O Caso De Scarle Road
15 Décimo quinto.
Notas iniciais
Como prometido, tentei demorar o mínimo possível para editar o capítulo e aqui estamos nós. Estar de férias me alegra e inspira profundamente, he. Não tenho muito pra dizer e enrolar vocês hoje, para a sorte da comunidade.
Sobre o capítulo: apesar de parecer relativamente comum, é um divisor de águas, acreditem. A partir do próximo, novos acontecimentos vão nos levar à reta final (snif, snif!). Espero que as lindas não tenham tantas expectativas em relação a esse aqui, porque... bom... vocês verão, hihi. (nota mental: apagar spoiler) Espero também não levar tapas imaginários ao final :(
Como sempre, muito, muito, muito obrigada pelas reviews do último capítulo. ♥ ♥
Esperarei mais ao final desse, a-ham. *-*
John H. Watson procurava ser um homem reservado. A sua postura, o corte de cabelo, a reação frente às mais diversas situações denunciavam-no como mais do que um homem direito, mais do que um simples médico estudado; tinha um histórico militar. E a milícia não apenas carimbava com tinta permanente o seu passado traumático, como estava também impregnada na sua alma. Quando Watson procurava relaxar e preocupar-se menos com aquilo que o rodeava, ficava paranóico; quando assumia a própria personalidade, controladora e detalhista, tornava-se um homem de insuportável convivência.
Assim, não era de se espantar que o único sujeito que concordara em dividir um apartamento com Watson fosse, coincidentemente, a pessoa mais solitária da cidade.
Sherlock Holmes e John Watson completavam-se nos mais variados aspectos. Mas se a confissão de afeto era difícil para a racionalidade de um, era simplesmente impossível para o orgulho de outro. Nem em seus pensamentos mais bizarros – e não era como se Watson não os tivesse -, o médico considerava a possibilidade de um relacionamento estável com aquela pessoa. Outro homem. Em pleno século 19.
Um escândalo como aquele seria suficiente para arrastar sua carreira, seu casamento e, acima de tudo, a sua reputação por água abaixo. Enquanto que para Holmes... bem, não se podia afirmar que Holmes tinha exatamente uma reputação que envolvesse moral. A sua vida amorosa, desde sempre, fora uma verdadeira piada. E quanto ao cargo de melhor detetive da cidade de Londres, esse sim jamais estaria sob risco.
Como sempre, nada a perder.
Como devia ser fácil viver no mundo paralelo de Sherlock Holmes.
Aqueles pensamentos atordoavam o respeitado doutor desde o final da tarde e já eram, por si só, ruins o suficiente. Mas quando de fato anoiteceu, o último respingo de paciência saiu-lhe pelas têmporas. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo.
Levou as duas mãos à testa e respirou fundo. Precisava ser uma pessoa mais calma. Sim, precisava manter a calma. Não iria xingar Sherlock Holmes, não. Não iria mandá-lo para o quinto dos infernos. Iria apenas esperar que a melodia irritante que começava a vir de um violino parasse como que por mágica...
Um... Dois... Três... Quatro...
Ah, se ao menos pudesse mudar-se imediatamente para Clay Street. Quem sabe, se implorasse o suficiente, Stamford liberaria o apartamento antes mesmo de limpá-lo. Ou talvez John pudesse passar a noite ali mesmo e estourar os miolos de Holmes com um bom revólver. Que falta fazia um bom revólver.
Seis... Sete... Em que número estava?
Bufou.
A melodia era bonita, mas não lhe foi possível conter o grito:
“HOLMES!”
De súbito, um silêncio agradável. Sem o seu conhecimento, a poucos metros de distância, Sherlock Holmes sorria. Sua brilhante mente, mais uma vez, havia acertado.
[…]
Holmes sabia melhor do que ninguém que Watson era um grande admirador dos seus dotes musicais. Desde que moravam juntos, era sabido que o detetive clareava a mente passando dias a fio somente em companhia do instrumento, sem abrir a porta do quarto ou dirigir a palavra a uma pessoa sequer. Agora, porém, o médico o ouvia e irritava-se. Por quê? A resposta era evidente.
“Venha, Watson”, murmurou, os olhos muito negros fixos na maçaneta da porta do quarto que certamente seria girada em poucos instantes.
Watson irritava-se porque queria esquecê-lo. Evitar a proximidade. No dia anterior, Sherlock Holmes errara ao demonstrar ao amigo um pouco de seu afeto; exposto a intimidades, Watson constrangia-se. E era na tentativa de evitar maior contato que, com certeza, optava por alugar agora o apartameto em Clay Street.
Holmes arrependia-se, sim. Mas não era por arrepender-se que deixaria de estar perto do seu John Watson. Haveria sim contato entre eles, Watson querendo ou não. Mudaria apenas a sua técnica; ao invés de tentar contato com o amigo, faria com que ele viesse ao seu encontro. Para tanto, o violino.
“Vamos, Watson”.
A porta abriu-se.
“Watson”.
“Holmes”.
John Watson suspirou. Fez menção de abrir a boca algumas vezes, mas por um momento desistiu. Sempre que estava profundamente irritado com o amigo e chegava para falar-lhe, as palavras fugiam. Era como se todas as ideias do cérebro saíssem pelos orifícios da sua face, e de repente estava absolutamente desnudo na frente de Sherlock Holmes.
Se ao menos não fosse tão difícil lidar com aquele ser humano.
“Watson?”, perguntou ele uma vez, as sobrancelhas arqueadas simulando alguma surpresa pelo silêncio.
“Ah, sim...”, respondeu o mais alto. Acabava de se recordar porque tinha caminhado até o outro quarto. Utilizou-se de alguns gestos enquanto falava: “Você pode apenas... não tocar isso hoje?”
“O violino me ajuda a pensar”.
“Sim. Mas você também não está em nenhum caso”.
Os olhos castanhos estreitaram-se na sua direção:
“E isso quer dizer que não estou pensando.”
Encararam-se por alguns instantes. Era evidente que não queria dizer que não estivesse pensando. Mas aquela ironia...
“É um experimento, na verdade”, concluiu o detetive, com a mente iluminada pela ideia de dar aquela resposta.
Watson não pareceu convencido. Então, o outro indicou o aracnídeo que permanecia ativo no seu viveiro:
“Sobre como as notas mais agudas desse instrumento podem influenciar no comportamento de um... de um... ah...”
Mas ao ver o desânimo estampado no rosto do doutor que acabava de perceber que não teria argumentos consistentes para rebater os seus, mudou o discurso sem nem mesmo ter tempo de pensar nas palavras que se seguiriam:
“No seu comportamento”.
John Watson ergueu os olhos azuis.
“No... meu...?” e pigarreou. “Algum resultado até agora?”
“Alguns”.
Holmes então pousou o violino sobre a cama, ergueu-se e caminhou na sua direção. O mais alto estava rígido como uma estátua. Às vezes, era como se... era como se não conseguisse compreender Watson. Com uma rápida análise visual, conseguia identificar as intenções de quase todos aqueles que passavam à sua frente – a forma de caminhar, de falar, de direcionar os olhos, as palavras que as pessoas ao redor utilizavam delatavam-as. Mas com Watson... era diferente.
A postura do médico pedia a aproximação e o afastamento. A intenção das suas palavras variavam quase que completamente de um dia para o outro. Os olhos claros devoravam-no e repeliam-no. A vontade que tinha de proteger o detetive parecia proporcional ao seu desejo rasgá-lo. Era impossível ler John Watson em tempo integral. Era impossível compreendê-lo. Evidências opostas somavam-se e anulavam-se. Levavam a lugar nenhum. E nenhuma das suas atitudes parecia fazer sentido; a não ser que...
A não ser que nem mesmo Watson soubesse o que realmente desejava.
“Suas mãos.”
“O quê?”
“Deixe-me vê-las”.
O doutor lançou-lhe um olhar desconfiado. Ainda assim, entregou-lhe as mãos alvas. A conclusão de Holmes foi instantânea:
“Marcas de força”, disse, indicando com os próprios dedos as marcas avermelhadas que estampavam as palmas das mãos de Watson. “Você manteve os punhos fechados com força, pelo menos nos últimos dois... cinco... minutos”, corrigiu-se. O doutor, incomodado, desceu novamente as mãos. Por que raios havia perguntado sobre resultados? Mas Holmes prosseguiu:
“Seu pescoço... tão tenso, Watson. Essa tensão certamente já desceu pela sua laringe. Esse é o motivo pelo qual você esteve gaguejando desde que chegou?”, sugeriu. Estava próximo o suficiente para que o mais alto pudesse sentir o ar quente saindo pelos seus lábios enquanto sussurrava. “Ou é porque os pensamentos não estão fluindo hoje?”
John recuou alguns passos. Sentia-se invadido como nunca.
Holmes arriscou suas últimas palavras.
“Seus pés se movem, mas as pernas não querem dobrar. Você quer ficar, Watson”, concluiu, por fim. “Mas não sei se quer ficar pra me causar uma fratura ou dormir comigo”.
[…]
Era possível admirar a sua própria imagem, turquesa, que aparecia refletida nas íris coloridas daquele que o olhava. O seu coração palpitava como se estivesse em uma corrida a 10 km/h. Por que aquilo acontecia se estava parado? O de Watson não andava muito atrás; pela respiração acelerada, era certo que o doutor estava em uma corrida também. As costas daquela pessoa, sempre insuportavelmente eretas, encurvavam-se levemente, o que possibilitava a proximidade entre o seu rosto e o do detetive.
De súbito, os pensamentos e as feições de Sherlock Holmes iluminaram-se.
“Ou talvez...”, reiniciou com alguma convicção, em tom baixo. “Talvez você queira ambos”.
As mãos pesadas de Watson cravaram-se na pouca cintura do menor. Com um único puxão, os corpos tocaram-se e colaram-se.
Os pêlos todos do corpo de Holmes eriçaram-se imediatamente. A sua respiração perdeu o compasso e os olhos fecharam-se. Encheu os pulmões de ar na tentativa de forçar mais o próprio tórax sobre o do homem que o envolvia, pois sabia que as mãos que os aproximavam iriam também afastá-los em uma fração de segundos.
“Tão certo de si mesmo, não é?”, perguntou a voz cheia de ódio. A pronúncia daquelas palavras acontecia perto demais dos seus ouvidos... Sentiu uma aplicação de maior força sobre a superfície do seu corpo, e evitou até onde pôde o gemido sôfrego que teimava em escapar por todos os seus poros. “Essa sua arrogância vai mantê-lo sozinho pra sempre, Holmes.”
“Wats-on...”
“Você vai se olhar no espelho depois de trinta anos, quando for velho, e vai ver o quê?”, prosseguiu, severo. “O que você construiu?”
“Cons...truir...”, repetiu um detetive risonho. A proximidade com o corpo de Watson causava-lhe calafrios e fazia com que perdesse a linha do seu raciocínio. Ainda assim, o discurso do mais alto era tão patético, que a risada era inevitável. “O que você construiu, doutor? Uma casa? Uma esposa?”
Então, o sorriso simuiu-lhe dos lábios:
“Imagino sua alegria quando descobrir que ela está voltando.”
Watson fez menção de perguntar, mas foi interrompido pela última vez.
“Minha única dúvida é: será que ela vai ser o suficient...?”
Uma tentativa de soco quase atingiu-lhe o estômago, mas como os olhos negros há muito tempo já estavam fixos naqueles punhos, não foi difícil imobilizá-los com as mãos abertas. Uma nova tentativa, uma nova imobilização. Havia despertado o lado agressivo do seu amigo. Quando aquele lado estava desperto... Porém, houve um piso em falso.
Erguer os olhos para encarar os do médico foi a atitude que o levou para o buraco. Com um movimento rápido, Watson empurrou-o sobre a cama de maneira a fazê-lo deitar; a seguir, com uma só mão, uniu e prendeu as suas duas. Tinha ainda uma mão livre para o ataque.
Um ataque perfeito. Um ângulo privilegiado. Um nocaute certeiro: não havia possibilidade de defesa.
Ao invés de relutar, Sherlock Holmes reconheceu sua nova posição – teve a destreza de virar levemente o rosto de forma a tentar dificultar a fratura, e a delicadeza de contrair suavemente os músculos do rosto. Apesar da mente científica já prever o que viria, procurou esperar pelo pior. O pior não veio em forma de ataque físico.
[…]
O soluço que saiu por entre os lábios abafados do doutor despertou o outro e causou-lhe uma pontada de desespero. Lembrou-se que, apesar de exímio detetive e químico, não tinha boas experiências com os sentimentos humanos. O que fazer? Encarou-o mais uma vez.
Nos cantos das escleras do mais alto, identificou um lacrimejar característico. John Watson não queria atacá-lo. Queria antes desfazer-se em sensibilidades do que lhe dar um soco propriamente dito. E Sherlock Holmes não sabia lidar com sensibilidades. Teria preferido antes o soco.
“Watson, eu... Tudo bem”, murmurou, constrangido. “Vai ficar tudo bem”.
“O que você está dizendo?”
Era evidente que não admitiria. Um homem da sua idade, do seu porte, do seu tamanho. Um homem estudado e com o seu histórico. Um homem com o orgulho mais ferido do que o seu próprio corpo quando estivera, há muito tempo, em combate. Não estava chorando, era verdade – talvez o tempo e a convivência com Holmes se tivesse encarregado de secar todas as suas lágrimas. Ainda assim, segurava algo que se assimilava a um sentimentalismo similar ao choro. O soluço abafado o entregava.
“Eu só estou dizendo que tudo vai ficar bem”.
“Você... não tem que me dizer isso”.
“Mas só estou...”. Então, Holmes fez uma pausa. Pareceu ouvir algo que vinha do corredor. “Ah... não”.
“O quê?”
“Rápido, me dê um soco”.
As feições de Watson contraíram-se:
“O quê?”
No instante seguinte, a porta do quarto foi aberta. Senhora Hudson entrou carregando algumas roupas de cama e parou, estupefata, em frente a uma cena que incluía um Sherlock Holmes imobilizado sobre a cama e um John H. Watson segurando-o pelos pulsos, praticamente sentado sobre o seu quadril.
As mãos de senhora afrouxaram-se e as roupas de cama caíram sobre o chão.
“Minha nossa!”, gritou ela, cobrindo os olhos em seguida. “Desculpem, eu não achei... Achei que não estavam aqui”, prosseguiu, parecendo envergonhada. Com o canto dos olhos, porém, tentava fotografar mais uma vez aquela imagem bizarra.
Watson desesperou-se. Soltou o detetive no mesmo instante.
“Não! Nós não estávamos...”
“Apenas saia”, respondeu Holmes.
E lá se foi ela, com pressa, batendo a porta ao sair e deixando lençóis e cobertores espalhados sobre o piso. Um minuto de silêncio englobou o cômodo no momento que se seguiu.
“Você se importa com ela”, murmurou Holmes, um toque de desdém agravando sua voz.
John Watson já estava de pé quando deu a resposta:
“Diferente de você, eu ainda tenho algo a perder. Te espero amanhã em Clay Street para mostrar o novo apartamento”, acrescentou. Antes de abrir a porta e batê-la mais uma vez, dessa vez por sua própria conta, corrigiu-se. “Ou não”.
Holmes desejou profundamente afogar-se nos lençóis que se acumulavam sobre aquele chão. Tudo tão... rápido. Em seguida, lembrou-se que afogamento em materiais sólidos era coisa de poeta, e que como não era poeta, não podia dar-se àquele tipo de luxo. Precisava continuar vivo. Atuante. Ainda que a vida sem John Watson significasse apenas inspirar oxigênio e expirar gás carbônico e outras escórias metabólicas. Ainda que a vida sem ele fosse uma vida sem excitação, sem emoções, puramente fisiológica. Restava-lhe somente torcer pelo aparecimento de um novo caso que estimulasse o seu intelecto – pois sem John Watson, não havia nada.
Respirou profundamente e concordou, em silêncio, com o seu bom amigo: sem ele ao seu lado, realmente não havia mais nada a perder.
[…]
Quão irônico Sherlock conseguia ser?
Enquanto caminhava de volta a seu quarto, Watson refletia. Dizer que tudo ficaria bem. Uma afirmação ridícula como aquela e ainda afirmava que ele, Watson, é que era hipócrita. Nada estava bem. Nada jamais voltaria a estar bem.
A vergonha de ter sido flagrado sobre Holmes pela senhora Hudson somava-se à vergonha de quase ter-se sensibilizado frente ao parceiro, e o médico já não sabia se queria morrer ou continuar vivendo em miséria. Uma vida infeliz como a que voltaria a ter em poucos dias não seria pior do que simplesmente não ter que voltar a abrir os olhos. Certo, era um homem dramático.
A sua caminhada parecia infinita – se não era também, o doutor a fazia ser, já que, sabendo que seria uma das últimas vezes que pisava sobre o chão de Baker Street considerando-o parcialmente seu, movia-se com alguma lentidão; aproveitava cada momento da sua infeliz despedida.
Durante o percurso, chegava à conclusão de que algumas coisas ainda tinham conserto: poderia muito bem aproximar-se da boa senhora Hudson e explicar com calma que nada havia sido interrompido naquele quarto com a sua entrada. Mas a troco do quê explicaria aquilo? Logo, como o próprio detetive dissera, a sua esposa estaria de volta. Com a virada do ano, estaria re-aberto o seu consultório e o seu casamento. Assim, todas as suspeitas que relacionavam os amigos estariam acabadas. Exatamente como estaria acabada a sua felicidade.
Respirou. Se estava deixando Sherlock Holmes e a vida com ele, era por um bom motivo – e não havia motivo melhor para fazê-lo do que o medo de perder o afeto daquela pessoa. O medo de perder o seu lugar de assistente, de melhor amigo, de braço direito e essencial. Watson queria ser essencial. Queria ser o capanga leal, o cão fiel que o ajudava em momentos de necessidade. Um cão que tinha desejos destrutivos e também viris em relação ao seu mestre, sim; mas acima de tudo, uma critatura que reconhecia a sua posição.
A ilusão de ter Sherlock Holmes para si durara pouco, afinal.
[…]
Mary Morstan, uma mulher de delicadeza e bondade sem igual, estava afastada da cidade de Londres por motivos bastante trágicos. O homem da sua vida, dr. John Watson, vinha trazendo-lhe muita tristeza nos últimos dois meses em especial. Watson trabalhava pouco ou nada, não lhe dava atenção, saía, bebia e jogava. Talvez estivesse em um estado de depressão, era possível; mas a forma como a tratara nos últimos tempos não se justificava por falta de alegria de viver, não – justificava-se pela falta de outra coisa. Algo que a mulher não sabia ou fingia não saber. O afastamento entre eles havia sido necessário.
Desde que se afastara para o campo, em casa de parentes, ela não tinha recebido correspondência alguma do marido. Não sabia se estava bem, se estava saudável, se estava vivo. Não tivera notícias. Assim, por orgulho – e tinha algum orgulho, apesar de ser uma mulher fomirdável – também não se dera ao trabalho de enviar nada. Mas era a manhã do dia 29 de dezembro de 1891 quando Mary Morstan arrependeu-se das suas últimas atitudes.
Os primeiros raios do Sol iluminavam os seus cabelos claros, e os olhos azuis como o céu corriam pelo papel da carta que tinha como remetente ninguém menos do que John Watson. Pela primeira vez em algum tempo, Watson usava palavras sinceras. Palavras que pareciam ter algum significado; palavras que podiam ter nenhuma outra origem além do coração do seu marido.
Ao final da leitura, os sentimentos da senhora Watson confundiram-se. Nos últimos tempos, criara uma imagem do seu marido; agora, a imagem desfazia-se. Enquanto admirava, pela janela, os campos verdes que se estendiam à sua frente, pensava nas cores escuras da cidade de Londres. E acima de todas aquelas cores, pensava no seu marido e em Sherlock Holmes. Uma vida de submissão, uma vida infeliz. Uma vida que jamais seria completa, porque Morstan sabia que não era o motivo de maior alegria do seu esposo.
Com os olhos umedecidos, encarou o documento pela última vez. Precisava tomar uma decisão ainda naquele dia.
Notas finais
Muuuuito, muito, muito obrigada (novamente) pela leitura até agora.
Por favor, deixem aqui as minhas liiindas e tão necessárias reviews.
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