O Caderno da Peregrina
24 Página XXIV
Notas iniciais
Estranho caderno,
Encontrei você no fundo de uma mochila velha, me lembrei que, de fato, o abandonei por um tempo que acabou se prolongando demais. Porém, se você está lendo isso, eu provavelmente não o abandonei por completo. A verdade é que não mais conheço as palavras. Perdi o jeito com elas. Passaram de declarações repletas de significados para meros símbolos que não mais compreendo. Se tornaram frias, pálidas e incompreensíveis.
O pior de tudo?
Se tornaram intocáveis.
Isso dói, mas como dói! O vazio que elas deixaram em mim cresce cada vez mais, me incomoda não ter a capacidade de usá-las, não poder utilizar o que algum dia foi minha única fonte de força. Me sentia tão exposta sem elas!
Escrever era meu passado, presente e futuro. Por mais clichê que isso possa parecer. Minhas mãos ganhavam vida e transcreviam sentimentos ocultos, palavras apareciam e revelavam verdades outrora secretas, as lágrimas presas podiam finalmente correr soltas... Algum dia, escrever fora a coisa mais significativa que eu podia fazer.
Agora só há um vazio que ouso chamar de paz. Era bom mas assustador, um tipo de inércia que me perturbava, mas que conseguia aguentar. Não fazia esforço para ir, não me importava em ficar. Era, de certa forma, horrível.
Não me prolongarei muito hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã e nem no que vem depois. Nem sei se voltarei tão cedo, Alessia me anda sendo o suficiente para não cair na loucura completa, ela anda melhorando, fazemos companhia uma para a outra e isso já basta para manter a outra firme. Quando as palavras resolverem se acertar comigo, voltarei.
Mas não espere por mim.
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