver um único homem àquela altura, proporcionara a Holmes a impotência que antes era apenas uma hipótese em sua mente. Acabava de falhar como se fosse um adolescente na puberdade, e se aquele fato não era pelo menos muito vergonhoso, chegava a ser uma inconveniência, já que agora a viúva procuraria a todo custo evitá-lo.
Enquanto abotoava de novo suas vestes e repreendia a si mesmo mentalmente, via também a moça, constrangida, recolhendo seus pertences e a sua dignidade do chão desorganizado do hall de entrada. Por uma única vez, Holmes desejava poder concentrar-se em qualquer coisa que não fosse John Watson.
[...]
Se caminhar por quilômetros com alto teor alcoólico em suas veias e ainda assim chegar ao seu destino não eram milagre divino e prova concreta do nascimento de Jesus Cristo naquela data, nada mais seria.
John Hamish Watson mal pôde acreditar quando se viu à frente do número 221B em Baker Street; era como se estivesse voltando para casa após muitos anos, e aquele sentimento o gratificava de alguma forma.
De súbito, viu a porta da residência sendo aberta e, por um breve instante, surgiu nele a esperança de que talvez Sherlock Holmes estivesse vindo ao seu encontro. Com o coração acelerado e mostrando algum desespero, Watson enfiou-se atrás do único veículo que se encontrava parado na rua. Precisava esperar e espiar pacientemente enquanto não aparecia em seu campo de visão a pessoa que se movia.
Mas quem saiu do edifício naquele momento não foi Sherlock Holmes.
Uma pontada no peito e um vacilo por parte dos joelhos frágeis e cansados por terem andado milhares e milhares de metros até ali. Watson não conseguiu mais discernir entre pensamentos racionais e impulsivos.
Arfante, transpirando, com trajes amassados e cabelos despenteados, era Agatha Sharpen Lloyd que abandonava o maldito edifício no qual morava o detetive. Era difícil separar ilusões e visões concretas, mas Watson conhecia o seu lazer mais asqueroso e, mais do que isso, pôde identificar nela pequenas marcas que indicavam a boa clientela que vinha formando naquele endereço. Como podia? O médico deprimido pelo clima do Natal e Holmes deitando-se com qualquer uma, fazendo o que fosse preciso para continuar uma investigação que não lhe traria riquezas, não lhe traria sucesso, não lhe traria a felicidade. Agindo sempre tão friamente.
Daquela vez, porém, havia algo mais. Havia algo mais do que o simples desdém que Watson costumava sentir pelo parceiro quando tinha mais evidências da sua essência calculista e imunda. O homem sentia o peito dilacerado, as pernas fracas, a cabeça dolorida. Vendo Agatha sair em tamanha pressa do edificio, era como se estivesse vendo de perto a morte de um ente querido; uma dor de perda, um aperto grande o suficiente para ocupar todo o espaço do seu coração e pulmão, de forma que agora já respirava de forma pesada e descompassada. Desorientado pelo novo peso que passava a carregar dentro de si, chegava à conclusão de que era um inútil, um idiota, como podia chegar à casa de Holmes com a intenção de desculpá-lo se ele continuava esfregando na sua cara, dia após dia, o sucesso da sua vida profissional e pessoal quando vivia em absoluta solidão? A sua felicidade certamente vinha apenas aumentando desde que Watson saíra do apartamento.
Humilhado, mas ainda rígido como uma rocha — um homem com a sua vivência e o seu porte não se podia deixar visivelmente abatido, afinal -, passou a caminhar em uma direção diferente. Acabava de decidir que teria uma noite diferente. Se Sherlock Holmes e Mary Morstan não sentiam o mínimo da sua ausência, então teria de conformar-se. E então, resoluto, ainda embriagado, arrastou as pernas em direção ao único lugar que poderia oferecer algum conforto em uma noite fria e úmida como aquela.
Notas finais
Pra fazerem uma pessoa feliz e me estimularem a escrever mais, deixem reviews *-*. Não me abandonem agora, né, seus lindos T-T.
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