Nas semanas seguintes, algo estranho aconteceu.

Nada explodiu.

Ninguém foi sequestrado.

Nenhuma nova ameaça apareceu.

Nenhum tiro foi disparado.

E, por algum motivo, aquilo deixava Logan ainda mais desconfiado.


— Você prefere quando tentam nos matar?

Perguntou Gabriela certa tarde.


— Não.


— Porque parece.


— Eu prefiro saber onde está o problema.


— E agora?


— Agora ele está escondido.


Gabriela ficou em silêncio.

Porque entendia exatamente o que ele queria dizer.


A tranquilidade parecia boa demais para ser verdadeira.



Naquela sexta-feira, Eleanor decidiu fazer um jantar em família.


— Todos estarão presentes.

Anunciou ela.


— Isso normalmente significa problema.

Comentou Beatriz.


— Ou comida.

Disse Ethan.


— Prefiro a opção da comida.

Respondeu Gabriela.



Quando Logan descobriu que o jantar fazia parte da programação daquela noite, imaginou que ficaria do lado de fora.

Como sempre.


Não imaginou que Eleanor Lancaster tinha outros planos.


— Você vai jantar conosco.


— Senhora Lancaster...


— Não foi um convite.


Logan olhou para William.


William apenas sorriu.


— Boa sorte.



Pouco depois, Logan estava sentado à mesa dos Lancaster.


O que era estranho.


Muito estranho.


Porque fazia anos que não participava de um jantar familiar.


E aquela família parecia funcionar em uma frequência completamente diferente da dele.


— Então...

Começou Beatriz.


Logan imediatamente percebeu o perigo.


— Não.


— Eu nem perguntei nada.


— Mas vai perguntar.


— Verdade.


Ethan começou a rir.



— Você tem namorada?

Perguntou Beatriz.


— Bia!

Reclamou Gabriela.


— O quê?

Estou conhecendo o funcionário novo.


— Eu não sou funcionário novo.


— Então responde.


Logan suspirou.


— Não.


— Não o quê?


— Não tenho namorada.


Beatriz sorriu.


Um sorriso perigoso.


— Interessante.


— Não é.


— Muito interessante.


Gabriela revirou os olhos.


Mas, por algum motivo...

Ficou satisfeita com a resposta.


E isso era completamente ridículo.



O jantar continuou.


Entre histórias.

Risadas.

Provocações.


Até Ethan decidir compartilhar um segredo.


— A Gabi é assustadora no trabalho.


— ETHAN!


— É verdade.


— Não é.


— É sim.


O garoto apontou para Logan.


— Pergunta para ele.


Todos olharam para Logan.


Traidoramente.


— Carter?

Perguntou William.


Logan tomou um gole de água.


— Ela é exigente.


— Viu?

Disse Ethan.


— Mas eficiente.


Gabriela sorriu.


E tentou ignorar o pequeno orgulho que sentiu.



Mais tarde, quando todos já estavam na sobremesa, o celular de Logan tocou.


Ele olhou a tela.


E atendeu.


— Oi.


A voz do outro lado era feminina.


Gabriela não ouviu o conteúdo.


Nem queria ouvir.


Então por que estava prestando atenção?


Ótima pergunta.



— Sim.

Estou bem.


— ...


— Eu também.


— ...


— Prometo.


A ligação terminou poucos minutos depois.



— Namorada?

Perguntou Beatriz imediatamente.


Gabriela quase engasgou.


— BIA!


— O quê?


Logan balançou a cabeça.


— Minha irmã.


Silêncio.


Beatriz fez uma cara decepcionada.


Ethan começou a rir.


William também.


Até Eleanor sorriu.



Gabriela abaixou os olhos para o prato.


Tentando esconder o alívio completamente injustificável que sentiu.


Porque aquilo não importava.


Nem um pouco.


Ou pelo menos era isso que continuava repetindo para si mesma.



Mais tarde, quando o jantar terminou, Gabriela saiu para a varanda.


A noite estava agradável.


Silenciosa.


Pela primeira vez em muito tempo.


— Fugindo da sua família?


Ela nem precisou olhar.


— Sempre.


Logan parou ao seu lado.


— Eles gostam de você.


— Eu sobrevivi ao interrogatório.


— Por pouco.


Os dois riram.



Por alguns segundos ficaram em silêncio.


Observando as luzes da cidade ao longe.


Sem pressa.


Sem obrigação de falar.


Algo raro.


Confortável.



— Sua irmã realmente gosta de você.

Disse Gabriela.


— Ela praticamente me criou.


A resposta saiu mais baixa.

Mais séria.


Gabriela virou o rosto.


— Sério?


Logan assentiu.


— Nossos pais morreram quando eu era adolescente.


O coração dela apertou imediatamente.


— Logan...


— Faz muito tempo.


Mas havia algo no olhar dele que dizia o contrário.


Algumas dores nunca deixavam de existir.


Apenas aprendiam a ficar em silêncio.



Sem pensar muito, Gabriela encostou a mão na dele.


Um gesto simples.


Instintivo.


Humano.



Logan olhou para as mãos.


Depois para ela.


E, pela primeira vez desde que se conheceram...

Nenhum dos dois teve uma resposta pronta.


Nenhuma provocação.


Nenhuma brincadeira.


Apenas aquele momento.


Pequeno.


Mas importante.


Porque algo estava mudando.


E os dois já começavam a perceber.

Mesmo que ainda não tivessem coragem de admitir.

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