O Caminho de Sandren - Livro 1 (Caminhada)
12 Epílogo
Notas iniciais
Novamente peço desculpas a todos.
"Um profissional saberia desta necessidade, um escritor a teria visto muito antes. Sinto, não sou nenhum dos dois".
Epílogo
A poça escura presa entre a lama e as pedras que calçavam a estreita rua refletia o escuro céu acima, onde apenas algumas estrelas se faziam visíveis ao redor dos fiapos das velozes nuvens. “As estrelas dos ladrões”, ele pensou, mas mesmo elas não conseguiriam escondê-los da Luz. O vento havia se intensificado, trazendo a promessa de que o próximo inverno seria mais rigoroso que o último, fazendo com que os homens da modesta vila se recolhessem cedo para o pouco conforto que poderiam encontrar em suas casas, mas Urven sabia que eles tinham outras preocupações além do frio.
Adentrou a pequena praça, pouco mais que uma área lamacenta que se abria por uma dezena de metros no centro da vila. As casas humildes se voltavam para esta área, mas, apesar de todas as janelas estarem fechadas, não havia qualquer indício de luz ou calor a emanar de seus interiores. Estavam todos escondidos, trancados em seus lares a tremer, mas não era de frio e sim de medo, e ele estava ciente de seu temor.
A Luz lhe mostrava os habitantes fechados em suas casas, abraçados aos seus no escuro frio. Nenhuma tocha ardia, nenhum fogo fora aceso. Apenas alguns ousavam perturbar o silêncio, rezando timidamente aos mais variados deuses, implorando por proteção e misericórdia, mas todos choravam sem emitir qualquer som. Não era o Paladino ou a justiça de Sandren que eles temiam, mas algo ainda oculto de seus olhos e escondido da Luz.
No meio da praça, guarnecida por um círculo de pedras soltas, havia apenas uma árvore torta e ressecada pelo frio e pelo solo empobrecido, já quase sem folhas a esconderem os galhos retorcidos de onde o corpo de uma menina recém tornada mulher pendia, ao fim de uma grossa corda. As órbitas vazias olhavam para o rosto de Urven pouco abaixo, sem vê-lo. Alguns fios de um cabelo que deveria ter sido ruivo quando vivera descia desordenadamente sobre o largo nó que lhe cobria o pescoço. As roupas, simples e sujas por vários tons terrosos, apesar de lavadas pela chuva que caíra, apresentavam-se carcomidas pelos mesmos vermes que infestavam o que ainda restava de sua carne. Os braços pendiam quebrados em inúmeros pedaços e os dedos estavam ausentes ao fim destes, mas o pior de se olhar era o rosto dela, cortado várias vezes tão profundamente que os ossos estavam marcados.
– Baltur... – a voz do Paladino era um sussurro de horror. Esta mulher sofrera imensamente antes de morrer, devendo ter encontrado uma benção misericordiosa no aperto que a enforcara, mas por que fora punida e torturada assim? E por quem? Não havia crime que justificasse este tipo de justiça selvagem. Os Paladinos lutaram por anos pra que a morte pelo enforcamento, uma abominação dolorosa e cruel aos olhos de Sandren, fosse proibida em todos os reinos.
O estúpido ladrão que tentou roubá-lo em Dantis lhe confessara que seria aqui que encontraria o restante de seu bando. A Luz confirmou que ele não havia mentido, antes de Urven entregá-lo à Guarda dos Doutos. O Paladino não concordava com a maneira branda pela qual os sábios de Thimeran lidavam com os pequenos criminosos, tentando instruí-los com seus erros e dissuadi-los dos caminhos errados que tomaram, segundo as suaves palavras que pregavam. Urven acreditava que este era um dos motivos para haver tantos roubos nas ruas da capital, mas o ladrão havia se rendido sem lutar e ele não teve outra opção a não ser entregá-lo ao que os sábios chamavam de justiça. “Um mal menor para um grande ganho”, o comandante da Guarda lhe dissera em uma fala pomposa sem qualquer pronúncia reconhecível, mas o que poderia saber um homem de letras que nunca patrulhara as ruas de sua própria cidade e cuja única arma que empunhara na vida fora os pesados tomos sobre as regras, conceitos e verdades dos sábios? Em Sandren lhe fora ensinado que apenas o respeito pela justiça, a certeza de ser encontrado e o medo da punição poderiam deter a mão de um criminoso antes de seu crime, mas que respeito poderia ser esperado quando até um Paladino era alvo de um simples verme de rua? Ele não tinha esta resposta, apenas pedira a Baltur para que os ladrões que se escondessem na vila fossem ainda mais tolos que seu amigo. Ao ouvir o lamento do corpo ao vento, Urven começou a arrepender-se de seu pedido
Com um golpe de espada cortou a corda e o corpo caiu no chão, em um abafado estalar de ossos sobre a lama, exalando um forte odor nauseabundo. Para além da corda partida que dançava timidamente, algo despertou seu interesse. Uma pequena placa escrita rudemente com madeira queimada estava pregada no tronco rachado, até então escondida pelo corpo. Estava escuro demais para qualquer homem ler, mas nada podia esconder-se daqueles que tinham a Luz consigo. O Paladino sentiu sua respiração cessar involuntariamente e o coração quase parar assim que leu a única palavra na pequena placa: “Staag”.
Urven sabia que poderia haver uma armadilha a esperar por ele, em verdade desejava que o atacassem covardemente para matá-los antes que tivessem a chance de se render, mas nunca poderia imaginar isto! Aquele era o nome de sua família! Relutantemente olhou para baixo, sentindo as forças lhe abandonarem e o coração parecendo agora querer romper a placa peitoral de sua armadura. Urven, o Valente, como era conhecido em Dantis, sentiu o medo a lhe sufocar. Não podia ser verdade, não podia!
– Baltur não permita! – mas a Luz não podia ser enganada por nenhum disfarce. Ele viu com dor que o corpo putrefato aos seus pés era de sua pequena irmã, que não havia sequer florescido da última vez que a vira, há duas primaveras.
O Paladino caiu de joelhos, afundando-os profundamente na lama. Largou a espada e o escudo, pegando com cuidado o corpo a se desmontar em seus braços, soluçando incontrolavelmente. Os cabelos dela se quebraram quando tentou cariciá-los, assim como a pele do jovem rosto se desfez, desprendendo-se dos ossos. Amaldiçoou do fundo de sua alma cada verme que a devorava, mas, acima de tudo, os responsáveis pelo tormento de sua irmã. Uma raiva jamais sentida pelo Paladino o consumia, enquanto encostava a cabeça na dela, as lágrimas vertendo em uma promessa silenciosa. Urven os encontraria e não haveria clemência para eles, não haveria rendição desta vez. Ele os faria experimentar a misericórdia que deram a ela e depois a mesma justiça alcançaria o ladrão preso nas confortáveis celas de Dantis.
Um passo abafado atrás dele o fez abrir os olhos úmidos de dor e seu rosto se transformou em uma máscara de ódio. Em um veloz movimento pegou a espada e a girou em um golpe ascendente, virando-se com o urro de um demônio a escapar da garganta apertada. O choque com outra espada iluminou a noite por um momento com o claro brilho de duas lâminas de Sandren.
– Urven! – a voz era um firme comando – Acalme-se, Paladino!
Ele piscou fortemente, levando alguns segundos para reconhecer o rosto que o olhava com determinação.
– O que... – as palavras lhe faltaram, perdidas em uma confusão de dor, raiva, medo, vergonha e alívio. Não esperava encontrar outro Paladino nesta vila, ainda mais um Paleir, um dos escolhidos pelo poder do próprio Baltur para comandarem Sandren. Não acreditou em seus olhos, mas a Luz lhe mostrou que não havia mentira ou disfarce na figura de seu superior. A Luz também estava com ele, envolvendo-o em sua aura dourada – Meu senhor, que faz aqui?
– Vim por você, Urven – a voz continuava firme, mas não estava mais desprovida de emoção quando o Paleir colocou a mão sobre o ombro do Paladino – Soube que algo lhe aconteceria e quando o procurei em Dantis me foi dito que viria para cá.
– Minha irmã... – as palavras agarraram-se novamente na garganta dolorida de Urven, sem encontrar a coragem para pronunciá-las, como se a omissão delas pudesse transformar a verdade.
O Paleir apertou o ombro dele, tentando encorajá-lo. Passou por ele e colocou um joelho no chão ao lado do corpo, examinado-o.
– Eu entendo sua dor, Urven – ele expirou longamente – Sei como se sente...
– Sabe?! – Urven sentiu o ódio novamente dominá-lo. O Paleir tentava acalmá-lo, buscando a serenidade perdida segundo os preceitos da Torre de Marfim, mas o Paladino não queria ser consolado, queria dar vazão à raiva, queria sangue, dor e vingança. Não conseguiria ouvir sobre virtudes quando não mais as sentia dentro dele.
Seu comandante permaneceu abaixado e apenas girou a cabeça para olhar serenamente para ele, sem nada dizer. Urven então se recordou, em meio a sua dor, que o Paleir também perdera a família há alguns anos pela vingança daqueles que trouxera à justiça. Sua casa fora queimada com a esposa e os dois filhos dentro e ele ainda conseguiu retornar a tempo de ouvir seus últimos gritos de dor. Ele avançou contra as chamas, protegido pela Luz, e lá permaneceu até que outro Paladino chegou em seu auxílio, dias depois, encontrando-o ainda em meios às cinzas e ruínas de seu lar, abraçado aos três corpos queimados
– Me perdoe, meu senhor.
O Paleir voltou-se novamente para o corpo da menina, tocando-lhe gentilmente a face.
– Lembro-me de quando passamos pelas terras de seu pai, Urven, há cinco anos – havia pesar e cansaço na voz – e do sorriso jovial de sua irmã. Não há justiça para ser encontrada quando inocentes têm de morrer por nossas ações, apenas maldade e descaso. Como era mesmo o nome dela?
– Quillyan, meu senhor – ele se permitiria um pequeno sorriso, ao recordar daquela passagem, quando a irmã se impressionara quando o viu pela primeira vez consagrado e pelos elogios que o Paleir fizera ao jovem Paladino, mas continuava atento às casas e as vielas escuras, ainda pressentindo o perigo que os rondava.
– Permita-se ao menos este consolo, Urven, ela foi forte.
– Por que diz isso, meu senhor? – estranhou o tom de voz do Paleir, soando alegre por um momento, quase frívolo.
– Ela gritou menos do que eu esperava, diminuindo meu prazer – ele se voltou novamente para Urven, mas agora com um brilho maligno no olhar e um sorriso nos lábios.
Urven sentiu o medo e a descrença percorrerem sua espinha quando viu ele se erguer, empunhando ameaçadoramente a espada de Sandren. Não conseguiu se defender do primeiro ataque furioso, não encontrou forças para se mover, mas a Luz o protegeu, erguendo seu braço para desviar a lâmina com a sua.
O Paleir golpeava violentamente, cada vez mais rápido e forte, não dando espaço a Urven para atacar. O Paladino invocou proteção à Luz e conseguiu prender a espada do Paleir na sua, ficando com o rosto próximo ao dele, onde prazer e ódio o marcavam profundamente.
– Está possuído, meu senhor! — empurrou-o para trás, esticando a mão em sua direção em uma benção de purificação – Por Baltur, vou salvá-lo!
O sorriso do Paleir se tornou ainda maior e mais escuro. Agarrou a mão do Paladino e o puxou, erguendo o cotovelo que atingiu com força o rosto de Urven, quebrando seu nariz, que explodiu em sangue.
– Cegos e pretensiosos até o fim. Abra os olhos, tolo!
A Luz já havia estancado seu sangramento quando revelou o Paleir em toda sua verdade, mas Urven não podia acreditar. Não havia nenhum outro poder a conduzi-lo ou orientá-lo, não havia engodo ou mentiras, não havia disfarces ou corrupção. Ele havia sido um de seus mentores, um exemplo para os outros Paladinos e um dos comandantes de Sandren. A Luz ainda estava com ele em toda sua pureza e se dobrava a sua vontade perversa. Era sua a única consciência a guiá-lo.
– Não é possível! – as palavras falhavam novamente em uma lacrimosa voz e o medo se apossou dele. Se um dos maiores entre eles podia cair assim e levar a Luz consigo, que esperança poderia haver para eles? – Você é um Paladino, um Paleir, um escolhido de Baltur!
Enquanto Urven se defendia da veloz espada, uma adaga escondida na outra mão moveu-se mais rápido do que deveria ser possível e cravou-se na lateral de seu tronco.
– Eu escolho meu próprio destino!
A adaga foi torcida e se partiu dentro dele. Urven viu quando o Paleir puxou de volta o cabo e um escuro reflexo vítreo brilhou no que restara da lâmina. Sentia que ela se estilhaçava dentro dele a cada movimento que fazia, trazendo dor e um frio que nunca sentira. A Luz continuava a protegê-lo, mas havia algo diferente em seu ferimento, enfraquecendo-o e o deixando mais lento. A espada do Paleir passou por sua defesa e atravessou sua perna, fazendo-o cair. Colocou a mão sobre a perfuração em seu flanco, se enchendo de horror ao ver o sangue sair escuro e frio, tornando-se pó ao toque. Aquela era uma lâmina de Datra!
Já havia ouvido sobre as lâminas amaldiçoadas, lembrando-se das histórias de seus mentores sobre um tempo anterior a Sandren, chamado por eles de Devastação, quando Baltur escolheu treze homens honrados e dignos para enfrentarem com ele a ameaça de um mal absoluto que quase conseguiu corromper o próprio mundo. Estas haviam sido as armas do inimigo, destruindo os bravos em seu cerne e trazendo-os para a escuridão, mas, segundo os poucos relatos que resistiram ao tempo, elas haviam sido destruídas sob a Torre de Marfim.
– Isto é uma abominação! – Urven não tinha mais forças para se levantar, enquanto a Luz lutava para não se apagar dentro dele, combatendo a escuridão que ameaçava consumi-lo.
– Não, tolo – o Paleir olhava com prazer a agonia do Paladino aos seus pés – Nós somos uma abominação, alimentando-nos do medo e do ódio de outros como seres sem alma. Como acha que o derrotei? Seu medo me tornou forte, seu ódio me tornou veloz. É assim que os sagrados guerreiros de Baltur lutam, fortalecendo-se na fraqueza do inimigo!
Havia uma dura verdade nas palavras do Paleir, Urven não precisava da Luz para reconhecê-la. Era uma verdade deturpada, mais ainda assim era uma verdade. O poder e a presença dos Paladinos traziam sempre medo aos corações dos injustos, enfraquecendo-os, enquanto os guerreiros de Baltur tornavam-se mais fortes para enfrentá-los, pois o próprio Baltur decretara que os justos jamais deveriam temer a justiça.
Urven contorcia-se no chão, orando a Baltur por proteção. Não pôde evitar um gemido de dor, quando a escuridão aproximou-se de seu coração.
– Deve agradecer a Baltur pelo que sente. Com o tempo a preciosa Luz venceria as trevas dentro de você, Urven, mas considera-se abençoado por isto? Seriam horas de um tormento infinito, onde desejaria pelo alívio da morte várias vezes, como sua irmã o fez, mas ela não viria. Baltur nos amaldiçoou com um poder limitado, uma paródia do que poderia ser, mas encontrei um poder muito maior, sem limites ou consciência.
– Não vou... implorar por minha vida... traidor! – Urven tentava abrandar a dor e seus sentimentos, buscando por uma serenidade que estava muito distante dele. Procurava se concentrar apenas na Luz e não pensar em Quillyan, mas não conseguia. Não queria adentrar as Terras da Luz com nada mais além de ódio dentro dele – Vou combatê-lo... por toda a eternidade.
O Paleir riu, agachando-se em frente ao corpo da menina. Retirou uma pequena caixa de madeira escura de dentro do peito quebrado dela, de onde vários vermes mortos caíram. O que ela continha podia ser apenas preservado quando cercado pela morte.
– E quem lhe disse que quero sua vida? – ele se virou para Urven, os dedos a dançar sobre a tampa de metal negro, saboreando a dor e a angústia – Você não estará com Baltur hoje, Paladino.
Urven percebeu que cinco vultos se aproximaram, saídos das sombras da vila. Ele acreditava que não poderia aterrorizar-se ainda mais, mas descobriu dolorosamente que estava errado. Tentou chamar por Baltur mais uma vez, mas a voz falhou, de dor e de medo. Conhecia cada um dos rostos sem expressão que se voltavam para ele em olhos sem vontade e sem vida. Haviam sido Paladinos como ele, companheiros de treinamento, amigos nas avaliações de Sandren, irmãos na consagração. Suas luzes se apagaram na Câmara da Eterna Chama quando se acreditou que estavam mortos, mas a verdade era muito mais sombria. Haviam sido traídos e corrompidos por algum poder obsceno que os havia transformado em demônios, em sombras distorcidas da Luz que ainda os servia, naqueles conhecidos como Ghaenbür.
– Não! Mate-me, eu lhe imploro! – o desespero marcava agora palavras de Urven, o Valente – Me mate, por Baltur!
– Baltur não está ouvindo, tolo! – os olhos do Paleir estavam arregalados, brilhando em júbilo – Ele jamais nos ouviu.
A tampa foi aberta e uma sombra viscosa escorregou da pequena caixa, deslizando pela lama do chão, em direção ao Paladino, exalando uma névoa fétida. Urven gritou por Baltur, desejando por uma maneira de pôr fim à própria vida, mas não foi atendido. Urven Staag, o Paladino, morreu com o nome do traidor nos lábios e um desejo de vingança na alma, urrado em dor e ódio. Quando voltou a se erguer, ele havia deixado de ser quem fora, apenas sua consciência o permeava timidamente, o suficiente para atormentá-lo em sua danação.
– Esta é apenas mais uma luz que se apaga, mas não será a última, Baltur! Você irá pagar! – um largo sorriso sombrio se desenhou em seu rosto, carregado de ódio e prazer, quando se virou para os seis que o cercavam – Tolos ignorantes! De que valem seus juramentos agora? A noite mais escura pode sim esconder seus inimigos de vocês!
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