William Lancaster não dormiu naquela noite.

A voz da ligação continuava ecoando em sua mente.

"Você tem uma família muito bonita, Sr. Lancaster."

Não era apenas uma ameaça.

Era pessoal.

Quem ligou sabia quem ele era.

Sabia que tinha uma família.

E, pior, parecia estar observando.

Às três da manhã, William ainda estava sentado em seu escritório particular, revendo relatórios e tentando encontrar qualquer motivo que pudesse justificar aquilo.

Concorrência?

Funcionário descontente?

Algum antigo processo?

Nada parecia fazer sentido.

A porta se abriu lentamente.

Eleanor apareceu usando um roupão.

— Você ainda está acordado?

William ergueu os olhos.

— Não queria te preocupar.

— O que aconteceu?

Ela conhecia aquele olhar.

Depois de quase trinta anos de casamento, sabia quando algo estava errado.

William respirou fundo.

— Recebi uma ligação.

O sorriso dela desapareceu.

— Que tipo de ligação?

— Uma ameaça.

O silêncio tomou conta do ambiente.

— Contra quem?

William respondeu sem hesitar:

— Contra nossa família.


Na manhã seguinte, Gabriela chegou à empresa como sempre.

Pontual.

Organizada.

Com uma pasta cheia de documentos e um café na mão.

Mas percebeu imediatamente algo estranho.

Seu pai parecia cansado.

Muito cansado.

— Você dormiu no escritório?

William tentou sorrir.

— Isso é tão óbvio assim?

— Seu café é o terceiro da manhã.

— Talvez o quarto.

Gabriela sentou-se à frente dele.

— Aconteceu alguma coisa?

Por um segundo, William pensou em contar.

Mas desistiu.

Ainda não.

— Apenas algumas preocupações da empresa.

Gabriela o encarou.

Ela não acreditou.

Mas decidiu respeitar.

Por enquanto.


Na universidade, o dia parecia normal.

Melissa reclamava de um professor.

Lucas tentava convencer todos a irem a uma festa.

Camila estava desesperada com provas.

E Gabriela tentava se concentrar.

Mas a expressão do pai não saía de sua cabeça.

— Você nem está ouvindo a gente.

Melissa cruzou os braços.

— Estou sim.

— O que eu acabei de falar?

Gabriela ficou em silêncio.

— Exatamente.

As amigas riram.

Mas Gabriela não conseguiu rir junto.

Pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa parecia fora do lugar.


Enquanto isso, William estava em outra parte da cidade.

Sentado em frente a um homem de cabelos grisalhos e olhar atento.

Antônio Rocha.

Ex-policial.

Investigador particular.

Alguém em quem confiava há anos.

William colocou o celular sobre a mesa.

— Recebi essa ligação ontem.

Antônio ouviu a gravação.

Uma vez.

Depois outra.

E mais uma.

Seu semblante ficou sério.

— Isso não parece brincadeira.

William sentiu um aperto no peito.

— Eu também acho.

— Alguém está observando sua família.

— É exatamente o que me preocupa.

Antônio ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois falou:

— Você precisa reforçar a segurança imediatamente.


Naquela noite, Gabriela estava ajudando Ethan a montar uma maquete para a escola.

Os dois ocupavam metade da sala de jantar.

Papelão.

Tinta.

Cola.

Caos.

— Você está colando seu dedo.

— Faz parte da arte.

— Não faz.

— Você não entende minha visão.

Gabriela riu.

— Sua visão está torta.

— Igual a da Bia.

Os dois começaram a rir.

Foi então que Beatriz entrou.

— Eu ouvi isso.

— Você sempre aparece quando falamos de problemas.

— Ethan!

— O quê? É verdade.

Ela pegou uma almofada e jogou nele.

A guerra começou imediatamente.

Gabriela observou os irmãos correndo pela sala.

E sorriu.

Era impossível não amar aquela bagunça.


Mais tarde, quando todos já estavam recolhidos, William observava a família pela janela da biblioteca.

Eleanor lendo.

Ethan jogando videogame.

Beatriz falando ao telefone.

Gabriela organizando documentos da faculdade.

Tudo tão normal.

Tão precioso.

Tão vulnerável.

Naquele momento ele tomou uma decisão.

Pegou o telefone.

Discou um número específico.

Do outro lado, alguém atendeu após poucos toques.

Uma voz firme.

Profissional.

Controlada.

— Carter Security.

William respirou fundo.

— Meu nome é William Lancaster.

Preciso contratar proteção para minha família.

Houve uma breve pausa.

Então a voz respondeu:

— Entendido, Sr. Lancaster.

Vou pessoalmente cuidar desse caso.

Pela primeira vez, William sentiu um pequeno alívio.

Sem saber que aquela ligação mudaria não apenas a vida da sua família.

Mas também a vida de sua filha.