O Caminho das Estações

58 ∾ Ah, como o coração consegue esconder coisas inimagináveis.


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que bem, pois nossos protagonistas começaram a tomar atitudes. Pelo menos um deles até agora! Só nos resta a esperar pelo melhor.

Uma chuva fina caía dos céus enquanto Nirav fumava um cigarro, casualmente, à porta de uma loja. Os pingos finos e constantes encharcavam o solo, amornando o clima até então quente e abafado de Florencia. Uma surpresa bem-vinda que começou na manhã daquele dia e provavelmente iria persistir até o fim da noite.

Para Nirav, entretanto, poderia continuar chovendo sem parar. Sentia falta do cheiro de terra úmido, o calor cedendo a um vapor que se erguia das pedras da rua, os prédios transpirando sob as gotas de chuva e o colorido dos guarda-chuvas transformando as calçadas. Por isso, permitiu que a chuva atingisse seu rosto e, se possível, lavasse todas suas incertezas e inseguranças.

Justamente quando sentia a chuva morna e o vento gélido, seu nome foi chamado pela atendente paciente que o aguardava do lado de dentro junto com Alice. Ele olhou por cima do ombro, encontrando a mulher de coque com um sorriso gentil e prestativo. Queria dizer que ela estava pronta. E ele se perguntava: pronta para o quê?

Assoprando a fumaça do último trago, jogou o cigarro fora meio a contragosto. Então, respirou fundo e tomou coragem. Era preciso ter coragem, caso contrário, estaria perdido. E já não tinha mais o privilégio de se permitir se perder.

Nirav olhou uma última vez para a chuva, fracionando seus pingos, como se fosse capaz de contá-los um por um de cada vez. Olhou de um lado para o outro das ruas lavadas, procurando um rosto familiar na multidão que se arrastava sob os pingos de água, perguntando-se onde estaria Juno agora, senão em seus pensamentos.

A gente costumava se esbarrar em todos os cantos dessa cidade, pensou consigo mesmo ao se despedir da chuva. Agora, tudo o que encontro dela está dentro de mim. Era quase como se ela estivesse fugindo dele, mas não podia julgá-la. Não deveria procurá-la se não sabia o que fazer quando a encontrava.

Abandonou os pensamentos junto com a chuva e, de mãos vazias porém cheias de nervosismo, ele adentrou a loja mais uma vez. Deveria ser a quinta que visitava naquele dia, mas ele não se importava. Desde que Alice se sentisse satisfeita e tudo fosse finalmente esclarecido, visitaria todas as lojas que Florencia poderia oferecer.

Na verdade, era um hábito comum. Quando namoravam, várias vezes teve o paciente trabalho de continuar esperando até que ela encontrasse a roupa perfeita e se sentisse satisfeita. Nunca proferiu uma única frase de reclamação, sempre a ajudou a escolher todos seus vestidos, calças, blusas e sapatos e jamais partiu sem que ela tivesse um sorriso largo em seus lábios finos. Esperava que dessa vez também pudesse ser assim. Embora tudo fosse diferente, ainda gostaria de ver o sorriso genuíno de Alice. E de saber que ela estava satisfeita.

E lá estava ela, saindo do provador, girando sobre seus tornozelos para testar o vestido que havia escolhido para o casamento. Era cor de oliva, longo e rodado, com alguns babados pela saia e sem alças. Simples e reservado, bem como Alice era. Combinava perfeitamente, até mesmo com seus cabelos tingidos.

Estava tão linda quanto podia estar. Radiante, confiante e bela. Uma visão tão agradável aos olhos quanto ao coração de qualquer um. Porém, por mais que o enchesse de alegria, já não acelerava mais seu coração.

— Está linda — ele disse, de repente, puxando atenção da mulher que olhava para o espelho. — Ficou incrível.

Alice virou em seu encontro, como tantas vezes já o fizera antes.

— Acho que finalmente encontrei.

— Use com os cabelos soltos — ele sugeriu, colocando as mãos nos bolsos da calça jeans. — Seus cabelos são lindos.

Com um sorriso mínimo, ela anuiu, concordando. E assim, ele sabia que ela estava satisfeita.

Uma última vez, ela olhou para o vestido no reflexo do espelho. Depois, soltou os cabelos como ele havia dito. Embora tenha os colocado de um lado para o outro, no fim, acabou acatando a sugestão dele. Ficava melhor solto, só solto, escorrendo por seus ombros e preenchendo o vazio que as alças deixaram.

— Um colar também fica ótimo, não acha? — ela perguntou.

Nirav olhou para a atendente que o olhou de volta, ambos sem saber bem quem deveria responder. E ambos responderam, embolando-se nas respostas positivas.

— Nós temos alguns colares disponíveis, se a senhora quiser dar uma olhada.

— Eu adoraria! — ela respondeu, até se lembrar de Nirav. — Se você não estiver com pressa, é claro.

Ele apenas balançou os ombros. Tudo o que quiser, pensou consigo mesmo. Tempo é o mínimo que posso dar a você.

— Não se preocupe comigo, querida.

— Por que não procura por um terno? — ela sugeriu sem jeito, depois virou-se para a atendente. — Vocês têm alguns ternos, certo?

— Claro, se o senhor...

Ele ergueu a mão, rejeitando a sugestão.

— Eu já tenho um terno, você sabe.

— É o terno da sua formatura, Nirav! — ela protestou. — Já está velho e é bem provável que esteja ultrapassado. É o casamento do seu melhor amigo, deveria usar algo à altura disso, não acha?

— Não tem nada de errado com o terno. Agora ele cabe perfeitamente em mim, antes ficava largo.

Alice respirou fundo. Talvez, prometendo a si mesma para não perder a paciência. Ele se divertiu naquele instante. Era engraçado como ainda discutiam feito um casal.

— E nem tão velho o terno é assim. Além de que eu o usei poucas vezes.

— Você tem esse terno há sete anos!

Um sorriso cobriu seus lábios.

— É um terno especial, para um momento especial.

— Tem certeza? — não esperou sua confirmação. — Bom, você é quem sabe.

E ali ela o deixou para escolher seu colar favorito. E mais uma vez deixado sozinho, ele retornou para a porta da loja, desejando ainda ter um cigarro entre os dedos. Porém, não demorou tanto quanto imaginou. Logo, encontrou Alice com os olhos brilhando ao admirar um colar com uma cascata de réplicas de pérolas. Quando a pendurou em seu fino e alvo pescoço, viu nela um tom de sobriedade e realeza que o deixou admirado.

Quando tudo terminou, Nirav sacou o guarda-chuva escorado em um dos cantos da loja e abriu sobre as duas cabeças que equiparavam a altura. E juntos, como tantas outras vezes antes, eles atravessaram Florencia sob a cortina de chuva que engolia o mundo inteiro.

No início, o silêncio era bem-vindo. Como um convite para apreciar os poucos momentos de paz que ainda restavam. Juntos, eles caminharam lado a lado, tentando apreciar o que a companhia continuava a trazer um para o outro. Naquele silêncio inicial, havia paz, contemplação e um pouco de expectativa.

E a expectativa, aos poucos, começou a crescer. Então, o silêncio começou a incomodar.

Enquanto andavam pelo centro da cidade, cruzando as ruas que tantas vezes atravessaram de mãos dadas, passando por esquinas em que tanto namoraram, era difícil não sentir uma inevitável tensão surgindo e crescendo a cada passo tomado. Logo, o sorriso satisfeito de Alice transformou-se em um sorriso amarelo de incômodo e ansiedade.

E com a ansiedade, veio o silêncio sufocante, tão intenso que era, abafava até mesmo a chuva.

Conforme o silêncio tornava-se pior, o incômodo passava a ser externalizado para que, numa vã tentativa, tentassem preencher o vazio das palavras que precisavam ser ditas e continuavam sendo evitadas. Alice suspirou e bufou algumas vezes. Nirav pigarreou e até bocejou. Estalaram os lábios e fingiram tossir, fizeram de um tudo, exceto tomar a coragem da primeira palavra.

Irritado com a própria impotência, Nirav parou de repente. Estavam em frente à antiga estação. A chuva constante tamborilava nas telhas resistentes ao tempo e coloria os tijolos desbotados. Entre os cascalhos antigos, que emanavam um cheiro inebriante e produziam um som gostoso, o trilho do inexistente trem reluzia em umidade. Foi inevitável pensar em Juno. Como ela adoraria estar ali, imersa naquele pequeno universo de umidade e antiguidade esquecida pelo resto da cidade. Quase conseguia vislumbrar o brilho em seu olhar...

E foi pensando nela que decidiu tomar uma atitude, pois sabia ser a única forma necessária de tentar acessá-la uma vez mais. Ela merecia que tomasse alguma ação. Assim como Alice também merecia. Mas, quando abriu os lábios ao proferir uma palavra que nunca veio, Alice tomou as rédeas ao se aproximar com um suspiro seguido de um lamento:

— Estive pensando nas coisas que falei para você — ela o desarmou com surpresa. — Eu te disse coisas horríveis.

— Eu mereci ouvir coisas horríveis.

Alice balançou a cabeça, rejeitando sua postura passiva.

— Eu demorei a perceber quão injusta fui com você e a forma como te trarei — ela ergueu os olhos de encontro ao seu, saindo de baixo de sua sombrinha até a marquise da estação. — Agora, quando penso em tudo, não consigo nem me reconhecer em algumas ações.

Nirav fechou o guarda-chuva, seguindo-a para dentro da estação vazia.

— Você estava com raiva. É o tipo de coisa que fazemos quando estamos com raiva. Eu fiz o mesmo com meu pai.

— Não era só raiva. Também havia ciúmes. Eu estava morrendo de ciúmes. — ela parecia frustrada em admitir aquilo. — Eu sempre me gabei de ser desapegada e jurava achar ciúmes uma baboseira infantil. E de fato é, como me sinto infantil agora!

Ele não sabia bem como responder aquilo. Então, tentou ser o mais sincero possível.

— Não é como se eu não tivesse dado inúmeros motivos, não é? — com um riso irônico, ele se curvou sobre a murada para observar os trilhos. — Você não estava errada, Alice. Eu sei que não gosta da ideia de perceber essa falha em você, mas não pode se culpar por sentir algo que eu fiz a você. Eu estava mesmo te afastando de mim, só para ter alguma desculpa para continuar fazendo o que eu estava fazendo sem me sentir culpado demais. Eu pensava que assim, talvez, seria mais fácil terminar as coisas sem muitos conflitos.

Alice ponderou suas palavras por um instante antes de continuar.

— Não era só a ideia de perder você que me torturava, Nirav — ela respirou fundo, como se estivesse tentando reunir algum tipo de coragem. — Eu não conseguia aceitar que estava perdendo você para a Juno. Eu estava com raiva de tudo o que aconteceu entre vocês e achava um absurdo que ela ainda tivesse efeito sobre você. Eu me recusava aceitar que você ainda gostasse dela, logo dela. E... Bem, pensar que mesmo depois de todo esse tempo, você preferisse ela a mim, não era fácil de lidar. Eu queria ser maior e melhor do que esse sentimento mesquinho, sabe que essa não sou eu, mas...

A confissão o pegou desprevenido, apesar de ser algo bem óbvio. Jamais poderia imaginar Alice admitindo um sentimento do tipo, considerando sua repulsa por sentimentos obsessivos. No entanto, era compreensível a forma como se sentiu. No fundo, havia dado a ela todos os motivos para se sentir assim. Se tivesse sido honesto desde o primeiro momento, não só com ela, também consigo, talvez as coisas estivessem diferentes. E, no fim, Alice não precisaria lidar com questões morais tão complicadas.

— Tinha todo o direito de estar. — Nirav se virou a ela, tentando soar o mais acolhedor possível. — Era exigir demais pedir que não sentisse nada.

Alice bufou, frustrada. Frustrada com Nirav, consigo mesma, com toda a situação a ela imposta nos últimos tempos. Ele compreendia. Era difícil não se sentir frustrado. Portanto, aproximou-se gentilmente.

— Pode me perdoar por tudo? — pediu, então.

Por muito tempo teve medo de fazer a pergunta como deveria ser feita; sincera e carinhosamente. Sabia que insistir que ela o perdoasse como estava fazendo antes era apenas um jeito de continuar a sobrecarregá-la. Ela precisava de um tempo e, agora, mesmo que lhe dissesse que não, estaria em seu total direito. E ele entenderia. Ou pelo menos, tentaria.

Alice o estudou com o olhar. Nele, havia inúmeras incertezas das quais ela relutava em questionar. Mas ele manteve-se ali, aberto, esperando por cada uma delas. Além de tempo, as respostas eram o mínimo que Alice merecia.

— Eu preciso saber de algo antes de tudo para que eu possa me permitir perdoar você — ela começou. — Preciso que seja sincero comigo.

Nirav anuiu, aguardando. Já antecipava a pergunta.

— Era o que parecia entre você e ela?

— Depende — ele respondeu, encolhendo os ombros. — Precisa ser mais específica.

Ela respirou fundo, hesitando.

— Eu tenho medo da resposta.

— E eu entendo — ele encostou a mão em seu ombro, transmitindo confiança. — Mas só precisa me perguntar e eu serei honesto.

Olhando em seus olhos, ela perguntou:

— Vocês tiveram um caso enquanto estávamos juntos?

— Não.

— Nunca? Nada nunca aconteceu?

— Nós nos esbarramos várias vezes, passamos tempo juntos, mas nunca aconteceu. — Nirav ajeitou a postura. — Mas pediu que eu fosse sincero, e se eu disser que não exagerei seria mentira. Eu insisti nela, eu procurei por ela, eu ultrapassei alguns limites, sim. E ela nunca correspondeu, pelo contrário. Mas nunca cruzamos essa linha, isso posso jurar a você por todo o amor que construímos juntos.

Conseguiu ver em sua face como não conseguiu processar aquela informação, embora parecesse aliviada de certa forma.

— Mas aquele dia, vocês dois... Era o que parecia...

— Quando terminamos, sim, nós transamos. — a revelação a deixou um pouco abalada, mesmo sendo uma resposta que já esperava. — Sei que parece falta de consideração do mesmo jeito. De qualquer forma, já não faz mais diferença.

— Então, não estão juntos?

Nirav encolheu os ombros, coçando a própria barba.

— Não importa mais, eu ferrei com tudo. Eu tenho um talento especial para fazer isso, como você pode perceber.

Alice deu um riso mínimo, o que o deixou aliviado.

— Já que estamos sendo sinceros... Várias vezes tive certeza que estava me traindo. E que a qualquer momento, eu iria pegar vocês dois no flagra. Você estava tão distante de mim que a única explicação que conseguia pensar era isso.

— Eu sei que fui babaca, injusto e até cruel, mas eu realmente só estava sozinho.

—Bem, nós dois erramos e fomos estúpidos. Eu também me tornei egoísta e me entreguei a um sentimento tão infantil quanto mesquinho. E admito que parte minha nunca esteve realmente disposta a entender o seu lado, eu me recusava porque isso significaria perder você. — sua voz soou um pouco trêmula e seus lábios oscilaram nas palavras, apesar disso, ela prosseguiu. — Mas é como você disse, já não importa mais. Tudo o que importa é que sempre podemos tentar outra vez.

Por um momento, Nirav não respondeu. Seu olhar desviou-se da mulher à sua frente e se perdeu na chuva que se intensificava. Uma vez mais, pensou em Juno, de alguma forma, ela nunca deixava seus pensamentos. E ele se questionou se era o suficiente, se era possível. Poderia tentar de novo? Deveria tentar de novo?

— Nirav. — Alice o chamou, puxando-o de volta a realidade a sua volta ao encostar a mão em seu ombro. — Você a ama?

Sim, eu amo, pensou de imediato. Apenas aquele pensamento era o suficiente para ofegar seu fôlego e acelerar seu coração. Amo mais do que poderia ser possível amar alguém. Amo como nunca amei ninguém.

E, no entanto, as palavras que saíram de sua boca foram outras:

— Não acredito que isso adianta alguma coisa agora.

— Bem, de alguma coisa deve servir... Eu não sei você, mas ainda acredito em nós dois. Eu sei que erramos um com o outro e está tudo bem, erros acontecem e sempre continuaremos a errar. Então, eu adoraria tentar de novo. Errar de novo, recomeçar de novo. Quantas vezes forem necessárias até acertarmos. Dar um passo de cada vez, ir aos poucos, reconstruir o que tínhamos e superar nossos erros. Se você estiver disposto, saiba que eu também estou.

Nirav a olhou, sem esconder a surpresa. O pedido não o pegou desprevenido, no entanto. Ele encarou a mulher à sua frente. Seus belos olhos serenos, o sorriso tímido e o jeito reservado. Olhou para ela e continuou olhando, admirando o rosto que já fizera seu coração palpitar algum dia desses.

E antes que precisasse pensar, tinha a resposta na ponta da língua.

Notas finais
Claro que a resposta de Nirav fica para o próximo capítulo, mas o que vocês acham que vai ser? Será que ele vai por fim a tudo e finalmente ir atrás da Juno como deveria ter feito desde o inicio? Ou vai ter coragem de voltar pra Alice só pela consideração que tem a ela? De qualquer forma, fico feliz que os dois tenham tido essa conversa sem brigas e furdunço, estava na hora de agir como dois adultos!