O Caderno da Peregrina
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Notas iniciais
Olá.
A priori, devo adiantar que não é a Peregrina que te escreve, leitor. Não é de grande valia uma apresentação — nem estou com ânimo para uma —, saiba apenas que eu sou um amigo dela. Fui um amigo dela. Eu não sei. Pelo menos não mais.
Por que escrevo aqui, mesmo não sendo um caderno que me pertença?
Porque não gosto de finais incompletos. Não acho justo; a vida, por si só, deixa muitas pontas soltas e desconexas, o que não quer dizer que eu faria o mesmo. Então, escrevo palavras vazias, desvirtuadas de sentido, para que você, que tem este caderno em mãos, possa ter algo para chamar de fim.
“Para onde foi a Peregrina? ”
Eu também gostaria de saber.
Tudo o que sabemos (você e eu) é que fui acordado em um sábado de manhã, bem cedo mesmo, pelo som da campainha tocando repetidamente; quem quer que estivesse tocando, estava com uma urgência palpável. Corri, ainda entorpecido pelo sono, e abri a porta. A abri apenas para ter a visão de um nada; concluí que eram crianças hiperativas, mas então notei o caderno. Fora deixado pela minha, outrora, grande amiga.
O que tens de saber, entretanto, é que essa história chegou ao fim; absorva isso por um momento. Respire e volte depois de uma xícara de uma bebida fumegante, ainda tenho o que falar.
“Oh, if you’re lost and alone, or you’re sinking like a stone: carry on”
Carry On, uma música de uma banda chamada Fun., era uma entre as que ela gostava de ouvir.
Percebo, agora, que você não tem muita ideia de como ela é, certo? Ela é — era? — incontestavelmente bonita; usava óculos retangulares, tinha uma feição alegre e delicada (embora, você saiba bem, se chegou até aqui seguindo uma ordem cronológica, que essa não é uma verdade inteira).
Eu a conheci por uma coincidência; fazemos aniversário no mesmo dia. Sou um pouco mais velho, é verdade. Gosto de pensar que fui uma espécie de irmão mais velho até que... ela decidiu largar a todos.
Estou apenas enrolando, escrevendo coisas sem sentido; escrevo para manter-me com uma pontada de consciência. Logo, não estou em condições de lhe dar respostas, leitor, pois nem eu as possuo.
Então, por que estou com o caderno?
É uma equação de duas respostas. Sou o primeiro que o tem, depois da Peregrina. O motivo ainda me atormenta: uma lembrança destinada a mim ou apenas um pedido para que eu passe as memórias dela (ou do passado dela) a frente? As duas respostas podem estar certas, como podem estar erradas.
Estou mal, é verdade. Não sei se eu estaria melhor se houvesse uma despedida em si. Eu... gosto de pensar que a vida não para. Nem para mim, nem para ti. Assim que uma história termina, outra começa.
Não vou mais gastar espaço deste caderno, nem tinta, nem seu precioso tempo. Apenas vá. Deixe esse caderno em um lugar onde outro possa encontra-lo. Siga sua vida, absorva o que lhe foi útil e deixe o resto ao vento.
A verdade é que nenhum de nós é bom com despedidas. Nenhum de nós sabe ao certo o que dizer no fim e, mesmo, se algo deve ser dito.
E, por fim: Luíza. É o nome dela. Não sei se deveria acabar, dessa forma abrupta, com o mistério. Também não se eu deveria deixar esse caderno. No fundo é isso: não sabemos de nada.
“Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança para fazê-la feliz. ” (Clarice Lispector)
Adeus.
De seu breve amigo,
Pedro.
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