No dia seguinte, Merlin resolveu tirar a limpo sua situação em Camelot. Na verdade pensava em pedir desculpas ao Príncipe Arthur, e de quebra ouvir dele que o perdoava. Quem sabe essa bem-aventurança se estendesse a Pat? Seria bom se o príncipe se transformasse em um sujeito cordato, respeitador da vida alheia. E daí quem sabe, mais tarde, ele poderia pedir ao seu novo amigo, o Príncipe Arthur, que convencesse seu pai a rever a lei de proibição de magia. A vida era ou não era uma beleza?

Merlin rapidamente chegou ao palácio real. Ele poderia facilmente passar pela guarda real e entrar no castelo, mas resolveu se fazer anunciar. Os soldados estranharam, mas resolveram anunciar o plebeu, entregador de remédios. Merlin foi conduzido por um dos soldados até o salão real. Lá não havia ninguém, mas lhe foi dito que esperasse em pé naquela sala, até que o príncipe chegasse. Arthur chegou um pouco depois. Merlin percebeu que as vestes do príncipe eram luxuosas, e que sua aparência era bem cuidada, sendo que Merlin viera com as vestes do dia anterior, que já estavam um pouco sujas. Seus cabelos então, fazia tempo que ele não os penteava, suspeitando que um passarinho pudesse confundi-lo com um arbusto, e lá fazer um ninho. Merlin sentiu-se diminuído perto do nobre. Baixou os olhos para o chão.

- Então, Merlin de Gaius, a que devo sua visita? Veio pedir perdão? — O príncipe perguntou meio entediado.

- Sim, Senhor. — Merlin falou com a garganta seca. De repente aquela idéia já não lhe parecia tão boa, quanto antes.

- Já está perdoado. Na verdade, o perdão foi dado a seu tutor, Mestre Gaius. Não era preciso que viesse aqui, humilhar-se, mas ainda bem que o fez.

-...

- Não vai agradecer?

- Obrigado. Senhor. — Merlin falou, mastigando as palavras. Sentia-se um idiota naquele momento. Aquilo não podia ficar pior do que já estava.

- Sabe Merlin de Gaius, fiquei muito impressionado com sua... Sinceridade. Tanto que resolvi lhe dar uma oportunidade de melhorar de vida.

- O que? O que quer dizer?

- Eu lhe ofereço o posto de pajem de Sir Gawain. Seu último pajem morreu afogado, mês passado. Portanto, o cargo é seu se aceitá-lo.

- Eu... Tenho que falar com meu Mestre Gaius.

Nisso, entra no salão real, uma linda jovem, com vestes luxuosas e jóias preciosas nos cabelos. Era a mesma garota que impressionara tão vivamente a Merlin. De repente o mago adolescente raciocinou que sua humilhação estava completa, pois subjugado como estava, ainda mal vestido e despenteado, não ousava erguer os olhos para contemplar a beleza da lady.

- Como vai Arthur? Como vai Merlin de Gaius?

- Estou bem Lady Morgana. Espero que esteja bem esta manhã. Merlin de Gaius, Lady Morgana o cumprimentou, deve respondê-la.

Merlin ficou vermelho de vergonha. Já não bastava se humilhar, tinha que ouvir a jovem dirigir-se a ele, quando o que mais queria era que a terra o tragasse. E agora o príncipe ainda lhe passava uma descompostura na frente daquela garota bonita. A idéia de um raio desintegrando-o nunca lhe parecera mais tentadora, pelo menos não mais passaria por tolo na frente daqueles nobres.

- Eu vou bem, obrigado senhora. — Merlin falou erguendo e baixando os olhos rapidamente.

- À tarde apresente-se a Sir Gawain. Se acaso Mestre Gaius não consentir, não precisa aparecer. Pode retirar-se agora. — Arthur despachou-o de forma altaneira.

- Sim, Senhor. Com licença. — Merlin foi embora cabisbaixo.

Após a saída de Merlin, Lady Morgana olhou curiosa e confusa para Arthur, em uma pergunta muda.

- Não se importe com isso, minha cara Morgana. Eu apenas coloquei o rapazote em seu devido lugar. Ahahahaha! Viu a cara que ele fez? Foi mil vezes mais gratificante do que se tivesse mandado açoitá-lo.

- Ah... Realmente... Você me surpreende Arthur. Pensei que fosse mais esperto que isso.

- An... O que? O que quer dizer com isso?

- Como posso me explicar? Você está cercado de nobres comedidos e bem-educados, que fazem tudo para agradá-lo e ficar em suas boas graças. Eles são no mínimo tediosos. Este garoto, por outro lado, é inteligente, observador, e põe o caráter e a dignidade acima de coisas mundanas, como bajulação e servilismo. Ele não teme nem por sua própria vida, quando um bem maior está em jogo, ou quando vê uma injustiça sendo cometida. E o que você faz? Você o humilha. Você o trata como um animal, para que ele se comporte como um cachorrinho servil. Você já está cheio de cães sabujos, o que precisa é de alguém de valor, que lhe traga honra e orgulho de ser seu amigo. — Morgana calou-se sem fôlego, surpresa com a própria flama que se acendeu em seu peito. Ela colocou uma mãozinha no colo, e ficou meditando no que acabara de falar. Não entendia por que se importava tanto com aquele rapazinho.

- Você me espanta, Lady Morgana. Até parece que ele é igual a nós. Poderia até mesmo pensar que está apaixonada por ele.

Morgana o olhou assustada e com as faces coradas. Contudo, rapidamente se controlou, e falou com sangue frio.

- Não, Arthur. Eu apenas tento fazê-lo ver a realidade, afinal você é o futuro rei, deveria saber avaliar as pessoas.

- Então pela sua mente aguçada e perspicaz, percebeu que este rapazinho é mais valoroso que os nobres da corte de meu pai. É isto que está tentando me dizer?

- Sim.

- Ele é um plebeu.

- E eu deveria ser a futura rainha, mas a vida não é feita de cartas marcadas, não é mesmo?

- Não sabia que ainda pensava na linha de sucessão.

- E não penso. Apenas queria contrapor o seu argumento.

- Tudo bem. Não gosto de me indispor com você, Lady Morgana. Vejamos, voltarei a falar com seu protegido, Merlin de Gaius.

Merlin passou o dia taciturno. Gaius percebeu seu estado de desânimo, mas achou que fossem coisas da idade, resolveu não forçá-lo a se abrir com ele. O mago adolescente dedicou-se aos seus afazeres, sem incomodar-se em contar o que ocorrera a Gaius. Isso seria o mesmo que reviver a humilhação que passara. Agora entendia porque Pat vivia sempre triste e não reagia bem a demonstrações de amizade e auxílio. O príncipe Arthur se encarregava de humilhá-lo todo santo dia, para que não se esquecesse de sua origem e condição. Merlin riu sarcasticamente de sua estupidez inicial, por achar que o príncipe Arthur fosse alguém a quem pudesse considerar amigo. Subitamente, uma voz antiga e cavernosa falou em seu ouvido: "Merlin". O mago deu um salto de susto. Ele olhou para os lados e não viu ninguém. Então ouviu o mesmo chamado novamente. Ele sabia quem era. O dragão.

- Por que, cargas d'água, um dragão de sonhos fica me chamando?

- Falando sozinho, Merlin de Gaius?

Merlin virou-se assustado. A sua frente estava a criatura mais bonita da face da terra. Lady Morgana.

- Ah... Milady... Eu... Desculpe-me. — Merlin baixou a cabeça e parou o que estava fazendo, com os braços arriados segurando suas ferramentas de trabalho, tal qual Pat fazia.

- Não precisa ficar assim, eu não sou Arthur. Vamos, levante a cabeça. — Morgana aproximou-se dele e tocou com sua mão delicada o queixo do rapaz, levantando-o, para que olhasse para ela.

Merlin ficou em transe. Se Morgana fosse uma fada, poderia elevá-lo aos céus facilmente, pois ele já tinha borboletas no estômago. Quando ele percebeu que estava flutuando a alguns centímetros do chão, tratou de afastar-se dela.

- Não sou digno que me toque, Lady Morgana, estou sujo e desarrumado. Poderia macular sua beleza.

- Não se incomode com isso. — Morgana falou com um sorriso, embora ela mesma parecesse perturbada.

- O que posso... Fazer... Por Milady?

- Vim aqui para tentar apagar a péssima impressão que o príncipe pode ter lhe causado.

- O príncipe Arthur está acima de todos nós. Ele pode se quiser, mandar me matar, ou me machucar. Essa é a lei. — Merlin falou tristemente.

- Não, ele não pode. Ele é apenas alguém com um poder muito grande nas mãos, mas não pode de maneira nenhuma, dispor da vida das outras pessoas, como se fossem meros brinquedos. Isso seria desumano.

- Lady Morgana... Eu penso da mesma maneira. — Merlin falou alegremente.

- Sim, eu percebi que você pensava da mesma maneira. Por isso eu vim aqui, para pedir-lhe que não desista de Arthur. Tenho certeza que vocês ainda podem ser amigos.

- Milady... Acho que isso é impossível. — Merlin falou com o semblante consternado.

- O príncipe Arthur tem uma alma gentil. Ele tenta agir corretamente, mas desde a infância é tratado como se o mundo lhe pertencesse. Cabe aos seus amigos fazê-lo perceber a verdade e conduzi-lo ao bom caminho.

- Lady Morgana... Eu sou apenas um plebeu rude, não posso ser amigo do príncipe.

- Oh Merlin! Se você pudesse ver-se a si mesmo no dia em que confrontou Arthur. Nenhum nobre cavaleiro poderia ter agido com mais altivez e garbo. Eu lhe garanto. — Morgana falou com os olhos cintilantes, e Merlin teve que baixar a cabeça para não ser tomado de enlevo. Temia flutuar novamente.

- Então, Merlin de Gaius, posso contar com sua benevolência para com o príncipe Arthur?

- Sim, Milady. Tudo que me pedir. Eu o farei. — Merlin fez uma deferência exagerada. Quando levantou a cabeça, Morgana não estava mais lá.