O Cajado Da Primavera
13 Viagem para Califórnia
Notas iniciais

Cheguei em casa e meu pai já estava tomando café, me juntei a ele e ele me perguntou onde eu estava.
–-- Ah, eu havia esquecido que… Devia dar um recado a Will! --- Inventei rapidamente.
–-- Sei… --- Respondeu ele um pouco desconfiado.
–-- E quando estava saindo de lá adivinha quem encontrei na rua? --- Falei apressada tentando mudar de assunto.
–-- Quem?
–-- Jake.
–-- Jake Adams?
–-- Ele mesmo. Lembra-se dele?
–-- Claro, um garotinho loirinho que vivia correndo por aí, vocês costumavam passar o tempo todo brincando juntos.
–-- Sim… --- Disse com minha mente voando nos pensamentos daquela época.
Eu e Jake éramos da mesma turma desde pequenos, meu comportamento sempre foi mais ou menos a mesmo como vocês já sabem. Então na quarta série, durante o intervalo todos foram brincar como sempre, mas eu havia ficado na sala, deitada sobre a carteira, olhando pela janela todos os outros correndo atrás da bola, então a porta se abriu e lá estava ele, como um pequeno raio de sol iluminando a sala, ele me olhou com seus olhos dourados parecendo confuso e depois sorriu, ele foi até a mim e estendeu a mão.
–-- Vamos brincar?
Eu fiquei surpresa com aquela atitude, o encarei-o e a sua mão estendida, nenhuma criança quase não falava comigo, mas ali estava o garoto mais hiperativo da turma me chamando para ir brincar.
–-- Você fala? --- Perguntou ele.
–-- É claro que eu falo. --- Respondi um pouco ofendida.
Ele abriu o sorriso novamente.
–-- Então vamos brincar!
Foi então que ele simplesmente segurou minha mãe e foi me puxando para fora da carteira e para fora da sala, e naqueles minutos correndo junto com Jake para fora com as outras crianças eu comecei a rir, e foi aquele o primeiro dia que ele me arrastou para as brincadeiras, meus dias divertidos começaram com ele, era sempre assim, eu seguia Jake por aonde ele ia, até que no nosso sétimo ano ele teve que ir embora, sua mãe havia se casado e ia mudar para Califórnia, onde seu novo padrasto morava. Eu me lembro de chorar e ele me abraçou e disse para não ficar triste, e então tirou o colar do seu pescoço e me deu, havia um pingente dourado em formato de sol, ele me disse que aquele era o meu amuleto, que eu sempre me lembraria dele quando visse aquele colar. Desde então eu sempre usei esse colar, geralmente não fica a mostra, fica escondido dentro da minha roupa, como um pequeno segredo só meu, uma lembrança só minha, a lembrança do dia em que ele me disse “Vamos brincar?”.
Meus pensamentos foram interrompidos na mesma hora com a campainha tocando.
–-- Está esperando alguém? --- Perguntou meu para mim.
–-- Não. --- Respondi.
–-- Então deve ser para mim, vou ver quem é.
Meu pai se levantou e foi até a porta, e então ouvi uma voz feminina, não me importei muito no início, mas então aquela voz foi se tornando familiar, não… Não podia ser quem eu pensava. Eu havia acabado de falar com Perséfone! Ela não podia ter trocado de roupa e tudo mais tão rápido! Levante-me depressa e fui observar a conversa de longe um pouco escondida, Perséfone estava diferente em suas roupas, mas os cabelos castanhos e os olhos verdes eram os mesmos, só que agora seu cabelo estava preso em um coque, e usava óculos. Vestia um blazer preto, uma saia um pouco acima dos joelhos e sapatos pretos de salto, estava muito elegante, como sempre. Olhou pra mim e abriu um sorriso.
–-- Oh, aquela deve ser sua filha! --- Exclamou ela, fingindo surpresa.
Fiquei encarando-a também surpresa sem falar nada, tanto que meu pai percebeu minha completa falta de educação com a “desconhecida”. Ele pigarreou.
–-- Susan… --- Disse ele me alertando com o olhar “Seja educada”.
–-- Oh… --- Falei voltando a mim, tentando soar o mais normal possível. --- Olá… --- Fui saindo de onde eu estava.
–-- Susan, esta é Jasmine Johnson, nova funcionária da Imobiliária. --- Falou meu Pai. --- Jasmine, essa é Susan, minha filha.
Jasmine? Ok, eu tive que conter um sorriso, nossa Perséfone como você foi criativa! Um nome de flor! Jura? A cumprimentei, ela tinha um brilho divertido nos olhos.
–-- Prosseguindo Sr. MacCartney, preciso que me responda o mais rápido possível.
Olhei confusa para ela e para meu pai.
–-- Bem… Sra. Johnson, como pode ver, tenho uma filha, então tenho que pensar sobre o assunto.
Eu sabia que era falta de educação me intrometer nos assuntos do meu pai, mas Perséfone, digo, Jasmine não se importaria afinal.
–-- Esperem, posso saber sobre o que estão falando, que provavelmente eu estou no meio? --- Perguntei.
Jasmine olhou para meu pai, com aquele olhar que pedia permissão, meu pai suspirou, e então ele mesmo falou:
–-- Haverá uma confraternização da Imobiliária, e Jasmine veio acertar se eu vou, ou não. Irá ser na Califórnia.
Sorri alegre pro meu pai e disse entusiasmada.
–-- E porque raios o senhor não iria?!
Ele colocou aquela expressão: “Pai responsável”.
–-- Porque eu não deixaria minha filha de dezesseis anos sozinha. --- Respondeu cruzando os braços.
Suspirei profundamente e olhei para o meu pai com uma certa indignação, Jasmine olhou de mim para meu pai e então finalmente falou.
–-- Acho melhor deixa-los a sós. Sr. MacCartney, caso mude de ideia apenas informe a imobiliária.
Ela e meu pai se despediram cordialmente, apertando as mãos e ela se direcionou para mim, me dando um abraço terno e falando o mais baixo possível.
–-- Conto com você agora… --- Cochichou ela no meu ouvido.
Sorri para ela e Jasmine finalmente se foi. Assim que meu pai se virou para mim novamente eu estava com as mãos nos quadris e o encarando seriamente.
–-- Pai, o senhor tem que ir, eu posso me cuidar. --- Falei.
–-- Susan, eu ainda vou pensar direito no assunto, não acho que seja uma boa ideia deixa-la aqui sozinha.
–-- Eu não sou mais uma garotinha! --- Protestei. --- Essa sua viagem durará no máximo uma semana, eu consigo sobreviver até lá, nada de ruim vai acontecer!
–-- Ah claro, Susan, acha que está esquecendo do que aconteceu recentemente com você?! Um monstro entrou em nossa própria casa e a atacou! Não quero que isso aconteça de novo! Não vou deixar você sozinha! --- Ele elevou o tom de voz.
É ele realmente estava até certo, mas ele precisava ir para essa confraternização, tinha que ir.
–-- Eu sei que o que aconteceu foi perigoso. --- Admiti. --- Mas se ficar aqui como acha que eu vou me sentir? Não quero impedir que o senhor se divirta e tenha sua própria vida. Aliás, em dezesseis anos esse é o primeiro monstro que me aparece, não é possível que sequencialmente venha outro!
Segurei a mão dele tentando passar o máximo de confiança e não tremer a voz, porque eu detestava mentir para o meu próprio pai.
–-- Eu vou ficar bem! Antes eu estava despreparada, mas não pense que o acampamento que eu fui é apenas para passar o verão, lá eu aprendi a me defender, e qualquer coisa Will mora ao lado, ele vai me ajudar.
Meu pai apertou minha mão de volta e me abraçou.
–-- Minha filha, amante do inverno, me pedindo para ir para Califórnia! Estado famoso por suas praias!
Rimos e voltamos para a cozinha, ele me prometeu que iria pensar mais a respeito do assunto, e no fim do dia, sem ele perceber eu ouvi sua conversa no telefone confirmando a viagem. Dentro de um dia Will e eu teríamos de começar com as providências da missão, eu me sentia ansiosa e ao mesmo tempo nervosa, é claro, uma culpa pairava sobre mim por ter mentido pro meu pai, eu não ia ficar em casa, e provavelmente não iria ficar “bem” e com certeza teriam vários outros monstros atrás de mim.
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