O Caduceu de Kanus

3 Capítulo 3 - Tiro vermelho em uma prova


Gary me levou para onde eu julguei ser minha instalação temporária. Ficava a oeste da cidade, em uma área recheada de fazendeiros com rebanhos de porcos, ovelhas e algo que parecia ser a mistura dos dois.

— Chamam-se Bestions. — Gary explicou, notando meus olhares curiosos para o híbrido porco-ovelha. — Presente do mago vermelho para nosso planeta. Fazem da lã que produz os melhores casacos, e de sua carne sai o melhor bacon que você pode provar na vida.

— Vocês não querem me falar sobre estes magos.. — comecei, em um tom defensivo. — Mas insistem em menciona-los a cada minuto.

— Não diga que eu lhe contei isso, Jack. — Gary me avisou de antemão, olhando em volta se certificando que não tinha ninguém perto. — Existem os deuses. E existem seus criadores, os três magos supremos.

— Qual é o nome do terceiro? — perguntei, notando que só tinha ouvido sobre dois.

— Nomes são poderosos, Jack. — Gary soava muito mais velho do que aparentava ao proferir essas palavras. — Evitamos dizer o nome dele quando não é necessário.

— Ah, claro, entendi.

Izabel tinha nos deixado na metade do caminho. Ela disse que precisava resolver um problema com um Solien — uma espécie de leão com duas cabeças e um ferrão de escorpião, nada agradável — e precisava deixar o acampamento imediatamente. Não pude deixar de notar o olhar de afeto que Gary e ela trocaram, como se fosse doloroso se separarem.

— Então.. Você e Izabel... — comecei.

— O que tem eu e ela? — me interrompeu, ríspido.

— Ah, nada. Só não sei exatamente o que vocês são.

— Irmãos de batalha. Amigos. — ele respondeu, deixando claro que não queria falar sobre isso.

Gary virou seu rosto para observar um peculiar fazendeiro barbudo que tentava amarrar um Bestion, e eu pude jurar que vi suas bochechas ficarem vermelhas.

O local aonde me fora designado parecia mais uma espécie de quartel general rústico e com duzentos anos de idade. Uma cerca de madeira pintada de branco envolvia o local, com pequenas casas esverdeadas do lado de dentro postas em ordem simétrica. Todas as casas estavam dispostas em espiral, com o centro sendo ocupado por uma arena do tamanho de um campo de futebol, que no momento estava ocupado por fileiras e fileiras de meninos com aproximadamente minha idade.

— Aqui é onde você vai ser treinado. — Gary explicou, apontando para os meninos no centro. — Dependendo das suas habilidades, você será encaminhado para o exército de Bulbizon ou, se destacar-se de todos, para uma pequena força tarefa de Teônio.

— Ahn... claro, sim. — limpei a garganta, tentando não parecer completamente perdido. — O tal do Teônio.

Gary riu. Sua risada era grossa e sem emoção.

— Bulzibon é o General deste local. O exército dele é encarregado de defender Réuli. — ele olhou para mim, me estudando. — Férion lhe disse o que é Réuli, certo?

— Sim. As quatro cidades nos quatro cantos do mundo, que originaram os pontos cardeais.

Ele pigarreou, em aprovação.

— Certo. Agora, se você mostrar-se habilidoso, poderá escolher um caminho mais... prestigiado. — o rancor em sua voz ao falar isso me indicou que esse não fora o caminho traçado por ele. — Poderá ter a chance de servir a Teônio, um dos Sete Grandes.

— Um deus? — perguntei.

— Sim. Um deus. Mais especificamente, o deus da guerra.

Um arrepio percorreu minha espinha. Não imaginava como seria um deus da guerra, mas imagino que não seja nada agradável.

— Apresente-se ao conselheiro para começar seu treinamento. — Gary instruiu, ao pararmos em um pequeno portão de madeira na entrada. — Ele costuma ficar no centro, em uma pequena casa esverdeada.

— Todas as casas aqui são esverdeadas.

— Tenho que ir. — ele decidiu me ignorar. — Nossos caminhos param de se cruzar por aqui. Talvez futuramente voltemos a se encontrar.

Antes que eu tivesse qualquer chance de protestar, Gary fez um rápido movimento com as mãos e desapareceu em uma nuvem dourada e com cheiro de enxofre, me deixando parado no meio de um mundo totalmente novo e com a boca aberta de surpresa.

Por um momento, senti raiva. Ok, eles talvez tenham me salvado de uma morte horrível, mas por outro lado, simplesmente me levaram para um velho — que respondeu nem metade das minhas perguntas — e sumiram. E agora eu me sentia completamente perdido.

Relutante, fui em direçao ao centro para encontrar o conselheiro. No caminho, passei por alguns grupos de meninos das mais variadas idades; desde garotos novos, até alguns que aparentavam terem a minha idade.

Todos olhavam para mim ao passar perto, cochichando entre si. Consegui captar apenas algumas palavras, e a maioria parecia mencionar meu encontro com o Varkin. Notei que não vi nenhuma garota ali, e imaginei que o exército era algo exclusivo de homens.

Por sorte, a casinha do conselheiro destacava-se entre as demais. Enquanto todas as outras pareciam construções monótonas e simples, uma em específico ostentava uma varanda larga, seguida por um jardim bem cuidado e colorido.

Quando estava quase chegando, me esbarrei com um grupo de garotos atrás de mim.

— Olhe por onde anda, moleque. — me virei e olhei para o rosto do dono da voz. Era um menino de quase dezoito anos, a julgar por sua barba recém-aparecendo, com cabelos pretos encaracolados e olhos castanho-claro. Usava uma camisa branca e uma calça camuflada, um clichê de alguém das forças armadas, e era absurdamente alto, chegando a quase dois metros de altura.

— Desculpe. — murmurei. Não estava inclinado a caçar confusão.

— Com certeza as histórias sobre ele são exageradas, senhor. — um menino ao lado dele disse, parecendo uma versão em miniatura mas com as mesmas características.

— Hah! — ele bufou, em desprezo. — Com certeza. Olhe para ele... — apontou um dedo sujo e cheio de calos para meu corpo. — Como você acha que ele seria capaz de resistir a um Varkin?

A raiva subiu em minha cabeça. Senti a ponta de meus dedos queimarem, e minha visão ficou entorpecida por alguns segundos. Encarei-o bem nos olhos, e senti uma onda de satisfação quando vi pânico neles.

— Mas que por.. — o grandalhão começou, horrorizado, e como num passe de mágica saiu andando na direção oposta, incitando seus companheiros a fazerem o mesmo.

— O olho dele.. como que... — um dos meninos do grupo disse, mas não consegui distinguir quem.

— Cale a boca e continue andando! — o grandalhão reprimiu-o. — Não acredito que deixaram esse maldito feiticeiro entrar em Réuli!

Feiticeiro? Eu? Sequer sabia fazer um truque de mágica legal usando cartas.

Uma mão tocou em meu ombro, e minha raiva dissolveu-se tão rápida quanto veio. Me virei para ver quem era, e me assustei. Sabe quando você, só de olhar para uma pessoa, vê o quanto ela é amigável e companheira? Então, esse cara é o oposto disso.

Seus cabelos eram da cor de fogo, assim como sua barba grossa e volumosa. Como se isso não fosse o suficiente, seus olhos pareciam lava líquida em um vulcão ativo. Seu corpo era musculoso e cheio de veias, que pareciam querer saltar para fora da pele.

— Você deve ser Jack. — o tom de sua voz me deixou confuso por alguns segundos. Era fina e cortante, extremamente desproporcional ao seu físico. — Meu nome é Buck. Eu sou o conselheiro de guerra desta... coisa. — ele apontou em volta, com uma expressão enojada.

— Ahn... eu não sei exatamente o que devo fazer. — disse, tentando esconder o nervosismo na voz. Por algum motivo, não queria parecer fraco na frente daquele cara. — Eu sou o que vocês chamam de Munikin, suponho.

— Eu sei exatamente o que você é, criança. — resmungou, carrancudo. — Venha, precisamos fazer sua inscrição. — começou a andar na direção da entrada da casa. — E também suponho que eu seja obrigado a lhe mostrar como as coisas funcionam por aqui.

Podia jurar que vi um brilho de excitação percorrendo seus olhos vermelhos.

Alguns minutos depois, estava sentado em uma confortável poltrona de couro com um formulário de quase cinquenta perguntas em mãos. A casa parecia ainda mais aconchegante e formidável do lado de dentro, com paredes de madeira rústica e assentos de veludos rodeando uma fogueira que ardia com um fogo verde.

— Como fizeram o fogo ficar desta cor? — perguntei, impressionado. — Alguma espécie de magia?

Buck estava sentado em uma escrivaninha desnecessariamente comprida. Olhava aflito para um mapa, usando óculos meia-lua que deixavam o vermelho de seus olhos ainda mais ameaçador.

Ele levantou a cabeça e me encarou.

— Sulfato de cobre. — disse, irritado e entediado. — Vocês Munikins descobrem um mundo novo, e de repente tudo tem que ser movido por magia!

— Ah. — Senti vontade de rir por minha estupidez. Era claro, eu já tinha visto este experimento de chama verde com minha professora de ciências na quarta série.

Me concentrei no formulário. As perguntas não faziam o menor sentido para mim, e algumas estavam até escritas no que — eu imaginei — ser a língua anciã.

"Se você, por algum acaso, se encontrar com um Varkin, o que deve fazer?". Esta fora a única na qual eu ao menos sabia de qual monstro estava falando. Escrevi em baixo; "tentar não morrer de arritmia, e esperar ser salvo por dois estranhos. Acho que beijá-la também não seria nada saudável."

Meia hora e um formulário incompleto depois, um Buck muito desdenhoso me encarava.

— A julgar por esse fracasso.. — ele apontou para o formulário em cima de sua escrivaninha. — Você foi um Hérezi a vida toda.

— Sim, sim. O tal dos Hérezi. — concordei. — Este mundo é totalmente novo para mim. Eu nem tenho certeza ainda se ele é real.

— Ah, garoto, ele é muito real. Acredite em mim. — ele deu a volta por mim, me analisando por completo, como se eu fosse uma mercadoria a ser vendida em um leilão. — E agora você faz parte dele. Querendo ou não.

— Então o que devo fazer? — perguntei, confuso.

— Você primeiro precisa aprender sobre este nosso mundo. — ele gesticulou no ar usando seus braços. — Não adianta eu jogar uma espada em suas mãos, lhe ensinar a se defender, sendo que você não sabe distinguir um vampiro-sangrento de um vampiro-noturno.

Pensei em perguntar se vampiros realmente existiam, mas imaginei que isso iria aborrecê-lo.

— E qual é a diferença?

— O primeiro lhe mata, o segundo te transforma em um! — respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Ah, claro.

— Para você será designado.. — ele mordeu os lábios, pensativo. — Três horas de teoria e uma de prática em campo de batalha.

— Aulas de prática em campo de batalha? Como funciona isso? — perguntei, temendo a resposta.

Ele riu.

— Você vai aprender sobre vampiros, e depois lutar com eles, claro! — sua voz era presunçosa e excitada. — E eu lhe garanto que no começo você irá sofrer, garoto.

Engoli em seco, nervoso. Para alguém entitulado como um conselheiro, ele não chegava nem perto de parecer com um.

— Venha, o currículo me obriga a lhe mostrar nossas instalações. — ele pegou em minhas costas e me empurrou para a entrada. — Preste atenção, pois eu só vou explicar uma vez.

Buck me explicou sobre tudo, com uma voz entediada e arrastada. No centro, exatamente aonde eu achei que ficava a arena, era na verdade um campo de treinamento. De acordo com ele, torneios entre os integrantes do acampamento não era permitido.

Passamos por várias casas idênticas, aonde Buck me explicou que eram — previsivelmente — os alojamentos. No extremo oeste do local, estendia-se uma grande clareira que eu não tinha reparado antes. Fileiras e mais fileiras de mesas amontoavam-se em um espaço imenso, com um pequeno palanque na frente aonde se sentavam os integrantes de honra, e faziam-se shows em ocasiões especiais.

— Em toda troca de milênio, recebemos a visita de um dos três magos em nosso refeitório. — Buck explicou, seu tom de voz mudando para um certo orgulho. — A última vez que isso aconteceu foi a dezessete anos, em 1999. — ele apontou para o palanque na frente das mesas. — O mago vermelho sentou-se exatamente ali, e nos presenteou com os Bestions.

— Os porco-ovelhas. — disse, feliz por saber de alguma coisa.

— Exatamente. Os melhores bacons que alguém pode provar!

— Estes magos.. — comecei.

— Cuidado aí, Jack. — me interrompeu antes de eu finalizar a pergunta. — Falar sobre os três magos é um terreno volátil e perigoso.

— Eu só ia perguntar se eles tem um nome, além de.. você sabe.. magos.

— Ah, sim, eles tem um nome. — Buck respondeu, apreensivo. — Mas não proferimos eles, a menos que seja necessário.

— Ah, ok. — foi tudo o que consegui responder.

Em um ponto específico do cercado, abria-se um pequeno e sinuoso caminho de cascalho. Buck me explicou que dava direto para um riacho, protegido por barreiras mágicas e que não era afetado pelas condições climáticas. Em alguns dias da semana, aqueles que se demonstraram úteis e disciplinados poderiam desfrutar de uma tarde ali, aproveitando do calor e do rio.

— Buck — comecei, com milhões de perguntas em minha cabeça. — Existe a possibilidade de meu pai estar envolvido com este mundo?

Ele parou por um momento, seus olhos me avaliando.

— Quem é seu pai? — sua voz vacilou.

— Essa é a questão. — respondi, com um suspiro de frustração. — Eu nunca cheguei a conhecê-lo, e Jeodio, no ritual de passagem, perguntou quem era meu pai. E eu simplesmente não faço ideia.

Seus olhos brilharam, mas não consegui identificar o porque.

— Não fique muito preocupado com isso garoto. Se você está envolvido nesse mundo, seu pai também faz parte dele. Provavelmente algum camponês qualquer que escapou dos limites de Réuli e se apaixonou por sua mãe. — ele respondeu, enquanto me guiava para o local aonde eu ficaria. — É claro que, em casos excepcionais, recebemos filhos de deuses neste acampamento. Mas é algo de extrema raridade, pois os Sete Grandes são muito ocupados para se envolverem com Hérezis. A última vez que recebemos um foi na Segunda Guerra Mundial.

— Wow, isso é um bocado de tempo. — respondi, impressionado. — E os magos? Existem filhos deles?

— Apenas o mago vermelho já teve um filho. E este morreu a éons atrás. — sua voz mudou para um tom cauteloso, como se os próprios magos estivessem ouvindo essa conversa. E provavelmente estavam. — Seu nome era Kintus, e sua morte... — ele fez uma pausa, vacilante. — Melhor não falarmos sobre isso agora. Você irá saber sobre tudo nas aulas teóricas com o professor Ruy.

Queria protestar, mas minha cabeça estava tonta com tantas informações e eu não tinha certeza se aguentaria saber de mais qualquer coisa por hoje.

— É aqui que você vai ficar. — Buck parou em frente ao alojamento que ficava ao lado da trilha de cascalho que levava para o riacho. — Na mesa dentro de sua cabana estará todas as regras para você não ser expulso daqui.

Antes que eu pudesse falar mais qualquer coisa, ele mexeu na manga de seu casaco de couro que estava usando e desapareceu em um monte de fagulhas douradas e extremamente quente.

— É a segunda vez que fazem isso comigo hoje. — disse, nervoso, para mim mesmo. — Devia ter uma regra contra isso; é falta de educação se teletransportar na frente das pessoas.