O Caminho Para Liberdade
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Próximo capítulo sai a qualquer momento!
Capítulo 1:
Claire:
Ás 06h00min minha mãe vem me acordar. Hoje, como todos os dias da minha vida, tenho que sair de casa e ir até o poço mais próximo, quando disputo com outros moradores a água que iremos usar durante o dia.
-Claire, acorde logo! Já está na hora de você e seu irmão se dirigirem até o centro para buscar o que precisamos. Aprontem-se sem fazer ruídos. Não quero que seu pai acorde, ele está passando por tempos difíceis. Que Deus, nosso senhor, nos ajude nesse momento! Quando vocês chegarem, iremos esclarecer tudo para vocês. Mas agora se aprontem rapidamente.
-Se vocês precisarem de ajuda saiba que estou aqui. Só voltarei pela noite, quando fecharei minha oficina. Não fique preocupada, chegarei rapidamente. –disse Alphonse, meu irmão mais velho.
-Não se preocupe comigo mãe. Voltarei com Cécile.
-Tenha cuidado, soube que as pontes estão muito escorregadias.
Minha casa é pequena e sua estrutura é de certa forma, fraca. Durmo com meu irmão em um quarto pequeno, e meus pais em outro. O banheiro fica fora da nossa casa, e a sala de estar divide com a cozinha.
Eu e minha família moramos em Île-de-France, uma província da França. Onde vivemos é muito solitário e quieto, com poucas construções e as existentes não luxuosas. O centro é longe de minha casa, então tenho que levantar cedo para voltar na hora do almoço. Meu percurso não é fácil. Tenho que atravessar pequenas e estreitas pontes de madeira tão podres como uma tangerina guardada dentro de um baú (o cheiro é insuportável), andar por longas estradas de terra cheias de lama causadas pelas constantes chuvas, além de desviar de “obstáculos” deixados pelas pessoas, como fezes.
Saio de casa quando o Sol está se erguendo. Alphonse já tem 19 anos e trabalha como ferreiro na oficina de meu tio. Ele tem os olhos escuros e os cabelos loiros de minha mãe e a altura de meu pai. Eu sou muito diferente dele, infelizmente. Tenho os cabelos negros do meu pai e os olhos claros da minha avó. Minha altura é desproporcional a minha idade, já tenho 15 anos. Meu irmão e eu vamos juntos até certo ponto e depois Cécile nos acompanha. Sinto-me deslocada quando estou com eles, porque os dois se amam e flertam a todo tempo, sem nenhum dos dois perceberem. Ela seria uma ótima esposa para meu irmão, e sua família aprovaria o casamento.
-Olá, Alphonse! –diz ela, andando até nós com a maior graciosidade que se possa imaginar. Ela dá um sorriso largo. –Olá Claire! – ela sabe que eu aprovo seu futuro romance com meu irmão, e por isso somos amigas.
-Olá, Cécile. O dia hoje está lindo, não é?! Mas não tanto quanto você é claro.
As bochechas dos dois ficam coradas rapidamente. Espero um dia encontrar alguém especial assim. Afasto-me um pouco deles e começo a pensar sobre a minha vida. Eles se amam desde que se conheceram, e eu nunca tive ninguém. E já estou na idade de me casar, não quero ficar sozinha pelo resto da minha vida. E também não quero me casar forçadamente.
Sinto fome. Não como desde o almoço de ontem. Já estou me acostumando com a fome.
-Claire, veja só quem está vindo em nosso caminho! –diz Cécile, agarrando-se ao meu braço.
Olho para frente e fico desapontada. Era Carlos, um homem mais velho que meu irmão, e que sempre gostou de mim. Mas ele não me agrada. Ele tem aqueles olhos malvados, com uma única sobrancelha e é menor que eu. Mas provavelmente é o melhor candidato para eu me casar, já que é um soldado da pátria.
-Olá, querida Claire. Como vocês estão? Alphonse, por obséquio, deixe-me as sós com sua irmã.
-Com prazer.
Meu irmão sabe que eu não gosto de Carlos. Ele fez isso para me prejudicar.
-Claire, preciso encontrar-me contigo ás 08h00minh no campo perto de sua casa. É de extrema importância.
Eu engulo as terríveis grosserias que queria dizer e tenho que dar um sorriso.
-Tudo bem, Carlos. Esperarei-te ansiosamente.
Ele se despede, e volto a andar com meu irmão traidor e sua amante. Eles riem de mim, como se aquilo fosse algo para rir. Não é. Sei o que Carlos fará quando me encontrar. Vi que ele estava segurando um anel de brilhantes. Não posso casar-me com ele. Não estou preparada.
Rapidamente chegamos ao centro. Como previa, uma multidão está na praça. Entro no meio junto com Cécile, que se despede rapidamente de meu irmão, com um beijo discreto na bochecha, como sempre fazem.
Estamos quase chegando ao poço, quando um homem sobe em cima de sua carroça, e começa a gritar.
-Vocês vão continuar aceitando essas barbaridades do nosso Rei?! Vamos continuar nessa pobreza, até morrermos de fome! Acabei de voltar do mercado de Anthony, e o trigo aumentou ainda mais! A minha padaria não está produzindo mais nada! E seus ofícios? Vão aceitar essas condições? Enquanto isso, os nobres e a Igreja estão vivendo bem, aos nossos custos! Vocês vão continuar aceitando isso? Vão mesmo? Vocês não podem continu... – o homem é interrompido por um guarda, que o puxa e o leva para um dos becos da imunda praça.
Provavelmente ficará preso por alguns anos. Não é a primeira vez que vejo alguém falando isso. Concordo, é claro. Mas somos fracos. Não conseguiríamos provocar nada.
Até que vejo uma faixa no humilde mercado de Anthony, com letras grandes em azul e vermelho.
“SOMOS O TERCEIRO ESTADO. SOMOS A FORÇA. SOMOS A FRANÇA.”
Depois que a faixa foi posta, a maioria não entendeu o que estava escrito. As pessoas de nossa cidade não tem acesso á educação. Não existem escolas, nem pequenas nem grandes, muito menos universidades. Onde moramos tem um centro rico, e lá é que existem edifícios que oferecem saúde e educação. O centro rico é um dia daqui, então é impossível que estudemos. Somente eu, Alphonse e Cécile sabemos ler da nossa “vila”. E tudo isso graças a minha mãe, que não sei por que e como aprendeu.
-O que está escrito ali? –me perguntou um senhor que mora perto de minha casa. Ele já tem uns 50 anos, e é de certa forma, raridade sobreviver tanto em nosso bairro.
-Está escrito que nós, o terceiro estado, somos a França.
-Tudo está evoluindo...
A fila vai diminuindo. Enquanto espero, fico vendo o que Cécile está fazendo: conversando com os feirantes. Ela é uma menina adorável. Seus cabelos loiros e brilhantes como o Sol se movem com o forte vento. Seu rosto parece ser de vidro. Tão sensível. Quando meu irmão e ela se casarem, com toda certeza terão lindos filhos.
De repente, as pessoas se agitam. Muitos correm para avisar aos seus filhos, outros correm para suas casas. Não sei o que aquilo significou, mas as pessoas parecem estar assustadas. Chega uma equipe da cavalaria francesa. Eles nunca vêm aqui. Nunca mesmo. Eles param e ficam de guarda na praça. Sem fazer nenhum som. Estranho. Muito estranho. Olho para Cécile, e vejo que ela está tão assustada quanto eu.
Percebo que mais pessoas estão chegando. Dessa vez são arqueiros. A praça fica tumultuada. Muitos arqueiros estavam chegando. Cécile se esconde, com medo. Percebo que sou a única que não se escondeu. Não tenho medo deles. Uma mulher grita. Reconheço a voz, mas não a localizo.
Um homem da cavalaria começa a falar.
-O nosso rei, Luís XVI está muito desapontado com o que estão fazendo. Ele quer paz. Somente isso. Não queremos combate.
O senhor de 50 anos, que havia falado comigo antes, responde.
-Ele não quer paz. Ele quer poder. Não vou viver para sempre com essas condições. Meus filhos merecem um lugar melhor. Não consigo mais comprar nem um pacote de trigo para comer! Nós merece.. –
O homem para de falar. Percebo que um dos arqueiros acertou em seu pescoço. Forma-se um rio de sangue. Ninguém ousa tentar ajuda-lo. Deixam o senhor caído. É como eu disse, as pessoas morrem cedo por aqui.
-Alguém mais quer falar algo? –diz o líder. O olhar penetrante dele me segue. –Arqueiros, comecem o espetáculo!
No começo, não compreendi. Mas logo depois vi o que iriam fazer. Todos os arqueiros estavam com seus arcos apontados para as pequenas lojas ao redor da praça. Mas não eram simples flechas que seriam arremessadas. As pontas das flechas estavam incendiadas. Relaciono o que estava para acontecer.
Eles iam incendiar tudo.
-Atenção!... FOGO! – as flechas foram para diferentes locais e o fogo começou a comer tudo o que havia pela frente.
As pessoas que se esconderam, saíam gritando desesperadas, com fogo em seus cabelos, pés e braços. Alguns não tinham salvação. Outros, até teriam. Mas não sobreviveriam já que temos somente uma curandeira e não temos médicos. Vi o desespero. Vi horrores. Vi a carnificina. Vi a morte.
Ainda estou processando o que está acontecendo. Até que vejo Cécile. Ela está ao meu lado, com seu lindo cabelo em chamas e avançando ao seu rosto. Ela está gritando. E não consigo ajuda-la, não tenho reação, não sei o que fazer. Vejo tudo desmoronar, e eu pareço estar desacordada. As tropas saem da praça incendiada. O capitão ri. Ele ri da desgraça. Da desventura. Da infeliz situação que ele provocou. Matar pessoas agora virou função da cavalaria.
Revejo Cécile, correndo desesperadamente. Acordo. Tenho que ajudar Cécile. Agora o fogo já avançou. Aparentemente, seus longos cabelos parecem agora folhas secas do outono, curtas e amareladas. Seu rosto já está queimado o suficiente para que não seja reconhecida quando sair. Jogo a água que peguei em seu corpo rapidamente. Ela grita e se vira para mim. Sua aparência está assustadora. Olho ao redor da praça, e vejo que os pequenos burgos e feiras estão quase em pó. As oficinas estão quase ás ruinas. Tenho que sair de lá rapidamente.
Puxo Cécile e a levo até o caminho para nossa casa.
-Claire, é você? Claire? – ela grita.
-Sou eu sim, Cécile.
-O que aconteceu? Eu não consigo ver nada!-ela grita novamente e busca ver algo. ----Claire, será que estou cega?
Seus olhos estão totalmente queimados. As únicas partes que não foi afetada foi sua boca e seu nariz. Sua bochecha está rosada.
-Cécile, preciso que você ande mais rápido.
-Para onde vamos?
-Você vai para minha casa. Acho que minha mãe pode te ajudar. -eu respondo isso, com fé em Deus, que minha mãe me ajudará.
Não sei se Cécile aguentará a caminhada. Ela está fraca, ferida e o caminho até nossas casas é muito ruim.
-Claire, estou muito ferida? Sinto algo queimando em meu rosto. Não consigo ver nada, e sinto dor na minha orelha esquerda.
Puxo seu cabelo para trás, e vejo que a orelha também está queimada. Não sei se ela (ou eu) aguentará o caminho.
-Cécile, veremos quando chegarmos. Onde você estava quando tudo começou? –eu pergunto, para ver se ela se distrairia.
-Estava perto de você, embaixo de alguma tenda. De repente, perdi a minha visão e acho que andei até alguns ofícios. Ouvi muita gente gritando.
Ela vomita. Está muito afetada.
Ficamos em silêncio. Cécile é esperta, sabe o que pode acontecer com ela. Ela sabe o que houve; o caos que teve. Ela chora.
-Claire, você ainda está aí? Quero saber como você está.
-Eu estou bem, só estou com meu tornozelo machucado. –eu minto. Deus me perdoe, mas foi para que ela se sinta mais confortável. Continue acordada. Se sentir algo, avise-me.
-Claire... Acho que não estou bem. Estou me sentindo tonta...
-Fique acordada, Cécile. Estamos entrando na floresta, então não me faça ter que te carregar até em casa!
Ela ri.
-Claire, leve-me mais rápido.
-Estou indo o mais rápido que posso. Vamos com calma. Tudo ficará bem. Não se preocupe.
-Claire, preciso te contar algo.
Cécile geme de dor e pede para sentar-se. Procuro uma árvore que dê para nós nos recostarmos. Ela se acomoda e grita de dor.
-Claire... –ela grita ainda mais. –Eu estou grávida, faz algum tempo.
Eu me surpreendo. Como ela pode falar isso agora? O fogo deve ter afetado algo em sua cabeça. Devo levá-la o mais rapidamente para casa.
-Cécile, depois você me fala isso. Por obséquio, levante-se e vamos andar.
-Não, Claire. É verdade. Estou grávida de poucos meses. Seu irmão sabe disso. Ele é o pai.
Esqueci totalmente de meu irmão. Ele estava trabalhando no ofício de meu tio.
Fale com o autor