O Canto De Tétis
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Notas iniciais
Não fazia a mínima ideia de onde estava, não lembrava de acontecimento algum, apenas de estar em minha festa, conversando com Saori Kido, ao lado de meu velho amigo Sorento, que estudava música comigo em uma das instituições da minha família.
Abri meus olhos e respirei profundamente, o que senti foi o cheiro da brisa marinha e o que vi foi o mar, o esplendor que minha família domina a gerações.
- Senhor Julian Solo! Senhor Julian Solo!
Aquela voz era familiar, era a voz de Sorento, eu virei meus rosto para trás e o vi correndo em minha direção.
- Senhor Julian Solo... O senhor... O senhor está bem?
- Por que eu não estaria Sorento?
- O senhor desapareceu, não se lembra de nada?!
- Não... O que houve?! – Ele ficou estranhamente pensativo.
- Depois da festa o senhor me pareceu um pouco afetado demais pela bebida, o senhor me disse que iria sair para caminhar e não tive mais noticias do senhor...
- Bem... E o que houve enquanto eu estava desaparecido?
- Uma série de maremotos devastou a vila em volta da mansão, os empregados abrigaram alguns refugiados que tiveram suas casas destruídas...
- Refugiados... Na minha casa?!
- Sim – Me incomodava um pouco terem tantos estranhos em meu lar, mas aquele lugar era sempre tão grande e vazio, talvez fizesse algum bem.
- Que seja, agora só o que quero é voltar pra casa...
- Então vamos...
Fomos andando pela vila destruída, as grandes construções que eram os estaleiros que faziam a manutenção e guardavam os grandes navios da família Solo e a casa de nossos funcionários agora não passavam de escombros, era triste, aquilo também era a história e patrimônio que pertencia a minha família.
Mais algum tempo de caminhada e chegamos até minha casa, meu jardim estava cheio de barracas, meu motorista e minhas empregadas iam de barraca em barraca falando com cada pessoa, mas quando me viram, suas faces quase congelaram, estavam os três tremendo de medo, provavelmente pensaram que por terem permitido a entrada de tantas pessoas em minha propriedade durante minha ausência iria me fazer demiti-los. Normalmente eu teria feito isso, teria demitido aqueles funcionários que agiram como se minha propriedade fosse deles pra fazerem a caridade que quisessem, mas algo havia mudado, talvez tenha sido o tempo que fiquei desmaiado ou a nostalgia que senti ao ver os escombros.
- Sorento, peça que os três venham até dentro da mansão... – Não disse mais nada, apenas entrei.
Fiquei na sala de estar olhando pra janela, todas aquelas pessoas que viviam e trabalhavam naquela região, enriquecendo mais e mais minha família.
- Eles estão aqui... – Sorento entrou, acompanhado de meus funcionários.
- Gostaria de... – Me virei e os olhei, estavam paralisados de medo – Parabeniza-los... Tomaram a decisão correta... – Foi quase um milagre, as faces deles mudaram instantaneamente para felizes – Talvez nem mesmo eu teria tomado essa decisão, mas foi a correta... Essas pessoas são trabalhadores das minhas empresas... De fato esse é o correto a ser feito... Agora... Peço que vocês chamem os mais idosos e os recém-nascidos para ocuparem os quartos de hóspedes... Esse tempo frio provavelmente fará mal a saúde deles...
Todos os três saíram sem proferir uma só palavra, talvez o choque, por esperarem uma bronca seguida de uma demissão por justa causa e receberem ao invés disso, uma congratulação, o próprio Sorento mostrava uma feição de surpresa.
- Está surpreso... Sorento?!
- Um pouco... Não imaginei que iria além... A ponto de ceder o interior dessa casa...
- A grande instituição que permitiu que nos conhecêssemos e começássemos nosso laço de amizade, deve sua existência ao suor de algum desses idosos...
- O senhor... Desenvolveu um senso de benevolência ou estou enganado?!
- Acho que realmente desenvolvi um senso de benevolência... E está sendo muito bom me sentir dessa maneira... E também... Preciso manter essas pessoas com uma razão para continuarem a trabalhar para mim... Quem sabe a gratidão não seja uma maneira eficaz...
- Entendo... O que fará a seguir?!
- É claro que não é possível manter essa situação para sempre... Serei forçado a dar uma ajuda financeira na reconstrução do povoado ao redor do porto... Pra acelerar o fim dessa situação...
- Quer que eu faça as ligações necessárias?!
- Sim... Seria de grande ajuda...
O tempo passou depois desse dia, os dias estavam mais animados, meu jardim estava bagunçado, mas era divertido ouvir tantas crianças se divertindo por lá. Esses dias animados não duraram muito tempo, graças a minha ajuda financeira a reconstrução só duraram dois meses, mas no final desse período, minha casa estava de volta ao “normal”. Apesar de desocupada, minha casa tinha ficado uma bagunça, o jardim estava completamente bagunçado e os quartos de hóspedes também, tanto que fui forçado a contratar uma empregada extra pra ajudar na limpeza da mansão. Segunda-feira pela manhã, a única candidata que apareceu foi uma jovem loira de olhos azuis e lábios rosados, ela aparentava ter um pouco menos que minha própria idade.
- Bom dia senhor Julian Solo... – Ela tinha uma voz muito bela, uma voz rara de se ouvir.
- Bom dia... A senhorita é a única candidata ao emprego de arrumadeira?
- Sim senhor...
- Quantos anos você tem?!
- Quinze...
- É tão jovem... Por que deseja arranjar um trabalho tão simples quando ainda tem a possibilidade de estudar e for mais longe? Acima disso, o que sua família acha disso?
- Minha família morreu por causa dos maremotos – Por alguma razão a reação dela, ter escondido o rosto com as mãos e ficado com a cabeça baixa, foi como uma fincada em meu coração.
- Entendo... Seu nome é?
- Tétis...
- Bom... Eu estou terminando os meus estudos do ensino médio e um curso de música em um instituto que pertence a minha família... Façamos um trato...
- Um trato... Senhor Solo?
- Sim, você aceita o emprego e uma bolsa de estudos no instituto, bancada por mim...
- Mesmo?! – Os olhos dela brilharam, pareciam a água do mar iluminada pelo sol de tão azuis que eram aqueles olhos.
- Sim... Você aceita?
- Sim... Eu aceito, senhor Solo...
- Então me faça um favor: Chame-me apenas de Julian, afinal seremos colegas de escola...
- Sim... Julian...
O resto daquele lindo dia foi agraciado apenas pelo meu piano, o qual foi tocado por mim até a hora de dormir. Quando estava dormindo, pensei ter ouvido ao longe as vozes dizerem.
- Não deveria ter vindo aqui, ele perdeu totalmente a memória, não será bom a presença de alguém que ele só conheceu durante tudo o que ele esqueceu... – Disse a voz masculina em um tom preocupado.
- Nós dois somos os únicos que sobraram, temos a obrigação de ficar perto dele e zelar por sua segurança e bem-estar – Falou a voz feminina, tentando convencer o outro.
- Não posso contrariar esse argumento... Apenas não faça nada errado pra não levantar suspeitas... – Finalizou a voz masculina.
Aquele ano finalmente teve seu fim depois de alguns meses, eu e Sorento tínhamos passado para o terceiro ano do ensino médio e Tétis para o segundo ano. Era um domingo ensolarado e Tétis havia nos convencido a ir à praia, estávamos em um lado afastado de onde a multidão costumava ficar, apenas nós três. Sorento grelhava espetinhos de queijo enquanto Tétis estava deitada em sua canga, de costas com a parte de cima do biquíni desamarrada tomando sol.
- Férias... Como é bom... Julian... Sai desse jornal... Faz alguma coisa mais animada...
Eu estava debaixo do guarda-sol, lendo meu jornal, de vez em quando olhava disfarçadamente para Tétis, seu corpo era lindo, com curvas maravilhosas, coberto por aquele cabelo loiro cujo cheiro, por mais que ela lavasse, misteriosamente continuava a carregar um pequeno cheiro de sal marinho.
- Ficou pronto... Vão querer?!
- Claro...
- Pronto... Vai largar esse jornal pelo menos pra comer... Vem cá amarrar meu biquíni pra eu poder comer também...
- Ok... – Deixei o jornal do lado da minha cadeira e me ajoelhei do lado dela, peguei os fios e os amarrei. Aquela proximidade com ela fez todo aquele cheiro de sal marinho do cabelo dela vir direto pra minhas narinas, aquele cheiro era quase inebriante.
- Julian... Tudo bem?! Você tá estranho... – Aquelas palavras me fizeram voltar a mim, ela já estava de pé e eu ainda ajoelhado, a olhando de baixo pra cima, olhando as curvas daquele corpo maravilhoso, de pele branca, levemente marcada pelo sol.
- Tudo... Acho que é a insolação...
- Aqui... – Ela pegou um prato com pedaços de queijo e se ajoelhou na minha frente, dando alguns pedaços na minha boca – Você precisa comer... Passou protetor solar?!
- Não...
- Devia... Tira essa camisa... – Tirei minha camiseta e meu calção, ficando só com a sunga de praia. Olhei pro lado e vi Tétis pegando o protetor solar – Deita na minha canga...
- Tá bom...
Deitei na canga dela com o rosto virado pra cima e fechei os olhos, tudo o que senti em seguida foi o protetor solar sendo passado em meu corpo pelas mãos macias de Tétis. Estranhei Sorento, que normalmente quando alguma garota do instituto me paquerava, ele fazia piadas, mas estava estranhamente calado, não que eu me importasse, o toque de Tétis nos cantos de meu corpo era delicioso.
- Agora se vira...
Fiz como ela mandou, logo ela seguiu, parecia massagear minhas costas, quase como se estivesse se divertindo. Antes de passar na parte de trás de minhas coxas, ela apertou minha bunda, a surpresa foi grande, abri os olhos e olhei pra ela, ela mostrou a língua e mostrou um sorriso sapeca, olhei pro lado e vi um Sorento com cara de desaprovação.
- Acho que Sorento também quer uma massagem assim...
- Na verdade eu já passei... Fica pra próxima... – Ele ironizou.
Fora essa massagem, o resto de nossa tarde na praia não teve nada muito memorável. Antes das 16h Sorento já havia voltado pra mansão, eu e Tétis tínhamos ficado na praia. Ela estava sentada ao meu lado quando o Pôr-do-sol começou.
- É tão lindo... – Ela encostou a cabeça no meu ombro, aquele cabelo loiro volumoso e espetado estava incomodando levemente meu rosto, mas relevei, Tétis tinha acabado de sair da água, o cheiro de sal marinho estava mais forte, mais inebriante.
Logo que anoiteceu voltamos pra casa, Tétis me fez levar o guarda-sol, a cadeira, sua bolsa e sua canga, por sorte Sorento tinha levado a churrasqueira. Chegamos em casa, nesse dia só nós estávamos na casa, já que Tétis morava comigo. Deixei a cadeira e o guarda sol na dispensa e fui tomar um banho, foi bastante demorado, mas relaxante, sinto um prazer descomunal quando estou perto da água.
Vesti apenas minha cueca e minha calça de moletom sob meu roupão e deitei na cama, comecei a ler um livro que tinha ganhado do capitão de um de meus navios. Passou-se algum tempo quando minha leitura foi interrompida por uma música que vinha da biblioteca, onde ficava meu piano. Saí de meu quarto e rumei à biblioteca, no começo eram apenas toques do piano, mas a cada passo a música ficava mais forte e logo a voz de Tétis começou a cantar:
Veja... O rio leste corre...
Ondas ao longo de milhares de heróis
Sorrisos nessa terra montanhosa
Vitórias e derrotas perdidas em areia e pó
Esta terra se despede
E sobre montanhas ancestrais a chuva cai
Um coração com muito o que falar, mas pra quem direi?
A chance obtida arduamente, o vento invocado e domado
Enquanto o tempo passa, nossos passos não são pra nada
O penhasco vermelho obscuro na névoa
Onde amigos se separaram, agora só brilham os raios da lua
Um mundo sem limites e injusto, com sonhos antigos que não podemos dividir
O sol vermelho que se pôs tantas vezes e os sinos noturnos que badalam
Os divididos unir, os unidos dividir
Paixão são a causa destes cabelos grisalhos
Pra ti canto esta canção sem pausar
Duas mentes entre vinho estão a se confidenciar
A ordem é os divididos unir e os unidos dividir
A aproximação dessa despedida nós não podemos atrasar
A beleza da natureza se vai com o derretimento da neve
Um mundo injusto e sem fim
Antigos sonhos que não podemos dividir
O sol vermelho se pôs inúmeras vezes, e o sino noturno badalou
Os divididos unir, os unidos dividir
Na batalha, generais e soldados se ofuscam lado a lado
Paixão é a causa destes cabelos grisalhos
Pra ti canto essa canção sem pausar
Duas mentes entre vinho estão a se confidenciar
A lei é os divididos unir e os unidos dividir
Esta despedida chegará logo
Ainda assim cantos distantes do mundo dividem apenas uma lua...
Não pude me conter, apenas aplaudi, mas isso a fez pular do banco.
- Senhor Julian... Está ai há quanto tempo?!
- Desde o começo... Você tem uma voz magnífica... Eu cheguei a perder a noção do tempo...
- Obrigada... – Ela me olhou com o rosto avermelhado.
- Que música é essa?
- A música principal da trilha sonora de um filme... Achei tão bela...
- Sim, é poética...
Tétis se levantou e caminhou até mim, estava apenas com seu roupão. O cabelo molhado solto soltava um cheiro misturado de shampoo e sal marinho, o mesmo que me hipnotizava. Tétis caminhou lentamente até mim e quando estava bem próxima, olhou o fundo de meus olhos.
Alguns instantes devolvendo aquele olhar e minhas mãos quase agiram sozinhas, foram quase que por impulso para o rosto de Tétis e o acariciaram, aproximando seu rosto do meu.
- O que vai fazer Julian?
- Não diga nada... – Toquei meus lábios nos dela e a senti jogar seu corpo em meus braços, ela correspondia a meu beijo que, apesar de curto, foi mágico.
- E... – Ela estava completamente vermelha – E agora...?!
- Cante novamente pra mim?
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