O Cair da Fruta Madura

1 O Cair da Fruta Madura


Notas iniciais
Gosto muito de escrever histórias passadas no Brasil e amo florestas. Espero que o texto transpareça essa minha paixão.
Boa leitura!

A bandeira havia começado já há vários dias. O objetivo era, como de praxe, conseguir ouro e escravos indígenas, e se por acaso esbarrassem com algum negro fugido ou até mesmo um quilombo, deveriam exterminar tudo e todos, claro.

O grupo de bandeirantes tinha deixado o litoral e partido mata adentro havia pouco mais de uma semana. Os homens iniciaram a jornada com empolgação e valentia, mas foi só passar alguns dias que todo o ânimo se esvaiu, como se a floresta tivesse sugado as energias de todos.

Porém, antes de completarem duas semanas de andança, depararam-se com uma aldeia. O fator surpresa e suas armas de fogo deram conta de conseguir alguns prisioneiros, e os que resistiram morreram sem nem ao menos serem benzidos. Não tinham tempo para tais coisas, afinal aquilo era uma Bandeira e não uma entrada. Eles não tinham o apoio do governo, apenas o interesse em lucrar o máximo possível. E estavam felizes de já terem começado com os lucros.

Depois de amarrarem bem os futuros escravos, matarem os valentes e deixarem que os covardes fugissem (sem esquecer de praticar mira neles, chegando a acertar alguns), era hora de esquadrinhar a aldeia e as ocas, para ver se achavam ouro ou qualquer outra coisa que fosse valiosa.

Um dos integrantes mais jovens estava revistando uma oca quando encontrou, dentro de um pote de barro de tamanho mediano, folhas de uma cor estranha. Ao verificá-las, curioso, percebeu que nelas havia uma espécie de escrita que nunca tinha visto até então. Não se parecia nada com seu alfabeto natal. Não sabia se aquilo havia sido escrito por algum índio. Se fosse, provavelmente um de seus irmãos, primos ou tios (todos naquela bandeira eram parentes) diria que achou algo parecido. Guardou as folhas em sua bolsa de couro cru e continuou com a revista.

Já a alguns minutos de distância da aldeia, o jovem percebeu que um dos índios prisioneiros caminhava quase a seu lado. A corda que o amarrava ao cavalo que ia logo à frente era relativamente grande, o que possibilitava sua aproximação. O indígena, que para o jovem se tratava apenas de mais um selvagem preguiçoso que só gostava de ficar deitado o dia todo, encarava-o. O bandeirante se sentiu incomodado e então chutou o homem, que desviou o olhar e continuou a andar, praticamente sendo puxado pelo cavalo à frente.

Foi então que o rapaz lembrou dos papéis de cor estranha que levava em sua bolsa. Nenhum outro integrante da bandeira havia citado algo que tivesse a ver com uma possível escrita indígena, o que permitiu que esquecesse do assunto. Retirou as folhas da bolsa para dar uma nova olhada.

Quase saltou de susto ao perceber que conseguia entender perfeitamente o que estava escrito ali. Poderia jurar que minutos atrás as páginas continham apenas garranchos ininteligíveis. Sua curiosidade, que já era naturalmente afiada, fez com que ele se prendesse na primeira folha para descobrir do que se tratava.

Aparentemente eram registros de um índio, e isso confirmava sua suspeita daquilo ser uma escrita indígena. O que fazia sua cabeça coçar era o fato de repentinamente conseguir ler os registros. Deixando isso de lado, pensou que provavelmente ainda havia muito chão e alguns dias até a próxima aventura, então se permitiu relaxar e desbravar aquele texto enquanto seus parentes abriam caminho em meio à mata.

“Escrevo aqui minha primeira carta, para deixar registrado esta parte de minha história. Qualquer um de nós, de qualquer aldeia, está permitido a ler o que deixei de lembrança.

Sou idoso e acabei de me despedir de minha tribo. Deixei minha aldeia para sempre e já não poderia voltar mesmo que quisesse.

Aqui, todo homem que consegue a grande bênção de atingir a velhice sem ser pego como prisioneiro por outra tribo nem morto em guerra é considerado um forte homem, por isso deve deixar seu povo antes de começar a se envergonhar, necessitando da ajuda de outros até para levantar da rede. O homem abençoado deve enfrentar a floresta sozinho, onde os deuses se encontram e onde o receberão de braços abertos quando sua jornada se cumprir.

Mulher não pode fazer isso. É mais forte que o homem e mais útil também, já que quanto mais velha, mais sábia e de mais ajuda, ao contrário do homem, que se torna inútil.

Quando um homem deixa a sua aldeia para enfrentar seu último desafio, demonstrando toda a sua coragem, todos os jovens se reúnem e o pintam com os desenhos de maior honra da tribo, enquanto cantam a oração ‘O Cair da Fruta Madura’, para que a floresta saiba que quem está se juntando a ela é um homem de muito valor e força.

E é nisto que estou, no meu Cair da Fruta Madura.”

Ao terminar a primeira carta, o jovem bandeirante notou que estava tudo muito quieto a seu redor, fora o barulho de seu cavalo pisoteando a vegetação. Tirou o olhar da carta e percebeu que estava sozinho no meio da floresta.

Logo se desesperou, freou o cavalo, ofegante, olhou para todos os lados, não encontrando nem o menor sinal da atividade de seus familiares e companheiros de bandeira. Vislumbrou uma abertura na mata que parecia uma trilha deixada por cavalos e decidiu segui-la, temeroso.

A mata começava a escurecer quando o rapaz desistiu de encontrar os outros, pelo menos por aquele dia.

Nunca havia passado uma noite sozinho no coração da floresta, mas já tinha ouvido causos de pessoas que o fizeram. A primeira coisa a se fazer era parar antes que ficasse totalmente escuro, amarrar seu cavalo a uma árvore e depositar um pouco de cachaça e fumo em algum lugar perto, para que o Curupira o deixasse passar a noite em paz e o protegesse de qualquer ataque animal. Na sua bolsa não havia cachaça, portanto esperava que o Curupira se contentasse apenas com o fumo. Lembrou que também deveria acender uma pequena fogueira, assim teria luz, calor, afastaria alguns animais e a fumaça poderia chamar a atenção de seus parentes, que já deveriam estar procurando por ele.

Depois de amarrar seu cavalo, cumprir o ritual para o Curupira e acender a fogueira com o mesmo acendedor do fumo, colocou sua bolsa sobre uma raiz protuberante e deitou-se com a cabeça sobre ela. Continuava com muito medo de morrer ali e nunca mais ver sua família, então resolveu aproveitar e ler a segunda carta, já que provavelmente não conseguiria dormir, e precisava se distrair.

“Esta é a segunda carta.

No Cair da Fruta Madura o homem tem o dever de adentrar a mata sem arma nem nada que possa ajudar, e então deve caçar uma onça para desafiar. Não se sabe se algum já conseguiu derrotar uma fera com os próprios braços, porque ninguém volta dessa jornada, mas quanto mais onças um homem conseguir derrubar, mais abastado ele será depois de se encontrar com os deuses, no fundo da floresta.

Depois de passar quase todo o caminho do Sol andando, parei ao lado de um igarapé para beber água, lavar o suor do meu corpo, que já chamava os borrachudos, e procurar por comida. Encontrei uma árvore de jabuticabas e devorei muitas delas, tendo que me lavar novamente para tirar a cor roxa de minhas mãos e boca.

Então passei alguns poucos dias sem encontrar nenhuma onça. Eu, que já tinha idade, estava com minhas forças debilitadas. Meu caminhar estava mais lento e ficava com sono mais cedo do que costumava. Mas essa era a minha prova de coragem e resistência para os deuses, então não podia e nem queria me entregar à mata. Se eu fizesse isso, o deus malvado Anhangá me tomaria por escravo e me faria viver por anos como um pássaro da noite. E pior coisa não havia para um homem.

Não encontrei sequer uma pegada de onça até bater o sono. Mas ao deitar, ouvi um barulho suspeito. Não teria como ver o bicho com essa negritude da mata, então deixei para checar se no dia seguinte haveria rastros de fera por ali.”

O rapaz não percebeu que pegara no sono e acordou somente no dia seguinte, com a barriga roncando. Levantou, espanou com as mãos a poeira da roupa, percebeu que seu cavalo se alimentava da vegetação rasteira dali e desejou que pudesse fazer o mesmo. Mas já que não podia, faria o que o índio das cartas fizera: procuraria um riacho e alguma árvore frutífera para ter o desjejum.

Achou melhor deixar o cavalo amarrado, pois ele não seria de ajuda nessa empreitada, e seguiu um caminho reto, partindo de onde dormira, para não se perder de sua montaria.

Para ele, já tinha caminhado por mais de uma hora e não achara nem um riacho sequer, então decidiu voltar, para não se distanciar muito de seu acampamento. A fome só apertara ainda mais, fazendo com que ele começasse a sentir dor de cabeça e fraqueza, além de ter o humor piorado.

Voltou caminhando numa velocidade maior do que a que fora e apavorou-se quando não avistou seu cavalo.

Correu para junto da árvore onde havia deixado o animal amarrado e lá agora só havia a marca onde a corda roçara durante toda a noite e parte da manhã. Parou de se mover, para tentar captar algum som que a montaria poderia estar fazendo ao pisar na mata, mas nada chegou a seus ouvidos. Chutou com força uma raiz e começou a chorar, praguejando alto.

De repente tudo fez sentido para ele. A culpa de tudo aquilo era das malditas cartas. Elas tinham o amaldiçoado desde o momento em que as pegara naquela aldeia nojenta. Agarrou as folhas, amaçando todas, jogou-as de lado, ao pé de uma árvore, e saiu pisando forte, sem deixar de pegar sua bolsa de couro, que agora era seu único bem.

Mal começara a caminhar, sentiu um aperto no peito. Não sabia ainda o final da história do índio, e possivelmente agora as cartas seriam sua única companhia na floresta.

Voltou e apanhou os papéis amaçados, guardando-os de volta em sua bolsa.

Naquela noite, sem cavalo, sem fumo para Curupira e sem fogueira, o bandeirante leu a terceira carta, se utilizando apenas da luz da Lua, que conseguia penetrar a mata através de pequenos espaços entre as folhas das copas das árvores. Era uma carta curta, o que fez o jovem estranhar e quase lamentar em voz alta.

“Terceira carta.

Não encontrei a onça no dia seguinte nem no dia seguinte ao dia seguinte, embora tenha encontrado seu rastro. A fera já estava me cercando. Os deuses aguardavam meu desafio.

Continuei seguindo as pegadas do bicho, esquecendo-me de comer e beber. Não percebi que fiquei ainda mais fraco. Em um momento, escorreguei em uma raiz e quase quebrei a perna direita. Senti muita dor, mas consegui continuar a caminhar, mesmo que mancando.

Quando estava novamente me desanimando e minha cabeça se preenchia com descrença, olhos brilharam como fogo vivo a cinco árvores de mim.

Cantei uma oração aos deuses da floresta, desafiando a onça, que já me avistara. Ela começou a vir em minha direção, primeiro, lenta e, num instante, já a galope.

O bicho saltou sobre mim, e usei seu peso a meu favor, jogando seu corpanzil para trás, fraquejando no processo com minha perna machucada. A onça, que não havia sofrido um arranhão sequer, percebeu minha fraqueza e deu o bote final, pulando sobre meu pescoço.

A última coisa que pensei em vida era que ela se alimentaria de mim e que finalmente, através dela, eu me juntaria à floresta.”

Se o índio morre na terceira carta, por que há uma quarta? Foi o que o bandeirante pensou. Estava indeciso em relação a ler ou não a última. Por um lado, sua curiosidade estava voraz, por outro, seu corpo se encontrava num estado tão cansado, que ele não sabia se conseguiria resistir a algum ataque animal (o pensamento de que uma onça o atacaria não saía de sua cabeça), sequer a voltar a ler. No final, o cansaço venceu, fazendo com que o jovem adormecesse abraçado às folhas de cores estranhas, que agora eram suas melhores companheiras.

O rapaz acordou no dia seguinte quase sem forças para se levantar. Percebeu que suas roupas começavam a ficar mais largas em seu corpo. Além disso, estavam quase encharcadas de suor. O dia estava mais quente que o normal. Tinha que achar algum riacho antes que morresse de sede.

Horas depois, encontrou um fino córrego, que foi suficiente para matar sua sede e lavar seu rosto. Avistou uma planta que lhe pareceu muito apetitosa, mas que fez com que ficasse com uma grande dor de barriga minutos depois de ingerida. Voltou ao riacho, bebeu mais, se limpou da melhor forma possível, e guardou água enlameada no pequeno cantil que levava consigo.

Passou os dois dias seguintes se recuperando da grande perda de água que seu corpo sofrera e se segurando para não ler a carta. Chegava a suar, pensando em enfiar a mão na bolsa e puxar a última folha para ler. Em alguns momentos, tentou fazer um acordo consigo mesmo: leria apenas uma frase por dia, até que a carta acabasse. Mas isso não faria sentido, pois além dele não ter memória suficiente para guardar frase por frase e depois conectá-las, tinha certeza que trairia seu acordo e acabaria por ler toda a carta assim que botasse os olhos nela.

No terceiro dia não resistiu. Já acordou com as cartas nas mãos. Achava que estava com febre, pois sentia muito frio, mesmo com o Sol estando forte no Céu. Não ligou, começando a ler assim que abriu os olhos.

“Última carta.

Despertei sem entender por que havia despertado. A fera me matou, eu me lembrava. Percebi que me sentia mais leve, como se houvesse rejuvenescido. Olhei em volta, e a onça estava ali a meu lado, ainda molhada com sangue. Com meu sangue. Por algum motivo, eu não sentia mais medo algum dela.

Um pouco mais à frente, tinha algo estranho, como outro bicho, mas quase disforme. Espichei o pescoço para checar o que era, mas o felino chamou minha atenção, soltando um rugido chorado, quase que um miado. Olhei para ele, que me encarou de volta, sem mais ferocidade nos olhos. Consegui enxergar o verdadeiro animal que havia dentro dele. E ele era bom.

A fera mansa miou mais uma vez e virou as costas, dando alguns passos à frente, parando e olhando para trás, para mim. Me aproximei um pouco, e então ela continuou a andar, sem deixar de me olhar de novo. Comecei a seguir o bicho.

Ele me guiou por dentro da mata, e vi lugares dos quais nunca tinha ouvido falar. A floresta parecia estar muito mais bonita do que sempre fora. Mesmo conhecendo a mata como eu conhecia, era como se esta que eu via fosse outra, de outro lugar. Portanto, os deuses também não deveriam ser como eu conhecia.

De repente nossa trilha desembocou numa cachoeira. Não tinha uma grande queda, nem nada que a tornasse única, mas por alguma razão era a cachoeira mais bonita que eu já tinha visto. Sua queda era convidativa, como se pedisse para eu atravessá-la. A onça, com seu jeito, me encorajou para ir até o pequeno véu de água. Me aproximei um pouco, olhando de volta para a onça, que ainda estava na beirada da mata, então atr…”

Nossa, como eu gostaria de ser um índio agora, pensou o bandeirante, como se delirasse. Piscou algumas vezes e voltou a prestar atenção no texto.

“Mas o homem branco brinca de ser homem da tribo. Não brinca?”

Leu.

Tem razão, pensou o jovem, em resposta. Na colônia de onde viera, muitas pessoas usavam adereços indígenas para se fantasiar. Mulheres, em seu país, dançavam e tiravam as roupas, ficando apenas com cocares. Assim pareciam exóticas e chamavam a atenção de clientes. Era apenas um garoto, mas já conhecia esse lado de sua cidade natal. Falando em garoto… As crianças da colônia também gostavam de se vestir de índios e correrem uma atrás das outras, como se estivessem guerreando…

“O homem branco gosta de brincar de homem da tribo. Não gosta?”

Leu. Ou teria ouvido?

Seus olhos se fechavam sozinhos, como se estivesse com muito sono. Uma gota de suor escorreu pela sua testa. Sua respiração estava pesada. Não sabia mais se sonhava, se estava lendo, ou se ouvia o índio lhe falando.

“Eu toquei o homem branco para que ele pudesse entender minhas palavras. As palavras da floresta. Acabei descobrindo que o homem branco pega muitas coisas do homem da tribo e brinca como se fossem dele. O homem branco pega até o próprio homem da tribo como se fosse dono.

Então, homem branco, se gosta tanto de nós, por que não vive e morre como homem da tribo?”

Num sobressalto, a febre do jovem bandeirante passou. Sorveu ar como se tivesse acabado de sair de um longo mergulho. Sua visão estava um pouco embaçada, mas percebeu que ainda segurava a última carta em frente aos olhos. Baixou o papel e voltou a prender a respiração, pois havia um índio idoso parado bem à sua frente. Sua mente vagueou, como se a febre voltasse, e o rapaz deu uma piscada demorada, para tentar limpar a vista de vez. Quando voltou a abrir os olhos, o índio não estava mais lá. Uma voz em sua cabeça voltou a dizer:

“Por que não… morre como homem da tribo?”


O bandeirante então percebeu que poucos metros à sua frente havia uma onça parada, que o encarava com curiosidade.

Notas finais
Obrigado por ter dedicado seu tempo para ler minha história!
Comentários e indicações são sempre bem-vindos :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!