O Caduceu de Kanus
6 Capítulo 6 - Eu oficialmente odeio caras de terno
Naquela mesma noite, tive um dos meus piores pesadelos. Estava de volta para minha casa, em meu quarto, exatamente da maneira que o deixei quando saí com a Varkin. Uma tempestade se erguia do lado de fora, com pingos de chuva batendo violentamente contra minha janela. Conseguia ver os galhos de um grande pinheiro através do vidro, o que era estranho, já que não havia nenhuma árvore por perto.
A porta bateu e, sem esperar uma resposta, abriu-se com um estrondoso chute. Uma mulher com longos cabelos ruivos e lisos, usando o uniforme de uma Starbucks, estava parada do lado de fora. Seus olhos eram pretos iguais os meus e percebi, assustado, que era minha mãe.
Tentei correr atrás dela, mas estava preso em alguma coisa. Tentei olhar para o meu próprio corpo, mas não tinha nada lá. Simplesmente não conseguia me mover.
— Oi, querido. — ela disse, com uma voz acolhedora e distraída. — Eu fiz panquecas para você.
Por um momento, esqueci de tudo. Esqueci sobre Réuli, Milena, Nicolau, Valhena, Jeodio, Deuses e Magos, e só me concentrei em prestar atenção nela. A vontade de abraçá-la me torturava, mas mesmo com uma tremenda força não conseguia sequer mexer o dedo.
Então o sonho mudou. O quarto dissolveu-se, e eu me vi em uma versão da minha casa, mas com uma pequena diferença; estava em chamas. Olhei para o lado, o calor fazendo meus olhos lacrimejarem, ondas de ar quente acertando meu rosto como se eu estivesse levando uma bofetada. Procurei por minha mãe, e por um nauseante segundo, não consegui encontrá-la.
Então eu a vi. Estava caída na mesa de jantar, com os braços estendidos e o pescoço completamente queimado. Cada vez mais lágrimas saíam de meus olhos e deslizavam por minha bochecha. Queria gritar, mas toda a fumaça e o fogo não me permitia.
— Porque você me deixou, Jack? — ela disse, súbitamente se levantando. — Porque? Eu lhe amava tanto. Achei que se importava comigo.
Dessa vez eu juntei forças e consegui de fato gritar. No exato momento, todo o mundo a minha volta dissolveu-se em um redemoinho preto e confuso.
Acordei com um par de olhos azuis me fitando, preocupados. Me remexi, inquieto, e percebi que podia me mexer. Ótimo. Tentei me levantar, mas o peso de alguém estava pressionando meu corpo, e logo percebi quem era; Milena.
— O que aconteceu, Jack? — ela perguntou, seu tom de voz baixo e cuidadoso. — Eu ouvi você gritando.
— Só um pesadelo. — resmunguei, coçando meus olhos. — Acho que você não podia estar em meu quarto.
Suas bochechas coraram, e ela saiu de cima de mim com um habilidoso pulo. Ela andou ao redor de meu quarto, analisando-o, e contentou-se em sentar no chão, apoiada em um pequeno criado-mudo recheado de roupas sujas.
— Estive pensando em uma coisa esta noite. — anunciou, tentando me fazer esquecer sobre o pesadelo. Fiquei agradecido por ela não ter perguntado como fora. — Provavelmente só teremos nós dois em todo o tempo em que estivermos aqui em Valhena. Então eu devo ser completamente honesta com você.
— Sobre o que mentiu? — interrompi, tentando me lembrar de todas as coisas que ela já me disse.
— Eu não menti sobre nada. — ela levantou uma mão, pedindo para eu esperar ela acabar de falar. — Apenas não lhe contei. Você perguntou sobre meus pais na noite anterior, enquanto estudávamos no refeitório. — sua voz estava pesada e arrastada, como se falar sobre isso fosse difícil para ela. — A verdade é que eu nunca os conheci de fato. Nasci e cresci em um orfanato, por anos achando que eles tinham morrido em um acidente de carro, como me contaram. E quando eu descobri esse mundo novo... me senti extremamente excitada. Não só por todas essas coisas novas, mas pela possibilidade de eles... estarem de fato vivos, vivendo em Réuli. Ou provavelmente Namurai.
— Namurai?
Ela revirou os olhos.
— Você não estuda sobre nada? — ela perguntou, com um nervoso sorriso nos lábios. — Namurai é o equivalente a Réuli, mas fica em Volikinjin. Eles talvez podem estar no planeta vizinho ao nosso.
— Se eles estão lá, como você iria chegar até eles? — perguntei, soando estúpido.
— Existe uma maneira de viajar pelos galhos de Ijimin. — ela franziu os lábios. — Mas apenas forças místicas e imortais podem usá-lo. Existe um modo para mortais usarem, mas apenas um sobreviveu a tal viagem.
— Quem?
— Kintus.
Os cabelos da minha nuca se eriçaram. Eu conhecia aquele nome de algum lugar..
— O filho do mago vermelho. — lembrei.
— Xii! — ela levou um dedo aos lábios. — Não fale isso em voz alta, Jack. Nomes são perigosos.
Não entendia muito bem ainda o porque aquele cuidado em falar sobre os magos. Quer dizer, se eles são os inventores de tudo, não iam querem que nós lembrássemos dele?
— Como exatamente alguém conseguiu matar o filho de um mago? — perguntei, me lembrando do que Buck me disse.
— Ele não foi exatamente morto. — ela se ajeitou distraídamente no chão. — Uma pessoa com um poder mágico tão grande dentro de si não pode simplesmente morrer.
— Então ele é imortal?
Ela suspirou.
— Eu.. não sei. — dizer isso pareceu um grande desafio para ela. — Tentei procurar no nosso livro, tentei pular algumas páginas, mas simplesmente não achei. As informações são vagas demais sobre os magos. Acho que Munikins não são supostos a saber tanto sobre eles.
Ouvi barulho de passos do lado de fora. Encarei Milena, e mexi nos meus lábios para dizer; esconde.
Por sorte, ela entendeu prontamente. Com uma velocidade quase sobrenatural, ela levantou-se e se escondeu em meu guarda-roupa — que felizmente tinha bastante espaço para cabê-la.
No segundo seguinte, a maçaneta se virou e a porta se abriu.
— Senhor Jack? — o homem do outro lado da porta perguntou. De início, o sujeito me lembrou bastante de Buck, mas sua voz era grossa e profunda.
— Pois não? — perguntei, me levantando.
Era um homem corpulento, com uma altura que com certeza não era natural. Tinha uma barba cor púrpura, e pude ver em suas mãos o exato pó verde-fluorescente que vira o comerciante trocar com Nicolau no dia anterior. Seus olhos brilhavam em lava líquida — exatamente iguais os de Buck, e ele usava um terno formal.
Tudo aconteceu muito rápido. Em um momento, ele estava lá, parado, me encarando. Em outro, ergueu sua mão para cima e espalhou todo o pó em meu quarto, formando uma densa nuvem esverdeada. Antes que eu pudesse ter tempo de reagir, ele avançou em minha direção.
Por um momento, vacilei. E este foi o meu erro fatal. Antes que eu pudesse sequer pensar em desviar, ele agarrou meu pescoço com uma força nauseante, apertando-o e cortando a passagem de ar. Tentei me soltar, arranhando sua face, mas ele parecia ser feito de ferro.
Milena saiu de meu guarda-roupa batendo a porta com um barulho ensurdecedor. Suas mãos estavam estendidas e sua face concentrada, como se estivesse tentando lançar algum tipo de magia em meu agressor.
Minha visão começou a vacilar, o mundo a minha volta ficando cada vez mais escuro. A nuvem verde fazia meus olhos lacrimejarem intensamente, e meu mundo era completamente preenchido pela cor dos olhos do brutamontes de terno.
Tentei reacender a chama dentro de mim, exatamente igual fiz na minha briga com Hugo. Mas minha cabeça doía, meus pulmões imploravam por ar, e meus olhos estavam se fechando involuntariamente.
Em uma escala de 0 a 10, o que aconteceu em seguida com certeza seria um 11. Do lugar aonde eu julguei estar Milena, um inconfundível clarão azul explodiu, me deixando completamente cego. Logo em seguida, um horripilante rugido preencheu o quarto, e um golpe extremamente poderoso me jogou para longe, batendo minhas costelas contra a parede e explodindo meu tórax em uma dor nauseante.
Quando finalmente consegui abrir os olhos, vi o brutamontes lutando com um tigre. O animal era enorme, com certeza maior do que se espera de um tigre, e tinha listras azuis ao invés de pretas. Seus olhos eram cor âmbar, as pupilas completamente dilatadas estudando o homem de terno, que a essa altura não parecia mais confiante.
— Você é um maldito Ergun! — ele berrou, tirando do bolso uma pequena caixinha, que logo se transformou em um escudo espinhento completamente negro.
O ar da sala súbitamente ficou gelado. O escudo parecia me atrair na direção dele, sugando todas as minhas lembranças boas e fazendo imagens de meu pesadelo voltar a minha mente. O tigre ergue-se em duas patas, encostando a cabeça no teto, e investiu na direção do monstro.
O escudo não fez muita coisa para frear o tigre. Em poucos segundos, cinquenta kilos de uma pata com garras extremamente afiadas caíram em cima do agressor, fazendo-o explodir em um clarão. Era a segunda vez só naquela luta que me cegavam.
Com as costelas gritando de dor, me levantei, coçando os olhos para ajustá-lo a luminosidade. O quarto estava completamente bagunçado. Roupas voaram para todos os lugares, meu guarda-roupa reduziu-se a lascas de madeira, e no lugar do tigre, havia uma Milena desacordada, com uma respiração profunda e um corte horrível em sua bochecha direita.
— Milena! — gritei, correndo na direção dela e me agachando ao seu lado. — Acorde, por favor, acorde.
Sentia como se meu estômago estivesse digerindo uma pedra. Estava tão preocupado que não notei quando Nicolau, vestido com um pijama, entrou no quarto acompanhado dos dois guardas de armadura púrpura.
— Levem-na para a enfermaria! — Nicolau berrou, remexendo os dedos e fazendo uma maca surgiu no quarto. — Agora! Contatem Balhena, ela precisa comparecer agora!
Enquanto os guardas, apressados, colocavam Milena na marca e a retiravam do meu quarto, Nicolau pousou sua mão em meu ombro e se agachou do meu lado. Tentei esconder as lágrimas que escorriam por minha bochecha, mas sem grande sucesso.
— Ela vai ficar bem, Jack. — ele me tranquilizou. — Como vocês conseguiram derrotar um Kelitus?
Sequer quis perguntar o que era um Kelitus.
— Foi tudo muito confuso, na verdade. — disse, vacilante, os eventos em minha cabeça ainda lívidos. — Eu acho que... Milena... — engoli em seco. — Se transformou em uma espécie de tigre.
— Um tigre? — a voz de Nicolau vacilou. — Milena? Você tem certeza disso?
— Sim, eu tenho. — me decidi. — Ela irradiou um clarão azulado que me cegou, e quando reabri os olhos lá estava; um tigre enorme lutando com esse.. Kelitus.
— Como era a aparência do tigre? — ele perguntou, a urgência em sua voz me assustando.
— Era parecido com um tigre normal, mas muito maior e com listras azuis.
— Pelos Deuses... — ele se levantou, me ajudando a fazer o mesmo. — Isso é ruim. Muito ruim. Logo agora que está se aproximando... — ele se conteve.
— O que está se aproximando? — perguntei.
— Não é a hora de falar sobre isso. — ele limpou a garganta. Estava usando um roupão aveludado branco, uma espécie de pijama mais extravagente do mundo. — Venha, vamos para a enfermaria.
A enfermaria era um largo cômodo, rechado de camas hospitalares, que continham os mais tecnológicos aparelhos, que com certeza não eram convencionais na época medieval. Ficava em uma construção isolada do resto do castelo, com uma simples e rústica passarela de mármore levando para a entrada.
Descobri, ao entrar, que Balhena era uma médica. Seus cabelos eram negros e curtos, seus olhos — estranhamente — de um completo branco. Usava uma roupa típica de enfermeira, com uma máscara azul cobrindo sua face.
Quando olhei para Milena, esqueci de todo o resto. Sua pele estava pálida e levemente azulada, seus lábios tornando-se um roxo forte e escuro. Mal notei o fato de que as mãos de Nicolau apertavam forte meus ombros, ou sequer que Balhena estava se dirigindo a mim.
— Senhor Jack? — ela repitiu. — Preciso que me dê mais detalhes sobre o que aconteceu.
Uma forte sacudida de Nicolau tirou-me do meu desvaneio.
— Eu.. ahn... — me apoei em uma cama vazia ao lado. — Ele segurava um pó verde-fluorescente nas mãos. Usava um terno executivo, e seus olhos pareciam magma líquido.
Ela colocou luvas de látex em suas mãos.
— E este corte? Como ela conseguiu? — ela passou a mão levemente sobre o profundo machucado em sua bochecha.
— Um escudo. — relembrei. — Um escudo completamente negro. Ele parecia, de algum modo... sugar todas as lembranças boas de mim.
Seus olhos vazios me encararam, e mesmo sem sequer ter uma púpila, consegui distinguir a expressão dela; preocupação.
— Deuses... você quer dizer.. — ela levou a mão para a testa. — Aço Cósmico?
Senti como se alguém soltasse um caminhão em minhas costas.
— Eu... eu acho que sim. Se esse aço bater com a minha descrição, então sim, era isso que o escudo era feito. — respondi, engolindo em seco. — Porque? É muito ruim? Tem como você curá-la?
Desta vez foi Nicolau quem me respondeu.
— Jack... — ele começou, sua voz falhando. — Esse aço...
— Não.. — o pânico me invadiu. Eu não podia perder ela. Ela foi a única pessoa que me fez se sentir bem-vindo nesse mundo novo.
— Esse aço foi criado e forjado por um próprio mago. — Balhena disse, suspirando de frustração. — Quem é ferido com ele... só pode ser curado com a intervenção do mesmo.
— Então nós precisamos entrar em contato com ele! — gritei, desesperado. — Quem é? Qual dos magos? O vermelho? O noturno?
Nicolau balançou a cabeça.
— Nenhum dos dois, Jack. Estamos falando do terceiro. — ele respondeu. — E sinto que atualmente ele não está em condição de nos ajudar.
— Quem é o terceiro mago? — perguntei, com um tom de voz mais alto que eu pretendia.
Nicolau e Balhena trocaram um olhar nervoso. Após alguns segundo de silêncio, foi ela quem disse.
— O aço leva com ele o nome de seu criador. — ela respondeu. — Quem o criou foi o Mago Cósmico. E ele atualmente está em guerra contra nossa espécie.
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