O Caminho do Mago

5 Fugindo de Camelot


Notas iniciais
Após o confronto com Arthur, a vida de Merlin está por um fio.

Merlin encarou Arthur Pendragon. Suas íris tornaram-se amarelas, e uma suave pluma parou no ar, a poucos centímetros de encostar na espada de Arthur. Merlin afastou-se da posição em que estava. Arthur estava paralisado no tempo e no espaço. O jovem mago olhou em volta. Somente a bela nobre estava presente. Ela tinha o olhar parado, mirando consternada Arthur.

- E ela preocupa-se com com ele, como se a vida dele estivesse em perigo. — Merlin virou-se para observar Arthur. — Ele, o filho do rei. Cruel, injusto e covarde, filho do rei. — Merlin aproximou-se da bela jovem e admirou sua beleza à distância. — Quando você vai aprender Merlin, que é apenas um pobretão entre nobres intocáveis? — Falou para si mesmo. Então ele foi embora.

Merlin saiu do castelo e andou a esmo. Resolveu não ir para casa de Gaius, pois sabia que Arthur mandaria seus soldados o procurarem lá. Resolveu passar a noite na floresta. Não tinha medo de Gaius, apenas se dera conta de que seu tutor não poderia protegê-lo contra o filho do rei. Não daquela vez. Ele andou vários kilômetros e por fim procurou abrigo em uma árvore oca. Passaria a noite lá.

Enquanto isso, Arthur e a jovem lady saíram do estado de encantamento mágico em que se encontravam.

- Cadê? Onde está aquele moleque insolente? — Arthur esbravejou.

- Ele estava logo ali... Não está mais... — A jovem murmurou mais para si mesma.

- Lady Morgana, desculpe pelo que aconteceu aqui. Ordenarei hoje mesmo que esse rapaz seja caçado e morto. Ele não nos incomodará novamente. — Arthur falou com uma mesura.

- Por favor! Não faça isso. — Ela falou polidamente.

- E por que não faria. Eu sou o filho do rei, eu posso tudo.

- Porquê seria um ato nobre, poupar a vida de um rapazinho que teve a coragem de dizer-lhe que estava agindo errado.

- Alto lá, lady Morgana. Você não está acima da lei. Não pode dizer-me tais coisas.

- Talvez não. Mamãe ou seu tutor deveriam tê-lo feito, mas na ausência destes, uma amiga pode mostrar-lhe a verdade.

- Você considera então que qualquer sujeitinho abjeto pode entrar no palácio e falar o que lhe vier a mente?

- Não. Mas o que ele disse é verdade. Ninguém nunca lhe aponta as falhas, porquê têm medo de morrer, mas este rapazinho colocou a própria vida em risco para lhe dizer o que toda Albyon sabe.

- Sabe o que? Que eu sou cruel? Desalmado? Um fedelho mimado?

- É você quem está falando agora.

- Eu não acredito. Sério? Eu sou tão horrível assim?

- An-han!

Arthur estava chocado. Nunca sequer imaginara que seus atos poderiam desagradar a alguém, pois todos os seus gostos sempre foram atendidos, e ele sempre usou e abusou da sua posição de herdeiro do rei. Bem poucas pessoas o haviam criticado e corrigido em vida, e agora aquele fedelho, protegido de Gaius entrava nessa lista. Arthur retirou-se para seu quarto.

A jovem lady Morgana foi para seu quarto também. Ficara impressionada com o jovem Merlin. Ele não se humilhara, nem se acovardara, nem mesmo diante de uma espada no seu pescoço. Ele tinha fibra. E o que fora aquilo? Como ele conseguira desaparecer em pleno ar? Será que... ele era um bruxo? A jovem foi dormir, e seus sonhos foram prejudicados pela imagem do jovem protegido de Gaius.

O curandeiro do rei estava inquieto. Preocupara-se com Merlin naquele dia, como se ele estivesse em grande perigo, mas dissera a si mesmo, que o rapaz era apenas um adolescente se divertindo, portanto seria natural que ele procurasse a companhia de outros da idade dele, em outras casas, e não somente na casa de Gaius.

A noite chegara e Merlin não retornara. Gaius andou em círculos em seu estúdio. Então foi vencido pela preocupação. Ele não sabia onde Merlin estava, e não adiantava sair por aí, de noite, procurando por ele. Resolveu apelar para meios escusos. Retirou um grosso livro de sua estante e procurou uma página em especial. O livro fora escrito a mão, e suas páginas foram amarradas com tiras de couro. Era quase ilegível, mas Gaius já estava acostumado.

- Myrddin, Mac Ynys Wydryn, bryn. — Gaius repetiu as mesmas palavras, umas três vezes, até que o efeito mágico aconteceu. Ele viu-se transportado a outro lugar. Reconheceu-o como a floresta fora do castelo. A seus pés, estava Merlin, dormindo encolhido dentro de uma árvore oca. Os insetos da árvore andavam sobre ele, mas não o molestavam. Diversos animais de pequeno porte aproximaram-se. Eles não fizeram mal a Merlin, mas pararam encarando Gaius, como se esse fosse um intruso.

“Elementais”. Pensou o velho homem.

O velho curandeiro tentou pegar Merlin e carregá-lo no colo, para levá-lo para casa, mas percebeu que seu corpo era apenas uma sombra luminosa, sem força ou consistência, e não carne e osso. Na verdade ele ainda estava em Camelot, sentado em seu estúdio.

Gaius resolveu acordar Merlin, uma vez que não poderia levá-lo consigo.

- Merlin filho de Hunity. Acorde agora.

Merlin abriu os olhos e viu Gaius diante de si. Deu um pulo na mesma hora, achando que estava em tempo de servir a primeira refeição. Foi então que ele percebeu que estava na floresta, e que o corpo de Gaius estava diáfano e brilhante, como uma estrela do céu se desfazendo diante de seus olhos.

- Gaius, seu corpo...

- Meu corpo está em Camelot, no meu estúdio. Vim ver onde você está. Fiquei preocupado.

- Por que nunca me disse que podia viajar assim, deixando o corpo em um lugar e a mente em outro? — Disse Merlin, maravilhado, enquanto circundava aquela aparição brilhante que era Gaius.

- Conversaremos sobre isso mais tarde, quando retornar para casa.

- Não voltarei para Camelot, Gaius. Eu fiz uma coisa terrível, e agora o filho do rei quer me matar.

- De novo?

- Sim. Quero dizer... não. Dessa vez foi sério. Eu falei na cara dele tudo o que eu pensava dele. Então ele sacou a espada e me disse que iria me matar naquele mesmo instante. Foi aí que... eu usei magia.

- Com mil trovões! Você é doido garoto?

- Ele ia me matar, Gaius. O que eu poderia fazer? É por isso que não posso voltar para Camelot.

- Está bem. Já entendi... mas você não pode ficar aqui desse jeito. Assim, como eu o encontrei, qualquer um o pode encontrar.

- Os soldados de Camelot, você quer dizer. Não, eu sei me esconder, eles não vão me ver.

- Não, Merlin, estou falando de outras criaturas mágicas, como estes elementais que te cercam, e de criaturas não mágicas como eu, que são bem mais perigosas.

- O que? — Merlin olhou em volta, sem perceber os elementais de que Gaius estava falando. Então virou-se para Gaius mais uma vez. — Diga-me o que eu devo fazer Gaius.

- Esconda-se. Ao leste há um lago. Nade nele em direção ao nascer do sol. Encontrará uma ilha com uma habitação. Fique nela por uma estação. Quando for a hora de voltar eu virei buscá-lo.

- Certo.

Então a aparição brilhante se desfez no ar. Tudo ficou mais escuro, frio e silencioso. Pela primeira vez, Merlin teve medo. Não dos habitantes da floresta, mas dos habitantes de Camelot. Suas íris se tornaram amarelas e ele flutuou. Foi subindo cada vez mais até atingir a copa de uma árvore. Tentou agasalhar-se lá. Ficou sentado no galho mais alto. Amarrou seu corpo com tiras de couro, para o caso de dormir e acabar caindo. Ele era um ser mágico, mas era bom não descuidar.

- Não se preocupe Merlin, nós vamos cuidar de você. Não cairá. — Falou uma sílfide de cabelos vermelhos e roupas reluzentes.

- Por que eu não pude ver vocês lá embaixo, mas Gaius pôde?

- Porquê ele nos vê na nossa verdadeira forma, e não na forma de sonhos e quimeras.

- Você está querendo dizer que eu... Imagino que vocês existem?

- Não, mas ainda não consegue perceber como somos na realidade. Não fique ansioso por isso. Não é nada demais.

- Está bem. Cuide de mim, tá? Não quero acordar com a cabeça rachada lá no chão.

- Você tem asas Mago Merlin. Não vai cair. — A sílfide sussurrou em seu ouvido, então se desvaneceu como Gaius.

Fosse como fosse, Merlin ficou mais sossegado. Ele adormeceu amarrado na copa da árvore. Pela manhã procurou pelo lago e nadou na direção da alvorada. Foi com espanto que percebeu uma ilha no meio do lago, que não era visível da margem. Ele a explorou e encontrou uma estranha habitação, com pilares de pedra comprida, e um teto baixo, abobadado. Ao entrar, percebeu que era na verdade uma caverna transformada em habitação. Havia um altar no centro, com uma vasilha semelhante a uma bacia de cobre. Havia água nela. Ao observar a bacia, Merlin observou que a água reagia, como se a sua simples presença ali trouxesse instabilidade. Merlin achou melhor se afastar. E ficou imaginando por que Gaius lhe pedira para entrar em um lugar mágico como aquele.

Notas finais
Desculpem, mas não seguirei a mitologia do seriado, mas a minha própria.lol