O Caos dos calados
6 Vaidade
Notas iniciais
No sábado e no domingo, Clarice ainda dormiu na casa de Karina, apesar de querer voltar para sua casa. Gostava de sua amiga, mas estava sentindo falta da solidão a qual era submetida em sua antiga escola.
Foram ao tal Ice eu te pego e o sorvete era realmente bom, fizeram maratonas de filmes e Clarice experimentou o prazer de ter uma amiga com quem pudesse compartilhar sentimentos e fazer diversas coisas. Tinham opiniões parecidas, mas personalidades totalmente diferentes. Peixes e Gêmeos.
Segunda-feira foram juntas à parada perto da casa de Karina e esperaram o ônibus.
– Não vejo a hora de ver como o Álvaro vai te tratar.
– Como uma aluna normal. Quantas vezes tenho que dizer que ele me deu apenas um livro?
Clarice omitira de Karina a parte que lancharam juntos, não queria que a amiga pensasse coisas erradas, tampouco prejudicar Álvaro.
O ônibus parou e elas subiram. Estava lotado e não tinha lugar para sentar. Ficaram em pé.
Sentara-se nos lugares de sempre e Diogo já estava lá.
– Como foi o passeio de sexta? — perguntou.
Karina já foi logo contando e Clarice respirou fundo. Ao menos Diogo era de confiança. A primeira aula da segunda-feira era de Álvaro e assim que o professor girou a maçaneta, todos fizeram silêncio. Suas aulas eram assim, qualquer demonstração de que não estava prestando atenção na aula, já era um motivo para ser posto para fora.
Álvaro começou a dar sua aula e Clarice desconcentrou-se por um momento. Ficou imaginando como Álvaro seria num relacionamento amoroso. Já teria casado? Não usava aliança. Teria filhos? O que gostaria de escutar? Foi em meio a esses pensamentos que quando deu por si, estava olhando para o chão da sala e Álvaro chamava sua atenção.
– Senhorita, queira "dar uma volta no pátio", sim? — convidou-a a retirar-se de sala.
– Desculpe, professor.
– Acho que o piso parece bem mais interessante que minha aula, já que ele conseguiu chamar sua atenção de uma forma que eu não consegui. Não vamos perder tempo. Retire-se. Tenho aula para dar.
Calmamente, levantou-se da cadeira e retirou-se da sala. Karina não acreditava no que via, o professor que deu um livro para sua amiga, colocando-a para fora de sala. De repente, não era mesmo um encontro.
Álvaro fez aquilo de coração partido, entretanto, deveria manter o profissionalismo. Não estava satisfeito em ter que colocar para fora uma aluna pela qual nutria grande apreço. O que será que ela estaria pensando? Pelo menos tinha o costume de ter uma conversa com os alunos que ele colocava para fora após a aula. Explicaria para ela o que realmente acontecia.
Seguiu sua aula até que o sinal bateu. Para os alunos, aquilo representava as portas da prisão sendo abertas, para Álvaro... Também.
Clarice esperava sentada o final da aula em um dos bancos do pátio. Não achava nada. Sabia que a conduta de Álvaro na sala de aula era a mais rígida possível.
Álvaro sentou ao seu lado no banco.
– Pensei que não conversasse com os alunos na escola — comentou amigavelmente.
– Não converso, mas depois que eu coloco para fora de sala, aproveito os dez minutos que temos para nos organizar de uma aula para outra e dou um "puxão de orelha" — disse com brincadeira.
– Eu entendo, professor.
– Clarice, tenho que manter o profissionalismo. Na escola, sou seu professor e você é minha aluna, por isso devo tratá-la como tal. Fora da escola, podemos ser amigos.
– Você costuma manter amizade com seus alunos fora da escola?
– Alguns dos meus colegas de trabalho que são seus professores hoje, já foram meus alunos. Já dou aula há trinta e um anos e já vi de tudo no ambiente escolar. Sou "macaco velho".
Ela olhou no fundo de seus olhos. Teria ele já se relacionado com alguma aluna? Jamais perguntaria isso. Ele poderia ter uma impressão errada dela, porém, a curiosidade a torturava.
– Você teria algum problema em me dar seu telefone? — perguntou à Clarice.
– Não...
– Vamos fazer assim, meus domingos são dias exclusivos para o lazer, então por que não marcamos de nos encontrar? Pode ser para um almoço juntos, um filme, ou até mesmo um lanche.
– Eu adoraria, mas acho que o senhor poderá apenas ter meu número. Sabe o que é? Meus pais não deixariam eu andar para cima e para baixo com um professor.
– Eles não precisam saber. E nem seus amigos.
Clarice deu o telefone para Álvaro e dirigiu-se à sala. Karina a esperava ansiosa.
– Ele falou com você? Você levou ocorrência?
– Ele falou comigo, disse que não foi porque me deu um livro que mudaria a conduta de professor — mentiu.
– É... Acho que ele não estava tão interessado em você assim.
– Foi o que eu sempre disse.
– E você levou ocorrência?
– Levei — mentiu novamente.
Passou a manhã inteira pensando em Álvaro, uma felicidade nunca sentida por ela antes. Chegou em casa e não quis almoçar.
– O que houve, minha filha? — dona Joana perguntou.
– Nada, mãe. Estou apenas sem apetite.
Aquela falta de apetite chamava-se amor! Uma falta de apetite nunca antes sentida por Clarice. Estava em seu quarto estudando e, do nada, escrevia o nome de Álvaro no caderno. Não era uma sensação desagradável, pelo contrário! Sempre que escrevia, ficava arrepiada e sorria, dando um longo suspiro. Nada podia fazer contra aquilo (e nem queria), um misto de sensações desconhecidas subiam em seu corpo como uma onda de boas energias.
– Estou apaixonada — repetia para si, incrédula e feliz -. Estou apaixonada!
Álvaro também estava pensando muito em Clarice. Em outra escola, quando estava dando aula, ao invés de escrever "Cloro", escreveu "Clarice", percebendo apenas quando um aluno chamou atenção.
Após dar todas as aulas do dia, entrou no carro às dez da noite e foi para casa com os pensamentos em Clarice. Mandaria uma mensagem para ela ao chegar em casa. Estaria dormindo? De qualquer forma, mandaria. Nem que ela respondesse apenas no outro dia. Aumentou o toque do celular para não perder nenhuma chamada ou mensagem. Ao chegar em casa, antes de abrir a porta, escrevia a mensagem.
"Boa noite."
Levou o celular para o banheiro, sempre comentando consigo:
– O tempo que eu tomo banho é o tempo que ela demora para visualizar e responder.
Em cinco minutos, ouve-se o toque. Álvaro ficou tão empolgado que saiu do boxe molhando o banheiro inteiro.
"Boa noite, professor!"
"Acordei vc?"
Voltou para o chuveiro, mas na mesma hora, escutou o "bip" do celular. Acabou o banho o mais rápido possível para responder sua aluna.
"Não, não... Estava saindo do banho quando vi sua mensagem."
"E agora, o que está fazendo?"
"Agora estou só deitada mesmo."
"Devo estar atrapalhando. Só queria saber como foi seu dia."
"Foi bom, estudei sua matéria para compensar a aula perdida, rs... E o seu?"
"Cansativo. Durma bem, Clarice."
"Igualmente, professor."
"Álvaro."
"Como?"
"Fora da escola, pode me chamar de Álvaro. Um abraço!"
"Para o senhor também."
Álvaro releu a conversa incontáveis vezes antes de dormir, estava apaixonado por Clarice e sabia disso. Não contaria a ela, apesar de não poder fazer nada, não permitiria que ela soubesse e acabasse com suas ilusões. Beijou a tela do celular e comentou baixinho:
– Boa noite, minha amada.
Clarice também releu a conversa procurando indícios de que talvez ele estivesse interessado por ela. Continuaria conversando no outro dia, perguntaria coisas como signo, idade e tentaria coletar o máximo de informações sobre ele.
Uma coisa que me intriga nos humanos é a curiosidade. Nem Clarice escapou dessa! Vocês humanos são curiosos por natureza porque a curiosidade é uma vaidade. Têm a curiosidade de saber o que pensam de vocês, se for bom, seu ego infla, se for ruim, você procura mudar em busca de elogios. Têm a curiosidade de saber o que o outro faz, se for coisa boa, você tenta fazer igual, se for coisa ruim, você repreende para sentir-se melhor. Clarice estava experimentando outra vaidade: o amor. O amor é uma vaidade. Se amam alguém é porque veem alguma coisa favorável naquela pessoa. Ninguém ama alguém que não tenha vantagem, pode não ter vantagem aos olhos dos outros, mas aos seus olhos, você vê. Ninguém tem total desinteresse na personalidade ou na aparência da pessoa que ama. Clarice estava conhecendo o amor.
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