O Caminho do Mago
6 Disputa mágica
Notas iniciais
Gaius levantou-se cedo. Preparou a primeira refeição da manhã e asseou-se. Vestiu sua túnica de trabalho, e procurou seus apontamentos sobre suas atividades naquele dia. Dispôs seus apetrechos de curandeiro real. Havia um elixir que ele deveria preparar para o tratador de animais. Ele vinha se queixando de hemorróidas há algumas semanas.
- Senhor Gaius, abra a porta! — Uma voz ressoou do exterior.
- Oh, não! O príncipe. — Gaius adivinhou o que era e foi abrir a porta.
Ao abrir a pesada porta de seu estúdio, deparou-se com a guarda real ladeando Arthur Pendragon.
- Pois não, Alteza.
- Chame seu pupilo, Merlin.
- Ele foi embora, Alteza.
- Para onde?
- Para bem longe. Ele teve medo que o mandasse matar. Sim, ele me contou que novamente havia entrado em atrito com o senhor. Por isso saiu de Camelot.
- Tem idéia que deixou um criminoso fugir, velhote? — O cavaleiro Sir Percival, da comitiva real, manifestou-se.
- Acalme-se Sir Percival, por favor. — Arthur o calou. A seguir dirigiu-se ao curandeiro real. — Gaius, eu e meu pai admiramos muito seu trabalho aqui em nosso reino. Por causa disso, resolvi relevar, mais uma vez, a ofensa de seu pupilo. Diga a ele que é bem vindo em Camelot novamente, se resolver voltar. Tenha um bom dia de trabalho Gaius. — Arthur se retirou com uma leve mesura.
O velho homem ficou pasmo, sem saber se acreditava nas palavras de conciliação do príncipe real. Certamente que ele falaria com Merlin novamente, mas não o chamaria de volta por agora. Ainda não.
Enquanto isso, um esguio rapazinho explorava uma certa ilha invisível. Ali ele deixava a mágica fluir, sendo que “Emrys”, o nome pelo qual ele chamou a ilha, era provida de energia sobrenatural, levando-o a imaginar que ela própria era um ser místico.
Merlin flutuava a maior parte do tempo. Fazia objetos levitarem, e peixes saltarem do lago, direto para suas mãos. Os elementais conversavam com ele à luz do dia, e os animais da floresta não o temiam, nem o molestavam. Ele até poderia jurar que os passarinhos lhe entoavam melodias. Eram dias mágicos, mas Merlin sentia falta de Gaius e de seres humanos.
Se ele ao menos estivesse em casa de sua mãe, não teria o que lamentar, pois todo o seu círculo de amizades se resumia a ela. Mas agora que conhecera Camelot e seus habitantes tão completamente, ele já habituara-se ao contato humano.
- Por que está tão triste Mago Merlin? — Uma sílfide de vestes verde brilhante o inquiriu certa manhã.
- Hã? Eu... Eu queria apenas... Conversar com outras pessoas. Sabe, alguém de carne e osso... Só uma vezinha.
- Você fugiu de Camelot, Merlin. Não há mais volta. — O cervo da floresta lhe respondeu.
- Você quer falar com Gaius? — Um gnomo o inquiriu?
- Sim meu amiguinho. Quero ao menos falar com Gaius.
- Mago Merlin, você não pode, Gaius lhe disse: uma estação. Você tem que se esconder por uma estação. Nada menos que isso. — Manifestou-se uma rapaz etéreo, em chamas laranjadas, que lhe serviam como manto sem o queimar.
- Então... Qualquer pessoa... Eu poderia falar com qualquer pessoa desconhecida, apenas para lhe perguntar como foi o dia, se há peixes na lagoa, ou se choveu muito no dia anterior. O que acham?
- Não pode trazer ninguém aqui. — Respondeu-lhe um passarinho. — Este é um lugar sagrado.
- Entretanto, você pode sair daqui, por poucas horas, e depois voltar. — Falou-lhe o Elemental do fogo, o rapaz em chamas.
Merlin o olhou apreensivo. Ele temia os soldados de Camelot, mas não as pessoas comuns. Então ele lentamente voltou-se na direção do sol poente e rumou para lá. Ao chegar na margem do lago, mergulhou e nadou para a margem oposta. Ele estava sendo imprudente, mas não se importava muito com isso. Com sorte, voltaria são e salvo.
No outro lado, Merlin retirou a roupa para secar. Era manhã, mas ele sentiu frio. Procurou uma pedra pequena e produziu fogo mágico com ela. Sentiu que estava sendo observado.
- Quem está aí?
Então uma mulher obesa, de cabelos brancos, vestindo uma túnica surrada, surgiu da floresta.
- Como vai Merlin? Há tempos não o via.
- Quem é a senhora? Como sabe o meu nome?
- Já nos encontramos antes. Você até me chamou de Deirdre. Eu gostei desse nome.
- “Aquela que nunca morre”...
- Isso mesmo. Você tem boa memória. Como pode ver, eu improvisei alguma juventude. Claro, não o bastante para conseguir pretendentes, mas ficou muito bom, não acha?
- Como...? A senhora é uma bruxa?
- Demorou para entender garoto.
- O que quer de mim?
- Primeiro, que vista a roupa.
Merlin somente nesse instante, percebeu que estava nu, conversando com uma mulher. Ficou vermelho e vestiu suas roupas rapidamente. Elas estavam inexplicavelmente secas.
- Podia ter me avisado que eu ... Não estava vestido. Ficou caçoando de mim o tempo todo. — Merlin reclamou de cabeça baixa.
- Ora, não é nada demais. Ouvir dizer que você fugiu de Camelot, e que se refugia na ilha do lago. — A bruxa passou a caminhar lentamente, circulando o rapaz.
- Como sabe disso? Os passarinhos lhe contaram?
- Isso não é importante. Afinal não existem segredos para quem devassa o véu do tempo. — A velha obesa parou diante dele.
- Eu não entendo o que quer dizer.
- Já percebi. Embora conviva com o grande Gaius de Camelot, você não aprendeu nada com ele.
- Ah... Eu... Eu não quero ser curandeiro... Não sou como Gaius.
- Sim... Eu sei. Mas mesmo um filho da magia como você, deveria ter aprendido com quem tem para ensinar.
Merlin não sabia o que dizer. Sentia-se como o menino que leva uma bronca dos pais porquê é preguiçoso. Apenas abaixou a cabeça.
- Entretanto, o que Gaius sabe é muito pouco. Eu por outro lado, posso ensinar-lhe muito.
- A senhora quer que eu seja seu aprendiz?
- É, pode entender dessa maneira.
- Ah... Eu não sei. Gaius é como um pai para mim. Eu tenho que falar com ele primeiro.
- Ele não vai concordar. É compreensível, uma vez que eu o venci em uma disputa de magia.
- O que? Mestre Gaius é um mago?
- O que imaginou garoto? Que ele fizesse remédios assim do nada? Bastando misturar ervas? Entretanto, ele não nasceu com a magia na alma, como você. Ele a aprendeu em livros.
- Ah... Uh... Ele nunca me disse nada. — Merlin falou tristemente, com a cabeça baixa. Sentia-se traído, como se houvera descoberto uma ação feia de seu pai.
- É claro que não. Gaius tem medo de você.
- O que? Por que? Eu nunca faria mal a Gaius.
- Talvez não agora, que é um garoto ignorante, mas você tem potencial. Você poderá ser grande, forte, o mago mais poderoso de toda Albyon, inclusive além dela. Gaius temia esse dia, pois ele perderia seu cargo na corte do rei, e teria que curvar-se a você, e reconhecê-lo como soberano.
- Não!... Não!... É mentira! Você não passa de uma mentirosa. Eu não acredito em você. — Merlin virou-se e tentou correr para longe, mas uma árvore caiu bem na sua frente, impedindo o seu caminho. Ele se virou enfurecido.
- Não tente me impedir. — As íris de Merlin tornaram-se amarelas, e fogo saiu do chão, formando um círculo perfeito em torno da bruxa.
- Ahahaha! É este o seu melhor, Mago Merlin? Você tem muito o que aprender.
O chão sob os pés de Merlin tornou-se rarefeito, fazendo com que ele afundasse rapidamente, quase afogando-se em terra fofa. O rapazinho nem se amedrontou. Ele apenas ascendeu flutuando, enquanto suas íris tornavam-se amarelas novamente.
Nuvens escuras formaram-se sobre a velha obesa, chovendo sobre ela, enquanto descargas elétricas ameaçavam atingi-la. A bruxa admirou a magia maravilhada, enquanto dava um sorriso de aprovação para Merlin. Então ela desapareceu.
Merlin ficou parado olhando para o local onde havia pouco, a velha bruxa o provocara para uma disputa mágica. Ela apenas estivera medindo forças, e ele caíra como um patinho. Resolveu procurar Gaius... mas e se ela falara a verdade? Como poderia voltar a confiar no seu velho mestre?
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