O Caduceu de Kanus
1 Capítulo 1 - Não confie nas meninas bonitas
Existem algumas coisas que você aprende na infância e só vê sentindo ao crescer. Uma dessas coisas, por exemplo, é o conselho de sua mãe sobre não conversar com estranhos. Pessoas são confusas, imperfeitas, e a maioria guarda todos os tipos inusitados de segredos. E, algumas delas, são perigosas.
O meu dia começou relativamente normal. Se você já é experiente, sabe que isso não quer dizer que seu dia será normal de fato. Em cada minuto de sua existência você está propenso à mudanças drásticas, algumas sendo boas, como descobrir que ganhou em um sorteio, e outras nem tanto — como a notícia do falecimento de alguém da família. A questão é que você não pode fugir delas, não importa o quanto deseje.
O usual barulho das ondas quebrando nas rochas me acordou. A praia ficava somente a alguns passos de distância, o que sempe fora a única coisa que considerei bom em minha vida. Um cheiro de panquecas americanas preenchia o ar, com um disfarçado toque de caramelo. Olhei no meu relógio de cabeceira, e marcavam 7:30 da manhã, sendo confirmado pelo crepúsculo rosado e laranja que indicava o recém-surgimento do sol.
— Mãe, hoje é sábado! — resmunguei, com a cabeça ainda coberta. — Ninguém acorda tão cedo assim!
— Todo mundo que não fica até três horas da manhã jogando no dia anterior acorda cedo assim! — ela retrucou, lá da cozinha, com uma voz brincalhona.
Ri. Uma risada distraída e embargada de sono, mas que indicava um particular bom-humor aquela manhã.
— Já estou descendo. — anunciei, me levantando.
Sempre que podia, evitava me olhar no espelho. Sentia algo estranho e incômodo todas as vezes em que me via, como a sensação de um estranho lhe encarando em uma festa. Mas, neste dia em especial, decidi abrir uma exceção.
Não me surpreendi pelo ninho bagunçado que estava meu cabelo. Ele já era rebelde e desarrumado de natureza, e um dos pontos positivos disso é que nunca podia ficar pior do que já é, mesmo após acordar de uma soneca com doze horas de duração.
Pequenas e tímidas mechas castanho-claras caíam em meus olhos, me obrigando a soprá-las para cima de volta em seu lugar. Meus olhos, de um castanho penetrante quase se aproximando ao preto, me encarava com um olhar neutro e quase sem emoções; um eu natural de manhã.
Minhas expressões pareciam cansadas e envelhecidas, me dando uma aparência bem mais velha do que eu de fato era. Uma barba rarefeita crescia em meu queixo, e fiz um lembrete mental para lembrar de apará-la ainda hoje.
Quando já estava pronto para ir tomar café, ouço meu celular vibrar no criado-mudo. Minha amiga havia me mandado uma mensagem sobre uma aparente festa na praia que teria hoje. Talvez eu iria... quer dizer, seria literalmente a alguns passos de distância da minha casa, então não tinha como eu fugir dela — acredite, já tentei, e terminou em meus amigos "sem querer" quebrando a janela de minha casa.
— Bom dia, mãe. — disse, me sentando na pequena mesa para três pessoas ao lado do balcão.
— Bom dia, dorminhoco. — ela tirou uma frigideira do fogão e deposito três panquecas em um prato a minha frente. — Dessa vez eu acho que acertei no tempero.
Joguei um pouco de mel em cima e dei uma generosa garfada.
— Hum.. sim.. — meu rosto brilhava em aprovação. — Sim, você acertou.
Tinha algo especial nas panquecas de minha mãe. Com dezesseis anos de existência, nunca a vi errar na medida do tempero, mas ainda assim sempre dizia que "dessa vez esperava acertar no tempero".
— Que bom que gostou. — seu olhar parecia ligeiramente desapontado. Não sabia porque ela não acreditava em mim. — Termine de comer, pois tenho uma visita para você daqui alguns minutos.
Deixei o garfo cair no prato, pensativo.
— Quem exatamente é esta visita, e aonde vou encontrá-la? — perguntei, tenso, pois já tinha uma boa ideia da resposta.
— A filha dos Bakers. — ao ver minha expressão de dúvida, ela completou. — Uma família que se mudou para aquele chalé ao lado. Lembra aquele que estava a venda fazia alguns meses?
— Sim, me lembro, e também me lembro do porque ninguém o comprou por meses. — disse, mais carrancudo do que pretendia soar. — O antigo dono estava pedindo duzentos mil dólares por uma casa de madeira quase aos pedaços.
Ela remexeu os lábios, pensativa.
— É, de fato eles ou são malucos ou tem dinheiro de sobra. — ela juntou-se a mim e começou a comer algumas panquecas. — Mas você sabe que as casas aqui em Miame são superfaturadas. Talvez, no fim das contas, nem era um preço tão absurdo assim.
— Nossa casa foi avaliada em, no máximo, cem mil dólares. E ela está em uma condição muito mais apresentável. — defendi, o bom-humor lentamente se esvaindo de mim e dando lugar a ansiedade pelo meu quase-encontro que acontecerá em alguns minutos.
— Tem louco para tudo, querido. — ela tentou bagunçar meu cabelo. — Troque de roupa, pelos deuses, você não irá deixá-la lhe ver com uma camisa do Bob Esponja.
Pelos deuses?
— Hey, o que tem demais com minha camisa do bob esponja? — perguntei, mais soando brincalhão do que de fato ofendido.
Vinte minutos depois, já estava em uma condição que julguei apresentável. Uma camisa branca, uma calça jeans preta, e um tênis falsificado da Adidas — essa última parte eu estava esperando que ninguém percebesse. Mas, para ser sincero, não me importava de verdade, estava fazendo isso apenas para agradar minha mãe. A questão é que eu não via muita mágica em encontrar uma menina desconhecida, sem sequer saber como é sua aparência, para sentarmos no sofá de casa e ter uma conversa sem sentido e desagradável.
A campainha tocou, fazendo meu coração dar um involuntário pulo dentro de meu peito. Alguma coisa bem em minhas entranhas me dizia que algo estava de errado; que eu deveria pular da janela do meu quarto e sair correndo para uma Starbucks mais próxima. E nem sequer tinha uma perto de casa.
Minha mãe se apressou em abrir a porta e receber a minha futura esposa — ao menos era isso que minha mãe parecia estar querendo. Sentei-me no sofá, tentando parecer completamente despreocupado e casual, e esperei minha mãe convidá-la a entrar.
— Prazer, eu sou Helena, mãe de Jack. — ela apresentou-se, estendendo a mão para uma menina que eu ainda não tinha visto. Mas, a julgar pelo seu sorriso, ela não tinha se decepcionado com o que viu.
— Prazer Srta. Helena. — uma mão magra e com as unhas pintadas de azul apareceu em meu campo de visão. — Me chamo Anna.
Dez pontos para a Grifinória. Eu amo azul.
— Entre querida, ele está aqui na sala lhe esperando. — ela afastou-se da porta e deixou Anna entrar.
O meu coração, que já estava martelando freneticamente contra minhas costelas, decidiu agora fazer polichinelo também. Na minha frente, parada no meio da sala e com um sorriso acolhedor no rosto, estava a menina mais bonita que eu já tinha visto na vida.
Seus cabelos eram negros como carvão, tão reluzentes que parecia abrigar todo o reflexo do sol em si. Os lábios, carnudos e com um provocante batom vermelho, estavam estendidos para dar lugar a um sorriso estonteante. Eu poderia literalmente ficar olhando para aquele sorriso por horas, e não me cansaria.
Um vestido azul cobria seu corpo — sim, azul — destacando ainda mais as curvas sensuais de seu corpo. Usava um óculos redondo e um pouco grande demais para seu rosto, com olhos esverdeados e penetrantes escondidos atrás.
Mais cem pontos para todas as casas de Harry Potter existentes. Essa mulher é uma deusa.
— Jack? — minha mãe tossiu, tirando-me do meu desvaneio. — Não vai se apresentar?
Percebi que tinha passado tempo demais a encarando, e me amaldiçoei por isso. Com um pulo — talvez menos discreto do que pretendia — me levantei do sofá e fui em sua direção, com as mãos estendidas e o meu melhor sorriso no rosto.
— Prazer, me chamo Jack... — pensei por alguns segundos se era apropriado falar meu segundo nome. — Jack Holistan.
— Anna.. — ela apertou minhas mãos, revelando uma pele macia e quente. — Anna Dialton. E, sim, sei que meu sobrenome é estúpido. — soltou uma risadinha nervosa, e eu a acompanhei, mais para agradá-la do que de fato achar engraçado.
— Ahn... — olhei para minha casa, de repente esquecendo como ela era. — Sente-se. — estendi minha mão para o sofá de dois lugares ao meu lado.
Ela ajeitou seu vestido e sentou-se, cruzando as pernas de um modo incrivelmente sensual.
Alguma coisa no fundo de minha mente me incomodava. Por algum motivo, eu sentia vontade de agradar aquela menina como se isso fosse a única coisa que importava no mundo. Se ela pedisse que eu matasse alguém por ela, eu me sentiria capaz de fazer isso.
— Então.. — ela encostou seu indicador direito nos lábios, pensativa. — Soube que hoje ia rolar uma festa na praia. Sou nova na cidade, então não me caíria mal uma festa para conhecer as pessoas.
Não. Você não precisa conhecer mais ninguém, apenas eu, fique comigo. Por favor. Comigo, mais ninguém.
Esse pensamento invadiu minha mente com tanta facilidade que até me assustei. Sequer tinha se importado tanto assim com relacionamentos em minha vida, porque esta menina estava me causando pensamentos assim? Era como se.. eu estivesse em total submissão a ela; para uma menina que eu conheci faz cinco minutos.
Precisava ser muito além de apenas bonita para causar esse efeito em mim. E isso continuava me perturbando, fazendo meus sentidos se aguçarem e algo no meu subconsciente dizer para sair dali e ir correndo.
Mas eu não podia fazer isso. Isso iria deixá-la triste.. eu não posso deixá-la triste. Não posso!
— Claro, por coincidência uma... — pensei no termo certo para se tratar Trys, minha amiga que tinha me convidado mais cedo. — Colega minha me convidou para ir nessa festa momentos antes de você chegar.
Não podia contar para ela que somos amigos. Isso iria causar ciúme na Anna, e a Anna só merece apenas o melhor... O QUE ESTÁ ACONTECENDO COMIGO?
— Talvez nós poderíamos dar uma volta e você me apresentar um pouco mais dessa praia? — ela perguntou, com uma voz tão calma que eu jamais recusaria.
— Sim, é claro que podemos! — dei um pulo de animação. Minha mãe, que até então tinha ido para seu quarto e nos dado privacidade, apareceu no exato momento, assustada com minha voz de empolgação.
— O que houve? — ela perguntou, sorrindo.
Porque ela está sorrindo desse jeito? Era um sorriso falso e vago, como se ela estivesse com a cabeça em um mundo totalmente diferente. Parecia quando estava lendo algum livro.. ou vendo algum episódio muito dramático de uma novela.
— Vou levar Anna para conhecer melhor as redondezas. — falei, orgulhoso, como se esse fosse possivelmente o maior feito da minha vida.
— É claro, querido! Fique a vontade, e volte a hora que quiser. Não precisam se apressar, eu sei como adolescentes adoram ficar até tarde na praia.
Como? Ela sempre me exigia que voltasse até a hora do jantar... mas isso não importava. Tudo o que importava agora era que eu iria apresentar um pedaço de Miame para Anna. Eu. Mais ninguém. É minha missão fazê-la feliz.
Foi uma caminhada tranquila e feliz por cerca de vinte minutos. Ela me contou sobre seus sonhos — e no mesmo instante tive vontade de chorar por não ser capaz de realizá-los neste exato momento — e qual faculdade queria fazer. Ouvia tudo e tentava ser atencioso, pois eu não podia cogitar a ideia de deixa-la triste! De mim ela merecia apenas o melhor.
Talvez eu deveria ter percebido que algo estava errado quando eu olhei para o relógio e já tinham se passado três horas. Tive a sensação que fora uma caminhada de somente trinta minutos.
A segunda coisa, também completamente ignorada por mim, era que estava de fato perto de uma Starbucks agora. A menos que tenham construído uma da noite de ontem para hoje, eu tinha andado dez quilômetros de casa; pois era nessa distância que ficava a Starbucks mais próxima.
Mas que bobeira a minha. Nada dessas coisas importavam. Eu estava com Anna, e poderia continuar andando pelo resto da cidade, desde que esteja ao lado dela. Conseguia sentir algo no ar, uma espécie de aura, poderosa e convidativa. A paisagem estava mudando, a praia lentamente morrendo e dando lugar para um caminho pedregoso que levava para as montanhas ao norte, e cada vez mais prédios aparecendo.
— Você é tão doce, Jack. — ela disse, me enchendo de orgulho e fazendo meu coração ficar acelerado. Acelerado até demais.
— Obrigado, Anna. — respondi, tentando não gaguejar. — Você é muito bonita.
Meu coração agora estava começando a me preocupar. Parecia que eu tinha atravessado o oceano e voltado, sem parar um segundo para descansar.
Ela parou, abruptamente. Virou-se em minha direção, e quando ela tocou em meu pescoço, foi quando eu descobri que as coisas estavam realmente erradas.
Talvez o primeiro sinal que tive veio de meu coração. Nunca tinha prestado muita atenção nos cursos de primeiros socorros da escola, mas uma coisa eu tinha certeza; estava tendo uma arritmia. Meu batimento cardíaco provavelmente estava bem acima de duzentos.
O segundo sinal, caso o primeiro não tenha sido o suficiente, foi a súbita mudança de cor dos seus olhos, tomando uma coloração amarelada — parecido com o de uma cobra.
— Mas que porr.. — reprimi um palavrão na hora em que seus lábios começaram a se aproximar dos meus. De repente, esqueci o fato de que ela tinha os olhos de um réptil e que eu estava quase morrendo de arritmia.
Foi quando as coisas realmente ficaram estranhas. Quer dizer, não me julgue mal, as coisas já estavam estranhas o suficiente até aqui. Mas agora tinha assumido um nível totalmente superior.
Começou a dar errado quando eu senti um forte empurrão em minha camisa vindo das costas, me jogando longe em um distância sobrenatural. Setenta kilos de mim passou por cima de um castelo de areia, uma casinha de madeira, e aterrissou dez metros de onde estava Anna.
Não sabia como eu ainda estava vivo. Minha cabeça latejava com uma dor aguda e pulsante, embaçando minha visão e fazendo meus olhos lacrimejarem. Mas, fora isso, ainda estava vivo, e via duas novas formas escuras ao horizonte se aproximando dos dois lados de Anna.
Estreitei meus olhos para ver se conseguia ver algo. E, de fato, nos primeiros dez segundos consegui destinguir o que estava acontecendo; dois jovens, usando armaduras medievais completas, lutavam com uma Anna que estava muito nervosa. E, quando eu digo muito nervosa, quero dizer bufando de raiva — literalmente. Suas pernas tinham sido invadidas por escamas, e seus braços substituídos por... cobras?
Sim. Cobras. Duas cascavéis, com cabeças em formato de losângulo, cuspindo algo transparente e fumegante na direção dos seus atacantes. De fato, uma versão bem menos agradável da menina que conheci anteriormente.
A última coisa que vi antes de desmaiar por conta da contusão foi a cobra substituta do braço direito atacando o jovem da esquerda, que empunhou uma reluzente espada de prata e fincou no coração de Anna, derrubando-a no chão.
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