Notas iniciais
Bem, estou de volta com essas duas, em um marco para Elizabeth, que depois de tanto enrolar o Marine Suicida, se casou. MAS até chegar esse momento...

Uma pequena recapitulação sobre onde as encrenqueiras estão na vida.
Elena é agora uma agente do FBI, só Deus sabe como ela ainda não levou um tiro ou pior, acabou atirando no colega de equipe. Está lotada no Contra-Terrorismo e bem longe da família.
Liz, depois do vexame na fila do Acrisure Stadium para comprar os ingressos para a The Eras Tour, abandonou, para a alegria do seu pai, a ideia de entrar para a política. Se candidatou a uma vaga no Departamento de Defesa como Analista. Conseguiu a vaga e, sendo uma tradutora exemplar e com uma facilidade ímpar para encontrar pistas em conversas que muitos considerariam corriqueiras, foi alçada para uma Força Tarefa com a CIA, que a levou para alguns pontos do mundo, que é onde ela se encontra hoje.
Sem mais delongas, boa leitura!

Elizabeth

Estava aquartelada em um quarto bem decrépito de um hotel em uma cidade ainda mais decrépita nos confins do Paquistão, escutando em tempo real a conversa, monótona, de uma pessoa com um potencial para ser espionada. Não que eu fosse a espiã aqui, eu era a reles tradutora mesmo, sem a menor chance de subir na escala e me tornar alguém especial.

O que na minha humilde e sincera opinião era um verdadeiro tapa na cara.

Acontece que não importa as 1001 teses sobre temas interessantes para a segurança nacional que eu escrevei nos últimos três anos, não importa que eu tenha passado com louvor em mais de dez testes de campo e também de proficiência para atiradora. Eu estava mais do que estagnada nessa posição de tradutora.

Assim, devidamente trajada com as vestes culturais, uma burca preta que me cobria da cabeça aos pés, eu era a única autorizada a deixar o prédio que, para a população local era um hotel, para a Força Tarefa da qual eu fazia parte, era nosso QG, para poder observar os arredores e gravar possíveis alvos.

Minhas saídas aconteciam todos dos dias, em horários diversos. Como mulher, em um país de religião mulçumana, eu não representava perigo, e estando devidamente coberta pela burca, ninguém seria maluco de mexer comigo, assim, eu era o disfarce ideal.

Só que nada acontecia, eu só coletava imagens, fotos e alguns trechos de conversas que eu traduzia mentalmente, e voltava para meu quarto.

Depois de fechar a porta e tirar a burca, sem poder agradecer por respirar um pouco de ar fresco, uma vez que as janelas estavam fechadas, era alto verão e não havia ar condicionado central, peguei meu equipamento de vigilância, liguei meu computador, coloquei os fones e com um suspiro resignado, comecei a ouvir as últimas horas de conversa de nossos alvos.

Certo tempo depois, comecei a escutar sempre as mesmas frases, a mesma palavra. E isso me alarmou, geralmente palavras muito repetidas são códigos para algo.

Voltei as gravações, ouvi mais algumas vezes e identifiquei de quem eles falavam. Ou melhor, sobre o que...

Um alvo que abalaria as estruturas do país.

Ao mesmo tempo em que suava frio, segui o protocolo, passei a informação para meu imediato e, logo em seguida, estava em reunião com todo o alto escalão da força tarefa.

E, em uma batida de coração, todo o governo estava em alerta laranja e me foi determinado que reportasse qualquer novidade diretamente para as agências responsáveis. No caso, CIA e FBI. Uma seria a responsável por abater os terroristas de forma internacional, a outra dentro do país.

E foi aqui que tudo começou a dar errado.

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Elena

Recebi um alerta laranja em meu celular às 03:45 da manhã e, com isso eu era chamada às pressas até a Divisão do Contraterrorismo do FBI.

Mais dormindo do que acordada, despedi-me de meus filhos, avisei a Chris que estava saindo e peguei o carro. Passei na primeira cafeteria que vi e pedi um duplo capuccino macchiato de chocolate.

Esfregando os olhos por conta da intensidade das luzes, abri as portas do 8ª andar do Hoover Building e fui surpreendida pela presença do Diretor do FBI, também conhecido como meu pai.

Tentei me situar no ambiente, apesar de que a reunião não tinha começado, assim, puxei minha cadeira, coloquei minha bolsa e, ainda bebericando meu café, peguei um dos arquivos que estavam dispostos para que os agentes pudessem ir se inteirando da situação de alerta laranja.

O Diretor ia comentando algo com o nosso Chefe de Sessão, palavras como CIA, Paquistão, alvo no país e ataque foram sussurradas e eu me pus de alerta. A situação era muito mais séria do que aparentavam as posturas dos dois, assim, comecei a reler o arquivo com muito mais interesse.

E, transcrição atrás de transcrição de conversas obtidas por agentes, espiões, contatos que estavam no Paquistão, foram devidamente traduzidas pelo analista designado. Com surpresa, vi que era Elizabeth e que ela fora responsável por identificar, através das vozes, os responsáveis pelo possível ataque, tirando as fotos e enviando para a CIA.

A informação que nos cabia, e que estava em destaque neste arquivo, foi que um alvo em solo americano seria derrubado, ainda nesta semana.

Estávamos correndo contra o tempo.

A reunião começou pontualmente às 04:25 da manhã. Diretor Hotchner nos pôs à par do que acontecia e nos informou que fomos integrados à força tarefa. A partir daquele momento, era instaurado o silêncio absoluto, ninguém poderia sair do prédio e muito menos comunicar à familiares o que estava ou não por vir.

Para mim, este era o pior momento, pois eu conhecia o lugar do possível alvo, eu sabia que era próximo de onde meus filhos frequentavam, e mesmo assim eu deveria ficar calada.

Hoje, depois de tanto tempo, entendo o desespero de minha mãe quando um caso da BAU batia na nossa porta. Ela sabia o que poderia acontecer, mas nunca pode me avisar.

Assinamos nossas declarações de sigilo absoluto e começamos a trabalhar com base no arquivo que nos fora enviado. Muita coisa foi mandada, inclusive o possível paradeiro de um dos terroristas, porém, ainda não sabíamos quantos eram.

— Vocês estarão em contato constante com a Analista do Departamento de Defesa que está no Paquistão. Ela tem as informações em tempo real e passará tanto para nós, quanto para a CIA. – O Diretor mencionou.

Horas se passaram, e, finalmente um novo contato da analista.

— Bom dia, Diretora, Diretor! Agentes! – Ela se manifestou. – Tenho novas informações, que não são muito boas, mas 100% corretas. Temos dois alvos no país. Um NY e outro em DC. Estações de trem. No horário de pico. Ataque poderá ocorrer entre o anoitecer de hoje, horário de Washington e o anoitecer de sexta. O dia exato ainda não foi mencionado, pois estão discutindo a logística de uma parte do grupo que está no país.

— Tem a informação de quantos são? – Meu pai interrompeu o relato de Elizabeth.

— Precisamente, não, Diretor Hotchner. São, ao menos 10 pessoas. Com certeza, temos quatro mulheres que carregarão os artefatos em carrinhos de bebê.

Alguém sibilou do meu lado, não pude ver quais dos meus colegas se sentiu pessoalmente ofendido com a forma como estariam escondendo as armas.

— O modus operandi será feito de duas formas, no mesmo dia, no mesmo horário. As ordens são para que as mulheres estejam nas estações centrais às 17:15. Duas em D.C., duas em NY. Uma entrará no metrô pelo último vagão de passageiros e a outra pelo primeiro. Os artefatos serão detonados às 18:30, no horário de rush, e quando os trens estiverem saindo das plataformas. E, para aqueles que conseguirem sair dos vagões antes que a explosão os pegue, serão alvejados pelo grupo que ficará na plataforma. – Ela explicou todo o que fora planejado.

— Já temos a identificação de alguma dessas mulheres?

— Não, Diretora Shepard. Não temos. Toda a comunicação que interceptamos está em SMS. Temos os números de telefones, que a própria CIA e o FBI estão rastreando, porém, até o presente momento, estão desligados. A única dica que nos deram, é que as mulheres são americanas, e que usarão roupas casuais, para se misturarem.

E isso dificultava demais o nosso trabalho.

com eficiência, Elizabeth assim terminava:

— Ainda não nos foi dada a ordem de pegar e abater os alvos internacionais porque precisamos de mais informações, principalmente quanto ao dia exato. Assim que tivermos, entraremos em contato. – E ela desligava.

Tínhamos os alvos, o horário e um espaço de tempo, não era tudo o que precisávamos, mas poderíamos trabalhar com isso.

A Unidade de Contraterrorismo foi dividida em dez grupos de cinco pessoas, cada. Metade foi para NY e a outra metade, ficou aqui. Nossas tarefas eram observar as estações, fazendo escala para que nossos disfarces não fossem comprometidos e buscar por qualquer informação interna sobre quem efetuaria o ataque.

Analisamos, rostos, vida online e real, histórico de diversas pessoas, e nada. Toda vez que o horário de pico dos transportes se aproximava o clima nas salas se tornava pesado, quando nada acontecia, respirávamos aliviados momentaneamente, pois sabíamos que o nosso prazo final estava chegando.

Dois dias depois de seu último contato, Elizabeth reapareceu na tela e informou data, horário e confirmou o modus operandi de toda operação. Deu nomes, fotos, endereços, tudo o que, tanto a CIA, quanto o FBI precisavam para acabar com mais essa célula.

Assim que acabou de transmitir as informações, como era praxe, ela foi afastada de todas as comunicações e colocada sob proteção, afinal, se houvesse um vazamento, seria o nome e rosto dela o primeiro que viraria alvo, por ela estar presente no QG e ser responsável pela tradução e descoberta do plano.

Ela não sabia para onde seria levada, isso foi informado somente para a CIA e para nós.

E, sem querer, alguém cometeu um erro.

Eu cometi um erro.

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Depois de horas e horas de gravações, de coletar informações em campo e traduzi-las para as agências, de me descabelar por medo de ter perdido algum dado importante, eu finalmente consegui coletar tudo. Passei para CIA e FBI, fiz a minha parte.

E, do outro lado da tela, Diretora Shepard, que era a responsável por todos os que estavam fora do país, me informou que eu estava sendo mantida sob proteção. Que era para que eu guardasse meus pertences que eu seria levada para um local seguro.

Esse local seguro era ainda dentro do Paquistão, uma das muitas casas que os EUA têm pelo mundo que chamam de esconderijo. Essa movimentação era necessária para não chamarmos a atenção de ninguém e, desse modo, evitar que a operação fosse um fracasso.

Fui levada para Islamabad, agora não mais com burca, mas sim como turista, um passaporte falso foi-me entregue e eu seria, pelo menos pelas duas próximas semanas, Serena Michaelson, uma americana de Seatle. O único detalhe, meu cabelo deveria ser devidamente pintado de preto.

No esconderijo, me entregaram a tinta e me indicaram o caminho até o banheiro mais próximo. Acendi a luz do lugar e dei uma vasculhada nos cantos, não era um hotel cinco estrelas, mas ainda era melhor do que minha última localização.

E, de frente para o minúsculo espelho, depois de lavar bem o cabelo, comecei a pintá-lo. Nunca tinha feito isso, nem quando me chamavam de Mascote pelos corredores e salas de Harvard, engraçado que cheguei a prometer para meu pai e meu namorado que jamais pintaria o cabelo...

Mas agora era uma questão de sobrevivência, ainda maior do que apenas alguns estudantes universitários pegando no meu pé.

Levei um tempo considerável até conseguir fazer um trabalho digno. Quando acabei de secar o cabelo, me encarei pelo espelho e não gostei de quem me fitava do outro lado. Era uma completa estranha.

Saí do banheiro e logo um dos agentes da CIA que estava de prontidão na casa, veio e pegou as toalhas que usei e antes que eu perguntasse o motivo disso, ele as jogou em um forno e incinerou, assim como as minhas credenciais do Departamento de Defesa.

— Mas...

— Para a sua segurança, somente algumas pessoas autorizadas podem saber o seu verdadeiro nome, e, nós sabemos bem que, se essa informação vazar, você é realmente um alvo em potencial, tendo em vista o parentesco que tem.

Concordei com a cabeça e me juntei aos outros ocupantes da casa, analisando cada um deles, vi os dois agentes da CIA que foram os responsáveis por me trazerem até aqui, dois SEAL’s, uma pessoa da inteligência da Marinha, e três membros do Departamento de Estado, isso, claro, eu soube, só de analisá-los, mas não sabia seus nomes nem suas reais posições nesta operação ou em outras.

Éramos oito no total. E estávamos somente esperando que tudo desse certo no país para que o restante da missão fosse deflagrada por aqui.

Três dias se passaram desde que a data marcada para o ataque, a ordem para continuar a operação foi dada pela Diretora da CIA, os agentes que aqui estavam, junto com os SEAL’s partiram para algum lugar que não era da minha alçada saber.

Ficamos na casa os três do departamento de defesa e eu.

Acontece que um deles estava me intrigando. Deixando os cabelos de minha nuca em pé e tirando o meu sossego. Ainda não sabia o motivo, mas eu descobriria.

Não precisei de muito tempo para descobrir o que tanto me intrigava na tal de Hollis Mann... dois dias depois que comecei a desconfiar de seus movimentos, a casa onde estávamos foi descoberta, ela se apresentou como cúmplice da célula terrorista, matou os agentes que eram seus parceiros e me entregou de bandeja, confirmando àquelss que invadiram o esconderijo, meu nome, meu sobrenome e tudo o que eu fiz para desmantelar o plano. Agora, como eles sabiam meu nome, eu ainda teria que descobrir.

Tentei me defender, é claro, fui muito bem treinada para isso. Só que estava em menor número e a faca que eu carregava, minha arma foi confiscada assim que entrei nessa casa, não foi páreo para as armas dos meus oponentes.

Dois tiros e um golpe na cabeça depois, eu fui arrastada para garagem e colocada no banco de trás de uma caminhonete que deveria ser mais velha do que a de meu pai, ou a do meu noivo.

Tardiamente percebi que algo tinha dado errado em D.C. porque não tinha como os terroristas e Mann saberem todas aquelas informações sobre mim. A não ser que alguém tivesse contado quem eu era e onde eu estava.

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Elena

Foi um erro bobo de confiança. Eu achei que estava com a suspeita sob minha lábia, que eu a tinha convencido a me contar tudo...

Só que foi absolutamente ao contrário.

Eu fiquei empolgada com minha primeira prisão de verdade, fiquei muito orgulhosa de mim mesma ao conseguir seguir, capturar, algemar e evitar que a terrorista se matasse no processo.

Só que ela me deixou fazer isso, porque está filmando tudo. Ela filmou absolutamente tudo e transmitiu em tempo real para Islamabad cada palavra que eu falava.

Era para que eu tivesse revistado a mulher sem nome que eu interrogava, antes mesmo que ela entrasse nessa sala.

Não o fiz, ninguém lembrou de fazer.

E agora o nome de Elizabeth está na boca e na mente dos terroristas. Eles sabem quem os encontrou, como encontrou e onde ela está. Porque além da suspeita ter transmitido tudo, ela tinha uma cúmplice. Ninguém menos que a própria mãe, uma agente dupla do departamento de defesa, que só estava esperando que tudo se acalmasse para entregar a analista que acabou com o seu plano de tentar destruir o país novamente.

Eu fui extremamente burra quando confirmei a identidade da analista, pois ela estava sendo escondida com outros três membros do DoD, ninguém ali se conhecia e ninguém sabia quem era o verdadeiro informante...

Até que eu contei.

E eu só percebi a burrada que fiz quando recebemos o comunicado que a casa segura de Islamabad foi invadida, dois mortos, e dois reféns levados.

— Não. UMA REFÉM! – Gritou minha suspeita, seu nome agora conhecido, Grace Mann. – QUE NÃO VAI SAIR VIVA DO QUE FOI PREPARADO PARA ELA!

Na sua frente mantive a compostura, disse que ela blefava, que não poderia ter certeza de tudo isso.

— Talvez sua mãe seja uma das vítimas.

— Não mesmo... ela sabe se defender. Minha mãe está viva. Já a analista deveria ter escolhido outro emprego... mas aposto que ela é outro nepobaby, assim como você! – Ela jogou na minha cara.

— Se ela fosse tão ruim assim, você não estaria aqui. E nem teríamos desmantelado o seu plano. Então, se eu fosse você, começaria a pensar que talvez, a sua querida mamãe possa ser sim, uma das vítimas. – Falei friamente. – Vou te deixar pensando sobre isso. – Comentei casualmente e saí da sala.

Com a porta fechada, dei de cara com os Diretores da Operação, meu e pai e bem, a mãe de Elizabeth. Eu não saberia o que falar, o que dizer. Foi um erro meu. Eu entreguei a minha melhor amiga para os terroristas e agora ela corria um perigo imenso.

Não era hora de me lamentar, mas tudo o que eu queria era chorar de desespero. Só que eu não podia.

— Agente Hotchner, você está afastada de suas funções. – O Diretor do FBI me disse. – Até segunda ordem, estará em casa e não terá mais contato com esta operação. Nenhum contato. Pegue suas coisas e vá para casa.

Engoli em seco, porém, com a cabeça levantada, aceitei a ordem.

— Senhor. Senhora. – Passei por eles me despedindo e fui para a minha mesa, pegar minhas coisas.

Deixei o andar do Contraterrorismo e fui direto para a garagem onde meu carro estava estacionado. Estava agindo como um robô, eu não tinha reação nenhuma. Tudo estava no automático.

Até que cheguei em casa e vi meus filhos. Quando peguei minha menina em meus braços um pensamento passou como um raio por minha mente. De que talvez, a Diretora Shepard, ou como a conheço, a Sra. Gibbs, nunca mais vá abraçar a própria filha novamente. Tudo porque eu cometi um erro gigantesco.

Comecei a chorar de desespero.

Pois, estando suspensa, eu não poderia ajudar a minha amiga maluca.

— Desculpe, Liz. – Murmurei no escuro.

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Elizabeth

Eu não tinha muita certeza de quanto tempo eu fiquei fora do ar, mas sabia exatamente que horas eram. Eram três da tarde, pois a mesquita mais próxima chamava os fiéis para a oração da tarde.

Isso me dava um horário e uma localização aproximada, pois, me indicava que eu ainda estava dentro de uma cidade. O que era bom! Ser levada para as montanhas seria um problema sério, mas estar na cidade, me dava a chance de escapar, ou de, pelo menos, tentar comunicação com alguém.

Com pouco que acordei, Mann apareceu, deu uma boa checada em mim e, depois de me bater, saiu falando que eu não sobreviveria muito mais. Mais um tempo se passou, a oração da noite foi informada pelos autofalantes da mesquita e, pouco depois, dois homens entraram, me pegaram pelos cabelos e me arrastaram para outra sala.

Nessa sala tinha todo um aparato de comunicação e vídeo. Isso era um péssimo sinal. Eles iriam me torturar e transmitir ao vivo pela internet. Internamente quis que o NCIS estivesse na Força Tarefa, assim essa filmagem cairia nas mãos de Abby e ela saberia o que fazer para me encontrar...

Só que o NCIS não estava, nem a BAU, o que me indicava que Garcia também não poderia me ajudar...

Os dois homens trocavam uma conversa amena, depois olharam sorrindo para mim e, com um inglês carregado de sotaque me informaram:

— Você vai nos contar tudo.

Fiquei intrigada com essa declaração, contudo, para meu azar, minha curiosidade foi satisfeita não muito depois. Um terceiro homem entrou com uma seringa na mão e, sem cerimônia, me aplicou o líquido, dizendo que tinha me aplicado o soro da verdade.

Isso era ruim... muito ruim.

— Agora era só esperar começar a fazer efeito. – Ele comentou e me deixou sozinha e sem amarras na sala.

Olhei em volta um tanto desesperada em volta, não havia absolutamente nada que eu pudesse usar como arma. As únicas coisas eram realmente os equipamentos de comunicação.

Observei com interesse a fiação e vi ter uma ligação de fibra ótica.

Internet!

Pelo menos uma boa notícia.

A má notícia, era bem provável que a maioria dos sites fossem bloqueados, para evitar que o Governo do meu país rastreasse o que eles faziam.

Eu teria que ser esperta. E usar todo o conhecimento que obtive com Abby, Tim e Pen.

Ponderei e, depois de pensar muito e perceber que a minha cabeça começava a doer, tive a mais estranha das ideias.

Isso poderia me salvar ou me matar.

E eu torcia muito para que Elena não ferrasse com tudo de novo.

Sim, de novo, porque só pode ter sido aquela boca de sacola que me entregou para os terroristas. Aquela sonsa deve ter ficado muito orgulhosa de si mesma e falado demais. Ela era assim. Ficava nervosa ou empolgada demais, e a língua ficava soltinha...

Que Deus me ajuda e que alguém socorra Elena agora para que eu saia daqui viva.

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Elena

Cinco dias haviam se passado desde que eu fora suspensa da Força Tarefa e do FBI. As únicas pessoas que passaram aqui em casa foram minha mãe, tio Derek, tia JJ e, claro, tia Pen.

Todos eles com palavras de conforto, dizendo que já tinham colocado tudo a perder uma vez, mas que isso não era o fim do mundo.

Eles falavam isso porque não tinham visto a expressão de desgosto de meu pai e, pior, o olhar raivoso da Diretora da CIA para mim. Sinceramente, como alguém sobrevive ao olhar daquela mulher? É medonho!

E, desde então, eu estou em casa com meus filhos, meu adorado marido, trabalhando até altas horas.

Estava colocando Thomas na cama, e, ao ligar a babá eletrônica, ouvi um chiado estranho. Isso não era comum, achei que a bateria estava fraca e levei para a cozinha para trocar a pilha. Não ouvi mais nada. Porém, quando coloquei Paget para dormir, escutei o mesmo som.

— Mas as duas resolveram dar problema hoje? – Reclamei alto.

— Graças a Deus você me ouviu, sua amiga da onça! – A babá eletrônica falou, assim como a Alexa que eu tenho na cozinha.

Assustada e me achando fora da minha cabeça, joguei a baba eletrônica longe.

— Por Odin, Mortícia! Não faz isso, quase que eu fico surda aqui! – A voz de Elizabeth saiu alta e clara da Alexa.

— Você morreu e veio me assombrar, não é? – Comecei a chorar. Não sabia se pegava meus filhos e saía correndo de casa ou se chamava um padre para exorcizar minha casa.

— É claro que você iria pensar nisso, não? Culpa mata, viu? – Ela me respondeu. – E, obrigada por me entregar para esse bando de gente desgraçada. Esses idiotas me aplicaram até soro da verdade.

E, aos poucos, a ficha caiu, Elizabeth conseguiu estabelecer contato sabe-se lá Deus de onde.

— E como você conseguiu fazer isso? – Perguntei diretamente para a Alexa.

Ela deu uma risada.

— Invadi a sua rede doméstica. Bem que Tim comentou que ter tudo conectado era perigoso. Começo até a achar que meu pai já sabia disso, por isso tem aquele celular jurássico. E, também, era o lugar mais fácil para invadir, tendo em vista a idade do computador que eu tenho em mãos e, a velocidade de lesma da internet...

— Por que eu?

— Porque você não tem os quinhentos milhões de firewalls da CIA e do FBI! E, além do mais, quem que coloca como senha da Wi-Fi Fearless3112x2? Sério Elena! A senha do seu Wi-Fi é o nome do seu álbum favorito da Taylor e o nascimento dos seus filhos e como são dois, você me coloca x2? Isso foi fácil demais de descobrir! – Ela começou a rir e, pensando no que ela havia falado, a minha senha era muito ridícula.

— Não foi para rir da minha senha que você estabeleceu contato do fim do mundo...

— Ah! Agora aceitou que eu não estou no “outro mundo”, mas no fim do mundo. Já é uma melhora! E, sim, eu precisava de um lugar onde não tentariam me bloquear, só me deixar surda mesmo...

— E...

— ELENA!! VOCÊ É UMA AGENTE DO FBI!! ESTÁ NA FORÇA TAREFA! CHAME TODOS! ME AJUDE! EU JÁ FIZ MAIS DO QUE A MINHA PARTE! – Ela gritou.

— Como... e, eu não faço mais parte da Força Tarefa... meu pai...

— Elena! Você continua com um distintivo. Faça algo. Eu não posso ficar batendo papo com você, mas vou deixar a comunicação ligada. Tudo o que acontecer nessa sala, você vai ouvir! – Liz falou e eu pude escutar uma porta ser aberta e alguém falar algo em árabe. Eu não falava árabe, mas Liz sim, e ela retrucou com uma frase um tanto sarcástica demais. Definitivamente o soro da verdade estava fazendo efeito.

Em desespero para salvar a minha amiga, coloquei a Alexa no mudo, eu só poderia ouvir o que acontecia do outro lado e liguei para meu pai.

— Aconteceu alguma coisa com meus netos, Elena? – Ele estava tão decepcionado comigo depois do que aconteceu, que nem queria saber de mim.

Para manter as cosias bem profissionais, usei o seu título.

— Diretor Hotchner, Elizabeth entrou em contato.

Escutei uma cadeira ser arrastada, uma porta ser aberta.

— Eu te ordenei manter distância dessa operação, Agente Hotchner. Um afastamento foi pouco para você? – Ele disse possesso.

— Ela entrou em contato comigo, senhor. Elizabeth invadiu a rede doméstica da minha casa e está em contato comigo. – Coloquei o celular perto da Alexa e aumentei o som. Era possível ouvir que interrogavam Liz, com coisas bobas, e ela não dava respostas diretas, mas contava histórias mirabolantes.

— O que ela está falando? – Meu pai questionou assustado.

— Ela me falou que deram a ela soro da verdade...

— Isso é muito ruim... Ela não foi treinada para isso. Elizabeth é uma reles analista!

Achei um tanto grosseiro o que ele disse... Liz tinha feito muito até agora.

— O que o quer que eu faça, senhor?

— Fique na linha e me deixe o interrogatório de Elizabeth aberto.

E foi eu o que fiz.

Com pouco, uma equipe do FBI e outra da CIA, assim como agentes e técnicos chegavam na minha casa e, bem, o interrogatório de Liz ficava cada vez mais estranho, não as perguntas, mas as respostas que ela dava.

Definitivamente Elizabeth estava fora da casinha, estava doidinha de tudo.

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Elizabeth

Elena pode ser devagar de raciocínio de vez em quando, ao invés de sair ligando para o pai e informando que eu tinha entrado em contato, ela achou que eu era uma assombração.

E, agora, eu espero sinceramente que ela tenha feito algo de útil e chamado até os Fuzileiros, porque eu não sei se vou sobreviver por muito tempo....

O cara, que eu não sabia o nome, voltou para a sala, apontou uma arma para mim e me mandou me sentar, me algemando com as mãos para trás. Eu estava presa e sem chance de me libertar, mesmo que eu tentasse deslocar meu dedo. Já ele, puxou uma cadeira e se sentou na minha frente, a uma distância segura de minhas pernas, caso eu cismasse de chutá-lo, o que, claro, passou pela minha mente.

— Então, Analista Shepard-Gibbs, vamos conversar... esse é o seu nome de batismo, sim?

E eu imediatamente soltei:

— Não. – Pior que era verdade... que ele não acreditou.

— Vamos começar de novo. Seu nome de batismo.

— Elizabeth. – Confirmei, mas tive o espírito de morder minha própria língua e evitar que o restante do meu nome saísse.

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Elena

Tinha muita gente na minha casa para ser tão tarde. A minha cozinha e minha sala de TV estavam abarrotadas de gente, uma mesa de transmissão foi montada e todos os dados coletados da minha rede doméstica estavam sendo encaminhados para o FBI e para a CIA, isso tudo porque a analista do Departamento de Defesa, também chamada de minha amiga, estava falando pelos cotovelos.

Literalmente.

Junto com os agentes e técnicos e analistas, vieram Diretor Hotchner e Diretora Shepard, que parecia que não dormia há dias. Observei de longe a reação dela quando ouviu a voz de Liz, foi de um alívio tal, que pareceu que ela rejuvenesceu uns dez anos.

E, com todos em silêncio, o volume da conversa, que agora não saía da minha Alexa, mas sim das potentes caixas de som que os técnicos da CIA trouxeram, invadiu a minha casa.

E uma voz carregada de sotaque assim questionava.

— Você não está se ajudando, Elizabeth. Eu te fiz perguntas simples, e você não respondeu nenhuma.

Uma risada e veio a resposta.

— Porque não quero. Nem te conheço para te falar meu nome, onde moro ou que faço.

Alguém tentou segurar a risada, mas falhou.

Algo foi arremessado na sala onde Liz estava, e o homem voltou a falar:

— Seu nome de batismo é Elizabeth Shepard-Gibbs, você é analista do Departamento de Defesa e está aqui no Paquistão por conta de uma força tarefa, não é mesmo?

— Não. Tem coisa errada aí. – Disse Liz.

— O que está errado?

— Descubra. – Ela desafiou.

O som de um tapa ecoou no ambiente.

— Sinceramente, se você bate em todos que não te dão as respostas que você quer, você é um péssimo pai! O meu jamais faria isso.

— Então você tem um pai.

— Claro! Todos temos. Biologicamente é impossível que uma mulher tenha um filho sozinho, sua anta! – Respondeu Liz.

— Vamos falar do seu pai.

— Claro, vamos lá. Quer saber o que?

— O que ele faz?

— Agora? – Liz perguntou. – Deve estar caçando um jeito de descobrir onde estou, para assim, descobrir quem é você, e vir até aqui para te matar. – Ela disse simplesmente.

— Pior que isso deve ser verdade. – Alguém murmurou.

— É mesmo. Então ele é um espião?

E lá veio outra risada de Liz.

— Ele é muito pior do que isso. Muito pior. Se eu fosse você, sairia correndo enquanto pode. Porque ele não virá sozinho

— E o que ele faz? Será que é difícil de você me contar?

— Barcos. – Disse Liz simplesmente.

Era verdade, só que o cara não estava comprando as respostas dela.

— E tem uma estranha mania de adorar perturbar a minha mãe. É meio que um instinto suicida, sabe. Ninguém mexe com ela. E, também, adora reviver aquele carro velho que ele tem, Te juro, o seu carro pode ser velho, mas não é tão velho quanto o dele. Céus! Eu não sei o porquê meu pai gosta tanto de carro velho. Aliás, deve ser coisa da profissão, Sean também gosta. E eu odeio carro velho. Tem anos que eu não dirijo um carro de verdade. Saudades dos carros chiques da minha mãe, de quando eu andava em grande estilo por aí. Só em carrão com ar-condicionado, banco de couro, teto solar, sistema de som e GPS integrado ao painel... pergunta se aquela coisa velha e horrorosa do Sean tem isso? NÃO!!!

— Por que não anda mais? – O interrogador achou uma brecha.

— Ou eu dirijo aquela caminhonete velha do Sean, ou vou de transporte público... só assim para me locomover.

— E para onde você vai?

E aqui Liz parou.

— Não é dá sua conta.

— Claro que é, talvez possa te ajudar.

Liz não respondeu nada, mas conhecendo minha amiga doida, ela deve ter lançado aquela encarada na direção de quem a perguntava.

— Então, vamos tentar uma outra abordagem... Vamos testar algo.

— Testar o que?

Uma cadeira foi arrastada, um suspiro ecoou no cômodo e a pergunta mais estranha chegou aos meus ouvidos.

— Diga-me uma verdade.

Fez um silêncio absurdo, até que Elizabeth respondeu:

— Você é feio.

Parecia uma resposta de uma criança de cinco anos, mas dadas as circunstâncias, e o fato de ela estava induzida pelo soro da verdade e tem um gosto muito específico por homens, na verdade ela gosta de um homem em específico, era verdade.

E ela continuou, como se quisesse ser morta, ou no mínimo, estapeada novamente.

— Pelo que vejo, não te falam a verdade sempre, né? Sei que a verdade dói, mas é isso. Você é feio. Agora temos que ver de qual lado da família você herdou isso aí. Porque, cara, não salva nada...

— Você está brincando com a minha cara? – O homem perguntou, seu tom de voz era de uma pessoa que tinha sido mortalmente ofendida.

— Você me aplica o soro da verdade, me pede uma verdade e dá um ataque histérico quando falo a verdade! Ah, tem dó! Aceita que dói menos. Talvez, se você sair vivo disso aqui, você possa fazer uma cirurgia plástica, uma harmonização facial ou qualquer coisa do tipo. Você me pediu sinceridade, eu estou te dando! – Ela para, respira, e depois solta: — Céus, minha cabeça está doendo. Eu estou mais alta do que quando eu estava de ressaca.... sabe, eu bebi uma vez só na minha vida, fiquei doidona, não consegui entrar em casa, assim escalei a árvore que dá para o meu quarto, meu antigo quarto, não moro mais lá, só que eu não consegui chegar na janela... quase que eu despenco como uma jaca no chão... meus pais que me salvaram, só que eu não me lembrei disso no outro dia e eu fiquei achando que eles não sabiam de nada..., pior que eles aprontaram comigo, inventaram um passeio de barco, e eu, que já estava ruim, vomitei as tripas porque a maré estava alta pra cacete... e tive que acabar contando que bebi todas. Desse dia em diante prometi que nunca mais beberia, mas estou considerando quebrar essa promessa se eu sair daqui, e entornar umas três garrafas de Bourbon do meu pai. Ele esconde tudo no porão, só para que a minha mãe tenha que comprar as dela, que ele bebe, sem ela saber... não que eles bebam todos os dias, mas acho que deu para entender, né? Meu pai não gosta de dividir as coisas, por isso esconde da minha mãe, assim como ele tem um estoque de chocolate também, mas esses são para os dias em que a minha mãe está de TPM. Ele sempre aparece com um para ela se acalmar, para que ela não arranque a cabeça dele... e Deus sabe que ela pode sim, arrancar a cabeça dele com um golpe.

E Liz continuou falando um monte de asneiras, um assunto puxava o outro, e ela ia falando. O mais engraçado, ela não dava nenhuma informação útil, nenhuma. Mas contava histórias que dava para rir.

Até que ela falou de mim.

— Eu te juro, um dia eu ainda vou matar a Mortícia. Aquela sonsa se acha muito inteligente, mas é uma anta tem hora. Imagina! Ter ela como amiga, ninguém precisa de inimigo. Desde que eu a conheço, ela vive me encrencando. E até longe de mim, conseguiu me ferrar. Eu vou estrangular aquela maluca quando eu sair daqui. Ah eu vou sim!

— Você não vai sair daqui. – O cara disse com voz cansada, como se toda a falação da Liz tivesse esgotado a paciência dele.

— Olha aqui, feioso, eu vou sim. Você só pensa que eu não vou.

— Como é que pode?! Você não para de falar, mas não fala nada de útil! – Ele gritou e abriu a porta. – Quanto mais eu vou ter que aturar dessa falação sem sentido até que esse soro passe? Talvez seja mais fácil fazê-la falar quando ela estiver sóbria.

Uma segunda voz, apareceu.

— Foi dada uma dose cavalar de soro da verdade nela. Ela vai falar por quase mais doze horas.

— Sem querer ser mal-educada aqui, será possível vocês me trazerem uma água? Estou com sede! – Liz interrompeu a conversa.

Não sei o que aconteceu, mas a porta foi fechada.

— Qual é! Eu estou presa a essa cadeira, algemada! Só quero água! Tudo o que você bebe é CAF-POW! E eu conheço alguém que também bebe isso! Aliás, eu bebi isso uma vez... quando estava na faculdade. Misturei com café, energético e chocolate, achei que nunca mais iria dormir! Sério, fiquei mais doida que aquela música brasileira... “Eu nunca mais vou dormir... ah que isso Michael Douglas...” Oi.... Ei! Água, por favor! – Elizabeth pediu. – Cambada de gente sem educação. Negando água. – E ela começou a proferir um monte de palavrões em vários idiomas.

— Pode abaixar o volume agora. – Disse a Diretora Shepard. – Temos alguma localização aproximada?

— Sim, estão em Islamabad. Estamos cruzando algumas informações. – Disse um analista.

— Ótimo.

E foi quando escutamos Liz falar.

— Ainda está por aí, Elena? Se estiver, pode, por favor, me dizer se estão me procurando? Eu já estou cansada de ficar aqui. E tenho a estranha impressão de que não vou durar muito tempo.

Ninguém falou nada, para que não fosse vazado, ou pior, rastreado, assim ela continuou a falar.

— Entendi, vou falar o que sei até agora. Tem uma americana com eles. Hollis Mann, do Departamento de Defesa. Não sei onde ela está, não a vi desde que cheguei aqui. Estou perto de uma mesquita, acabou de chamar para a oração da manhã. Estou usando um modem de fibra ótica. Mas a conexão não passa de 50mb/s. O computar parece saído da época da guerra fria... mal aguenta uns comandos simples. O endereço de IP é 192.888.903, eu consegui pegar alguns documentos e jogar na nuvem da conta da Elena, já deve ter feito o upload, mesmo nessa velocidade de lesma, peçam para ela a senha... E, só mais uma coisa, se eu morrer aqui, e eu estou começando a achar que vou, porque ao que parece a dosagem do soro da verdade foi muito alta e eu estou me desidratando muito rápido, eu gostaria de falar para o Diretor Hotchner que não foi culpa da Agente Hotchner o que aconteceu, tinha uma infiltrada do lado de cá, a operação já estava comprometida, Senhor, assim, não tem motivos para ter afastado a sua agente. E nem estar possesso com ela, como eu sei que o senhor deve estar, afinal, ninguém da sua família pode errar, né? Todos têm que ser perfeitos, né? E, queria que falassem para a minha família que eu amo todos eles...amo as qualidades e os defeitos de cada um... e que me desculpem por não ter conseguido voltar para casa, como prometi ao meu pai, antes de sair. E, Elena, eu sei que você vai conseguir fazer isso, por favor, não deixe que o Sean faça nenhuma besteira, O Marine Suicida vai ficar meio possesso com tudo isso, e vai querer vingança, não deixe que ele se encrenque por minha causa, por favor. Ele merece ter uma vida feliz, e, mais calma do que a que tem comigo.

E Elizabeth ficou em silêncio.

Os técnicos pegaram as informações que ela havia passado, tanto pelo endereço de IP, quanto pelo arquivo na nuvem. Era muita coisa, tanto que, quando foi feito o download, foi repassado para cada agência responsável.

Liz, mesmo presa, tinha achado vários planos e nomes de alvos, agentes duplos e terroristas e células espalhadas por todo o mundo.

— Isso aqui não é trabalho de uma reles analista nunca! – Comentou um técnico da CIA e jogou as informações na tela para todos, aqui em casa, e nos prédios da FBI e da CIA verem.

— Mais quanto tempo até que cheguem no esconderijo? – Diretora Shepard perguntou e, eu acho que percebi um certo tom de aflição na voz dela, como se, lá no fundo, ela achasse que Liz também não tinha muito tempo.

— Mais duas horas, senhora. – Confirmaram.

— Mantenham-me informada. Vou acompanhar de Langley. – Ela falou séria e, antes de sair, passou perto de mim e somente falou. – O que Liz disse é verdade, não é a sua culpa, Elena, nada disso é sua culpa. – Falou essa encarando o meu pai.

— Não foi o que pareceu que a senhora pensava quando fui suspensa. – Soltei sem querer.

— Não estava encarando você, Elena, mas o Diretor que te afastou. Você tinha condições de ter descoberto onde era o esconderijo, porque a sua suspeita tinha baixado a guarda e iria acabar falando. Só que você abandonou cedo demais o interrogatório e tomaram a decisão errada ao te afastarem. Se não tivessem feito isso, tudo já teria terminado. – Ela me confirmou.

— E quanto a Liz?

E foi aqui que a fachada de diretora caiu e eu vi a mãe da Elizabeth.

— Somente saberemos quando ela for resgatada. – Falou simplesmente e deixou minha casa, já ligando para alguém.

Fiquei parada na porta, tendo meus filhos sido levados por minha mãe para que não escutassem o que não deveriam, não sabia o que fazer, uma vez que já não havia mais nada... só esperar e escutar o que aconteceria daqui um tempo.

— Shepard tem razão, filha. Assim como Liz. Fui duro demais com você naquela tarde. Você não fez nada de errado. – Meu pai comentou ao parar do meu lado.

Não falei nada e ele continuou a falar.

— Não é que eu busque a perfeição em tudo o que você e Jack fazem... eu só acho que vocês possuem muito mais potencial para ser desbloqueado e, às vezes, os dois desistem cedo demais.

— Eu não desisti ali. – Murmurei.

— Você saiu da sala.

— Ela não poderia saber que me chamar de nepobaby me afetaria.

— Mas te afetou.

— Sua presença do outro lado do vidro foi pior do que a verdade que ela me jogou na cara. Bem que Jack tinha me dito que o senhor é pior do que qualquer chefe de sessão que pudéssemos ter, o senhor julga cada palavra que falamos, não o resultado final. Só gostaria de te dizer, Diretor Hotchner, que eu não sou igual ao senhor, nunca fui e que cada um age de forma diferente. Sim, eu admito que cometi um erro bobo naquele interrogatório, isso eu posso admitir, mas gostaria de que tivessem me dado a chance de me redimir. Pena que nunca terei essa chance, não é mesmo? – Encarei meu pai e depois saí para o passeio, precisava tomar um pouco de ar.

Duas horas e meia depois, conseguiram localizar e resgatar Liz. Prenderam alguns, mataram outros. Minha amiga estava desacordada quando foi encontrada, caída no chão da mesma sala onde havia sido interrogada, livre das algemas e com o dedão deslocado. No final, ela ainda tinha tentado se salvar.

Ela foi levada para o hospital e daí para frente eu não tive mais notícias dela.

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Um ano depois.

Eu juro, não sei como fui coagida a estar aqui. Eu não sei. E sim, eu fui coagida. Nos últimos doze meses tudo o que a minha família falou acabou aqui.

Mas vamos por partes que a história é longa.

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Depois que eu fui sequestrada, torturada, interrogada sob os efeitos do soro da verdade, interrogatório esse em que eu falei muitas besteiras, inclusive algo sobre carros velhos, meu pai esconder o Bourbon dele e beber o da minha mãe e ainda falei uma ou duas verdades, que deveriam ficar só na minha cabeça para o Diretor do FBI, eu acabei sendo resgatada por um grupo de SEALS e levada a um hospital da capital do país.

Não, eu não me lembro do resgate, estava desmaiada/em coma/dopada demais para me lembrar. O fato é que, me encontraram, jogada no chão de uma sala, e eu tinha um galo enorme na cabeça e o dedão da mão deslocado, em razão de eu ter feito a famigerada “Fuga de Jersey”. Meu estado era tão preocupante devido a desidratação, que os meus salvadores acharam que eu tinha morrido. Mas, mesmo assim, fui levada para um hospital, com segurança 24 horas, onde, dois dias depois, acordei sem entender como fora parar ali. Lá fiquei por uma semana, sendo liberada e trazida para casa dentro de um avião cargueiro.

E foi chegar em casa que a chantagem começou, ou pelo menos é assim que eu chamo a falação que minha família aprontou na minha cabeça.

E olha que eu nem fiquei tanto tempo sumida. Antes eu dava sinal de vida para a Diretora da CIA, quase todo dia, tudo bem que a Força Tarefa levou mais tempo do que o previsto e eu fiquei uns quatro meses lá, mas, poxa, era meu trabalho.

Porém, contudo, todavia, minha adorada família não pensava assim. E tinha um que estava de cabelo em pé.

Não, não era meu pai. Ele sabia como eu estava porque ele, literalmente, dorme do lado da Diretora da CIA, que é a minha mãe, assim ele sabia de quase tudo, e quando ele não soube, ele quase resolveu o problema por ele mesmo, exatamente como eu disse que ele faria naquele interrogatório, que mais parece uma cena de filme de ficção científica na minha cabeça.

Quem estava de cabelo em pé era Sean.

Tudo porque ele foi deliberadamente deixado de fora.

Porque ele é apenas meu namorado/noivo/namorido.

E nenhuma dessas classificações se encaixa como parente, o que significa que ele não foi informado, lá em Para Lá de Deus me Livre, onde ele estava de missão, que a namorada/noiva dele estava em maus lençóis (e falando mal do carro dele) no Paquistão.

Acontece que fofoca voa, ou melhor, nos dias de hoje, chega por SMS ou por WhatsApp mesmo.

E ele ficou sabendo pelos canais não oficiais, ou sendo bem direta, pelos fofoqueiros da minha família.

E foi aí que a vaca foi para o brejo. Porque ele quis ser informado de tudo. Só que não podia. E ele também não podia ficar dependurado no celular para se inteirar das fofocas que contavam por lá, pois estava em missão.

E isso resultou no bonito indo ao superior dele e pedindo para falar com a Diretora da CIA.

Alguém já viu um Sargento Atirador querer falar com a Diretora da CIA?

Eu nunca vi, meu pai também nunca tinha visto... só que Sean cismou que ia conseguir.

E ele conseguiu.

Conseguiu uma suspensão da missão e ter que ficar aquartelado, preso, por dois meses.

Sim, meu noivo foi preso por desobediência. Estava agora na ficha, que até então era impecável, que ele desobedeceu a ordens diretas de um superior, foi insubordinado e outras coisinhas, por isso, cadeia nele.

E, a essa altura, eu já tinha sido resgatada e estava em um hospital de Islamabad.

Quando eu voltei para o país, estranhei o fato de que Sean não estava lá para me receber, e foi aí que me contaram.

E, sabem qual foi a minha reação?

Mesmo toda ferrada, ainda com uns hematomas no rosto e, meio desidratada, pedi para que fosse levada até a base de Quântico, que era onde o Sean estava preso.

Foi um custo para liberarem a minha entrada, mas foi com uma carteirada aqui e outra olhada mortal dali, consegui ver Sean.

Ele ficou morto de feliz em me ver. Claro que ficaria, a noiva dele tinha sido resgatada com vida e tudo mais. Já eu, eu soltei poucas e boas para ele, gritando para todo o quartel ouvir que ele tinha sido o maior irresponsável da história, que ele, como um Fuzileiro, deveria ter seguido ordens. Eu não me lembro de muita coisa que falei depois disso e, segundo me contaram depois, eu xinguei Sean por quase uma hora seguida, sem parar para respirar.

Depois fui embora sem nem olhar para trás.

Uma semana depois, dois dos companheiros de batalhão de Sean apareceram lá em casa, estavam levando uma carta (uma carta! Olha como meu namorado/noivo ainda está no século XV!!) de Sean para mim, já que eu não apareci mais na base (e nem ia! Tinha coisas para fazer no Departamento de Defesa e além de uma reunião com os Diretores do FBI, CIA, e todas as sopas de letrinhas existentes) e, dessa visita, eles deixaram escapar uma conversa que rolava na base e no grupamento, e, por lá diziam que eu era pior do que qualquer comandante de missão de todo os Fuzileiros. E que graças a Deus eu não escolhi ser Fuzileira, ou eu ia matar 90% dos batalhões só no grito.

E olha que eu nem estava sob o efeito do Soro da Verdade...

Bem, dois meses se passaram, Sean foi solto e perdeu uma patente, e, quando foi o dia de ele efetivamente ser liberado da prisão, eu não fui buscá-lo, apesar de que ele havia me pedido por isso.

A explicação para isso é a de que eu estava trabalhando como analista em outra missão importante, em outra Força Tarefa, dessa vez direto de D.C. e, um, não me lembrei que era exatamente nesse dia que ele seria solto e; dois, mesmo se tivesse lembrado, eu não iria pegá-lo na porta da base. Ele ainda tinha uma lição para aprender.

— Eu acho que não é assim que você deve tratar o Marine Suicida... – minha mãe, que agora eu poderia chamá-la de mãe, uma vez que o expediente tinha terminado e a missão foi um sucesso, comentou comigo enquanto íamos para o estacionamento.

— Ele fez a besteira.

— E já pagou por ela, Elizabeth.

— Não me chame de Elizabeth, faz-me sentir como se eu tivesse 8 anos!

— Mas você deveria ter ido buscá-lo.

Olhei bem para minha mãe, agora estávamos na porta principal de Langley e o carro dela estava parado logo na frente, para que ela não se molhasse e, também, porque ela é a Diretora e tem tratamento especial.

— A senhora só esqueceu de um ponto muito importante.

— Que seria? – Ela levantou uma sobrancelha na minha direção.

— Eu estava trabalhando. Abandonar meu posto no meio da missão seria considerado uma falta terrível, e, assim, seríamos os dois rebaixados de função, e eu acabei de subir para cá.

Sim, depois da Missão no Paquistão, e de tudo o que eu descobri lá, eu fui promovida. Fui catapultada de ser uma mera Analista do Departamento de Defesa para uma agente da CIA, para a infelicidade do meu pai....

Mamãe me lançou um olhar mortal e depois falou que eu tinha herdado todos os defeitos dos Shepard, que não salvou nada.

Que bom que ela acertou o sobrenome dessa vez, porque da última ela disse que eu era uma autêntica Gibbs... sendo que, na teoria, eu não sou uma Gibbs, não de sangue, assim é um tanto impossível que eu tenha herdado algo, eu posso ter adquirido alguma mania dos Gibbs, mas passou por osmose depois de tanto tempo de convivência...

Enfim, minha mãe me passou um sermão na porta da CIA, com alguns agentes escutando uma ou outra palavra, mesmo que nossa discussão estivesse em francês e, depois, ela olhou o tempo e falou:

— Diga-me que pelo menos ele tem a chave de casa....

— Então... eu tive que trocar as fechaduras e o alarme, né? Papai fez esse favor para mim...

— Sean está na rua, debaixo desse temporal?

— Teoricamente ele deve estar o lobby do prédio... não na rua, se é que ele já chegou em casa.

— Ah, Elizabeth... não é assim que você vai resolver as coisas. Aliás, pela minha experiência, você só tem dois caminhos a seguir com o Sean...

— Dois? – Perguntei intrigada.

— Um que você não quer, porque sabe como é, e o outro que você não quer porque é teimosa demais para aceitar a verdade. – Ela falou em enigma comigo e entrou no carro.

Minha mãe se foi no carro e eu fui andando até a estação de metrô mais próxima, minha mais recente promoção ainda não tinha me pagado o suficiente para comprar um carro legal, e eu me recusava veementemente a dirigir a lata velha de Sean, que depois de estar parada por quase cinco meses, deve ter morrido de vez.

Cheguei na plataforma do metrô um tanto encharcada demais, porque um carro resolveu jogar água em mim e, alguns minutos depois, estava eu pingando água no chão do vagão. A parte boa, não ficou um perto de mim.

Alguns minutos depois, fiz a baldeação para outro metrô, para a linha que me deixaria mais perto de casa e, enquanto estava na plataforma aguardando o trem chegar, eis que alguém puxa a alça da minha bolsa. Eu, que não sou boba nem nada, que fui treinada por uma Ninja do Mossad e por um agente condecorado do FBI, além de um Marine dos bons, preparei o golpe de cotovelo, que me faria virar e pegar a faca que levo em meu cinto, para então imobilizar a pessoa que tentava me assaltar e subjugá-la com a faca no seu pescoço.

— Calma aí, Teimosa! – A voz de Sean preencheu meus ouvidos e ele interceptou rapidamente meu golpe. – Achei que nós íamos nos encontrar em Quântico, não no meio do caminho. Cadê o carro?

— Deve ter morrido. – Comentei casualmente.

Pude ouvir que ele revirava os olhos. Porém, ele mudou de assunto. O assunto carro era um tanto delicado, pois sabe-se lá como ele ficou sabendo que eu andei reclamando do carro dele para quem quisesse ouvir.

— Não vai falar mais nada? São cinco meses, Liz.

Foi a minha vez de revirar os olhos.

— Tudo bem, dessa vez eu mereci. – Ele interpretou o meu silêncio de forma correta. O que era um milagre. – Mas, mesmo assim, são cinco meses, ou algo mudou?

E foi aqui que o enigma da Diretora da CIA fez sentido.

Duas opções para mim. Casar ou terminar tudo.

Não, na minha concepção, havia uma terceira, permanecer como estávamos, que estava muito bom.

— Nada mudou. – Foi a minha resposta. – Tudo está igual.

Senti a sua mão puxando a ponta de meu cabelo e depois ele fez um som de desgosto.

— Você pintou o cabelo?

— Fazia parte do disfarce. Não deu muito certo, mas eu segui todas as ordens. E agora eu tive que cortar para ver se a tinta sai mais rápido. – Informei.

Ficamos em silêncio, para o nosso azar o trem estava atrasado e, cada minuto que passava, a plataforma ficava cada vez mais cheia. Sean deu um passo para perto de mim, quando um engraçadinho tentou entrar no meu espaço pessoal, não vi o que ele fez, mas o cara em um piscar de olhos, achou outro canto para ficar.

Meu noivo trocava o peso do pé a cada dez segundos, sim, eu contei e, por fim, isso me irritou tanto que eu tive que falar:

— Acho bom você pôr para fora tudo o que está na sua cabeça, antes que você se engasgue.

— Por que você não foi à Quântico? – Ele começou, logo que ele conseguiu me fazer olhar para ele.

— Muito trabalho. Fui promovida.

— Dentro do Departamento de Defesa?

— Não. Para outra agência.

— Não me diga que... – E então ele parou e viu onde estávamos. – Você foi para A Agência?

— Sim.

— Vão tentar te matar de novo lá? – Ele perguntou azedo.

— Quem me entregou para você sabe quem estava no Departamento de Defesa e não na Agência. – Informei.

— Até hoje não entendi muito bem o que aconteceu lá...

— Nem eu. Perguntei, mas me disseram que era confidencial.

— E você deixou para lá? Atípico...

— Não quero lembrar do que passei. – Disse finalista e me virei para ver se era o nosso metrô que chegava, não era.

— Desculpe. – Ele disse depois do que falei, quase lancei a regra #6 para ele, mas não o fiz, apenas meneei a cabeça em concordância.

— E sobre as consequências do que fiz...

— Você acabou de pagar por elas. – Respondi.

— E dei uma prejudicada no nosso orçamento.

— Vamos sobreviver. Não é como se tivéssemos filhos ou qualquer coisa assim. A única coisa que teremos que adiar é comprar a casa. Nada demais.

— E tem outra coisa que eu gostaria de conversar com você... – Ele falou no meu ouvido. Afinal, nossa conversa era toda sussurrada no meio da plataforma lotada.

— Continue.

E ele só soltou uma palavra.

— Casamento.

E eu fui salva pelo gongo, pois o trem chegou na plataforma e nós dois nos esprememos para conseguir entrar e, durante a viagem de alguns minutos, não conseguimos conversar mais nada.

Foi com alívio que vi a plataforma de destino chegando e, com um suspiro de felicidade, sai do vagão claustrofóbico e me encaminhei para as escadas. Sean ia do meu lado, esperando a melhor hora para continuar com a famigerada conversa.

Atingimos o nível da rua e, para minha infelicidade, continuava a chover.

— O que é mais um pouco de água para quem já está enxarcada... – Comentei infeliz e abri a sombrinha, estiquei meu braço para tentar tampar Sean, mas ele recusou, estando de uniforme, ele não poderia cobri-lo com nada.

Assim fomos nós dois, de mãos dadas, nos desviando das poças, eu com uma sombrinha e ele na chuva.

Chegamos em casa pigando, não tinha como não ser e, ele até tentou ser cavalheiro e abrir a porta para mim.

— Melhor não. Tive que trocar todos os segredos e o código do alarme. Suas novas chaves já estão no chaveiro do seu carro, e o código eu vou anotar para você. – Informei.

— Teve que trocar, por quê?

— Minha mãe falou que era porque eu sou da CIA agora, mas creio que foi paranoia do meu pai mesmo. Já que foi ele quem fez isso. Vai tomar um banho enquanto eu preparo o jantar. – Falei e sai empurrando o Marine pelo corredor.

— Você também está enxarcada.

— Meu cabelo está seco! Assim, é só trocar a roupa por enquanto. – Respondi e fui para a cozinha. Sabendo muito bem qual seria a conversa que tomaria conta do nosso jantar.

E não deu outra, a primeira coisa que Sean fez, foi recomeçar a conversa que iniciou na plataforma, falando em casamento, e nos motivos que nós tínhamos para nos casarmos.

Eu deixei que ele falasse. Até porque eu não concordava em nada com ele. Não mesmo. Nós já morávamos juntos, não havia motivos para mudar o status do relacionamento.

O melhor argumento dele foi o de que assim, caso acontecesse algo com um de nós, o outro seria o primeiro a saber e teria total acesso a todos os lugares.

Eu achei precipitado. Eu só tenho 25 anos, ele 27, nós não precisávamos correr com isso. Não ainda.

Para evitar uma briga, eu prometi a ele que iria pensar.

— Quanto tempo?

— Dois meses? – Chutei.

E ele fez uma carranca, mas aceitou.

Ou eu estaria me preparando para me casar em dois meses, ou era uma vez o meu relacionamento.

E, foi dentro desse prazo que as coisas mais estranhas aconteceram. Tendo Sean sido rebaixado de uma patente, ele teria que começar vários treinamentos do zero, assim, ele foi mandado para Pendleton por três semanas, e, nesse prazo, cada pessoa que eu encontrava, me perguntava sobre casamento.

Primeiro foi Abby.

Nós nos esbarramos no supermercado, e ela quis saber quando poderia preparar a minha despedida de solteira.

— Abbs... isso não vai acontecer. – Falei.

— Mas eu achei que depois de tudo, vocês dois iriam se casar! – Ela me respondeu inconformada.

— Abby, não precisamos. Meu pai custou aceitar que estamos morando juntos, não preciso de casamento para falar para todos que eu amo o Sean.

— Eu acho que não, mas tem muita gente que gostaria de te ver de noiva.

— Muita gente quem? Só o Sean.

— Acho que tem mais gente... – Ela disse toda misteriosa e, depois de pegar as coisas que ela precisava, foi embora.

Voltei para casa contando passos, pensando que agora eram duas, não três pessoas que tinham encucado com essa ideia.

Só que não parou por aí, no final de semana, minha mãe teve a brilhante ideia de fazer um churrasco em casa, chamou a família inteira e, claro, fomos Sean e eu.

E, em um determinado momento do almoço, Tali chegou para mim e me perguntou:

— Lizzy, eu vou ser a sua Dama de Honra quando você se casar, não vou? Assim como fui da mamãe e do papai?

Eu ia responder que até lá ela já estaria muito velha para isso, quando Morgan e Victoria vieram e me fizeram a mesma pergunta.

Três damas de honra. E pelo visto dois pajens, já tinha John e Adam na conta.

Eu não falei nada, e as meninas começaram a falar de vestidos, cores e flores.

Saí de perto com a cabeça doendo.

Um mês depois, e isso quase no prazo final que Sean me dera para respondê-lo, fomos jantar na casa de meus sogros. Para meu desespero, foi justamente no dia em que o irmão dele oficiou o noivado com a namorada.

E o papo foi só sobre casamento.... minha sogra não me perguntou nada diretamente, mas ficou me lançando olhares de tempos e tempos, como que esperando que eu fosse falar que marcamos a data.

E, no dia em que o prazo que Sean me dera para me resolver, eu dei uma de Jenny Shepard, desliguei meu celular e sumi do mapa. Ao invés de ir para casa, fui para a casa de meus pais e me escondi no porão.

Estranhamente ele não estava em casa, minha mãe, eu sabia que não iria para lá porque estava viajando e, sozinha na casa onde cresci, comecei a vagar pelo porão e depois subi para o segundo andar.

Notei que meu quarto ainda estava intacto, tudo do jeito que eu tinha deixado no dia em que me mudei com Sean, inclusive o bilhete que preguei no espelho da penteadeira agradecendo meus pais e dizendo que eu os amaria para sempre.

O escritório da minha mãe era o caos organizado de sempre, assim como o quarto deles. Dei um sorriso involuntário ao me lembrar dos murmúrios de desgosto de meu pai quando ele teve que aumentar o cômodo porque no closet não cabiam todos os sapatos e bolsas de mamãe.

Desci devagar para a cozinha, com fome, procurei por algo para comer, não achei nada pronto e resolvi fazer o jantar, acabei por comer sozinha, pois meu pai não apareceu e, aí sim, sem nada para fazer e sem ter a resposta que Sean gostaria de receber, desci novamente para o porão e fui bisbilhotar o que meu pai fazia, tudo para atrasar a minha chegada em casa.

O novo projeto, ainda não estava pronto, nem tinha um desenho por perto para me indicar o que era, mas percebi que ele mal tinha começado o que planejara, uma vez que a madeira não estava pronta, precisava lixar.

Peguei uma lixa nova na gaveta e comecei o serviço, lixando devagar, testando a textura da madeira até que ficasse lisinha.

Fiquei tão concentrada que não escutei que meu pai tinha chegado e estava parado no pé da escada, sentado, me olhando.

— Pelo menos disso você se lembra, já que ir para casa... – Ele falou.

Eu tomei um susto tão grande que quase que derrubei a mesa de trabalho dele.

— Não vi o senhor chegar. — Falei sem graça.

— Cheguei deve ter quase uma hora e meia, filha, inclusive até jantei. Obrigado.

— De nada.

— E você pode me falar o que faz escondida aqui ao invés de ter ido para casa?

Fiz uma careta.

— Pensando.

— Liz...

— É verdade! — Retruquei.

— Lizzy.

Respirei fundo e voltei a lixar a madeira.

— Elizabeth! – Ele me chamou.

— Eu não tenho a resposta que Sean quer. Acho que nunca poderei dá-la. Assim, estou adiando o fim. – Murmurei.

— Adiando o fim de?

Encarei meu pai. Ele, de todas as pessoas, sempre quis o fim do meu relacionamento. E, não foi nem uma, nem duas vezes que ele ameaçou Sean bem diretamente. Ainda mais depois que fomos morar juntos.

— Papai! O senhor sabe!

— O que eu sei, Liz, é que você é tão teimosa quanto a sua mãe. E que não está vendo direito o que está bem na sua frente.

Parei o que estava fazendo e olhei espantada para meu pai. Ele realmente estava me dando conselhos sobre meu relacionamento? Ele?

— Liz, você sabe muito bem o que quer. Só está com medo de oficializar tudo.

— Não acho que ter um papel vá mudar alguma coisa...

— Então por que você foge de todos quando alguém fala a palavra “casamento”?

— Porque, simplesmente é algo inútil. É um pedaço de papel, é um ato que a sociedade impôs para que? Não tem utilidade nenhuma para quando duas pessoas se amam e já moram juntas! – Falei demais e senti meu rosto queimar.

Meu pai só levantou a sobrancelha e deu um sorriso de lado.

— Lizzy, se você realmente pensasse assim, teria ido ao Cartório assinar esse papel inútil, só para que todos parassem de te perturbar. Do que tem medo?

Brinquei com a lixa em minhas mãos, olhei para as peças de madeira, ainda tentando desvendar o que seriam e, depois olhei para meu pai.

— De tudo dar errado. – Falei por fim.

— Você acabou de falar que ama o Sean.

— E é esse o problema. Eu amo o Sean, mas eu fico me perguntando quando tudo for oficial, se for, é claro, isso não vai ser demais, se vai mudar alguma coisa. Porque pessoas mudam depois do casamento... e, me machuca só de pensar que isso pode acontecer com a gente e, depois de toda essa burocracia, de toda essa palhaçada, um olhar para o outro a ver que na verdade, não era aquilo que queríamos. Se casamento é uma palhaçada, passar por um divórcio deve ser ainda pior... O que a gente tem é tão simples, por que dificultar? Por que complicar com um título? – Sentei-me na mesa e encarei meu pai. E, uma vozinha lá no fundo me dizia que eu tinha que estar tendo essa conversa com a minha mãe, não com ele.

— Não é complicar, filha. É tradição. Tem coisa que não se explica.

Bufei, eu parecia uma criança, mas ainda achava inútil complicar algo.

— Eu posso te falar sobre isso sobre dois pontos de vista. De um Fuzileiro e de um pai. – Ele ignorou o meu comportamento infantil e continuou. – Como Fuzileiro, o casamento é importante porque assim, caso aconteça algo, a esposa vai ter um amparo e antes que você diga que você trabalha e pode ser independente, é assim. Não somente em caso de se cair em combate, Liz, mas em todas as situações. Você passa a ser a família mais próxima, aquela que vai tomar decisões que o Sean não vai poder tomar. Você será aquela em que ele está confiando muito mais do que a vida quando ele embarcar, porque sabe que você, e só você, vai entendê-lo no final. E, para ele, dada a sua nova profissão, ele passará a ser informado de tudo também, Liz. O rapaz ficou no escuro quando você foi feita refém, eu, sei exatamente o que ele sentiu, passei por isso. Você não se preocupa tanto com esse assunto, porque você tem acesso ao NCIS, à CIA, você pode buscar por informações em qualquer lugar. Ele não pode, por isso foi preso há quatro meses. Ele só queria saber se você estava bem, e acabou preso. Porque para ele, para quem ele é, é mais difícil de se obter informações quando não se é um parente próximo. Somente morar junto não dá a ele o direito de saber de você. Para todos os efeitos, sua mãe e eu ainda somos seus parentes mais próximos.

Parei para pensar nesse pequeno discurso de meu pai. E ele nunca esteve tão certo. Eu não me preocupava em saber informações de Sean, porque sempre que eu queria saber de algo, eu só mandava uma mensagem para Tony, ou, mais recentemente, acessava as informações por mim mesma, afinal, não à toa, o I da agência onde eu trabalho significa Inteligência... Já Sean... acabou preso. E eu o chamando de irresponsável.

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Vendo que eu finalmente tinha compreendido o ponto que ele me contou, meu pai passou para a outra visão do casamento. A de um pai.

— Eu sei que você, como feminista e discípula da sua mãe, vai revirar os olhos para o que eu vou falar agora, Elizabeth, mas, lá no fundo, todo pai gostaria de levar a filha até o altar, gostaria de caminhar ao lado dela pela última vez até que ela finalmente parasse ao lado da pessoa que ela escolheu para passar o restante da vida. E eu gostaria de fazer isso com você, gostaria de te levar ao altar. De te ver vestida de noiva e ter a oportunidade de ameaçar o Marine Suicida por uma última vez, até que você o trouxesse de vez para essa família. Mesmo que você já more com ele, eu gostaria de fazer isso.

Como eu negaria isso para meu pai? Como eu negaria a chance de ele levar à filha até o altar? Ele não pode fazer isso com Kelly, tiraram essa chance dele, e deram uma segunda oportunidade quando ele me adotou, e eu, de todas as pessoas, estava negando isso a ele.

Casamento nada mais era do que um ritual de passagem. Um bobo ritual, ainda na minha opinião, mas tendo em vista o mundinho em que minha família vivia, ainda tinha lá a sua importância.

Tanto que duas das mulheres mais fortes que eu conheço se renderam à tradição e disseram Sim no altar.

Se Ziva David e Jennifer Shepard tinham se casado com vestido branco e tudo, porque eu não poderia.

E, vendo os casamentos delas, é certo que não é lá somente festa e alegrias, mas que relacionamento é? Tanto Ziva e Tony, quanto meus pais, passaram por muita coisa para terem o que eles têm hoje. E não digo somente o casamento, mas a cumplicidade, a amizade, a família e, o mais importante, a forma como eles se apoiam nos dias difíceis.

E, sem poder argumentar contra tudo isso, apenas assenti para meu pai, aceitando lá no fundo a importância da cerimônia, da assinatura de um papel.

Eu apenas comentei uma coisa:

— Não espere o senhor que eu vou assumir outro sobrenome, porque jamais abrirei mão dos meus!

Papai só me abraçou de lado e me deu um beijo no alto da cabeça, para então comentar:

— Agora liga esse celular porque se o Marine Suicida me ligar mais uma vez, Elizabeth, eu te garanto que você não terá noivo te esperando no altar.

Dei uma risada, agora ele estava falando como meu pai.

Ainda me demorei ali, terminei de ajudar meu pai seja lá o que eram aquelas peças e, depois, fui para casa.

Sean me esperava acordado, sentado no sofá da sala com o celular na mão.

— Seu pai me falou que você estava com ele... aconteceu alguma coisa?

— Eu precisava de uns conselhos... – Deixei a frase no ar enquanto colocava minha bolsa e meu casaco no lugar.

— E ele te deu.

— Na verdade, ele me mostrou uma outra perspectiva sobre o que eu precisava saber. Abriu meus olhos, seria mais certo.

— Ah...

— Você jantou? – Perguntei.

— Sem fome...

— Você? Sem fome? Isso é novidade para mim. – Comentei e me joguei do lado dele, me escorando em seu ombro.

— Está de bom humor... tem um tempo que você não fica assim.

— Eu sei. Mea culpa, admito. – Levei minha mão ao peito como que admitindo um crime.

— Então, a conversa com seu pai foi boa assim?

Tive que dar uma risada, eu tinha me decidido depois de tudo o que ele falou. Na verdade, pus em perspectiva não a minha escolha, mas o que a festa de casamento significaria para minha família, para meus pais, para Sean e os pais dele.

Para mim, não era nada demais. Porém, todos eles esperavam por isso. E que mal fazia satisfazer um desejo, um sonho de alguém.

— Sim, foi boa. E meu pai me contou um segredo.

— Que bom para você.

— Você acredita que ele tem o sonho, se é que eu posso falar assim, de levar a filha até o altar, só para poder aterrorizar o noivo dela pela última vez?

Sean ficou parado do meu lado, creio que absorvendo o que falei. Afinal, de nós dois, eu nunca tinha mencionado a palavra noivo por livre e espontânea vontade como tinha acabado de fazer.

— É mesmo? – Ele murmurou ao meu lado.

— Pois é... e, tendo em vista o tanto que todas as pessoas que conheço falaram na minha cabeça nos últimos meses, acho que ter uma cerimônia de casamento e até mesmo uma festa não é algo ruim assim... muita gente vai ficar feliz com isso.

Ele tornou a se mexer de forma desconfortável.

— Vejamos, sua mãe, quando seu irmão oficializou o noivado, ficou doida para me perguntar se nós já tínhamos uma data... só que ela não o fez, mas, acredito eu, que ela gostaria de ser informada de uma, seu pai também. Aí tem todo o meu lado da família, tem a minha mãe, meu pai... Tem as meninas, Morgan, Tali e Vic, que querem ser as damas de honra... e tem você! – Apontei para o meio do peitoral de meu noivo. — Que desde que eu fui para a faculdade fica dando sinais e mais sinais de que queria que nosso relacionamento fosse mais sério. Sei que é sério, mas você quer que seja oficialmente sério. Quer falar para todos que é casado com uma ruiva doida, que fala dez mil palavras por minuto, que detesta seu carro, que fala até sozinha e que consegue se encrencar até com a própria sombra... Juro, não entendo poque você quer todos estes problemas na sua vida, mas, uma vez que você quer, quem sou eu para dizer não, não é mesmo? – Terminei de falar e olhei para os olhos azuis dele.

E eu vi a expressão dele ir mudando aos poucos, até que a feição de dúvida virou surpresa, que virou desconfiança e, quando ele viu no meu rosto que eu falava sério, virou uma alegria incontida.

— Elizabeth?!

— Quer escolher a data, Marine Suicida? Afinal, saiba que meu pai quer te aterrorizar no altar...

E foi assim que escolhemos a data, que contamos para a família num almoço de domingo que íamos finalmente nos casar, com tudo o que havia direito.

E, hoje, oito meses depois, estou eu aqui, vestida de noiva, só escutando a falação das mulheres que conheço, enquanto elas se descabelam por um mísero problema, que eu não estou dando a mínima, sério, quem liga se o tapete que era para ser vermelho, foi trocado por um branco? Ou se o tempo, que era para estar fazendo calor, virou e agora está frio?

Elas ligam.

Eu não.

E, aqui, sentada na sacristia da igreja ao lado do meu pai, eu só consigo olhar para ele e tentar não rir.

— É, Ruiva, e eu achando que você seria a noiva que chora... – Ele comentou comigo, ao ver a minha expressão de deboche para o surto que Abby dava por conta do tempo e minha mãe por conta do tapete.

— Está mais fácil o noivo chorar do que eu... – Comentei rindo.

— Ainda aposto na sua mãe.

— O senhor trouxe o lenço para emprestar para ela, não? Por favor, não posso ter a minha mãe com a maquiagem borrada na foto!

E meu pai só mostrou o bolso interno do paletó, onde deveria ter uns quatro lenços.

— Muito bem, vai salvar a família inteira com todos esses.

— Deveria ter trazido era um kit de primeiros socorros, não sabia que os filhos da Elena eram tão estabanados quanto à mãe.

Tive que rir, Paget já tinha tropeçado no tapete duas vezes e a pobrezinha nem correndo estava, e Thomas, bem, ele tinha estampado a porta de vidro com a testa, agora estava correndo por aí com a testa e o nariz vermelhos.

— DNA não mente, papai. – Comentei quando vi minha amiga estabanada vir na minha direção, chorando.

— Meu Deus! Nem acredito que é a sua vez! – Ela falou toda emocionada, e se esqueceu de olhar por onde andava, tropeçou no pé do meu pai e só não caiu em cima de mim, porque meu pai a segurou. – Obrigada, Sr. Gibbs.

— E por que está chorando? – Perguntei olhando para a torrente de lágrimas que desciam na bochecha da minha melhor amiga.

— Porque você está se casando!

— Elena, por favor, não me diga que você está grávida de novo! Porque só isso para explicar todo esse chororô aí.

— Não. É porque você está se casando mesmo. Quem iria imaginar que nós duas iríamos nos casar com nossos namorados do colégio... Quem iria? – Ela começou a falar e a gesticular ao mesmo tempo, enquanto chorava ainda mais.

— Mortícia, por favor, nada de uma volta ao passado agora!

— Credo, Ruiva Doida, só estava te colocando no clima.

— Do jeito que as pessoas estão chorando, está parecendo mais um velório do que um casamento. – Comentei por fim e Elena deixou a sacristia para tentar segurar Paget que ia tropeçar nos arranjos pela terceira vez.

— Acho que não terá arranjos até o momento em que você subir ao altar. – Papai disse casualmente depois de ver que Elena conseguiu tropeçar e ainda levar a filha junto.

— Eu não vou ligar, mas acho que a sua esposa iria atirar em alguém se mais alguma coisa não saísse como o planejado.

— Ah, Jen... e ela jura que não está nervosa.

— Minha mãe admitir que está nervosa? É mais fácil um ET pousar nessa igreja do que ela admitir algo assim.

Nós dois olhamos para fora e minha mãe ia e vinha gesticulando e tentando colocar tudo no lugar. Ela e minha sogra, tenho que admitir.

Finalmente a cerimônia começou, meus padrinhos, que não eram muitos, entraram, depois veio Sean e minha sogra. Minha mãe entrou com meu sogro e, na minha frente, ainda com a porta fechada, se enfileiraram Tali, Vic e Morgan. As minhas floristas. E, em suas mãos, cestinhas feitas por meu pai, as mesmas que eu lixei com tanto afinco oito meses atrás, que estavam abarrotadas de pétalas de flores.

A música mudou, minhas três floristas se preparam para atravessar a igreja com elegância e, pouco depois, era a nossa vez.

— Ah, papai! – Chamei a sua atenção. Ele só me olhou, me dizendo para continuar. – Obrigada por tudo. Desde quando nos conhecemos até hoje, e, principalmente, por ter aberto os meus olhos e, por me dar a honra de ser levada até o altar pelo senhor! – Dei um beijo na ponta do nariz dele.

Ele não falou nada, mas beijou a minha testa e, já com as portas abertas, nos viramos para o altar e atravessamos o tapete branco.

— Até que o tapete branco ficou bonito com a decoração. – Comentei.

— Não é o que a sua mãe acha. – Ele disse com um sorriso de lado ao fitar minha mãe no altar.

— De vermelho já basta meu cabelo!

E, a cada passo, eu via os rostos dos convidados, via os rostos da minha família e da minha nova família. Eu fazia isso por eles, para ver cada uma daquelas emoções passando por seus olhos e sendo expressas em sorrisos e, em alguns, lágrimas de pura felicidade.

Quando chegamos ao altar, meu pai ajeitou a postura e ia soltar a última ameaça na direção de Sean, que já esperava até com uma expressão de receio. E, antes de passar a minha mão para meu noivo, papai o encarou, como se ele estivesse encarando o pior dos bandidos que ele já prendeu ao longo de sua vida, e só comentou:

— Um deslize, Marine Suicida, um mísero deslize, e eu vou te caçar. Se você fizer a minha menina chorar, pode contar as suas horas de vida, porque você não vai viver muito depois disso.

Eu só observei o olhar de meu pai para Sean e as reações que passavam por seu rosto. E, lá no fundo, ele sabia que isso era verdade, afinal, quando os dois se conheceram, meu pai já quis matá-lo só porque ele estava sentado do meu lado... imagina se algo desse errado agora?

Sean engoliu em seco e somente falou:

— Eu prometi ao senhor, logo que me permitiu namorar a Elizabeth que eu iria tomar conta dela, senhor. E não vou quebrar a minha promessa.

Meu pai não falou nada quanto a isso. Somente se virou na minha direção e me deu um beijo na testa.

— Seja feliz, minha filha.

— Obrigada por tudo, papai. – Retribuí o carinho e, num gesto quase tão velho quanto o mundo, minha mão foi entregue à Sean. E foi a minha vez de falar: — Ainda dá tempo de correr, você sabe que a família não bate bem...

Ele só revirou os olhos e me ajudou a subir os poucos degraus até o altar.

A cerimônia correu sem maiores imprevistos, até o momento em que anunciaram a entrada das alianças.

Como eu não pude escolher entre Tali, Vic e Morgan para carregá-las, e John não quis fazer isso, recorri à outra pessoa que conheço que tem filhos: Elena.

Assim, Paget e Thomas seriam os responsáveis por carregá-las até o altar.

A ideia seria excelente, se eles não fossem filhos de Elena. Pois, mais ou menos no meio da Igreja, Thomas deu um ataque de espirros, talvez ele fosse alérgico às flores, e, ao espirrar, soltou a almofada onde uma das alianças estava colocada, resultado: o anel saiu rolando pelo tapete até parar perto do altar e ele, ainda espirrando, procurou pela avó para ajudá-lo, já que a mãe estava no altar, sendo a minha madrinha.

Nem o padre acreditou no que aconteceu.

Mas tinha coisa para piorar... afinal, Paget, que já tinha dado sinais de que não era a fã número um do tapete branco, continuou a sua caminhada até nós, sem nem se importar com o irmão e, um pouco depois da cena do irmão, ela deu um tropeção no próprio pé, a Igreja inteira prendeu a respiração, esperando pelo pior, mas a garotinha conseguiu se equilibrar e continuou a caminhar, até que chegou no altar e tinha os três degraus para subir.

Eu cutuquei Sean, que já tinha descido para pegar a aliança que Thomas deixara cair, para pegar a outra antes que algo acontecesse, afinal, todo cuidado é pouco quando se trata de Elena e suas crias, mas, ou ele foi devagar demais, ou Paget realmente é estabanada que dói, pois antes que meu noivo, agora quase marido, se movesse, ela cismou de subir os degraus e, bem, quando estava no último, tropeçou no tapete e caiu em cima de mim, levando o meu véu junto com ela.

A igreja inteira soltou aquela exclamação de espanto, Paget tirou o véu que caíra em cima de si com suas mãos, olhou para ele, se levantou e depois, só soltou:

— Eita, tia! Caiu!

Eu olhei para a garotinha que estava perto de mim e me estendia o véu e só pude rir. Eu soltei uma sonora gargalhada quando todos estavam aterrorizados. E Paget? Ela riu junto.

— Tem problema, não, Morena. Não vai fazer falta. Mas o anel vai... cadê ele? – Eu falei, já procurando em volta, pois nem a almofada vermelha eu via.

— Vish... é mesmo, espera que eu vou procurar, tia. – Ela falou toda solícita e se jogou no chão para procurar, mesmo diante dos meus protestos e os da mãe, para que não o fizesse.

A minha sorte é que a aliança tinha ficado presa na almofada e esta tinha caído debaixo do altar e logo escutei:

— Achei, tia! Aqui, ó! – Ela estendeu a almofada para mim.

— Muito obrigada. – Peguei a almofada, entreguei para Sean, e voltei minha atenção para a garotinha. — Agora vai ficar perto da sua mãe, e cuidado para não cair. – Falei segurando a menina que quase que rola os degraus.

Entreguei meu véu rasgado para minha mãe, que ao invés de ficar chateada porque custou caro e foi personalizado, só soltou:

— Por que não me admira que algo assim pudesse acontecer?

— Porque é o meu casamento, mamãe, a senhora realmente achou que seria uma cerimônia sem emoções?

Depois desses pequenos incidentes, voltamos ao Padre que estava tentando não rir do casamento mais desastrado da história.

— Estão todos bem? – Ele perguntou.

— Sim, senhor. – Confirmamos.

— Então, rapaz, me passe essas alianças antes que elas fujam correndo. – Pediu a Sean.

E, sendo filha de Tony, Tali só soltou:

— Engraçado, papai, sempre achei que o filme era Noiva em Fuga, não Alianças em Fuga.

O Padre só olhou para nós e eu pedi que ele continuasse com a cerimônia, porque se eu explicasse... o pobre iria sair da Igreja direto para uma Casa de Repouso.

E assim ele o fez, abençoando as alianças e, depois, estendeu-as na nossa direção.

Virei-me da direção de Sean, eu queria escrever algo especial para os votos, mas como eu tenho a tendência de falar muito e sei que ele é absolutamente o oposto, preferimos pelos votos tradicionais, só que eu não esperava que, quando chegasse o momento de proclamá-los, ele estaria com lágrimas nos olhos.

Ele, que era o primeiro a falar, teve que respirar fundo e mesmo assim não conseguiu, travou de emoção.

Foi um tanto por instinto quando levei minha mão ao rosto dele, limpei a lágrima e lhe dei um beijo na bochecha, pedindo que ele continuasse.

E foi aí que ele conseguiu dizer os votos e colocar a aliança no meu dedo, não sem antes beijar a minha mão.

Quando foi a minha vez, eu não travei de emoção, mas uma lágrima desceu pela minha bochecha.

Desse momento para o fim da cerimônia foi um pulo, e quando fomos declarados casados e o padre autorizou o beijo, alguém gritou... alguém não, Rick, um dos grandes amigos de Sean e, também, companheiro de batalhão.

— Só cuidado que o sogrão ainda está de olho, e acho que está armado.

Sean me olhou e nós dois nos viramos na direção do falastrão.

— Será que alguma vez na história houve cerimônia mais estranha do que essa? – Eu perguntei para meu marido.

— Não, eu acho que não.

Com o beijo arruinado, descemos os degraus e fomos saudados na porta da igreja, para a primeira rodada de fotos.

Dali seguimos para a festa, tudo estava indo muito bem, ninguém tinha caído, escorregado, tropeçado, ou feito qualquer outra coisa que fosse considerada demais.

Até a hora em que fui jogar o buquê e percebi que ele tinha sumido.

— Anda Liz! É injusto com as solteiras ficar segurando por tanto tempo o buquê! – Abby gritou.

Procurei pela mesa, debaixo da mesa, nos arredores. E não o encontrei... Olhando com um pouquinho mais de calma, mesmo que todas as mulheres já estivessem me levando à loucura com a gritaria, percebi algumas pétalas de rosas e margaridas no chão.

Como uma boa filha de investigadores, segui a trilha, todos acharam a coisa mais estranha.

— Liz o que foi agora? – Minha sogra perguntou.

— Sequestraram meu buquê! – Falei. – As pistas levam lá para fora. – Indiquei o caminho.

E, quando abri a porta que dava para o jardim dos fundos, que era onde a festa seria originalmente se o tempo não tivesse virado, dei de cara com Paget brincando de bem me quer, mal me quer, com todas as flores que compunham o buquê.

Eu ia chamar a atenção dela, mas desisti, pois logo pararam do meu lado, minha mãe, a Sra. Hotchner, JJ, Ziva e, claro, Elena.

— Aquilo ali é o seu... – Elena perguntou.

— Melhor dizer que era. – Afirmei.

— Inacreditável! – JJ falou e entrou.

— Acho que não teremos buquê sendo arremessado. – Ziva comentou.

— Não mesmo. Nada de buquê. – Confirmei e fiz meu caminho para voltar à festa, quando minha mãe me parou e só falou:

— Você está bem?

— Por que não estaria?

— Porque, bem, um monte de coisa deu errado... o tapete, as alianças, seu véu, agora o buquê...

— Acontece. Pelo menos teremos histórias para contar. E, vamos ser sinceras, poderia ser pior, imagina se o padre desmaiasse de bêbado?

Minha mãe só balançou a cabeça em negativa.

— Você é a noiva mais tranquila e zen que eu já vi.

— Mamãe, eu não estou fazendo isso por obrigação, tudo isso é para vocês, eu só estou no holofote e aproveitando o momento, aproveitando a felicidade de cada um aqui. Agora vamos entrar, já que não temos buquê para jogar, temos bolo! – Puxei-a pela mão.

Voltei ao salão informando que por problemas técnicos não haveria buquê a ser jogado, já que neste momento ele estava boiando na fonte externa.

— Mas já que não tem buquê, temos bolo! – Comemorei.

E, vindos de não sei onde, saído sabe-se lá Deus de qual canto da festa, John e Thomas vieram correndo com algo nas mãos, eles passaram correndo por mim e para meu espanto e surpresa, trombaram com Paget que vinha balançando o restante de meu buquê e dizendo que ia dar para a vovó dela.

Só que estávamos falando dos filhos de Elena. E eles estavam em rota de colisão, não somente de um com o outro, mas com a mesa do bolo.

E, parece que toda a cena passou em câmera lenta. Pois eu vi frame por frame do que aconteceu... vi Thomas gritar a irmã, ela se assustar e escorregar nas gotas de água que caiam dos caules das poucas flores que ainda tinham pétalas, ele não conseguiu parar, tropeçou na irmã e...

— Era uma vez nosso bolo. – Sean falou do meu lado, quando vimos a mesa virada e Thomas deitado em cima do que um dia foi nosso bolo.

Elena olhou para mim, pedindo um milhão de desculpas por segundo. Minha sogra estava petrificada no lugar, minha mãe, idem. O restante dos convidados se dividiu entre ficarem horrorizados com que tinha acontecido e acudirem Thomas que estava mergulhado em chantilly.

Mas o garoto não estava muito preocupado em ser socorrido, ele simplesmente gritou:

— Mãe, o bolo é de chocolate ao leite, chocolate branco e morangos!! E tá muito gostoso.

Elena quase morreu de vergonha ao correr até o filho e tirá-lo de lá.

Quando ela e Chris conseguiram tirá-lo de cima da mesa quebrada, ele tinha um pedaço enorme de bolo na mão e a boca toda suja de recheio.

— Pelo visto o bolo estava bom... – Sean falou e começou a rir.

— É, nisso acertamos.

— Tem mais alguma coisa para dar errada nessa festa?

— Teoricamente temos que valsar, mas estou começando a achar que não é uma boa ideia.

Sean olhou em volta, para as expressões de cada um.

— Eu começo a achar o mesmo que você. Não vamos arriscar.

Mesmo com a mesa do bolo revirada, o DJ abriu a pista de dança, algumas pessoas nos perguntaram se não íamos dançar.

— Não! Definitivamente, não! – Confirmamos juntos e nos sentamos no lugar mais seguro que encontramos.

Vimos nossos pais dançarem, alguns convidados se arriscaram também. E cada rodopiar de alguém eu estava receosa que algo pudesse acontecer.

Para nosso alívio, nada aconteceu, talvez um pisar de pé, mas fora isso, nada.

Nós ficamos conversando, até que Sean comentou:

— Cá para nós, vamos ter muita história para contar desse casamento, não vamos?

— Se não tivesse provas em fotos e vídeos, ninguém acreditaria. – Respondi.

— Não perdoaram nem o buquê! – Sean riu.

— Eu agradeço veementemente que meu vestido está inteiro. Fiquei com medo de alguém pisar em mim e rasgar alguma coisa.

Voltamos a observar a pista de dança, agora meu cunhado era quem estava rodopiando a noiva.

— Espero que eles tenham mais sorte do que nós. – Eu falei para Sean.

— Ou talvez nós teremos que agir para levar um pouco de graça à festa.

— Não. Não vamos fazer isso. Coitados. Deixa as encrencas no nosso casamento. – Respondi e depois encarei Sean, já que ele se levantava. – E vai aonde?

— Acho que é extremamente seguro levar a minha esposa para a pista de dança.

— Eu acho que não... Elena e sua prole ainda estão por aqui.

Mas é claro que Sean não iria aceitar não como resposta e me pegou pela mão, me levando para o centro da pista de dança.

— Se pisar no meu pé, te dou uma joelhada. – Ameacei.

Ele deu uma risada e só comentou:

— Você não é forte o suficiente para derrubar um Fuzileiro...

— Quer mesmo apostar isso? Eu acho que posso encontrar um taco de beisebol por aqui...

E ele me deu um beijo e começamos a dançar.

Sean me conduziu perfeitamente pela pista, depois me passou para meu pai.

— Um casamento para entrar para a história, não? – Ele me falou quando me rodopiou.

— Não é? Acho que não tem mais nada que possa acontecer! – Eu falei.

E, apesar de todos os incidentes, de ter perdido meu véu, o buquê e o bolo, eu posso dizer que era a pessoa mais feliz da festa, ainda mais depois que voltei a dançar com Sean.

E, enquanto observávamos o show de drones coloridos no céu, como se fossem fogos de artificio, eu me perguntei internamente do que eu tinha tanto medo.

— Pensando em que? – Ele me perguntou.

— Em porque demoramos tanto para termos isso...

E Sean olhou em volta, para cada pessoa que estava ali.

— Para que tudo saísse como saiu.

— Se bem que, sabe, eu não trocaria nada do que aconteceu por um casamento sem incidentes.

— Imaginei isso.

E, quando eu achei que realmente mais nada pudesse acontecer, eis que Elena vem se despedir de mim, chorando litros, dizendo que foi a festa mais linda que ela foi.

Minha amiga, estabanada como é, deixou a clutch que carregava cair no chão, eu fiz menção de me abaixar para pegar, só que Sean foi mais rápido e quando ele levantou a bolsa, eis que tinha algo lá dentro.

Lesado como só meu marido pode ser, não reconheceu o que era. Eu sim.

— ELENA!!! – Gritei!

— CALA A BOCA!!

— MEU DEUS! Isso explica a sua choradeira!

— Querem explicar? – Sean perguntou e o restante dos convidados nos olhavam curiosos.

Levantei o teste de farmácia e vi o resultado.

— Você está grávida de novo! – Abracei minha amiga. – Parabéns!

Fez-se um silêncio absurdo no salão, até que Elena confirmou a notícia, olhando para todos, mas principalmente para o marido.

— É, vem outro bebê por aí.

E Sean, bem, ele só falou:

— Ainda bem que nos casamos com ela grávida, porque se fossem três mini estabanados na nossa festa, não sobraria mais nada para contar a história, nem a filmagem.

— Que isso, Marine Suicida! Nem é para tanto! – Elena defendeu os rebentos.

E foi ela fechar a boca e nós escutamos um barulho.

Olhamos e vimos Thomas bater a cabeça na porta de vidro.

— Tem certeza, Elena?

Ela não falou nada, chamou pelos filhos e se despediu.

E, a única certeza que tínhamos era:

— Nunca mais iremos fazer uma festa e chamar a família de Elena. Essa já deu o que tinha que dar! – Garantimos um ao outro.

Porém, apesar de tudo, esse foi e acho que seria, o momento mais especial da minha vida.

Notas finais
Bem, é só isso.
Sinto em dizer, mas o arco dessas duas já está se encaminhando para o fim. Não sei exatamente como será ou quando será postado, mas só digo isso, no máximo mais duas histórias e diremos adeus a essas duas.
No mais, obrigada a você que leu até aqui.
Até qualquer dia!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!