Notas iniciais
Chegamos ao último capítulo. Tudo que tem um início, tem um fim. Espero que tenham gostado da jornada até aqui. Muito obrigado por me acompanharem nesta caminhada.

E que as bênçãos de Baltur estejam sempre convosco e com vossa família, em vossa partida e em vossa chegada.

11

Oehl voltou-se novamente para seu companheiro a dormir profundamente envolto nas longas vestes diplomáticas dentro da espaçosa carruagem em que viajavam. Não saberia dizer quantas vezes o invejara, desejando a mesma tranquilidade para si. Tentou afastar sem sucesso o peso dos dias de viagem da mente, abrindo as finas cortinas acinzentadas e olhando através das grandes janelas, sem encontrar o estímulo que buscava. A monotonia das incontáveis árvores que margeavam a estrada, lentamente embaladas pelo gélido vento, e o som das rodas a girarem preguiçosamente traziam ainda mais cansaço para os olhos fatigados que esforçava em manter abertos, enquanto seu corpo uma vez mais lhe implorava para que descansasse, mas ele não se permitia.

Havia algo estranho a permear o ar em volta da comitiva, como um delicado aroma que apenas ele parecia sentir. A cabeça latejava constantemente e sentia uma incômoda pressão sobre a nuca, enquanto as pontas de seus dedos pareciam afligidas por uma insistente coceira que não conseguia atenuar. Nunca havia se sentido assim, nem conseguia descobrir de onde vinha esta inquietação que o afligia e isso era pior que a sensação em si. Sabia apenas que era algo que não partia dele ou daqueles que o acompanhavam, mas de algo perigosamente próximo, a acompanhá-los furtivamente desde que partiram de Caendlia.

Eles perderam tempo demais na capital, entre protocolos e formalidades necessárias para enviar uma comitiva diplomática para Thimeran sem levantar suspeitas sobre sua real intenção. Oficialmente eles se dirigiriam para sua capital, Dantis, carregando um pedido oficial para que Uligan fosse enviado à Academia Maestra de Caledhorn, a maior escola de cultura e conhecimento de todos os reinos conhecidos, a mais bela joia e orgulho de Thimeran, para onde eram enviados os filhos dos abastados, dos fidalgos e os herdeiros das grandes famílias. Calligan manteve segredo sobre suas desconfianças e motivações até mesmo dos outros Mestres, enquanto seu neto e Oehl permaneceram ao seu lado todos os dias desde a assembleia, sem que discutisse com eles qualquer detalhe de sua missão, temendo que até mesmo seus pensamentos pudessem ser ouvidos. As atribuições de Uligan junto à igreja foram passadas em definitivo para Derek, que sempre o substituíra em suas breves ausências, mas que, para isso, teria de ser elevado da condição de acólito e confirmado como clérigo de Urm, apesar das reservas de Calligan, por não acreditar que ele já estivesse pronto. Em verdade, não tinha plena confiança nas capacidades do acólito ou em seu comprometimento para com a causa dos graeldaras, apesar de nada poder ser dito de seu compromisso com a doutrina de Urm, sendo um fervoroso fiel e defensor de seus dogmas. Seguindo o protocolo, Calligan também enviou um veloz mensageiro naquele mesmo dia para que as guarnições na Garganta fossem mantidas e a passagem permanecesse aberta, até a chegada de Uligan ao outro lado, assim como enviou um pedido formal ao embaixador Dhoul Amuir, que fora um extraordinário aprendiz e um excelso professor em Caledhorn, para que intercedesse junto ao Conclave pelo neto, sem esperar que qualquer resposta poderia vir daquele que outrora habitara o corpo quase sem vida de seu amigo. Apesar dos conselhos de Oehl para que partissem o mais brevemente possível, sentindo uma premência que não podia determinar, quatro dias se passaram, antes que pudessem deixar Caendlia, em meio a longos ritos de bênçãos de boa viagem e a presença inevitável de metade da cidade, entre membros do clero, fieis e nobres.

Uligan também não acatara sua orientação para que a comitiva cavalgasse através da madrugada, sem se deterem em Meodar, mas seu amigo dissera que não podia apresentar uma pressa injustificável ou negligenciar o que se era obrigado a fazer em uma missão oficial de Graeldar, sob o risco de despertarem suspeitas quanto ao seu intento ou sua urgência. Então dois dias foram perdidos entre cerimônias e orações em meio aos pilares, braseiros e alvas tendas de Meodar, um lugar sagrado para os graeldaras, onde Marelvian fora erguida por suas mãos e caíra sob o fogo que a consumira, na outra margem do Lorun. Não chegava a ser nem mesmo uma vila, com apenas uma larga casa baixa em meio a um belo jardim, com um comprido muro circular a protegê-la, coberto de musgo e trepadeiras. Era chamada de Casa da Vigília, apesar de abrigar apenas os poucos clérigos e Feldaen residentes. Ao centro de um extenso círculo de colunas em crescentes tons de cinza, do alvo branco do leste até a escuridão sem fim que marcava o oeste, estavam as ruínas da antiga catedral de Marelvian, onde a espada do último regente livre repousava sobre o intacto altar. Era esperado que o neto do Grão-Diplomata de Graeldar prestasse suas homenagens a Meodarûn, o Bravo, e se despedisse formalmente de sua terra, carregando um pouco do solo sagrado do círculo consigo, em um pequena bolsa junto ao corpo.

Depois disso, Uligan dissera que iriam seguir sem se deter até que chegassem a Thorion, mas teriam que permanecer por pelo menos um dia na antiga fortaleza, pois homens e animais precisariam descansar para a travessia das montanhas, por maior que fosse o receio que Oehl sentia. Apesar de reconhecer a verdade nas palavras de seu amigo, não havia conforto para ser encontrado nelas. Tampouco conseguia encontrá-lo ao olhar para a escolta que acompanhava a carruagem, dez soldados fortemente armados, escolhidos entre os Feldaen pelo próprio Alhian, comandante da guarda pessoal do Grão-Diplomata, montados nos melhores cavalos que Graeldar podia oferecer. Oehl temia que pouco poderiam fazer para protegê-los. O que os perseguia, assombrando cada metro de seu avanço, não era natural e não poderia ser vencido apenas pelas muitas armas que carregavam.

Os Feldaen que acompanhavam a comitiva estavam trajados com roupas simples e armas pesadas, em seus uniformes de escolta montada, muito diferentes das vestimentas cerimoniais que usavam no palácio de Jaendor. As armaduras eram feitas de pequenos elos de metal, com grossas placas cobrindo o peito, os braços e a parte superior das pernas, e estavam cobertas por uma curta túnica clara amarrada à cintura para não atrapalhar os movimentos, terminando pouco acima dos joelhos. As espadas eram mais longas e afiladas, cujos cabos carregavam inscrições de preces a Urm e os votos a Graeldar. Também traziam lanças com compridas lâminas afiadas de apenas um lado e pesadas balestras presas nas selas de seus cavalos, assim como um grande escudo sobre as costas. Um dourado elmo sem adornos cobria-lhes toda a face, com apenas uma pequena fenda para os olhos a marcá-lo. Seguiam atentamente em um pequeno círculo em volta da carruagem, enquanto o batedor, o jovem Berenas, vestindo apenas uma cota-de-malha sob vestes cinzentas, carregava uma longa haste de onde pendia o brasão de Graeldar, antecedendo a comitiva muitos metros à frente.

Oehl conhecia o nome de quase todos os Feldaen que os acompanhavam sob o comando do experiente capitão Ledric, cujos cabelos já ostentavam mais prata do que o já quase esquecido negro; seu segundo-em-comando e o mais hábil espadachim em toda Graeldar, Gralen; o ágil Yanko, descendente de alguma antiga família do distante oeste e que jamais errara uma seta de sua besta, nem nunca se separava dela, como uma extensão do próprio braço; o corpulento Ornël, um guerreiro de mais de dois metros que fazia os outros encolherem sob sua imensa sombra e a do grande garanhão que o transportava com dificuldade e Urthel, o caçador, com os olhos de um Arkyllen e o faro de um perdigueiro. Também havia aqueles escolhidos para a guarda pessoal dos viajantes e que estavam sempre mais próximos que os outros durante a viagem. Seu protetor era o misterioso Robhur, um misto de guerreiro furtivo e curandeiro das folhas, carregado com mais ervas e poções do que armas e cuja fronte do elmo era mais curta que as demais, deixando sua boca e o queixo com uma rala barba a mostra, já que ele nunca o tirava, nem mesmo para se alimentar ou dormir. E para proteger o neto do Grão-Diplomata havia Téhran, o mais quieto e sério membro da caravana, cavalgando orgulhosamente ao lado de uma das janelas da carruagem. Ao olhar para ele, Oehl não pôde deixar de sentir pena daquele rapaz.

Ele o conhecera há alguns anos, na biblioteca da Igreja de Urm, entre os livros de história, contos e lendas da antiga Graeldar, tão desprezados pelos nyotharins que não se importaram ou mesmo perceberam quando Calligan ordenara que fossem retirados da biblioteca da cidade e levados para a catedral. Apesar de terem a mesma idade, o cavaleiro aparentava ser alguns anos mais velho, sempre austero e muito compenetrado em suas obrigações. Oehl não conseguia lembrar-se com facilidade se alguma vez o vira sorrir espontaneamente, alheio as suas obrigações.

Téhran era o primeiro filho da casa Laind, a mais rica e uma das mais nobres famílias de Graeldar, senhores do maior feudo que ainda pertencia ao seu povo, nas vastas planícies do sul, extendendo-se entre o Lorun e o Oceano Esmeralda, e donos do segundo maior porto da nação, Marahin. Seu pai, Udhir Laind era, membro da Ordem e o único regente a adotar para si o título de Lorde, mesmo entre os seus. Ele jamais aceitara que seu único filho homem trocasse toda a herança e fidalguia de sua família pela vida dura de um simples soldado. Téhran fora educado para se tornar um nobre, ensinado pelos mesmos professores de Uligan, e rapidamente se tornou um amigo próximo do jovem clérigo, mas sua obstinação pelas glórias passadas de sua terra natal era maior que a devoção à igreja de Urm. Entre todos os caminhos que um jovem de sua linhagem poderia escolher, entre o clero e a diplomacia, a nobreza e a liderança, ele optou pelo mais incomum e difícil de todos, aquele para o qual a influência do nome de sua família nada representava. Seu trajeto foi longo e tortuoso, com o pai sempre a espreitá-lo, a tornar ainda mais difícil cada passo que deu, mas Téhran não desistiu. “Não existe nobreza ou dignidade maior do que servir ao mesmo ideal do último e maior dos regentes livres, defender a vida e a honra de meu povo, ao custo da própria vida se for necessário. Meodarûn viveu e morreu como um guerreiro, entre diplomatas, sábios e camponeses, sem temer ou envergonhar-se de sua escolha, e, no final, quando toda esperança se perdeu, foi a ele que todos buscaram”. Estas palavras estavam gravadas na alma leal de todos os Feldaen, mas em Téhran elas pareciam brilhar mais fortemente. Esta era a primeira vez que saía de Caendlia com uma incumbência formal para com seus senhores e sentia-se honrado com isto, mas como tudo em sua vida, esta também foi uma árdua conquista.

Udhir usou toda a influência que possuía para tentar impedi-lo, mas Téhran recorreu a cada um dos Mestres, até conseguir que o próprio Grão-Diplomata intercedesse em seu nome. Calligan assombrou-se pelo fervor que viu em seu sangue e podia facilmente perceber a força que carregava dentro dele, reconhecendo o grande comandante em que um dia se tornaria. Para sagrar-se como um Feldaen, Téhran havia renegado ao seu nome e seu título, pois os Guerreiros de Meodarûn nunca seriam mais do que sua patente ou seu posto, sendo promovidos não por mérito ou pela passagem do tempo, mas pela prática necessidade de seus senhores. A maioria encontrava o fim de seus dias ainda como simples soldados, quando a força para brandir as espadas já há muito os havia abandonado, mas não o orgulho pelo caminho que escolheram. Suas sepulturas não possuíam quaisquer ornamentos ou distinções e suas lápides traziam apenas seus nomes, marcados de maneira simples e cuidadosa. Apenas as belas Vicetins lhes faziam companhia, cobrindo longas fileiras de terra macia, eternamente guardando os jardins junto aos muros da Casa da Vigília em Meodar. Por seu compromisso, jamais se tornariam senhores, diplomatas, clérigos, lordes ou embaixadores, apenas servis soldados da causa graeldara. E Téhran fizera seus votos sem temer ou hesitar, assim como o fizera o regente que tanto admirava. Seu próprio pai nunca os ouvira, pois se negara a comparecer a sua ordenação, e assim fora Calligan quem o cobriu com as vestes que agora trajava e lhe coroou com o elmo dourado da guarda de honra. Oehl podia entender a paixão que tomava o coração do cavaleiro, pois era a mesma que escondia profundamente no seu, mas o caminho das armas não havia salvado Meodarûn, e ele temia que também não iria salvar Téhran. Recostando-se em uma grande almofada, Oehl procurou relaxar, mas novamente não conseguiu.

De onde estava, pouco mais de três dezenas de metros para dentro da floresta, atrás de um grande tronco caído, Midler viu a comitiva surgir na estrada a sua frente, após muitos minutos de um angustiante silêncio. Ele observou com atenção o estandarte que cavalgava a frente da comitiva, reconhecendo que era de uma companhia oficial de diplomatas de Graeldar, mas não pressentia ali o perigo iminente do qual Laertes lhes alertara e isso o deixou ainda mais apreensivo. Ao seu lado, Zartan se esforçava para conter a impaciência de seu amigo, que teve de ser arrastado pelos dois até onde estavam. Bharin praguejara sem parar desde que foi forçado a sair da estrada e a visão dos cavaleiros o fazia se contorcer, quase urrando de ódio por ter sido obrigado a se esconder de algo tão inócuo para ele. Não fossem pelos olhos de Laertes, a tremerem sutilmente, Midler acharia graça daquela cômica situação.

Urthel fez um sinal para que a caravana se detivesse, olhando com desconfiança para a floresta que margeava a estrada, segurando as rédeas de seu cavalo com força. Os Feldaen cercaram a carruagem, enquanto Gralen se colocava ao lado do caçador, desmontando com a espada nas mãos. Subitamente, o brilho da manhã se desvaneceu, como se uma pesada nuvem encobrisse o sol, mas o céu continuava claro como antes, não havia nada a marcar seu límpido rosto. Os cavalos começaram a se agitar, ficando indócis sob os experientes cavaleiros. Oehl sentiu a estranha sensação que se apossava dele intensificar-se, alertando-o para algo agora muito próximo, mas não era medo o que afastava seus últimos resquícios de fadiga, mas a excitação por saber que aquele véu de mistério que parecia tudo encobrir seria finalmente desvelado. Ele sacudiu o clérigo para que despertasse, enquanto abria a pequena porta lateral para tentar vislumbrar o que podia apenas sentir, mas nada viu. Os Feldaen se esforçavam para controlar as montarias, tentando manter a formação. Tudo a volta deles escurecia rapidamente, até o brilho do dia tornar-se pouco mais que o de uma clara noite, enquanto o sol continuava a brilhar fortemente muito acima. Homens e animais estavam inquietos, sentindo no ar a iminência do perigo que se aproximava, enquanto Oehl mantinha-se atento, descendo lentamente os degraus, impulsionado por uma curiosidade muito maior que sua apreensão.

– Volte para dentro, agora! – o tom de Téhran deixava claro que não aceitaria ser questionado, mas Oehl pareceu não ouvir.

– Como uma chuva sem nuvens... – o sussurro de Laertes parecia o divagar incerto de um sonolento ébrio, mas ninguém pareceu escutá-lo.

Midler sabia que era a presença deles que o Feldaen havia percebido e pensou que deveria revelar-se antes que fosse tomado por um inimigo, mas não teve tempo. Ele viu quando uma grande sombra, ainda mais densa que a escuridão que os envolvia, desceu rapidamente sobre a carruagem com um grito cortante, destruindo-a como se esta fosse um frágil brinquedo de criança, fazendo os cavaleiros perderem o escasso controle que ainda mantinham sobre suas montarias. Soldados caíram com espasmos de metal e dor, enquanto os cavalos corriam sem rumo para longe de seus cavaleiros. Oehl foi arremessado para fora dos escombros com o impacto, de onde um agonizante grito de dor irrompeu, sendo então para sempre silenciado.

Após um instante de atônito silêncio, duas grandes asas se elevaram com violência do que restou da carruagem, muito acima do mais alto cavaleiro ainda montado, arremessando para o ar pedaços de madeira e tecido ensanguentado, para então se dobrarem com um amplo giro à frente. Um comprido bico curvado surgiu entre elas, negro como ébano polido, abrindo-se com um som estridente que levou as mãos de todos aos ouvidos, assim como terror aos seus corações. O bico continuou a se abrir, muito além do que qualquer ave poderia fazê-lo, e algo pareceu brotar de seu interior. O discípulo jamais poderia acreditar no que acontecia, não fossem seus os olhos a narrarem aquela cena. A cabeça de um homem surgiu de dentro da bico da grande ave, coberta por um elmo que deveria ter sido prateado quando fora forjado, mas agora estava muito envelhecido e desgastado pelo tempo e pelo uso. Havia uma grande fenda escura na parte de cima do elmo, de onde toda sua decadência parecia brotar e escorrer pelos lados como um longo véu. As grandes asas se fecharam sobre ele e as escuras penas pareceram se fundir, dando lugar ao grosso tecido de uma comprida capa negra que cobriu o que rapidamente tomou a forma de um alto guerreiro que terminava de se erguer. Em pouco tempo, não havia mais nada da grande ave que atacara a carruagem, apenas a imagem de uma terrível criatura de pele acinzentada, que ergueu a cabeça e abriu dois olhos carregados de melancolia, mas sem qualquer indício de vida, a olhar para os homens ao seu redor.

Há não muito tempo, este sinistro guerreiro chamara-se Khaedras e fora um homem bom e digno, assim como um justo e hábil espadachim. Lutara longamente contra ladrões e assassinos, bandidos e trapaceiros, e sua espada se tornou famosa e temida entre os criminosos das terras onde vivia. Sempre tratara a todos com humildade e respeito. Seu nome rapidamente ficou conhecido e era falado com entusiasmo em muitas cidades do norte. Khaedras, o Destemido, transformou-se quase em uma lenda, bem-vindo e admirado por onde passava. Sua ruína não se deu pela decadência do homem que fora, mas por sua infinita confiança naquele que o traíra e não naquilo que lhe fora ensinado. Não houve honra em sua queda, não perdera uma batalha gloriosa contra um inimigo nem sacrificara nobremente a alma pela vida de alguém, apenas deixara de existir como Khaedras, servindo agora a um poder que não teve forças para vencer. Sua consciência ainda o permeava debilmente, entre as trevas que devoraram seu ser, mas apenas o suficiente para atormentá-lo por seus atos, sem que nada pudesse fazer. Sua força e habilidade estavam agora a serviço de outra vontade que o tornava um prisioneiro no próprio corpo, corrompido e transformado em um Ghaenbür, o guerreiro-demônio das profundezas do Abismo. Nada poderia se opor mais à memória do nobre homem que Khaedras fora que a imagem do ser amaldiçoado que se erguia lentamente sobre o corpo do clérigo que acabara de matar.

Com um vigoroso comando para atacar, movido tanto pela lealdade quanto pelo terror que sentia, Ledric cavalgou para cima do inimigo, investindo com sua lança, mas Khaedras, ou o demônio em que havia se tornado, moveu-se com grande agilidade e desviou-se do golpe certeiro. Antes que o capitão o ultrapassasse, ele agarrou a lança e a puxou com força, derrubando o aturdido cavaleiro aos seus pés. Em um rápido movimento, Khaedras puxou de dentro da escura capa uma espada longa, coberta pela mesma corrupção de sua armadura com o pouco que ainda se via do alvo metal brilhando timidamente na escuridão. Abaixando-se, enterrou-a com facilidade no peito de Ledric como se a armadura do Feldaen não passasse de uma fina folha de papel envelhecido Uma última ordem a seus homens morreu na garganta do capitão, afogada em abundante sangue.

Aquela corrompida lâmina que parecia beber vorazmente do sangue do guerreiro caído fora chamada de Alvorecer enquanto esteve nas mãos do Destemido, e por muitos outros nomes antes disso. Dizia-se que havia sido forjada antes mesmo da alvorada dos homens, que estivera em guerras pelas mãos de deuses antigos e provara do sangue de dragões. Mas agora toda sua glória estava esquecida, transformada em uma cruel emissária da morte, assim como seu portador. Se havia algo nela que ainda sugerisse este passado estava agora perdido no mesmo abismo sem luz que tragara Khaedras.

Um dos Feldaen tentou atacá-lo por trás, enquanto Ledric ainda agonizava, mas, sem se erguer, o demônio puxou sua espada e virou rapidamente o corpo, arrancando o braço que o atacava pouco acima do cotovelo. Antes mesmo que o guerreiro pudesse gritar de dor, a arma de seu inimigo já o havia degolado em um giro contínuo. Ornël partiu velozmente em seu cavalo, buscando com sua espada o coração do inimigo, colocando toda a força e o peso da investida e do grande animal em um golpe descendente, mas este foi bloqueado por uma ensanguentada lâmina. Apesar dos pés de Khaedras serem arrastados pelo chão e de seus joelhos se dobrarem com o impacto, ele conseguiu resistir ao maciço ataque. O gigante tentava forçar passagem pela espada do inimigo, mas não conseguiu impedi-lo de reerguer-se. Uma fria mão agarrou com força inumana o pescoço de Ornël, puxando-o de seu cavalo como se este fora uma mera criança e usou seu corpo como um escudo para interceptar as duas setas que seus companheiros haviam lançado. Sentindo sua grande força rapidamente abandonar os membros trêmulos, o gigante caiu ao chão quando a mão que o segurava se abriu e, após um agonizante momento, seus olhos arregalados não viram mais nada.

Uma seta cruzou velozmente pelo ar com um silvo agudo, um instante após o voo de suas irmãs, apenas o suficiente para passar por cima do ombro do gigante que caía e enterrar-se profundamente no olho esquerdo de Khaedras, jogando sua cabeça para trás com o impacto. Uma gélida lufada branca escapou por entre lábios secos e rachados dos anos que passaram sem se abrir, enquanto um largo sorriso começava a se formar por baixo do elmo de Yanko, sua besta ainda apontada para o rosto do inimigo. Quando o demônio deu um passo para trás, a ponta aguda do estandarte de Graeldar irrompeu por entre as placas de seu peito, coberta por um viscoso sangue escuro, enquanto Berenas o pressionava com força contra as costas do inimigo. Khaedras curvou-se, segurando quase sem forças a ponta da arma do jovem, o único olho a observá-la tão sem vida quanto o pegajoso vazio em sua face que agora lhe fazia companhia.

Por um momento, um silêncio bem vindo se fez presente, quando até os gemidos dos feridos e moribundos se aquietaram. Não ousavam se mover ou mesmo respirar, temerosos que o menor som poderia destruir a fragilidade daquela vitória. Mas a falsa tranquilidade não durou mais do que aquele instante, quebrada pelo aviso desesperado de Robhur:

– Cuidado! Ele não está...

Antes que Robhur pudesse terminar, a capa de Khaedras agitou-se selvagemente como algo vivo, insano. Ele puxou rapidamente o estandarte quase um metro para frente, através do próprio peito, fazendo com que Berenas perdesse o equilíbrio e se curvasse para frente. Imediatamente, Khaedras empurrou a haste ainda presa ao corpo para trás com tanta força que sua outra extremidade atravessou o corpo de Berenas com um baque seco, mesmo sem possuir qualquer fio ou ponta, ceifando a vida do jovem.

Yanko terminava de colocar outra seta em sua besta, sem nunca tirar os olhos do inimigo, mas suas firmes mãos se detiveram. Quando o estandarte ensanguentado caiu junto com o corpo do mais jovem entre os Feldaen, ele simplesmente guardou a seta na aljava amarrada à perna e prendeu a arma cuidadosamente ao cinto. Jamais conhecera ou temera nenhum inimigo que pudesse matar com apenas uma de suas setas, mas não era medo o que se apoderava dele agora. O Feldaen ajoelhou-se na enlameada estrada, sentindo uma calma infinita toma-lo por completo quando a cabeça de Khaedras se virou em sua direção e ele viu sua própria seta coberta de sangue a olhar para ele, brotando do fundo de um elmo que se aproximava rapidamente. Desembainhou a espada e a repousou com reverência sobre as pernas, fechando os olhos em uma silenciosa prece a seus ancestrais, que não conseguiria terminar.

Quando a escura capa se abria, era possível ver uma grossa armadura sob ela, tão envelhecida e gasta quanto o elmo e a espada, mas que apresentava sinais de ter sido incrivelmente bela quando nova. O demônio se movia com total desenvoltura entre os Feldaen, evitando todos os golpes que lhe desferiam, enquanto os ceifava como se estes não passassem de meras hastes de trigo maduro aguardando a colheita. Não havia mais dúvidas quanto ao destino que aguardava aqueles soldados, mas Midler não podia mais ficar impassível ao que via e ergueu-se em um impulso, desembainhando a espada. O forte aperto da mão de Laertes em seu braço o deteve, mas apenas por um instante.

– Midler, esta não é sua luta! Não sabe o que está acontecendo!

– Não, mas não posso ficar aqui assistindo sem nada fazer, meu mentor! Isto não é uma luta, é uma carnificina, um massacre! Aqueles homens não têm qualquer chance! – Midler desvencilhou-se com força da mão de Laertes, que não tentou detê-lo novamente. Apesar do que sentia, não podia contestar as palavras de seu discípulo, que corria na direção do combate, rezando para ainda encontrar alguém vivo.

Oehl ergueu a cabeça do chão, ainda aturdido pelo impacto, sentindo um grande corte em seu braço esquerdo. Os gritos de dor e morte chegaram aos seus ouvidos antes das imagens se fazerem nítidas. A sua frente, Gralen lutava agilmente contra algum inimigo que ele não via, escondido pelo corpo do Feldaen. O espadachim continha habilmente todos os golpes que lhe eram desferidos e parecia ter a vantagem naquele combate, mas a escura capa saltou sobre seu rosto, cegando-o por um momento. Oehl não conseguiu discernir o que acontecia, apenas viu quando a ponta de uma longa espada brotou nas costas do Feldaen, desaparecendo tão rapidamente que ele quase não a percebeu. Mesmo o sangue do guerreiro pareceu demorar-se para brotar do ferimento aberto, como se também não estivesse seguro do que ocorrera. Quando o Feldaen que o defendia caiu prostrado a sua frente, como uma marionete sem cordas, Oehl pôde finalmente ver aquele que o matara, ceifando com a mesma facilidade outro de seus protetores. Soube de imediato que aquela era a presença que havia sentido durante toda a manhã. Havia uma forte aura envolvendo aquele guerreiro, uma magia poderosa como ele nunca sentira antes, mas que o atormentava como uma enfermidade. Ao olhar para o que restara da carruagem, podia ver o corpo do clérigo entre a madeira quebrada e as almofadas rasgadas, enrolado em um fino manto claro manchado de sangue.

Oehl silenciosamente agradeceu mais uma vez pelos sentidos que Yezmerin lhe ensinara a desenvolver, permitindo-lhe pressentir a ameaça que pairava sobre eles antes de todos os outros, o que salvou sua vida. Os dois últimos Feldaen, Théran e Robhur, se abaixaram ao seu lado, ajudando-o a se levantar, enquanto o demônio caminhava a largas passadas em sua direção, deixando para trás Urthel, o caçador, cujo corpo caía lentamente sem seu elmo dourado ou a cabeça que o preenchia.

– Saiam daqui! Não há nada mais que possam fazer! – ele empurrou os Feldaen para trás, terminando de se erguer.

Oehl esticou o braço com resolução na direção daquele terrível guerreiro, sua mão aberta como se procurasse lançar-lhe algo que não se podia ver, enquanto os lábios quase não se moviam, sussurrando com fervor palavras que apenas ele compreendia. O demônio fez uma breve pausa, com algo que lembrava a surpresa a dançar sutilmente em seu passivo olhar. Até mesmo sua capa se aquietara, aguardando. Oehl transformou então seu sussurro em um forte brado, até fazer seu braço retesado tremer com o vigor de seu intento, enquanto o suor e as veias em seu rosto refletiam o grande esforço que fazia, mas a surpresa passageira rapidamente abandonou o olhar de seu inimigo, que voltou a ficar inexpressivo como a noite sem estrelas. Quando ele retomou os passos decididos em sua direção, Téhran adiantou-se, empunhando sua espada, enquanto Rhobur colocava-se ao seu lado, segurando firmemente um grande escudo e algo escondido sob as vestes, fazendo uma oração silenciosa por um milagre.

– Não! Saiam daqui! – mas o aviso de Oehl chegou tarde, quando a veloz espada já havia sido lançada contra Téhran. Oehl fechou os olhos, aguardando o que sabia não poder mais evitar, com a certeza de que falhara em sua promessa e de que em breve iria encontrar-se novamente com Yezmerin, coberto em vergonha.

Mas a longa espada chocou-se contra outra que não a do Feldaen, com um som alto e estridente que se perpetuou no ar, sendo desviada antes que atingisse Téhran, e o demônio viu-se frente a um novo adversário. Midler havia se colocado entre eles e impedido seu golpe. A lâmina da espada de Sandren parecia brilhar timidamente na escuridão, ainda reverberando com o golpe.

– Corram! O mais rápido que puderem! – a voz do discípulo soou tão forte quanto seu fôlego ainda permitia. Mesmo após seis dias inteiros, sua armadura ainda lhe cobrava um grande esforço.

Um olho inexpressivo brilhou de espanto, quando se encontrou com os de Midler, tomado por uma surpresa que não conseguiu evitar. Se o demônio que dominava Khaedras pudesse controlar as feições de sua face inerte, ele agora sorriria satisfeito. Recuando um passo, ele girou velozmente a espada em curtos círculos e colocou-a para trás, reta como uma extensão de seu braço, curvando levemente o corpo em uma formal saudação de combate, sem sinal de desdenha ou escárnio. Midler foi surpreendido por este movimento, não pela cortesia a um adversário, mesmo vinda de um ser como aquele, mas por ela lhe ser estranhamente familiar, tocando fundo em algum lugar distante em sua memória. Mas aquele não era o momento para lembranças fugazes, ainda mais quando a espada de seu inimigo continuava veloz e mortal. Com uma rápida estocada, Khaedras reiniciou o combate, quase não dando a Midler tempo para que se defendesse de seus ataques. Téhran prontamente colocou-se ao lado do discípulo, enquanto Rhobur ficou junto a Oehl para protegê-lo.

Apesar de todo seu treinamento, Midler sabia que não era o melhor nem o mais experiente entre os guerreiros que já haviam tombado ali e que ele e o Feldaen não conseguiriam derrotar um inimigo tão hábil e capaz, mas o demônio começou a recuar, sem conseguir encontrar espaço ou oportunidade para atacar. Parecia que estava sendo contido ou enfrentava um terceiro oponente que Midler não podia ver, mas que deveria ser muito poderoso. Por um momento, o discípulo acreditou que poderiam vencer, mas sua esperança rapidamente se desfez quando viu um sinistro brilho se acender naquele olho, que pareceu tornar-se ainda mais escuro. Sua capa começou a agitar-se de forma selvagem, sob a influência da força demoníaca que lhe dava vida. Como uma extensão do corpo de Khaedras, ela atacava em rápidas investidas, chicoteando com violência o ar, tão próximo da cabeça do Feldaen que seus ouvidos eram assombrados por um som agudo e sibilante, mesmo por baixo do elmo. Com uma veloz chibatada, ela prendeu o pulso de Téhran, que prontamente desvencilhou-se, mas sua guarda ficou aberta por um momento e ele não conseguiu deter a espada que subiu ligeira, cortando-lhe profundamente o peito, desde a cintura até o ombro. Midler viu o Feldaen cair de joelhos ao seu lado em silêncio, apoiando-se em sua espada para não tombar. Não fosse pela armadura que usava, Téhran já estaria morto antes de tocar o chão.

O discípulo sabia que o Feldaen não sobreviveria por muito tempo sem auxílio, por mais forte que fosse, mas não havia nada que pudesse fazer. Estava sozinho agora, enfrentando um adversário que não acreditava poder vencer, que não parecia mais contido por força alguma, todo o vil poder que o movia estava agora liberto. Midler trouxe sua arma para perto do corpo, pronto para defender-se de seu inimigo, mas o golpe que recebeu foi tão rápido e brutal que partiu com um estrondo a lâmina de sua espada e quebrou seu escudo, assim como o braço que o segurava. Antes que pudesse reagir ou mesmo gritar, um segundo ataque, tão veloz quanto o primeiro, abriu um grande corte em sua perna, partindo a proteção de sua armadura como se esta não fosse mais do que uma das ressecadas folhas de outono que cobriam as margens da estrada, fazendo-o recuar com um contido grito de dor, esforçando-se para não cair.

Midler arfava com dificuldade, de dor e cansaço, sentindo o ar lhe faltar. Não havia se passado nem um minuto desde que entrara naquele combate, mas suas forças já o abandonavam. Sua perna latejava e a pele queimava onde a lâmina do inimigo a rasgara, em um corte sujo, mas estranhamente sem sangue. Com dificuldade, o discípulo ainda segurava o cabo da espada, apontando sem qualquer expectativa o pouco que restara da lâmina na direção de seu algoz. Que esperança poderia ter agora de vencê-lo? Ou mesmo de se tornar algum dia o Paladino que almejava? Midler tentava retroceder, observando o demônio aproximar-se devagar, com a espada abaixada e a capa a agitar-se impacientemente em torno dele. Midler esperou que ele estivesse bem próximo, para então atacar com toda a força que ainda lhe restava, mas seu pulso foi agarrado em pleno ar, quase sendo quebrado sob a imensa força que deteve facilmente seu ataque. Algo brilhou por um instante na mão de Khaedras, mas o discípulo não lhe deu atenção. Então, em uma rápida investida, a comprida espada atravessou seu ombro esquerdo, rompendo os elos da cota-de-malha entre as grandes placas da armadura. Midler não conseguiu segurar o grito que se desprendeu de sua garganta, enquanto a espada quebrada caía de sua mão Ele sentiu que as pernas não podiam mais suportar a imensa dor que sentia e cederam sob seu peso, mas ele não caiu. Seu inimigo ainda o segurava pelo pulso, pendurado como uma marionete.

Midler esforçava-se para permanecer desperto, apesar da agonia e da fraqueza que tomavam seu corpo. Através de olhos que quase não conseguia manter abertos, percebeu que havia algo diferente no olhar impassível de seu inimigo, quando ele aproximou seu rosto do dele. Algo que ele não conseguia definir nem ter certeza do que era, mas que lhe pareceu uma tristeza infinita, um desalento sem fim, rapidamente engolido pela escuridão que a tudo tomava, refletida naquele olhar, enquanto a ponta da seta de Yanko arranhava o rosto do discípulo. Qualquer traço de humanidade que poderia ainda existir dentro de Khaedras havia sido sufocado, morto pelo demônio que agora o habitava, senhor absoluto daquele corpo. Com violência, ele puxou a longa espada, arrancando um gemido entre os dentes cerrados de Midler. Então, um grito se ouviu, forte e inabalável como o próprio trovão a cair.

– Até a morte! – Zartan havia finalmente chegado até onde estavam, correndo o mais rápido que suas pernas lhe permitiam. Com um grito de guerra a explodir em sua voz, ele atingiu com força o lado direito do demônio, cortando profundamente ferro e carne, mas não pareceu conseguir sequer feri-lo levemente. Girando o corpo, Khaedras atingiu violentamente o peito de Zartan com o cabo da espada, jogando o anão para trás a uma grande distância, como se este não passasse de um pequeno boneco.

Mas Bharin sempre esteve ao lado de Zartan, desde que entraram pela primeira vez em um campo de batalha, há mais de cinquenta anos, e sempre iria estar. Quando o demônio atingiu seu companheiro, Bharin estava há apenas um passo de distância, encontrando-o com os braços e a guarda abertos a sua frente, enquanto tudo o que via era tomado pelo mesmo tom avermelhado de seus olhos. Com um salto o anão atingiu o peito do guerreiro amaldiçoado, rasgando a grossa placa que o protegia, ouvindo com satisfação o som dos ossos que se quebravam sob o peso de seu machado, até sentir seu fio tocar a parte de trás da envelhecida armadura, perfurando-a. Apesar de toda sua força e do poder que o movia, o demônio não conseguiu resistir a brutalidade do golpe do anão, sendo violentamente derrubado. Midler também caiu, quando a mão que o segurava se abriu com o impacto, e ele começou a tatear o chão, procurando a espada, enquanto olhava rapidamente para onde Téhran havia caído, vendo que o outro Feldaen já estava sobre o cavaleiro, a cuidar habilmente de seu ferimento.

Enquanto isso, Bharin sentia uma fúria sem precedentes se apossar dele, ao ver que o demônio não havia morrido, mesmo estando o anão coberto pelo sangue escuro e viscoso que jorrava de seu peito. Arrancando seu machado, ele continuou a golpeá-lo sem trégua, destruindo a antiga armadura, mas, mesmo com a violência de seus ataques, Bharin não conseguia arrancar aquele incômodo olhar do rosto de seu inimigo, não importando o quanto o atingisse, o que aumentava ainda mais sua fúria. Não havia emoção alguma naqueles olhos, mas eles pareciam refletir algo profundamente enterrado dentro do anão, algo que o fazia se sentir ao mesmo tempo próspero e amedrontado, preso e liberto, bento e amaldiçoado. Seu corpo inteiro tremia de ódio, tomado por uma ânsia que não conseguia satisfazer, como uma fome que nada podia saciar.

Então, quando o veloz machado desceu vorazmente uma vez mais sobre o corpo do demônio, este ergueu a espada e o bloqueou, interrompendo seu avanço. Bharin urrava de ódio e frustração, empurrando com toda a força, mas não conseguia mover sua arma. O guerreiro começou a se levantar, mas, apesar de todo seu poder, o fazia com muito esforço, tendo de vencer a cada centímetro a enorme resistência do anão. Bharin devia ter pouco mais da metade do altura de seu oponente, que, já de pé, se curvava pesadamente sobre ele. Não havia nenhum encantamento a mover os braços do anão que não a pura força de seus músculos, mas, mesmo assim, Bharin se tornava a cada momento um obstáculo mais difícil de ser removido ou vencido pelo poder do demônio, que já segurava a espada com ambas as mãos, até que os dois pareceram chegar a um impasse. Suas armas estavam entrelaçadas uma contra a outra, forçadas sob uma enorme pressão que ameaçava partir as duas a qualquer momento, enquanto os braços que as seguravam tremiam sob o enorme esforço, mas sem demonstrar sinais de fraqueza ou fadiga.

Bharin começou então a sentir seu ombro estalar, quando a ferida que Midler causara voltou a se abrir, fazendo uma grande mancha vermelha crescer rapidamente nas ataduras que o cobriam. Se ainda estivesse lúcido, o anão saberia que não poderia aguentar por muito mais tempo, de tão ferido e enfraquecido que estava, mas qualquer razão que ainda pudesse ter já o havia abandonado. A grande dor que sentia, mesmo através de todo o entorpecimento que seu ódio lhe causava, o deixava ainda mais enlouquecido. Segurando seu machado apenas com a mão esquerda, em um esforço muito acima do que seu corpo podia suportar, Bharin golpeou diversas vezes o rosto de seu inimigo com seu punho, terminando por enterrar a seta no vazio onde estivera seu olho. O anão golpeou-o até amassar profundamente o pesado elmo que o protegia, rasgando sua mão até os ossos, mas não conseguia ferir o demônio, nem pôde arrancar aquele incômodo olhar sobre ele.

Midler terminou de se erguer, sentindo as pernas tremerem de dor e fadiga, enquanto segurava firmemente o que restava da espada. Mesmo depois de muitos anos, quando a agonia que agora sentia tiver se tornado pouco mais que uma distante lembrança, ele não conseguiria ainda nomear o que atravessou seu peito ao olhar para os dois guerreiros em um impasse mortal. Não havia como saber quem venceria aquele confronto, entre a fúria selvagem e a força demoníaca, mas o que mais assustava o discípulo naquele momento era não conseguir distinguir claramente uma da outra. Não havia mais ali nada além de algo que lembrava vagamente quem ambos deveriam um dia ter sido, embebidos de um poder sem propósito, de uma descomunal força sem razão. O poder que movia o corpo de Khaedras parecia ter se esquecido de tudo mais, de sua missão e de seu objetivo, quaisquer que estes fossem, para concentrar-se apenas no anão, não aceitando a hipótese que não pudesse derrotá-lo. Ou era algo mais que Midler sentia a emanar de algum lugar muito além de seu rosto inerte, enquanto a capa se movia delirantemente a sua volta, em espasmos incontidos? Algo como um medo irracional, uma fragilidade que nunca sentira antes, enquanto a espada era lentamente empurrada em sua direção, recuando sob uma força que nem mesmo ele podia resistir. Quanto a Bharin, o discípulo não ousava dizer nem para si mesmo o que sentia ao olhar em seus olhos.

A eternidade parecia haver se congelado naquele instante, mas o grosso cabo do machado de Bharin determinou o fim do impasse, partindo-se em milhares de pedaços com um estrondo seco, fazendo a grande chapa que sustentara até então se chocar violentamente contra o rosto do anão, atordoando-o. Bharin cambaleou para trás, sua sede de sangue a se debater selvagemente dentro dele, mas há muito que os limites do seu corpo haviam sido rompidos e ele não podia mais suportar tamanho esforço. Um rio vermelho escorria por seu braço, tornando-se uma pequena cachoeira a cair de sua mão, enquanto suas pernas tentavam encontrar um equilíbrio que insistia em lhes escapar. Com um grave gemido, como se escapasse de um profundo poço, os olhos avermelhados de Bharin se voltaram para o fundo de sua cabeça e o anão caiu, finalmente vencido.

Midler observava desesperançado o que ainda restava do corpo de seu inimigo se erguer, enquanto pedaços de sua armadura destruída caíam pelo chão, mas sua capa agitava-se vitoriosamente no ar, sem que ninguém mais pudesse se opor ao seu avanço. O discípulo sabia que não tinha forças para detê-lo, mas jamais se permitiria desistir ou desesperar, erguendo-se tão firmemente quanto podia, o braço esquerdo pendendo imóvel ao lado do corpo. A escuridão que a tudo consumia adensou-se com as passadas do demônio em sua direção e o discípulo fez uma última prece silenciosa a Baltur.

Como em resposta ao seu pedido, uma clara luz se fez presente, como se um sol de primavera houvesse nascido por trás do inimigo, cortando a escuridão e afastando as trevas. Então, a voz firme de Laertes se ouviu, ecoando fortemente por entre as árvores que margeavam a estrada.

– Para trás, amaldiçoado! Para trás, eu lhe ordeno! – Laertes estava de pé ao lado de uma grande árvore, cujo tronco estava queimado pelo vento frio que descia das montanhas próximas, a copa já despida pela passagem do outono. A imagem do mentor estava circundada por uma aura brilhante, capaz de ofuscar a luz do próprio dia, fazendo a capa negra que envolvia o demônio se encolher em suas costas, procurando fugir daquela luz – Não irá reclamar mais nenhuma vida aqui, servo da escuridão, covarde e traiçoeiro. É passada a hora de retornar para as profundezas de onde foi arrancado, para o poder que a tudo corrompe. Liberte o que nunca lhe pertenceu e enfrente seus vis pecados!

O guerreiro avançou velozmente contra Laertes, impulsionado por algo mais forte do que o poder demoníaco que o movia, pois este temia aproximar-se do mentor, mas não conseguiu evitar as vigorosas passadas em sua direção, escondendo-se profundamente dentro do corpo alquebrado que envolvia. Laertes girou o longo cajado, que começou a brilhar ainda mais intensamente, desviando com facilidade a espada do guerreiro e atingindo-o com força no ombro, tirando-lhe o equilíbrio. Os ataques do mentor eram velozes e precisos, lutando tão habilmente quanto qualquer Paladino, girando incansavelmente e ferindo seu inimigo a cada golpe como nenhum outro ali fora capaz. O demônio começou a fraquejar, enquanto o mentor parecia se tornar cada vez mais forte e decidido, e o brilho de seu cajado aumentava ainda mais, até irromper em grandes chamas brancas, dissolvendo totalmente a escuridão que ainda tentava perdurar, cegando Khaedras e jogando-o para trás, que caiu duramente no chão com um grito estridente de dor e medo a vir de seu interior. Estranhamente, uma aura de paz e alívio tomou seu rosto por completo, e um belo olho castanho, desperto de um longo e horrendo pesadelo, se voltava agradecido para Laertes, antes de se fechar.

Mas algo pareceu se partir dentro do velho mentor e ele levou a mão ao peito, apertando com força suas vestes, com uma terrível expressão de dor e cansaço no rosto. As intensas chamas que tomavam seu cajado tremularam debilmente, como se sopradas por um gélido vento que diminuía seu brilho, enquanto a densa escuridão lentamente retornava. A determinação de Laertes não havia esmorecido, mas ele fora traído pela fraqueza de seu corpo envelhecido, a lhe cobrar inclemente a passagem de seus muitos anos. Sua visão tornou-se turva e seu corpo imensamente pesado, fazendo-o se apoiar no longo cajado, procurando pelas forças que abandonavam suas pernas. Então, outra dor, mais forte e lancinante, atravessou seu peito, e através de sua agonia, ele viu um vívido olho negro, muito próximo de seu rosto, a olhar profundamente dentro dos seus, carregados de uma imensa amargura.

– Não, por favor, não! Baltur não permita... – Midler gritou desesperado, enquanto observava a espada do demônio desaparecer dentro no peito do mentor, com sua ponta a sair-lhe pelas costas. Um manto de absoluto silêncio encobriu toda a floresta, quando as árvores e os animais emudeceram subitamente e o próprio vento se calou. Para Midler, o tempo nada mais significava, parecendo não ser capaz de avançar para além daquele terrível momento, para todo sempre gravado dolorosamente em sua memória. Um sentimento de vazio, de uma perda incomensurável se apossou dele, como nem mesmo as memórias de seu pai sobre Laurees foram jamais capazes de fazer. Havia também algo novo, poderoso, a se apoderar rapidamente de seu coração. Um ódio como ele nunca sentira, do demônio e de si mesmo, por ter arrastado o mentor para uma luta que não era sua. Um ódio que o fazia esquecer-se completamente da dor de seu corpo e dos ensinamentos de Sandren sobre prudência e sensatez, serenidade e controle. Ele não ouvia mais nada, nem mesmo os conselhos e os ensinamentos de Laertes e de seu pai, a gritar dentro dele em sua própria voz, apenas o som retumbante do sangue a correr veloz por suas veias, explodindo em seus ouvidos.

Erguendo-se com a capa novamente a dançar satisfeita, encobrindo a tudo com a escuridão que dela emanava, o demônio puxou a espada e virou-se para o discípulo, deixando o corpo de Laertes a cair atrás de si, entre as grossas raízes da árvore de onde o mentor surgira. O cajado tombou ao seu lado, não mais uma arma abençoada, mas um simples pedaço de madeira sem vida, frio e inerte. Com largas passadas, ele avançou na direção de Midler, com um sinistro brilho em seu olho, totalmente tomado pelo poder que o impulsionava. Não havia agora mais nenhuma esperança para o homem dentro da corrompida armadura, se alguma vez ainda houvera. Com a morte do mentor, ele havia desistido de lutar, entregando-se por completo àquele poder que desejava agora a morte do discípulo, mais do qualquer outra coisa.

– Você não me derrotou, amaldiçoado, não ainda – a voz de Laertes era agora pouco mais do que um sussurro, mas ainda firme como a do líder que sempre fora, apesar de muito enfraquecida pela dor – Não enquanto este velho corpo ainda tiver vida e vontade.

O mentor se esforçava para manter seu peito erguido, apoiado nos braços, enquanto o corpo ferido continuava prostrado. Cravando os dedos no chão, até enterrá-los profundamente na terra macia, Laertes fez uma breve oração a poderes que já se faziam antigos quando este mundo ainda era jovem. Imediatamente, pequenas fissuras surgiram em volta das corrompidas botas do demônio e grossas vinhas brotaram do solo, jorrando como uma vigorosa fonte, entrelaçando-se por suas pernas, subindo rapidamente até tomar quase por completo seu corpo quebrado, imobilizando-o, enquanto longos espinhos rasgavam a pele acinzentada.

Mas o inimigo era forte demais para ser contido por muito tempo, e as forças de Laertes rapidamente se esvaiam. As vinhas que o prendiam se ressecavam ao tocarem seu corpo, tornando-se frágeis e quebradiças. Midler tentava correr o mais rápido que podia, movido pela raiva e pela urgência que sentia, quase beirando o desespero, mas os poucos metros que ainda o separavam do demônio pareciam longos demais para seu debilitado corpo. Ele sabia que não conseguiria chegar a tempo, e este pensamento o enfurecia e o angustiava ainda mais.

Subitamente, as ramas que encobriam o demônio como uma espessa rede escurecida, explodiram em chamas vivas, que se intensificaram rapidamente na madeira ressecada, até se tornarem grandes labaredas que o tomaram por completo, fazendo a escura capa se contorcer de medo e de dor, não pelo calor do fogo, mas pela luz que dele emanava. Não eram brancas ou puras como as chamas do cajado de Laertes, nem haviam sido por ele criadas, mas feriam profundamente o demônio, detendo seu avanço e afastando a escuridão que o protegia.

Apesar do imenso calor que fazia sua pele arder a cada passo na direção do inimigo, Midler não se permitiu hesitar, usando as últimas forças para avançar e erguer o que restava de sua espada, enterrando-a profundamente, com fúria e vontade, no peito do demônio, que emitiu um grito estridente e caiu ao chão com o discípulo ao seu lado. As preces dos clérigos de Sandren continuavam a abençoar a lâmina partida de sua espada e ela queimava a carne de Khaedras mais intensamente do que as altas chamas que o consumiam. O demônio se aprofundou cada vez mais no corpo em chamas, tentando se esconder, mas não havia mais para onde fugir. Uma fumaça escura começou a subir, espessa e sufocante, tomando a forma do grande corvo que Midler vira no céu, a pairar ameaçadoramente sobre ele. A escuridão que o protegia havia começado a se dissipar e ele agonizava sob a tímida luz de um bem-vindo sol de outono. Um olhar de ódio e desprezo atravessou o discípulo quando as grandes asas se abriram, preparando-se para mergulhar como uma ave de rapina na direção de Midler, para matá-lo ou possuí-lo. Mas, antes que pudesse atacar, um facho de luz ainda mais brilhante que o próprio dia o envolveu, fazendo-o grasnar de dor e revolta. Ele se contorceu sem controle uma última vez e sua forma então se desfez em finos fiapos de uma fumaça que rapidamente se esvaiu, até que nada mais restou do demônio que assombrara Khaedras.

Quando toda a escuridão que ainda restava se dissipou por completo, Laertes fechou a mão e deixou-a cair sob o peso da dor que sentia. O brilhante facho de luz que dela brotara desapareceu, tornando o dia que os cercava mais frio e escuro do que realmente estava.

Midler tentava se esquecer da própria dor, erguendo-se e caminhando tão depressa quanto podia na direção de seu mentor. Sem se deter, deixou-se cair de joelhos ao seu lado. Puxando-o para si, colocou com delicadeza a cabeça de Laertes em seu colo. Toda a clara túnica que outrora exibira a cor das primeiras folhas de outono estava manchada com lama e sangue, que se misturava ao que descia pelo braço de seu discípulo. O horror tomou conta da alma de Midler ao ver, no lento apagar dos olhos do mentor, que a vida o deixava.

– Ajudem aqui, rápido! – as lágrimas desciam pelo rosto sem serem contidas. Ele sabia que não havia mais nada que pudesse ser feito para salvar a vida de Laertes, mas ele se recusava a desistir sem lutar.

Ao seu chamado, Rhobur correu em sua direção, deixando Téhran aos cuidados de Oehl. Midler rasgava o tecido das vestes de Laertes em longas tiras para enfaixá-lo, segurando-a entre os dentes enquanto puxava com o único braço que podia mover, mas o cavaleiro não esperou. Retirando as bandagens que Midler usara para tentar, em vão, estancar o sangramento, ele colocou a mão nua sobre o ferimento de Laertes, respirando profundamente enquanto fechava os olhos, tentando se acalmar, apesar de não acreditar que poderia salvá-lo. Sentiu então alguém segurar firmemente seu pulso, retirando sua mão do peito do mentor. Ao abrir os olhos, surpreendeu-se ao ver que era o próprio Laertes que erguia sua mão, colocando-a sobre o ombro ferido de Midler.

– Não perca seu tempo tentando prolongar o daquele que já terminou, jovem, – a voz do velho mentor era calma e absoluta, apesar da dor que sentia – Não quando a vida precisa de ajuda para resistir naqueles que ainda têm muitos dias para viver.

O Feldaen olhou para Midler, incerto do que fazer. Escondido sob o elmo, seu rosto estava firme e seguro, demonstrando uma tranqüilidade que beirava a frieza, como apenas aqueles que foram treinados para aceitar a perda que a morte trazia podiam sentir, mas a tristeza em seu olhar era inequívoca, e isto era tudo que o discípulo podia ver. Midler fechou os olhos, como se piscasse longamente, deixando o ar escapar lentamente dos pulmões, sentindo o mundo desaparecer a sua volta. Não queria ver ou ouvir mais nada, desejando como nunca desejara nada antes que o tempo não mais avançasse para além daquele momento, que o que sabia ser agora inevitável não acontecesse, mas não era seu este poder. Nenhum dos ensinamentos de Sandren podia mais confortá-lo, nem mesmo as corajosas palavras, sempre tão cheias de esperança e ternura que seu pai e Laertes sempre lhe falaram, podiam mais alcançá-lo onde estava. Sentia-se agora cego e surdo, até para si mesmo, sozinho numa escuridão infinita. Pediu silenciosamente para que lhe arrancassem os olhos e ouvidos, para que assim permanecesse eternamente e não tivesse que voltar para a dor e o sofrimento sem fim que o aguardavam, mas sabia que não poderia fugir. E não iria, pois se o fizesse não seria mais o discípulo, o guerreiro ou o homem que o maior de todos os mentores da Torre de Marfim escolheu e treinou para estar ao seu lado. Ele gritava incessantemente estas palavras para si mesmo, mas seu medo e sua vergonha não o permitiam ouvir.

O suave toque da mão de Laertes em seu rosto o fez despertar, encontrando no olhar de seu mentor a paz e a determinação que não conseguia encontrar dentro de si.

– Minha jornada está terminada, meu querido amigo, como me foi dito que seria, e nenhum poder deste mundo pode deter o que já se iniciou.

– Você não pode partir, meu mentor – as palavras roucas de Midler lhe saíam com dificuldade – Ainda há tanto por fazer, tanto para ensinar. Eu preciso de você ao meu lado. Alenthor precisa.

– Tudo o que busca, tudo que irá precisar, você encontrará dentro de você. Assim é com os grandes discípulos de Sandren, como você e seu pai, assim também será com Alenthor. Abençoado é aquele que viveu o bastante para conhecê-los e caminhar ao seu lado – Laertes sorria docemente – Acredite que pode, Midler, e você poderá. Busque dentro de você pelas respostas que ninguém mais pode lhe dar.

– Mas não estou pronto, meu mentor. Sei que não estou – não era a humildade de discípulo que falava através dele, mas uma incômoda certeza que o corroía por dentro.

– Não sou mais seu mentor, assim como não é mais meu discípulo. Esta honra me foi negada, mas nada mais teria a lhe ensinar. Não posso mais lhe dizer o que fazer ou que caminho trilhar, mas quero que tome a estrada que o conduz até o destino que escolheu, quando acreditar que deve, nobre discípulo e filho de Sandren.

Laertes inspirou profundamente, antes de prosseguir com a mesma voz tranquila, mas com uma expressão mais grave em seu rosto.

– Uma tempestade se aproxima, Midler. Uma tempestade que irá varrer todas as terras e todos os povos com uma violência há muito não vista. Aprofunde suas raízes, mas não se enrijeça, ou irá se quebrar sob a força de seus ventos. Este foi apenas o primeiro trovão, a cair ainda distante, mas ela virá.

O mentor se calou, fechando os olhos e franzindo levemente a testa em resposta ao esforço que fazia. Podia ouvir claramente uma suave voz, mais familiar para ele que a sua própria, a lhe chamar carinhosamente por nomes que ninguém mais conhecia, mas não podia ainda atender ao seu chamado. Uma enfraquecida voz, que não lembrava mais a sua, carregava agora suas palavras.

– Não chore, pois não há tristeza em minha partida. Minha vida foi longa e plena, repleta de momentos e de pessoas que me deixam orgulhoso de tê-la vivido – sua voz começou a desaparecer, tornando-se pouco mais que um sussurro, antes de se silenciar para sempre – A única tristeza que sinto neste momento é não estar em Sandren ao seu lado, quando você for consagrado, meu querido amigo...

O discípulo fechou os olhos, sentindo uma tímida chama que já queimou mais brilhante que o sol lentamente se apagar, e tudo ficou frio e escuro em sua ausência.

– Você estará sim, querido Laertes, estará sim.

Muito acima deles, a última folha que se prendia valentemente a um galho ressecado da grande árvore ao lado da qual Laertes jazia havia se desprendido, girando em uma suave espiral dourada até o chão, indo repousar carinhosamente sobre a fronte do velho mentor, enquanto a floresta abençoava seu retorno derradeiro ao bom solo que sempre amou.

Notas finais
Aguardem em breve o livro 2.