O Caso De Scarle Road
16 Décimo sexto.
Notas iniciais
Gente, duas da matina e nós aqui. Sono pra quê, galera? Mas pelo menos não atrasei tanto dessa vez, hihi! Tô um pouco atordoada porque acabo de revisar 3.900 palavras e já é madrugada, então... mais uma vez, vocês terão a sorte de não receber muitas das minhas enrolações.
QUATRO MIL PALAVRAS QUASE NÃO FORAM SUFICIENTES! Realmente achei o capítulo meio corrido, mas. Espero realmente que as minhas coisas lindas gostem ♥ ♥ (e não se traumatizem pelo final desse aqui, hihi).
Muito, muito, muito obrigada pelas últimas reviews e, como sempre, espero por mais (cara-de-pau, oi). *-*'
Boa leitura.
A pele de Sherlock Holmes era apenas... diferente. Diferente de tudo aquilo que as mãos de médico de John Watson já haviam tocado. Áspera por ressacar-se durante o inverno, mas também sutil; suave como as penas de um pássaro ferido e melancólica como a de alguém que, há muito, não tem contato com outro ser humano. E Holmes concordava que, quando era tocado por aquelas mãos, era como se nunca tivesse tido outro contato.
Era a primeira vez na vida que Sherlock Holmes sentia correr nas suas veias um sentimento realmente forte. Um sentimento de que antes nem sequer tinha conhecimento.
A cama rangia em volume baixo conforme ele se movia para cima e para baixo. Estavam em um momento crítico — o detetive estava literalmente sentado sobre o mais alto, que permanecia deitado sobre a sua cama em Baker Street. As peças de roupa que outrora cobriam as superífices daqueles corpos residiam sobre o chão, inutilizadas. Mas John H. Watson não dava atenção às peças de roupa, não; preferia deter-se na aflição e no deleite dos movimentos do seu amigo. Por mais que já houvessem feito algumas vezes, a entrada de Sherlock permanecia... ah... estreita. E a ilusória sensação de alargá-la provocava espasmos... em ambos.
“A-ah, Sherlock...”
Tratava-se de um dos poucos momentos em que Watson realmente sentia-se à vontade para chamá-lo pelo primeiro nome. Naquele instante, estavam despidos não apenas de roupas, mas de tudo – as convenções e cerimônias, as máscaras do cotidiano e até mesmo as verdadeiras identidades dos amigos perdiam a importância na situação. Não eram mais o detetive Sherlock Holmes e o médico John Watson que se encontravam naquele quarto, mas apenas duas almas que precisavam uma da outra de forma doentia.
Assim, Watson alternava entre chamá-lo e morder os próprios lábios até quase arrancar sangue de si mesmo. Deixava que o amigo obediente mantivesse o controle da situação.
“Watson...”, murmurava Holmes, um pouco mais contido, um pouco mais consciente das suas atitudes. O fôlego, porém, faltava-lhe completamente, e as palavras que produzia mesclavam-se a gemidos, fossem de dor ou de prazer. Ou talvez fossem uma coisa só.
Daquela vez em especial, porém, o menor estava mesmo tentando dizer-lhe alguma coisa. Não era apenas um chamado sem propósito.
“Watson”, repetiu, mais alto, em uma tentativa de trazer o médico de volta a si.
John abriu os olhos azuis para fitá-lo. E tal atitude fez com que o outro, utilizando-se das mãos espalmadas sobre o seu peito, agachasse de forma a posicionar-se em proximidade ao seu ouvido.
“Watson... não... vá”, sussurrou. Estava arfante.
“O... quê?...”
A culpa não era do doutor, é claro. Oras, era difícil manter uma concentração enquanto o homem estava sentado sobre o seu órgão mais sensível. E apesar de Holmes estar agora parado, a situação não era fácil – ao menos se a região não fosse tão quente e tão úmida, as coisas talvez fossem mais suportáveis. Provavelmente Watson estava ouvindo coisas.
“Não vá”, prosseguiu, a voz fragilizada pela ocasião. “Não deixe Baker Street. Watson...”, chamou pela última vez. Holmes afastou-se até poder encará-lo novamente. “Não me deixe”.
Então, Watson não soube dizer se foi o nervoso, a saliva ou o próprio que o fez engasgar de forma fatal. Sherlock Holmes.
A saída de ar estava absolutamente obstruída. Não havia forma de respirar, não. Sherlock Holmes acabava de pedir a ele para que não o deixasse. O que aquilo queria dizer? O que era deixá-lo?
Achou que fosse morrer. Começou a tossir. Tudo acontecia em uma fração de segundos. E em uma fração de segundos, Holmes o olhava como se pudesse ter sentimentos. Como se realmente se importasse. Como se acreditasse que Watson não era mais apenas um cão fiel e que não poderia voltar a somente sê-lo.
Não era possível que o detetive tivesse aqueles sentimentos. E olhá-lo daquela forma. Olhá-lo como se pudesse ter em relação a ele um sentimento que se chamava... que se chamava...
[…]
Acordou. Estava realmente engasgado. Sentado em uma poltrona escura e velha do apartamento de Clay Street, socou algumas vezes o próprio peito e pôde, enfim, recuperar o ar perdido. A cabeça doía-lhe. Os pensamentos estavam atrapalhados.
Aqueles sonhos com Holmes, de fato, estavam destruindo a sua sanidade. Acordar engasgado e excitado na idade em que estava não era nada compreensível. Parecia nada além de um adolescente na puberdade.
Olhou ao seu redor. Os seus pertences tinham acabado de ser desempacotados e organizavam-se de maneira aceitável pelo apartamento – era um homem organizado, diferente do seu parceiro. O relógio nem sequer batia quatro da tarde e ele estivera tirando um cochilo pelo cansaço dos últimos dias. Aquilo, é claro, também não era nada compreensível. Afinal, era verdade que Watson era uma pessoa relativamente preguiçosa, mas sentar-se em uma poltrona para cinco minutos de repouso e simplesmente apagar sobre ela já era demais.
Uma movimentação do lado externo ao seu apartamento – mas interno ao seu edifício – causava ruídos desagradáveis. Pelos sons que vinham do corredor, parecia-lhe que mais alguém acabava de se mudar para a residência, o que causou alguma surpresa na sua pessoa; até onde Watson sabia, era o único novo inquilino local. A supresa, ainda assim, não era de todo mal: conviver com novos indivíduos seria uma boa tática para esquecer aquele único que vinha atormentando o seu espírito. Permaneceu sentado por mais alguns instantes, até o momento quando percebeu que a movimentação realmente estava próxima demais à sua porta.
Pensou ter ouvido uma voz conhecida. Talvez uma impressão. Fez um sinal negativo com a cabeça e resolveu que estava ouvindo coisas. A sua cabeça atormentada certamente voltaria à sanidade assim que acontecesse a virada do ano e o seu consultório fosse re-aberto.
Sim, as coisas voltariam ao normal.
Escutou o som de uma mala sendo repousada sobre o chão a poucos metros de distância da sua pessoa. Franziu o cenho na direção da porta.
Algumas batidas. Era quase impossível que fosse Holmes; improvável que fosse Stamford. E quem mais prestaria-lhe uma visita em plena tarde e naquela data?
Ergueu-se em um pulo e caminhou apressado em direção à maçaneta.
Quando seus olhos finalmente encontraram o novo morador, não pôde crer no que via.
Não foi capaz de se mover. Permaneceu absolutamente imóvel, a respiração contida, os olhos azuis arregalados enquanto Mary Morstan – a sua cônjuge, esposa, mulher, a pessoa que jurara honrar até a morte sob os olhos de Deus – o abraçava com os braços finos e molhava seus ombros com lágrimas de silêncio.
“John...”, repetia ela ressentida, infeliz, com um tom de melancolia na voz que recordava John Watson dos tempos mais sombrios da convivência entre eles. Os cabelos claros que desciam como um véu de noiva pelos seus ombros tinham um cheiro característico de baunilha de que o médico parecia ter se esquecido. Fazia muito tempo que não sentia aquele cheiro, porque... bem, porque fazia muito tempo que Mary não o abraçava.
“Eu vim assim que pude”, prosseguiu a moça, em um sussurro. “Vim assim que recebi...”
Nas suas mãos delicadas, um documento. Com os olhos ainda reluzentes pelo choro, ela afrouxou o abraço apertado e mostrou ao esposo a correspondência que tinha recebido dele mesmo. Mas como podia chegar a Londres em prantos naquela data e ainda dar a entender que viera por conta da carta? John lembrava-se do que havia escrito no documento, e nele não pedia o retorno da mulher.
Procurando manter uma expressão neutra, tirou com alguma sutileza o papel das mãos dela. Os seus olhos correram com desespero pelas linhas que não tinham sido por ele redigidas:
Mary,
Por favor, volte. Não estou em condições de ficar nem mais um dia sem você. Sem seus auxílios, não vou me recuperar do vício. Perdi a casa em um jogo de baralho e agora moro sozinho em um apartamento humilde, número 117, Clay Street.
Aguardo seu retorno com o pedido de que seja breve.
Com amor,
Sempre seu John.
A caligrafia. Sua. Ao final da leitura, suas mãos tremiam tanto que era difícil focar a visão em uma só letra. Papel de carta: seu. Envelope: seu. Palavras que podiam facilmente se passar por suas. O conteúdo sentimental e ainda assim objetivo era tão típico de Watson. As formalidades eram também suas.
Não havia dúvidas de que o remetente tivesse mesmo sido John Watson. Visivelmente arrasado, o homem procurou no seu interior a memória de tê-lo escrito, mas não a encontrava. Não era possível. Tinha sim escrito uma carta, outra carta, a Mary Morstan. Aquelas não eram palavras suas. Mas como?
Para que as suas conclusões fizessem sentido, seria necessário que houvesse uma pessoa sagaz o suficiente para furtar e violar a sua correspondência sem chamar a atenção; atenta o suficiente para dar-se conta do papel de carta de que o doutor se utilizava e da caligrafia que o delatava; seria preciso, enfim, alguém conhecido a ponto de conhecer as suas palavras e a sua forma de redigir textos e, acima de tudo, alguém malicioso a ponto de planejar o retorno de sua mulher por algum motivo.
Desejou causar muita dor a Sherlock Holmes.
[...]
A babá estava com a terrível mania de adentrar cômodos sem antes bater na porta ou identificar-se. Agora, estava atônita, o rosto pálido, enquanto observava um Sherlock Holmes que se distanciava em poucos centímetros de um Gladstone morto.
"Sim?", murmurou ele, sem nem sequer dar-se ao trabalho de fitá-la.
A senhora Hudson, que parecia há muito tempo não se importar mais com o detetive, carregava em mãos uma bandeja e uma xícara de chá.
"Ah...", respondeu a senhora, recuperando-se do choque e lembrando-se de que aquela pessoa era Sherlock Holmes. De todas as cenas mórbidas com que podia deparar-se, aquela, de fato, era a menos pior. "Eu estive pensando..."
"Esteve pensando. Não, obrigado".
Por quê? Por que ela, que sempre oferecia ao homem um prato de comida apenas quando necessário, dava-se ao luxo de preparar-lhe um chá naquela tarde? Por que aquela pessoa, que há anos mostrava-se cansada do serviço ingrato de obrigá-lo a comer, parecia recuperar suas forças para oferecer-lhe algo de bom grado? A resposta era simples.
"A saída de John Watson...", recomeçou ela.
"A saída de John Watson não tem nada que ver conosco".
Estava deprimido. Estava inconsolável. A sua expressão, as suas palavras e atitudes, como sempre, não mostravam a dor a que estava exposto. Sherlock Holmes não conseguia mais ficar sem o seu amigo, ela sabia. Por isso, agora, preocupava-se com ele.
Se antes o seu espírito era recluso, agora talvez estivesse imerso em um caminho sem voltas.
"Imaginei que talvez um chá pudesse..."
"A senhora quer o retorno de John Watson, mas seu chá não vai trazê-lo de volta, sinto informar".
"... clarear seus pensamentos".
Holmes parou o que estava fazendo para encará-la com os seus olhos escuros e frios. Clarear os pensamentos. Sim, ela o conhecia bem. Se tivesse dito que o chá poderia acalmá-lo, era certo que o detetive prosseguiria com a recusa; mas dizer que poderia ajudá-lo a clarear seus pensamentos... ah, sim, Holmes sempre precisava clareá-los.
"Deixe na bancada", resumungou, voltando sua atenção ao cadáver que tinha em frente.
Estava fazendo o que podia. Estava dando o melhor de si. Todas as suas forças estavam concentradas em esquecê-lo, em voltar a focar-se apenas no seu ofício, na sua ciência, naquilo que regera sua vida antes de conhecer Watson. Exatamente como se não tivesse mudado as motivações da sua vida depois de conhecê-lo. Tudo o envolvia.
Naquele instante, havia duas possibilidades: uma envolvia um Watson feliz que o estivesse amando, e a outra envolvia um realmente irritado, realmente desapontado, realmente prestes a quebrar a sua cara se tivesse a menor oportunidade. A segunda possibilidade, como sempre, contava mais. Mas como muitas vezes, Holmes não agira pensando em si mesmo – se o amigo desejava o afastamento entre eles, se gostava de distância e queria retomar a vida como era antes de reencontrar o detetive, então o retorno da sua esposa era necessário.
Se as circunstâncias fariam John Watson feliz ou não... bem, aí já não era problema seu. Resolvia apenas o que estava ao seu alcance.
Encarou o cão pálido que estava à sua frente. Mais alguns testes naquele corpo e Holmes talvez fosse capaz de identificar a fórmula ideal para um composto inovador, algo de utilidade incontestável no seu ofício; se desse sorte, poderia desenvolver uma substância que tivesse a propriedade de simular a morte em um animal – e uma pessoa –, reduzir o seu metabolismo até quase tirar-lhe a vida por algum tempo, enganando qualquer indivíduo que tivesse contato com a criatura drogada. Então, após o devido período de tempo, ocorreria o retorno à vida, a uma falsa ressurreição, já que a droga teria efeitos limitados. Estava quase conseguindo.
A seguir, enquanto ainda encarava Gladstone com os olhos da ciência, teve outros pensamentos. Reconheceu a si próprio. Um homem imóvel, sem vida, estagnado em um problema que avanço científico nenhum poderia solucionar.
Talvez, se conseguisse criar um composto que resultasse na ressurreição ilusória, pudesse também alimentar a ilusão do retorno à vida dentro de si.
O cão abriu os olhos.
[…]
Um sentimento de medo passou a aflingir John H. Watson conforme deu-se o cair da noite.
A sua boa e eficiente esposa já tinha desfeito a pequena mala que trouxera de viagem – Watson nem mesmo se lembrava de que ela tinha levado tão poucos pertences – e, agora, permanecia fechada no quarto individual que teria de ser partilhado. Apesar da humildade do apartamento, ela não parecia estar abalada; pelo contrário, demonstrava ao homem um sentimento de apoio desconcertante. Se apenas ela não fosse tão dedicada. O consentimento eterno, natural à sua adorável personalidade, tornava tudo muito mais difícil. E depois de um reencontro tão cheio de sentimentalismos entre eles, era quase certo que, com o entardecer, ela estivesse esperando alguma atitude sua. Havia algum tempo que não se deitavam sobre uma mesma cama.
Tão logo aqueles pensamentos infectaram sua mente, pensou ter ouvido um grunhido vindo do quarto. Talvez ela o estivesse chamando. Aflito, ergueu-se da cadeira e deu alguns passos em direção à porta — conforme se aproximava, tinha dentro de si maior certeza de que aquela noite não deveria ser passada em branco, por mais que sua vontade fosse antes esconder-se embaixo da cama do que deitar sobre ela com a mulher.
Quando poucos centímetros o afastavam da maçaneta, concluiu que sim, ela o estava chamando. Abriu a porta.
"Mary?"
Mary Morstan estava deitada sobre a cama de solteiro usando a sua camisola de seda, a maquiagem cara ainda cobrindo-lhe parcialmente o rosto bem desenhado. Era uma mulher bonita. A vestimenta realçava as curvas características do seu corpo feminino, e fazia também algum tempo que Watson não tinha contato com curvas.
"Você chamou?", perguntou, nervoso. Os olhos cor de safira estavam direcionados para qualquer ponto do cômodo que não incluísse a camisola de seda.
"Já é noite", respondeu ela. "Você está ocupado?"
Ocupado. Ocupado com o quê? Não trabalhava devidamente no consultório há meses e nas últimas semanas tinha dado férias a si mesmo; agora, não servia nem mesmo para ser assistente de detetive. Realmente, perguntar se John Watson estava ocupado naquele final de ano chegava a ser uma atitude indelicada.
“Não...”, disse, vencido pela dura verdade. Que estava fazendo? O que teria de fazer? De repente, a ideia de deitar-se com ela fazia com que visse a si mesmo como um infiel. Infiel a quem? A Sherlock Holmes, certamente. Pensou em rir, mas a situação era triste.
“John...”
Os seus olhos, inevitavelmente, encontraram os dela. Havia algo de diferente naquele tom de voz.
“Você sentiu mesmo a minha falta?”
Engoliu em seco antes de responder. Tinha um grande carinho por ela, era verdade; além de esposa, Mary desde sempre mostrara-se uma companheira leal e verdadeira, uma amiga com quem sempre poderia contar. Mas Watson tinha, além daquele grande afeto, necessidades fisiológicas. A sua vontade não era deitar-se com ela – deitar com Mary significaria enganá-la, já que os seus pensamentos, os seus verdadeiros desejos todos diziam respeito apenas a Holmes. Mas uma mulher estava semi-nua sobre a sua cama. Não queria enganá-la. Não queria. Aquilo não estava certo.
Ouvindo mais a seus instintos do que a sua razão – e a havia alguma razão naquela cabeça, afinal?, indagaria Holmes –, deu mais alguns passos em direção a ela. Se o gesto de tocá-la pudesse aliviar um pouco da sua obsessão doentia em torno do detetive...
Sentou-se sobre a cama. A esposa o fitava no fundo dos olhos. As alianças combinavam. Não era errado dormir com ela, já que jurara em frente a toda uma Igreja e aos olhos do Senhor que aquela seria sua parceira até o fim da vida. Não seria como se a estivesse usando para esquecer Holmes, não... Não a estava usando. Estava agindo de acordo com a ordem perfeita e natural da ocasião.
“John...”, chamou de novo. A sua voz era aguda como o canto de um rouxinol. Suas mãos pegaram as de Watson e pousaram-nas sobre as suas próprias pernas. Pernas macias que contrastavam com as mãos ásperas de Holmes. “Você... sentiu mesmo...?”
As mãos firmes do médico então desprenderam-se das suas pernas e puxaram o seu rosto em um beijo que, há muito, vinha sendo adiado. Um cheiro invadiu seus pulmões – âmbas não, baunilha –, mas não deu atenção à essência. Começava a sentir uma pontada de desejo entre as pernas, e a sua auto-estima começava a melhorar; voltava a ser somente um homem desejando uma mulher. Estava, com ela, em uma relação estável. Segura. Com os lábios colados aos dela, sentia a segurança enrijecendo seu membro inferior. Mas onde estaria Holmes?
Os braços finos da moça envolveram seu pescoço. As pernas foram sutilmente abertas, como em um convite delicado, mas não havia lingerie que cobrisse suas partes íntimas – estava absolutamente exposta.
Antes que John Watson pudesse se dar conta, estava descendo o próprio suspensório e desabotoando a calça que o separava da consumação do ato.
Trazê-la de volta. Holmes realmente a havia trazido de volta? Por quê?
Afastou mais as pernas que estavam à sua frente. O ódio que dirigia ao amigo parecia aumentar a sua excitação. Queria causar dor a Holmes. Queria que ele o visse no ato do coito com outra pessoa. Com a sua mulher.
Quando mais nenhuma peça de roupa separava as partes que realmente importavam, Watson investiu, devagar, pela primeira vez. E se até então a imagem de Holmes confundia-se com a imagem da sua esposa, agora a de Mary literalmente sumia, e a dele reinava na sua mente. Os olhos fechados do médico auxiliavam na sustentação da fantasia e impediam que ele prestasse atenção aos gemidos femininos que passavam a tomar o quarto.
Havia alguma diferença. Muita diferença. O calor que vinha do corpo de Holmes não era exalado na mesma intensidade pelo corpo de Mary; o canal por que agora passava o órgão rígido de Watson não parecia ser tão estreito ou tão sensível quanto o do detetive, não. Mas John não dava importância àqueles detalhes. Porque na sua cabeça, quem estava à sua frente era Sherlock Holmes.
Pensou nos olhos escuros como carvão e em como gostava de imaginá-los com alguma ternura – realmente queria que Holmes fosse capaz de olhá-lo com ternura. Pensou nas mãos ásperas de ácido espalmadas sobre o seu peito, e na forma como o mais baixo sempre ofegava, os pêlos do corpo eriçados, quando ele o tocava. Não conseguia lembrar-se de nenhuma sensação tão boa quanto a de tocar Sherlock e de observar, em sequência, a sua reação.
Estava tão perdido. Estava tão absolutamente hipnotizado pelos efeitos de Sherlock Holmes, que chegava a sentir pena de si mesmo.
“H...Holmes...”
A força das investidas aumentava progressivamente. Mary Morstan fechou os punhos sobre o lençol da cama, tomada também em desejo. Mas quem era Mary Morstan? Watson, de olhos fechados, podia apenas sentir o prazer físico de penetrar outra pessoa. Mantinha-se firme ao seu objetivo. E estava na iminência de concretizá-lo, quando...
Bem, quando chegou ao ponto máximo das suas investidas, o médico previu o que aconteceria: Holmes, com a sua voz grave, as costas arqueadas, não demoraria a chamar o seu nome — “Watson!” — e, com ele, derramar o líquido que evidenciava o que acabava de se dar ali. Mas... quando chegou àquele ponto máximo, não ouviu o grito da sua voz grave. Ouviu, ao invés dela, um tom agudo e inesperado chamando-o por outro nome:
“John!”
E então, não pôde prosseguir.
O seu fluxo sanguíneo caiu. O músculo cardíaco recuperou-se. A respiração foi descompassada e os olhos azuis foram abertos, as pupilas dilatadas como se tivessem encontrado um fantasma. O seu órgão sexual, de súbito, não estava mais rígido. Mas o líquido esbranquiçado não tinha sido derramado, e tampouco Mary parecia satisfeita.
Tinha falhado. Estava perdido. Não chegara ao seu objetivo.
Ao ouvir a voz dela ao invés da do amigo, tudo se perdera. Pouco antes de finalizar o ato, todo o seu progresso até ali tinha ido por água abaixo.
Não pôde encará-la. Permaneceu imóvel por algum tempo, mas não demorou até que, constrangido, saísse de cima do seu pequeno corpo. Sentia o rosto tão quente que a pele chegava a arder. O silêncio consumia o que restava da sua sanidade.
“M-Mary, eu...”
“Não”, interrompeu ela. Graciosa como sempre, selou a boca do marido com o dedo indicador, impedindo que ele proseguisse com a fala. “Não era... possível...”, continuou. Gotículas de choro voltavam a formar-se no canto dos seus olhos. “Não era possível, John...”
Watson, ainda sentindo-se um trapo, pareceu confuso. Não estava entendendo; o que não era possível?
“Por um momento, cheguei a acreditar que tinha sido você. Mas quando você me viu, suas atitudes não condisseram com aquelas palavras”, concluiu. Os dedos das mãos alisavam a lateral do rosto do homem em um tipo de carinho que traduzia tanta infelicidade, que Watson preferia não tê-lo recebido. “Sua letra”, disse ela. “Sua caligrafia perfeita. Seu papel de carta”.
“Mary...”
“Sherlock Holmes deve conhecê-lo muito bem”, resolveu, parecendo profundamente magoada. “Acredito que você deve conhecê-lo bem melhor do que imagino também”.
Silêncio. Concordar ou discordar? Talvez ficar eternamente calado fosse a melhor opção.
“No fundo, eu sabia que não podia ter sido você. Mas, às vezes, não se pode apenas... viver com a dúvida”.
Ao fim do monólogo, Watson ergueu-se. Vestiu-se novamente, despediu-se da mulher – iria dormir na sala. A sua sala em Clay Street certamente não era tão aconchegante quanto a sua antiga com Mary ou a outra, com Holmes. Mas Watson não se achava merecedor de conforto algum, e precisava afastar-se da cônjuge para esquecer a vergonha. Dava mais um passo em direção ao fundo do poço.
Quando enfim sentou na poltrona que lhe serviria de cama, tentou dormir. Imaginou-se feliz, em Baker Street. Imaginou-se chegando de um dia cansativo de consultório e saindo para uma investigação noturna e estimulante com o parceiro. Viu-se feliz, ativo, realizado. Na sua imaginação, parecia contente. O pior era que tinha certeza de que, ao lado de Holmes, estaria feliz, fosse em Baker Street, em Clay Street ou no quinto dos infernos.
Pela primeira vez na vida, admitiu que o ponto de afeição em que estava com o amigo não tinha volta. E pela primeira vez em muito tempo, dormiu como se a paz reinasse no seu lar.
Notas finais
Ah, vá, galera... quem aguenta cena de mutilação aguenta uma cena hétero, vai... HAUHAUAHA. E juro que também não gosto muito (sou mais gay do que vocês e todo esse Nyah! junto, acreditem), mas eu realmente precisei descrever a cena com alguns detalhes. Espero obter o perdão de vocês, snif, snif.
Aaaah, muito obrigada pela leitura ♥
Deixem reviews e façam uma pessoa feliz, porque vocês sabem que estamos no final e eu sou uma pessoa sensível, ok? u_u
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