O Caminho das Estações

12 ∾ Um passo para frente, dois para trás.


Notas iniciais
E cá estamos nós, para mais uma semana de sofrimento! Mas eu prometo que está no fim... No fim desse arco! Pois a primeira fase da história está na reta final, a partir de agora. E é agora que vai ficar um pouco pior do que já estava. Afinal, sempre fica pior antes de melhor. Então, gostaria de avisar que os conteúdos podem ser um pouco pesados para algumas pessoas (para mim, inclusive!).

— Eu sempre falo com Octavia para não lavar a varanda se eu não estiver em casa, mas ela não me ouve. — Abigail reclamou, acabando de limpar a varanda com a vassoura, retirando as últimas folhas secas trazidas pelo vento. — Imagina se ela escorrega e não tem ninguém em casa para socorrer?

Estava terminando de arrumar a casa e conversava com Juno, que havia se disponibilizado para ajudar. Aproveitaram o dia mais ameno para colocar as coisas em ordem enquanto Nicholas e Octavia tinham saído para fazer algumas compras para a janta.

A tarde estava mais agradável que a de outros dias, apesar de já não haver mais nenhum sinal do verão ou do calor de outrora. O céu não estava tão nublado, embora o sol continuasse pálido e esgueirando-se atrás de uma nuvem ou outra. E ainda havia um vento incomodativo, obrigando o uso de roupas fechadas e quentes. Juno estava embrulhada em um moletom cinza de Nicholas, que cobria até suas coxas, cobertas pela calça rosa de pijama. Abigail também usava roupas largas, as quais Juno desconfiava ter pertencido a Leo, uma camiseta preta de mangas curtas e um moletom azul surrado.

Abigail continuava a reclamar de Octavia e suas arrumações exageradas pela semana, segredando a Juno que ela tinha uma certa mania de limpeza. E ainda que Juno permanecesse ao lado dela, acenando com a cabeça, dando risos nasais, respondendo com concordâncias curtas e polidas, não estava prestando atenção de verdade.

Sua cabeça estava um tanto distante, permanecendo presa em algumas reflexões, em maioria, questionando suas próprias atitudes. O tom amargo do arrependimento começava a dominar seu cerne e não conseguia evitá-lo toda vez que pensava em Nirav.

Todas as lembranças da discussão rastejavam de volta até sua mente, atormentando-a para reviver as besteiras que havia dito e torturando-a com uma sensação excruciante de constrangimento. Sentia-se estúpida por tudo o que havia dito e feito com Nirav, por tamanha injustiça que tinha cometido.

Agora, encarando a tela do celular, observando a conversa interrompida e as mensagens que nunca mais trocaram, o remorso parecia ser ainda maior. Por várias vezes chegou a digitar pedidos de desculpas, uns mais elaborados e outros mais envergonhados. Não havia mandado nenhum, pois sabia que não adiantaria mais. O estrago já estava feito. Era o fim e ponto final.

Só restava tentar se convencer da chance de deixar os erros cometidos para trás e retomar a sua vida. Entretanto, só conseguia se sentir cometendo mais erros, um seguido do outro, consecutivamente.

Seus olhos viciados ainda liam mensagens antigas, revivendo os momentos que antecederam a queda. Pareciam pertencer a uma época tão distante, que existia somente em suas memórias, sendo quase irreais. Ainda tentava obter conforto dessas memórias, que só existiriam assim a partir de então, apenas breves recordações.

Ainda guardava as fotos que havia registrado de Nirav. Permaneciam guardadas no rolo da câmera de seu celular, mantendo o único segredo cujo qual não se arrependia. Não eram muitas e a qualidade não era das melhores, mas o suficiente para reacender o sentimento que precisava extinguir.

O vagão do trem escuro, entrecortado por feixes de luz opacos e pálidos, que envolviam o corpo de Nirav, parecendo tão grande em um lugar tão pequeno. As caretas que ele fazia, na tentativa de prejudicar as fotos, sem saber o quão especial estava as tornando. Era tudo o que tinha de Nirav. Tudo o que permitia restar daqueles dias, do sentimento e de ambos.

Cada detalhe revivia memórias tão vívidas, capazes de transportar Juno para uma realidade diferente. Como momentos tão radiantes se tornaram tão lúgubre? Como ela havia permitido que um sentimento se resumisse entre erros e arrependimentos? Quando começou a haver duas partes de si mesma que ela odiava?

No celular, as poucas fotos de Nirav criavam um contraste com as tantas outras de Nicholas. Eram tantas, de tantas maneiras, capazes de reconstruir todos os anos juntos, uma a uma. Uma galeria de sorrisos, beijos e abraços. Cada foto que contava a história daquele relacionamento parecia disputar o espaço e a relevância diante dos olhos de Juno. E apesar de ter a vitória óbvia, não parecia suficiente para ela.

Novamente, a sensação desconcertante ao encarar seus pecados retornava, fazendo o que era um sorriso tímido em seus lábios se transformar em um ranger de dentes desconfortável. As memórias pareciam tornar-se pesadas demais para suportar, pois carregavam tantos sentimentos conflituosos quanto eram capazes de sustentar um alicerce já danificado.

Então, ela pensava no beijo de Nirav. A lembrança do beijo que tentava ignorar. O beijo que não deveria ter acontecido. Aquele bendito beijo...

— Juno? Está me ouvindo, querida? — Abigail chamou sua atenção, aproximando-se enquanto apoiava a vassoura na parede, dispensando-a.

Juno piscou algumas vezes, retornando à realidade, questionando-se o que Abigail estaria falando e por quanto tempo.

— Desculpe, eu acabei me distraindo... — respondeu, bloqueando a tela do celular para esconder a foto de Nirav.

— Eu percebi. — ela a analisou com atenção. — Está tudo bem? Você parece tão distante ultimamente.

— Eu só estou um pouco cansada. Não tenho dormido muito bem.

— Não tem dormido bem, nem se alimentado bem. Está acontecendo alguma coisa?

Um suspiro consternado escapou de seus lábios ao fitar sua tia, tentando conseguir tempo para elaborar o que iria dizer. Nos últimos dias, sua vida parecia dominada por frases prontas, elaboradas com muito cuidado.

— Estou preocupada com minha mãe. Imagino que ela esteja precisando de mim. — narrou a farsa, reproduzindo a mesma desculpa de sempre, como um roteiro gravado em sua mente. — Nicholas acha que deveríamos voltar logo.

Não deixava de ser verdade, afinal era o que Nicholas mais insistia. Assim como Juno, tinha sempre como motivo a preocupação para com Olivia, embora, no fundo, ela desconfiasse que ele só não estivesse mais suportando ficar ali. E, ainda que estivesse começando a ceder aos desejos dele por conta da insistência, Juno ainda não queria partir.

Havia algo que a mantinha naquela cidade. Algo além de seus sentimentos. Algo que, ainda com todo o caos, a fazia se sentir bem-vinda e acolhida. Sentia-se em casa, apesar de sequer morar em Florencia.

— Mesmo assim, eu não queria ir embora, não agora. — continuou, dessa vez sendo sincera com Abigail. — Eu estou bem aqui, me sinto bem aqui. Os lugares, as pessoas... A verdade é que eu gostaria de ficar. E às vezes, me pego pensando: e se eu ficar? Simplesmente ficar, sem precisar voltar.

Abigail a fitou, ponderando suas palavras. Seu olhar entregava alguns questionamentos que causavam receio em Juno, que pressentiu ter falado mais do que deveria.

— Mas você quer ficar por realmente gostar daqui ou por querer fugir das suas responsabilidades? — a questão caiu como um bloco de cimento sobre Juno, que engoliu a seco a entonação rigorosa de Abigail. — Porque se quiser ficar por gostar, tenho certeza de que irá encontrar o jeito certo de equilibrar todas essas coisas. Agora, se só está tentando fugir, sinto muito, mas não acredito que seja o caminho certo.

Não conseguiu responder, não de imediato. O peso da questão a esmagou mais do que gostaria de admitir. No fundo, era um pouco de ambas as coisas. Gostava de Florencia como não gostava de nenhum outro lugar, porém não podia negar o outro lado da verdade.

Por todo esse tempo, estava fugindo da sua vida, criando uma outra versão que já não podia mais sustentar. E talvez fosse essa a fonte de todos os seus problemas. Tudo começou a dar errado quando pensou que poderia viver uma nova vida, além da que já vivia.

Fugir dos problemas de sua mãe, negligenciando sua condição, além de ignorar a existência de seu relacionamento enquanto criava uma vida dupla, envolvendo-se com outra pessoa, não poderia terminar bem. Ambas não poderiam coexistir. Em algum momento, uma realidade se chocaria na outra, até não restar nada. E a franqueza desse pensamento começava a sufocar Juno.

Percebendo seu semblante atônito, Abigail se aproximou mais, encostando a mão em seu ombro direito, numa tentativa vã de conforto.

— Juno, está acontecendo alguma coisa? Está tudo bem? — ela insistiu, fitando a garota a sua frente com dúvida.

— Oh, não é nada, só... — Juno respondeu com um sorriso falso, notando uma leve falta de ar.

— Dá pra ver em seus olhos que não está tudo bem.

Nesse momento, percebeu que seus olhos ardiam. Era provável que estivem marejados, segurando as lágrimas ao encarar a verdade sobre suas atitudes inconsequentes.

Juno suspirou, abaixando a cabeça. Não conseguiria fugir dos questionamentos de Abigail, embora tampouco conseguiria falar a verdade. Já não conseguia mais suportar o medo do que a verdade acarretaria. Ainda assim, permitiu que uma pequena brecha se abrisse para Abigail.

— Eu estou perdida. — declarou, engolindo a vontade de chorar. — E sim, estou tentando fugir. Eu não sei o que fazer, porque acabei criando uma vida dupla e não consigo retomar a realidade. Ao mesmo tempo, também não quero voltar ao que eu era. Eu quero... Quero recomeçar tudo, mas como fazer isso sem deixar tudo para trás?

Quando terminou de falar, procurou qualquer resposta nos olhos de Abigail e só encontrou confusão. Nada do que disse fazia sentido sem o contexto todo. Porém, ela continuava a se acovardar diante da verdade.

— E por quê? — ela perguntou, em vão, pois Juno não entregou nada além de um silêncio pesado.

Abigail respirou fundo, tomando suas mãos nas dela, como um gesto fraternal. Algo que nunca compartilhou com sua própria mãe. Por isso, sentiu receio do que viria a seguir.

— Entendo que não queira me contar, todos nós temos segredos. E, sendo sincera, na maioria das vezes, algumas coisas devem permanecer segredos.

Juno comprimiu os lábios, tentando manter uma expressão nula ao observá-la, porém bem surpresa com a exatidão de suas palavras.

— Sabe, várias vezes encontrei Leo em situações parecidas. No mesmo ponto em que você está agora. — ela ponderou, passando o olhar de Juno para frente, perdido em algum ponto qualquer da varanda. — Ele estava sempre perdido entre o que queria fazer e o que era certo a se fazer. Nunca conseguia decidir, então ficava preso nessa espécie de limbo. Paralisado demais para tomar alguma atitude.

Abigail suspirou, como se fosse difícil falar de Leo. Estava remexendo em memórias que tentava superar e isso parecia ter um custo. Juno não se recordava de Abigail comentar qualquer coisa sobre ele, além de mostrar algumas fotografias antigas do jovem rapaz de olhos claros e cabelos rebeldes. A única pessoa que havia quebrado esse silêncio era Nirav.

— Eu não sei o que está acontecendo com você, imagino apenas que esteja nesse mesmo limbo. Paralisada entre o que quer fazer e o que é certo fazer. Eu sei que, às vezes, nossa vida parece não estar o ideal que desejamos e qualquer outra perspectiva parece mais tentadora, mas não acha que deixar tudo para trás é muita coisa? Você tem tudo, não há por que abrir mão para recomeçar. O que há de tão importante para te fazer isso contra tudo o que tem? E se é tão importante, por que te obriga a ir contra? Não deveria estar a favor?

Mais uma vez, Juno não sabia o que responder, na verdade, não tinha como responder àquilo. O conflito do seu âmago começava a tomar proporções grandes demais para ela ser capaz de sustentar sem quebrar. Já não sabia mais se era uma boa ideia prosseguir com a conversa.

Tudo o que conseguiu fazer foi atuar um sorriso enquanto pedia licença para tomar banho, com a desculpa de retirar a poeira do corpo. Então, abandonou o celular sobre a primeira superfície que encontrou no caminho para escapar até o banheiro, onde se trancou com certo desespero. Só assim permitiu o corpo se apoiar na porta de madeira por uns instantes, na tentativa de recuperar o fôlego sufocado em sua garganta, antes de retirar as roupas.

A água quente foi como um acalento, mas não o suficiente para afastar os conflitos de sua mente. Se a intenção de Abigail era amparar, só tornou tudo ainda pior e mais confuso. No entanto, não podia culpá-la. Só estava tentando ajudar alguém perdido demais para se encontrar.

Agora, todas os seus pecados tamborilavam por seu corpo como a água que caía do chuveiro, marcando-a de um jeito não tão satisfatório quanto. Era incomodativo, até dolorido. A marca dos seus erros parecia quase física naquele momento, expostas a quem quisesse ver. Assim como Abigail parecia ter visto.

A verdade doía nos ossos. Estava sempre tentando acertar ao fazer tudo errado. Estava sempre tentando se encontrar ao fugir. Tudo resultava em erros e arrependimentos feitos da sua massiva covardia e estupidez. E a pior parte era não só atingir a si mesma, mas quem estava ao seu redor.

Quando discutiu com Nirav, estava, na verdade, procurando uma desculpa para conseguir terminar o que havia começado. Seria mais fácil terminar se tivesse no que esconder sua covardia. Seria mais fácil se tivesse estragado tudo. Caso contrário, jamais seria capaz de dizer as palavras. Jamais seria capaz de fazer aquela escolha, porque, no fundo, sentia que não tinha escolha alguma.

Juno nunca foi uma pessoa indecisa. Sempre soube bem o que queria e nunca hesitava em tomar a decisão que precisava. Entretanto, já não se reconhecia mais. Parecia estar diante de uma decisão que antes não teria de pensar duas vezes, mas então por que não conseguia fazer a escolha certa? Qual era a escolha certa? E por que não parecia ter escolha?

Talvez Abigail estivesse certa. Nada que a obrigasse ir contra tudo poderia ser tão bom. Como algo que cresceu de um erro, um equívoco impulsionado pelo desespero, poderia ser mais valioso do que tudo o que havia construído? Como teria coragem de abrir mão de tudo o que tinha em troca do duvidoso?

No entanto, se era assim tão errado, por que não conseguia se arrepender? Afinal, arrependia-se de muitas coisas, não do que sentiu por Nirav. E se aquele sentimento não era certo, por que ainda insistia em existir? Deveria ser só uma diversão derivada de um impulso qualquer. E se Nirav não era o certo para Juno, por que havia se apaixonado?

Era injusto, até errado, tentar se convencer de que o que sentia por ele era mero impulso. Parecia tão natural, como uma força da natureza que não se pode lutar contra. A correnteza de um rio, forte demais para ser evitada. Forte demais para não significar nada.

De qualquer forma, já não importava mais. Qualquer que fosse esse sentimento, era tarde demais para tentar salvá-lo. O estrago já estava feito. O ponto final havia sido posto, ainda que a contragosto. O que quer que tenham começado, já havia acabado. Nirav agora tinha Lou, que podia ser quem ele merecia. E Juno continuaria a ter Nicholas.

E só por pensar em sua pessoa, ele já estava de volta, retornando para ela. O barulho da porta junto com a conversa, entregava que ele e Octavia acabavam de chegar. O que fez Juno apressar o banho e se enrolar na toalha para voltar ao quarto.

O tempo frio a recebeu de forma rude, fazendo-a estremecer com arrepios por toda sua pele. O clima começava a retomar seu estilo mais hostil, com o vento forte e gelado, assim como as nuvens acinzentadas que engoliam o último resquício do sol.

Juno adiantou-se até o quarto para se trocar, porém acabou se perdendo nas memórias de alguém que nunca conheceu. Leo parecia tão presente naquele quarto. Parecia estar na decoração, nos objetos, em cada canto, sem realmente nunca ter ido de verdade. Não só ali como também nos sentimentos das outras pessoas. Permanecia nos sentimentos de Abigail e também nos de Nirav. Agora, também parecia estar nos seus próprios.

— Que coincidência do destino nos conectar a mesma pessoa... — murmurou, passando os dedos pelos livros, sentindo a textura de cada um deles.

Conseguia se familiarizar com Leo. Ou melhor, a memória dele. Parecia unânime que era uma pessoa que correspondia aos impulsos que sentia, por achar que a vida só existia dessa forma. E talvez ela não fosse tão diferente assim, tentando encontrar uma vida que gostasse de viver, ainda que isso significasse estar errada.

Tentou imaginar Leo ali, no quarto. Deitado na cama, lendo algum livro e, por um instante, perdendo a atenção em alguns dos quadros ou animais entalhados. Entretanto, toda vez que a figura da sua imaginação abaixava o livro, revelava o rosto de Nirav.

— Juno. — a voz de Nicholas veio séria em direção da porta, puxando sua atenção com rispidez. — Preciso ter uma conversa com você.

Ela o olhou, surpresa, sentindo o coração acelerar até quase estremecer dentro deu seu peito, tamanho era a ansiedade e o receio diante do anúncio.

— O que... O que foi? — tentou não gaguejar e falhou, pois até para isso era fraca demais.

Sem rodeios, ele atirou seu celular sobre a cama raiva, quase caindo pelo chão pela raiva que foi arremessado. Juno teve de se deslocar bruscamente para alcançá-lo. A toalha em torno de seu corpo protestou, cedendo aos poucos.

— Que porra são essas fotos? — a acentuação rude de Nicholas cortou através do corpo de Juno, que agora já sabia do que se tratava.

As fotos de Nirav estavam exibidas na tela de seu celular. Ela o olhou, atônita, sentindo o receio apertar em torno de sua garganta.

— Está mexendo no meu celular? — sua voz saiu esganiçada de irritação diante da intromissão em sua privacidade. Não era algo comum, mas não parecia incomum tampouco.

— Você me deu a senha, assim como eu te dei a minha, se lembra?

— Mas eu só mexo no seu celular com a sua permissão! — protestou, arqueando as sobrancelhas.

Enraivecido, ele se aproximou abrupto, fazendo-a recuar.

— Bem, se não tem o que esconder, então não tem nada do que se preocupar. — apesar de manter a voz baixa, era agressiva, além de sarcástica. — Ainda não me respondeu. Vai ficar me enrolando?

Juno estremeceu, passando o olhar de Nicholas para as fotos em seu celular. O rosto de Nirav estampado na tela fazia seu estômago revirar. Sentiu toda sua postura ceder, se desestabilizando perante o namorado.

— São só... fotos. Nada demais. — respondeu incerta, sentindo a voz tremular.

— Apague-as.

Ela franziu o cenho, tentada a contrariá-lo, mesmo sabendo que ele odiava quando o fazia.

— Por quê? São só fotos... Eu também tenho das meninas... — não sabia bem o que estava dizendo, só estava tentando contornar a situação sem precisar deletar e, mais ainda, sem precisar brigar. — Foi uma brincadeira, na verdade...

Nicholas contorceu o lábio inferior, encarando-a com um semblante falso de confusão, agindo como se ele fosse burro para ela explicar algo óbvio. Ele parecia ainda mais velho desse jeito.

— Que tipo de brincadeira?

— Ahn, com as meninas... Lou! Eles... — não conseguia dizer em voz alta, por mais que fosse a desculpa perfeita, ainda se recusava. — Eu pensei que...

— Pensou errado! — ele apontou para o celular. — Apague as fotos. Agora.

Percebendo que não tinha muita escolha, acabou cedendo. Não queria entrar em uma briga com Nicholas. Com os dedos trêmulos, apagou uma a uma, até não restar mais nada.

— Não acha que é falta de respeito comigo, ter fotos de outro homem no seu celular?

A entonação dele a irritou, de repente, obrigando-a a sair da defensiva. Não queria ter apagado as fotos. O último resquício do que não podia ter, justamente pela pessoa diante de si.

— Pronto! Era só isso? — irritada, assumiu uma postura de escárnio. — Não quer olhar as mensagens também?

— Você acha que eu sou otário? — ele a cortou, brusco, sobressaltando a voz.

Significava que Nicholas tinha vasculhado todo o aparelho, de uma ponta a outra, inclusive as próprias mensagens. Sentiu um certo alívio ao se lembrar das mensagens com Nirav. Além de já não conversarem há um bom tempo, as interações antigas se baseavam apenas em coisas de cotidiano, como faculdade e férias. E Nirav, às vezes, demorava tanto para responder que os assuntos ficavam desconexos.

— Não me dê motivos para desconfiar de você. — Nicholas prosseguiu, com certa hostilidade que deixou Juno desconfortável. — Eu odiaria saber que está me escondendo alguma coisa.

— Pare, por favor...

— Você tem fotos de outro homem na sua galeria, como espera que eu reaja? — ele aumentou o volume voz, com cuidado para não ser escutado por ninguém, além dela. — O que você ia achar se tivesse fotos de outras mulheres no meu celular? Como você ia reagir?

Ele estava bem próximo dela, deixando-a sem saída, prendendo-a contra a cama. Em seus olhos cintilavam raiva e revolta, trazendo o sentimento de culpa em Juno. Mais uma vez, sentia-se acuada pelo o que estava causando a ele. Ele estava certo.

— O pior é ainda ser foto justamente desse cara! Logo ele, que fez toda aquela cena patética em público, questionando o nosso relacionamento! — ele rugiu, rangendo os dentes. — Eu só deixei quieto porque você quase implorou! Não acha que eu tenho motivo para ficar assim? Acha que estou exagerando?

— Desculpa! — suplicou, franzindo o cenho. Seu coração estava tão acelerado, chacoalhando dentro da cavidade de seu peito, que teve medo de que ele fosse capaz de escutar. — Desculpe, por favor!

Ele se afastou, coçando a barba de forma ruidosa. Seu olhar ainda repousava sobre Juno, vigiando-a de cima.

— Eu não ligo para os seus amigos, Juno. Não estou nem aí quem eles são, de onde vem, não me importa. Eu posso até nem gostar deles, mas são seus amigos e eu os respeito, por você. — agora, a voz dele trazia um aviso que começava a despertar um alarme dentro da cabeça de Juno. — Mas eu sabia que tinha alguma coisa nesse moleque que não me agradava.

— Nicholas, por favor, não arrume confusão... — pediu, sentindo o desespero diante das palavras de Nicholas.

Nicholas a olhou uma última vez, como se servisse de um último aviso, que ele não iria repetir.

— Isso não depende de mim. — respondeu, curto e grosso. — Espero que ele não procure problema.

Houve silêncio quando Nicholas saiu do quarto, sem aceitar suas desculpas, sem sequer parecer se importar, deixando Juno sozinha ao encarar o abismo que se estendia diante de seus olhos.

Até onde seus pecados a levariam? E quem eles atingiriam?

Então, o alarme soava dentro da cabeça de Juno. Um zumbido que aumentava exponencialmente a cada instante. Tudo o que conseguia ouvir era o sangue latejando em seus ouvidos como uma sirene.

Notas finais
Não parece ter um caminho que haja uma saída boa para a Juno. E quanto mais decisões ela tenta tomar para fazer o que é certo, mais errada ela parece estar. Quanto mais tenta encontrar a resposta certa, mais perdida está. Sempre um passo a frente e dois para trás.